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Você pensa que pensa, mas a opinião não é sua!

É provável que você não saiba disso, mas a maioria das coisas que pensa, diz ou escreve não é o que você pensa. Sei que pode parecer até ofensivo, mas você pensa o que outros pensam por você. Na maioria das vezes, você apenas reproduz, com suas próprias palavras e impressões, algo que outro – pode ser uma pessoa ou um veículo de comunicação – já te informou e concluiu em seu nome, sem que você checasse nada, sem que você percebesse.

Não estou dizendo que isso acontece com todas as pessoas, mas em sociedade, vivemos imersos no senso comum. A tendência mais corriqueira é reproduzirmos aquilo que “todo mundo sabe”. Aquilo que a maioria “acha” ou aquilo que “todo mundo lá em casa sempre disse”. Remar contra a maré das opiniões alheias não é tarefa fácil, mas esse saber de senso comum tem lá sua importância, pois nos poupa tempo para nos debruçarmos sobre questões mais sérias e que precisam de maior rigor na análise.

O aspecto problemático disso tudo é quando encaramos resultados de pesquisas de “opinião pública” como sendo a fotografia perfeita do real. Afirmamos, sem maior profundidade, que “43% dos brasileiros defendem a pena de morte” ou que “49% das pessoas são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo”. Será que elas pensam isso mesmo?

Essas pesquisas quantitativas, mesmo sendo feitas com todo o rigor acadêmico, não refletem a opinião pública, mas percepções difusas das pessoas entrevistadas. Uma opinião é, pelo menos em tese, fruto de um processo de estudo, meditação, escuta de diferentes posições até que se chegue a uma conclusão pessoal. Seguindo essa racionalidade, ao final, você poderá dizer: “esta é a minha opinião”.

Em geral, no cotidiano, não existe essa racionalidade na formação da opinião. As pessoas apenas repercutem aquilo que as diversas mídias dizem, em especial, elas ecoam muito do que seu círculo íntimo de referência está pensando (e muito do que pensa o seu círculo de referência foi replicado do que obtiveram dos grandes meios de comunicação. É um fenômeno de retroalimentação).

Não estou sendo pessimista, nem afirmo que os meios de comunicação são meros aparatos ideológicos que fabricam o conteúdo mental e a percepção da maioria das pessoas, ainda que esta concepção tenha algo de verdadeiro. Mas há fissuras, contradições, resistências. Por outro lado, me parece inegável que aquilo que as pessoas dizem que pensam não passam de eco do que a verdadeira “opinião pública” pensa. E esta chamada “opinião pública” não se dá pela livre interação das pessoas em praça pública, como numa antiga ágora grega, nem mesmo nas esquinas dos bares. Pelo contrário, o que normalmente chamamos de opinião pública é forjado pelo recorte da realidade oferecido pelos conglomerados midiáticos que a maioria assiste, lê e comenta.

A expansão das redes sociais é um dado que poderá relativizar esse encapsulamento da opinião pública, favorecendo maior liberdade autoral na fabricação da informação e na maquinaria da opinião pública, não sem conter também alguns elementos ameaçadores tais como a multiplicação de boatos estúpidos que geraram até linchamentos. De qualquer forma, por enquanto, são as grandes empresas de mídia que dão a pauta, que colocam os temas da agenda pública, que recortam o olhar e que selecionam o que a maioria irá ler/ver. Naturalmente, as “conclusões” pessoais terão um enorme viés.

Apenas para dar um exemplo bem simples. Se uma pessoa lê constantemente a revista VEJA e também compartilha periodicamente seus conteúdos nas redes sociais, é muito provável que ela terá uma “opinião pessoal” favorável a penas mais severas para menores de idade, será contra o aborto e o casamento igualitário, terá imenso ódio do PT e do Governo Dilma etc. Não que eu defenda o petismo – muito pelo contrário! – mas, pergunto: A opinião que ela espalha e diz concordar é dela mesma ou ela apenas reproduz, como suporte, as opiniões de um determinado aparato ideológico-informacional chamado VEJA?

Numa sociedade pós-moderna de tempo líquido e escasso, é sedutor demais reproduzirmos o que alguém já pensou, sem termos o trabalho de analisar com calma as diversas opiniões sobre um mesmo tema, checarmos os dados e as fontes, confirmarmos a veracidade até onde pudermos alcançar.

O mais grave não é a reprodução em si. Eu mesmo confio em alguns veículos de informação (mas, pelo sim, pelo não, checo com calma o conteúdo e autor) como também reproduzo em alguns momentos a opinião de pessoas que são referências para mim. Problema mesmo é quando se reproduz de forma acrítica, idiotizada, sem nenhuma leitura atenta, debate ou reflexão prévia. Seguimos o que está posto e ponto.

Alarmante é o dado que aponta que entre a população universitária, 38% são analfabetos funcionais (julho/2012). Em 2005, o Ibope apurou que 68% dos brasileiros seriam analfabetos funcionais, ou seja, conseguem até escrever e ler, mas não entendem nada, mal sabem interpretar um texto básico. Na pesquisa PNAD (2013), a quantidade de analfabetos funcionais seria menor que 30%, mas soma-se ainda os 13 milhões de analfabetos “clássicos”. Como falarmos em livre opinião pública nesse contexto, com esses dados?

Em sintese, analfabetismo (clássico ou funcional), baixa escolaridade e grandes conglomerados midiáticos que monopolizam a formação da opinião, a reprodução de uma determinada visão de mundo e a seleção do que se vê, ouve e lê, em conjunto, formam o verdadeiro complexo da alienação das multidões. Se alguém deseja sair do cercadinho dos gados, é necessário muito esforço elucidativo, ampliar as fontes de informação, estudar melhor os assuntos e encontrar, a partir de uma pesquisa particular, a própria opinião. Caso contrário, sua opinião não é sua. É apenas o cacarejar do que os outros – pessoas ou empresas – pensam por você.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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16 respostas para “Você pensa que pensa, mas a opinião não é sua!”

Eduardo said On 27 julho 2015 Responder

Como manter a dominação com o pluralismo de idéias ???

Marcio Sales Saraiva said On 28 julho 2015 Responder

Este é um desafio para a teoria democrática e, especialmente, para a teoria política marxista. O debate é enorme e está além, muito além, deste pequeno artigo.

Fernando Affonso said On 28 julho 2015 Responder

Marcio, parabéns pelo artigo. Formo minha opinião baseado nas informações que tenho. Se leio a Veja, Lula é um marginal, mas se leio o site do PT ou diversos blogs petistas, Lula é um santo.
O fato de divulgar, publicamente, informações erradas, ou distorcidas, que me levem a errar, poderiam ser atendidas com mais seriedade e agilidade pela justiça? Ou isso só pode ser resolvido com mais educação?

Marcio Sales Saraiva said On 29 julho 2015 Responder

Fernando Afonso;

Penso que o caminho não é judicializar (só em casos gravíssimos com danos), mas garantir a liberdade, o pluralismo e investir muito em educação pública de qualidade. Pessoas bem educadas sabem ler, interpretar e selecionar as fontes.

Franklin L Moura Santos said On 29 julho 2015 Responder

Penso que a função da imprensa séria e imparcial não é formar opinião mas informar a noticia
do jeito que ela é independentemente de quem seja, mas infelizmente não é o que acontece
na imprensa brasileira, onde nossas mídias em sua maioria querem ditar tudo o que para eles
é interessante desde o Esporte onde elegeram times, religião e por fim a política onde a grande
mídia tem um lado favorito.

Marcio Sales Saraiva said On 1 agosto 2015 Responder

Franklin, entendo sua preocupação, mas não acredito em “isenção” ou “imparcialidade”. O maior problema da grande mídia brasileira é justamente ocultar suas preferências ideológicas com o manto do “profissionalismo jornalístico” e da “notícia pura”. Toda a narrativa traz consigo concepções e visões de mundo que estão ali embutidas. Assumir isso é o melhor caminho. Transparência e não “imparcialidade”.

Carla said On 30 julho 2015 Responder

Concordo com o texto. E vou mais além: até mesmo os doutores das nossas universidades reproduzem informações sem o mínimo de senso crítico. Um exemplo que posso dar é um livro de Sociologia didático (por questão de ética não citarei o nome nem o autor) que, de forma desonesta, preconceituosa e superficial, trata as religiões judaico-cristãs. Em pleno século XXI ainda presenciamos esse tipo de coisa. Como cobraremos dos menos instruídos uma opinião fundamentada em estudos sérios? Sinceramente eu não saberia responder essa pergunta…

Nelson said On 19 outubro 2015 Responder

Muito bom seu texto Marcio, penso que ao se privatizar a educação, no início do governo Collor, e portanto ao não torná-la universal, laica, pública, estatal, farta e de qualidade, e com a consequente eliminação de matérias que são fundamentais para a formação abrangente, como filosofia, organização social e política, artes, etc…, deixamos de formar cidadãos para formarmos profissionais. Conheço excelentes profissionais, com diversas graduações mas que ao se posicionar sobre questões relevantes do Brasil e do mundo, repete sempre o senso comum dos noticiários de TV, periódicos semanais e jornais com circulação diária.

Marisa Faria Gusmão Nogueira said On 19 outubro 2015 Responder

Concordo em parte com o que vc diz. Acredito sim ,que a maioria da população brasileira com dificuldade extrema de acesso à uma Educação pública de qualidade, privilégio de minorias, tenta de alguma forma, mesmo que através da influência da mídia, e, sem uma expressão de linguagem elucidativa, pela sua paupérrima ou quase nenhuma formação intelectual, mostrar sua insatisfação com o momento político,reivindicar de alguma forma seu direito de cidadão que determina nossa constituição,para tentar ocupar esse espaço de forma digna e real. Desculpando-me com antecipadamente pela sinceridade, essa mesma população,não entenderia boa parte deste texto com uma linguagem tão culta,tão bem elaborada,justamente por esta Educação sem qualidade…graças a Deus que, de uma forma ou de outra o povo apesar da influência está acordando! concorda? abçs

Marcio Sales Saraiva said On 15 dezembro 2015 Responder

O processo de emancipação é lento e gradual. Precisamos investir mais em educação crítica e de qualidade. Abraços!

Carlos Coelho said On 20 outubro 2015 Responder

Não existe imprensa imparcial. Aparelhos de TV, impressoras, papel, Iphone ou seja lá o que for não emitem opiniões. Elas são colocadas ali por pessoas e estas têm sim ideologias. E, claro, em maioria se quer que as pessoas acreditem que a verdade que escrevem é a verdadeira. É natural. Existem mensagens subliminares que podem induzir o leitor a uma ou outra direção. No artigo em tela fica evidenciado que na direita só tem alienados e que na esquerda as pessoas pensam por suas própria cabeças. Razão? Não há um só logotipo de qualquer veículo de comunicação considerado de esquerda na arte do topo da matéria. Todos ali impressos são tratados e criticados como de direita, claro, pela esquerda. Portanto, quem lê Carta Capital, Brasil 247 e outras tem capacidade de pensar sem se deixar influenciar, os outros…. bem, os outros são os outros!

Marcio Sales Saraiva said On 15 dezembro 2015 Responder

Eu não defendi aqui nesse texto uma imprensa imparcial. Quem faz o discurso da imparcialidade oculta seus interesses ideológicos.

Stefany said On 20 outubro 2015 Responder

Não é de hoje que vemos a total descaradisse de manípulamento pela mídia brasileira. Mas lembrando que nós brasileiros que deixamos isso acontecer.
Lembra-se quanto lutávamos pelos nosso ideias ? Ah espera ai não lutamos, nos acomodamos e simplesmente aceitamos a informação que nos foi dada. Sem realmente se preocupar se é verídica. Se a “GROBO” falou está falado.
Mas este problema não vem de agora, brasil foi colonizado assim, restringindo as verdadeiras intenções ao povo, maquiando as informações para que fosse benéfico as elites dominantes; Brasil nunca se livrou do escravismo !
De certa forma continuamos sendo abusados, moralmente, sem nem se quer termos a dignidade de lutar por nossos direitos decentemente, 1 milhão de pessoas na Paulista ? lutando pelo que e para que ?
Sou Stefany, estudante de pedagogia, e não vi foco algum nas manifestações.
Apenas vi um pouco de anti PT, alguns revoltados pelos impostos outros preocupados com o dollar, é um ‘bucadin’ pela educação.
As vezes penso que Brasil não tem mais jeito estamos condenados que a sentença já foi declarada.
Mas somos uma grande população que já passou de 200 Milhões. Seria sonhar demais ? Lutar pela reeducação dessa galera ai ?

Alexandre Belmonte said On 14 dezembro 2015 Responder

Parabéns pelo excelente texto! Concordo com tudo o que você diz. Entretanto, acho que aí traça-se o perfil de alguém que consome passivamente as discussões midiáticas. Uma pessoa que estuda constantemente filosofia, ciências sociais, história, sempre revisitando questões essenciais, acredito que tem condições de entender como são fabricadas as notícias, os falsos temas, e como são mascarados os temas essenciais. Um abraço

Marcio Sales Saraiva said On 15 dezembro 2015 Responder

Claro. Educação crítica é a arma que nos emancipa. Abraços!

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