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Stalin nunca foi um demônio: a obra de Domenico Losurdo

Domenico Losurdo é um historiador italiano comprometido com o comunismo (marxista-leninista). É professor de história da filosofia na Universidade de Urbano, na Itália, e autor de vários livros. Seu viés ideológico assumido não prejudica a obra, mas lhe dá clareza, pois sabemos de onde ele parte, qual é sua situação pessoal. Além disso, Losurdo é cuidadoso ao levantar muitos dados históricos e estatísticos que se não comprovam plenamente o que defende, pelo menos, abre uma dúvida sobre os acusadores.

Durante as férias de janeiro eu li a sua obra mais conhecida: “Stalin, história crítica de uma lenda negra”. São 350 páginas de defesa e combate. Losurdo assume nela a difícil tarefa de defender historicamente o “guia genial dos povos” e líder da antiga União Soviética, Joseph Stalin, das mais diversas e injustas acusações do pós-Muro de Berlim, em especial, das “mentiras e calúnias” dos trotskistas e do duvidoso “Relatório Kruschiov” — a narrativa dos vencedores — que seria o momento da “desestalinização” da URSS e dos partidos comunistas pelo mundo.

O primeiro capítulo vai direto ao ponto, o “Relatório Kruschiov” (em 25 de fevereiro de 1956), um suposto documento “secreto” — que os maiores inimigos do comunismo tiveram acesso rápido e em primeira mão — do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), liderado por Nikita Kruschiov, que tem como objetivo, na visão de Losurdo, “liquidar Stalin” no XX Congresso do partido. Stalin, que antes era visto como “Tio Joe”, “grande líder”, “homem que derrotou o nazismo”, “o salvador da Europa da barbárie de Hitler” etc. era, até então, elogiado por pessoas como W. Churchill, Harold Laski, Hannah Arendt, Benedetto Croci, Thomas Man, Norberto Bobbio, Carlo Rosseli e Arnold Toynbee e, especialmente a partir de 1956, redesenha-se o líder da URSS como “degenerado monstro humano”. Foi uma operação que “precipitou deus no inferno” e Losurdo tentará encontrar os motivos e questioná-los, um à um.

No capítulo 2, o autor analisará o conflito ideológico na URSS desde a Revolução Russa de 1917 até chegar nas origens do chamado “stalinismo” no capítulo 3. Depois disso, debruça-se sobre a “Era Stalin”, a democracia socialista e a ditadura do proletariado, os Gulags, a burocracia, a ditadura desenvolvimentista e a “necessidade” de um “universo concentracionário” — autoritarismo — para enfrentar as dificuldades e incertezas daquele tempo.

Losurdo dedica-se, nos capítulos 5, 6 e 7, a analise mitológica. O autor pretende demonstrar com diversos dados históricos, coletados inclusive de inimigos públicos de Stalin, como se deu a construção simbólica do “homem cruel”, a ideia de que Stalin e Hitler seriam “irmãos gêmeos” (a difícil tese que acusa de antissemitismo os comunistas daquele período), a paranóia ocidental e a psicopatologização de Stalin e como esse processo levou o homem Stalin a ter sua imagem submersa entre a história e a mitologia.

No último capítulo, Losurdo joga luz no mundo contemporâneo e traça como se deu a “demonização” — tudo que é ruim, ditatorial, concentracionário, autoritário é “stalinismo” — fazendo uma hagiografia do período. Acusa a “Nuremberg anticomunista” de reescrever a história do século XX não somente para desconstruir Stalin, mas para desmoralizar a própria ideia de comunismo.

No fim do livro, o ensaio de Luciano Cânfora, ácido crítico do que conhecemos como “democracia ocidental”, é um brinde para os leitores. Chama-se “De Stalin a Gorbatchov: como acaba um império”. Concordando com Losurdo, ambos vêem em Gorbatchov o artífice da patética derrocada da União Soviética, mas não compreendem os motivos exatos que levaram o projeto reformista de Gorbatchov o desastre geopolítico que favoreceu a hegemonia neoliberal e, em especial, dos Estados Unidos e da troika européia.

O livro é muito bom. O historiador se esforça para demonstrar que Stalin não era anjo, nem demônio, mas um homem de seu tempo que tomou medidas “apropriadas” ou somente compreensíveis no seu devido contexto. Trotski faria melhor? A resposta é um sonoro não, mas detalha os porquês.

Stalin morreu em 1953 e ainda hoje é um tema tabu dentro do campo marxista. Ainda há quem o admire no PCdoB, PCR, PPL (antigo MR-8), mas a hegemonia atual é dos seus críticos mais ferozes. No Brasil, o PT e o PSOL, dois partidos com forte hegemonia de trotskistas e ex-trotskistas, praticamente fez desaparecer os entusiastas do “Tio Joe”.

A leitura de Losurdo não absolve Stalin e o PCUS daquela época, mas relativiza as acusações mais levianas ao “stalinismo”, mostrando que o “totalitarismo” da URSS e seus satélites não pode ser posto em pé de igualdade com as barbaridades do nazi-fascismo.

Eu terminei o livro com a nítida impressão que Stalin não era “o monstro” que aprendi a atacar desde os tempos de militante do PCB nos anos 80. Continuo não sendo “stalinista” e defendo a democracia como valor universal, mas agora terei maior cuidado ao tratar do assunto. Só por isso, o livro valeu cada real investido.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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20 respostas para “Stalin nunca foi um demônio: a obra de Domenico Losurdo”

Francisco Vecchia said On 11 fevereiro 2015 Responder

Bela e honesta resenha!

antonio balbino said On 11 fevereiro 2015 Responder

Finalmente alguém corajoso e comprometido com a verdade

Daniel Barbosa said On 11 fevereiro 2015 Responder

Há também relatos de grandes autores russos de seu tempo, na qual conviveram na pré-revolução e no pós-Lenin, destaco Makarenko, Mayakovisky e Vigotsky, ambos em suas literaturas relatam tempos em que Stalin assume a nação sovietica, e o enfrentamento ao nazismo, mas vale a pena observar alguns pontos, principalmente dos camponeses que sofreram na pré-Revolução, durante a revolução e pós-Revolução, não o categorizaria, Joseph, como um demonio, mas em determinados momentos é explicito que houveram categorias de trabalhadores que foram surpreendidos pelas medidas de ‘toque-de-recolher’.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Não quero “santificar” Stalin, nem o autor desta obra tem esse objetivo, apenas tratá-lo como humano dentro de um contexto político, social e econômico. Há muitos problemas de violência e autoritarismo no regime soviético pós-1917.

jacquesss said On 12 fevereiro 2015 Responder

O autor do texto é um vendido ao liberalismo.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Eles ainda não me pagaram um centavo!

Reinaldo Soares de Souza said On 9 março 2015 Responder

Não fosse o Camarada Stalin e o Exército Vermelho,não estariamos a esse hora postando esse texto.Basta ver o que Hitler falava a respeito dos nativos da América do Sul.

radek said On 26 janeiro 2016 Responder

se Trotski tivesse vencido e dado um golpe dirigindo o exercito vermelho contra o maldito stalin e sua burocracia traidora a historia seria outra, teriamos um mundo socialista. teriamos varrido a escoria stalinista da URSS, e dariamos a URSS a condição estado operario internacional a serviço da revolução mundial, teriamos vencido a burguesia imperialista e o capitalismo mais facilmente.

Marcio Sales Saraiva said On 26 janeiro 2016 Responder

Na História não existe o “se”….

jose said On 12 fevereiro 2016 Responder

Trosko sempre lunático. Agora um homem de fé. Encara seu ídolo não como um personagem histórico, mas como um deusinho acima do bem e do mal.

Caio said On 26 janeiro 2016 Responder

Stalin VIVE!

Professor Kico said On 26 janeiro 2016 Responder

Precisamos de mais companheiros honestos como você e Losurdo.

Abraços.

Halter Maia said On 26 janeiro 2016 Responder

A descrição da revolução russa na trilogia sobre Trotsky – primorosamente escrita por Deustcher – me pareceu profundamente convincente quando a lí quarenta e tantos anos atrás… Não há duvidas quanto à simpatia do autor dedicada a seu personagem histórico preferido. Entretanto seus argumentos são muito poderosos. Muito distantes dos argumentos dos ‘trotskistas’ tupiniquins da Libelu que se transformaram em néo-liberais na primeira hora…

Julgamentos históricos são sempre arriscados.

Tanto Rússia como China se tornaram atores mundias por caminhos que podem ser considerados despóticos, mas será que o foram menos despóticos e desumanos que os desdobramentos da Revolução Francesa? Ou que a Revolução Industrial na Inglaterra? Ou a Guerra Civil americana – que até hoje ainda exibe resquícios de ressentimento entre os sulistas?

Em mim calou fundo uma frase de Engels em sua ‘Origem da família…’ que respondia aos críticos moralistas dessa obra:

“A mim me parece que jamais conseguiremos compreender a história da família enquanto insistirmos em estudá-la como se a olhássemos pela janela de um puteiro” (citação livre – também leitura antiga…)

‘Sei lá … mil coisas’ (Ubú Rei).

radek said On 26 janeiro 2016 Responder

stalin não era um demonio, era somente o produto do atraso e da barbarie a que a jovem republica sovietica acbara de produzir devido a uma intensa guerra civil vitoriosa tendo a frente o camarada trotski como protagonista da mudança e da continuação do leninismo-marxista. stalin foi o coveiro da revolução mundial, representante de uma poderosa burocracia que ja mostrava as garras pelo controle do aparelho partidario e estatal ainda na epoca em que o camarada lenin era vivo. o satlinismo foi o maior inimigo da revolução socialista internacional e por isso fez de tudo para derrota-la começando com os expurgos e posteriormente com os processo de moscou, eliminou varios camaradas bolcheviques de primeira linha, camaradas de linha de frente nos combates e que foram assassinados a sangue frio por esse escremento politico.o satlinismo aliou-se com o nazismo e posteriormente com o imperialismo americano e europeu, dissolveu a terceira internacional e esfacelou a ultimas conquistas do proletariado russo e do leste- europeu, abrindo caminho para a volta do capitalismo e terminando a burocracia em burguesia. VIVA TROTSKI VERDADEIRO HERDEIRO DE LENIN, VIVA A QUARTA INTERNACIONAL.

Marcio Sales Saraiva said On 26 janeiro 2016 Responder

Esta visão “trotskista” é bem infantil, convenhamos…

Francisco Quartim de Moraes said On 27 janeiro 2016 Responder

Recomendo aos trostkistas a leitura deste livro. Ao menos vai se poder criticar o Stalin de maneira mais sofisticada.

Forte abraço

Francisco Quartim de Moraes said On 27 janeiro 2016 Responder

Salve!
Parabéns pela bela resenha deste livro que considero fundamental para os interessados no tema.
Só deixo uma pequena correção: A cidade em que Losurdo é professor chama-se Urbino e não Urbano.
Aproveito pra fazer aquela auto propaganda. Escrevi em 2010 uma resenha sobre este livro disponível no link:

https://www.yumpu.com/pt/document/view/12549286/stalin-historia-critica-de-uma-lenda-negra-domenico-losurdo

Forte Abraço.
FQM

Marcio Sales Saraiva said On 28 janeiro 2016 Responder

Francisco Quartim de Moraes, saiba que tu és uma referência em meus estudos e pesquisas.

Grande abraço e obrigado por compartilhar sua resenha aqui, eu mesmo não conhecia.

Gilberto de Oliveira said On 27 janeiro 2016 Responder

Você foi do PCB no mesmo tempo que eu, e me lembro muito bem das desavenças com o PCdoB sobre ser fiel ao stalinismo ou seguir a orientação do PCUS. Nós éramos chamados de revisionistas e contra-atacávamos chamando os “do B” de stalinistas. Só que muita gente das antigas no Partidão admirava Stalin. E alguns mais jovens torciam o nariz para a URSS. Como se vê, o comunismo é uma ideologia que dificulta a ampliação dos horizontes…

Marcio Sales Saraiva said On 28 janeiro 2016 Responder

Sim Gilberto, vivi esse mesmo período.

Quando você escreve que “o comunismo é uma ideologia que dificulta a ampliação dos horizontes”, eu discordo. Qualquer ideologia poderá ser ou não um entrave cognitivo, um fanatismo particular. Há comunistas de mente aberta para o século 21, como há também os que se agarram como religiosos ao cânon do passado.

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