Blog

Home/Blog/Sobre a esquerda que não deseja Dilma

Sobre a esquerda que não deseja Dilma

A política pode permanecer sempre jovem e pulsante desde que se mantenha com os pés firmes na Mãe Terra. Como humanos, seria uma tolice pretender alcançar pela via política o ideal absoluto (Crick, 1981, p. 1). Se os ideais e as utopias desempenham um papel importante para balizar nossas ações e escolhas, por outro lado precisamos sinceramente reconhecer que a política não é algo puramente “sonhático”.

É claro que também não podemos reduzir a política ao tecnicismo, ao ativismo prático e imediatista. Entre nossos sonhos/utopias e as possibilidades da realidade, é aí que reside o campo da atuação política.

A aceitação das diferenças (de interesses, de tradições culturais, de ideologias etc.) dentro de uma comunidade (podendo ser o Estado) regida por uma lei comum é o campo arado para o surgimento da política. Ela nasce como resposta ao problema da governabilidade e da ordem, dentro da diversidade da comunidade. Portanto, a política irá exigir de nós uma tolerância com verdades diferentes e o reconhecimento de que é possível governar através do debate entre interesses opostos (Crick, 1981, p. 3).

Sem concordarmos com esses pressupostos que coloquei acima, nossa conversa aqui será inútil. A posição dos que apoiam Aécio Neves (PSDB) para presidente, e se mantém dentro da esquerda, não poderá ser compreendida sem estas balizas teóricas mínimas.

Qual esquerda?

Quando falamos que há pessoas de esquerda apoiando Aécio Neves (PSDB) parece, para alguns, uma heresia imperdoável. A intolerância — que é incompatível com a política na democracia — se manifesta com censuras morais, deboches ou ataques violentos (simbólicos ou até mesmo físicos).

Primeiro, é preciso deixar claro que há “uma esquerda no interior do horizonte capitalista” (Bobbio, 1995, p. 10). Quem pensa que esquerda são apenas as correntes políticas que pregam a destruição violenta do capitalismo não poderá entender o que está sendo discutido aqui. Até mesmo no campo comunista, encontramos um setor que se manteve na defesa de uma ruptura anticapitalista radical, enquanto outro passou a defender uma atuação reformista no interior de um capitalismo democrático ou, como muitos chamam, das poliarquias[1].

Santiago Carrillo, importante intelectual do Partido Comunista Espanhol (PCE), defendeu com clareza em 1977 a democracia como valor universal[2] e a descentralização do Estado democrático para que o socialismo fosse gradualmente ganhando hegemonia pela via democrática (Motta, 2014, pp. 124-125). A defesa de democratização/descentralização era uma ruptura dos comunistas espanhóis com o “golpe de força” e a violência revolucionária, além do reconhecimento da democracia e dos seus procedimentos como o melhor caminho para as transformações sociais, econômicas, culturais e político-jurídicas defendidas pela esquerda.

Essa concepção processual e procedimental ganhou força também no Partido Comunista Francês (PCF) e no Partido Comunista Italiano (PCI) que hoje é conhecido como DS (Democracia de Esquerda). No Brasil, o PCB debateu essas questões na década de 1980 até se transformar em Partido Popular Socialista (PPS).

A esquerda reformista que atua dentro das poliarquias ou sociedades de mercado se distingue da extrema-esquerda ao adotar a não-violência como estratégia de transformação processual (G. Vattimo). E se diferencia da direita ao se contrapor a seu tradicionalismo cultural-familiar (Isaiah Berlin).

A esquerda é crítica do discurso de direita que entende a desigualdade social como algo “natural” e até “útil” para dinâmica social. É nesse sentido que Bobbio (1995, p. 20) diz que a direita é inigualitária e a esquerda é igualitária, pois se preocupa com a redução — e no limite, a eliminação — das desigualdades sociais que considera injustiça sistêmica.

Originalmente, esquerda e direita surge de uma distinção espacial que remonta à Revolução Francesa. Traz também uma metáfora temporal — a esquerda é progressista/mudancista e a direita é tradicionalista/conservadora — e um significado avaliativo que envolve juízos de valor (Bobbio, 1995, pp. 67-70). Nesse último sentido, a esquerda é basicamente o campo político que defende a diminuição das diferenças socioeconômicas e a direita defende a liberdade diante destas mesmas diferenças socioeconômicas. Ambas atuam no interior das sociedades de mercado (capitalismo), mas a extrema esquerda e a extrema direita, em geral, se situam contra a sociedade de mercado e os procedimentos democráticos. No limite, o extremismo de esquerda e de direita defende o fim das diferenciações e uma concepção unitária ou orgânica de sociedade.

Sendo assim, não há nada de intrinsecamente mau em defender posições de direita, onde a liberdade e as diferenças são vistas como algo positivo. Só que no Brasil, com o regime militar (1964-1985), associou-se no imaginário coletivo que a direita são os que defendem a tortura, militarismo, golpismo, anticomunismo etc. A díade ganhou coloração emocional, para lembrar Bobbio, e a razão analítica saiu pela janela.

É nesse clima de torcida de futebol, e não de ciência política ou filosofia, que ser de esquerda passou a significar uma pessoa “naturalmente” boa, defensora do povo e contra a ditadura e, por outro lado, ser de direita é uma pessoa má, cruel, “naturalmente” contra os pobres e defensora de ditaduras. Nada mais equivocado do que isso, mas nas redes sociais é o que mais verificamos, em alguns casos, com respaldo de certos analistas políticos e jornalistas/blogueiros.

Todo o extremismo, de esquerda ou de direita, tem certo tom anti-iluminista, antidemocrático, catastrófico e irracionalista (Bobbio, 1995, p. 53). Em alguns casos, assemelha-se a seitas religiosas fanáticas. Nas redes sociais, os extremismos têm proliferado como bactéria em ambiente agradável. Perceba que há algo de Bolsonaro em muitos militantes do PSOL, da mesma forma que há alguma coisa de Pol Pot (Khmer Vermelho) em certos setores que fazem a campanha do Aécio. Ambos apelam para o moralismo, preconceito, autoritarismo, mentiras, distorções etc.

Dilma e Aécio: qual é a opção da esquerda?

Estou partindo, creio que já perceberam no texto, da premissa que ainda temos razões para manter a díade esquerda e direita (Bobbio, 1995) e, confesso, tenho dúvidas sobre o significado hoje desses conceitos (Giddens, 1996). Ainda assim, manterei essa premissa para o objetivo desta reflexão.

Bem, para a extrema-esquerda, autoritária e igualitarista radical, ambos (Dilma e Aécio) devem ser eliminados. Dilma é a “traição do PT” e Aécio o candidato da “direita neoliberal”. Ambos representam setores distintos da mesma burguesia. Alguns ainda preferem Dilma como um voto “crítico” para excluir Aécio, talvez interpretando que a oligarquia petista seria “menos pior” que um governo tucano. Nesse sentido, a postura de algumas lideranças do PSOL é sintomática deste tipo de escolha por oposição.

Na extrema-direita, antiliberal e antiigualitária, uma parcela votará em Aécio como o “menos pior”. Fazem um voto “crítico” no Aécio. Melhor seria um candidato como o falecido Enéas, o Jair Bolsonaro ou Olavo de Carvalho. Há os que anulam seu voto e consideram PSDB e PT dois partidos de esquerda, no fundo, comunistas enrustidos e nefastos para a família, a tradição e a propriedade.

Entre os que se colocam no campo da centro-direita — defensores de um liberalismo inigualitário e democratas conservadores — entendem que Aécio pode evitar mais quatro anos de PT, ainda que para isso tenham que votar num candidato que representa um programa liberal com algumas inclinações sociais.

A centro-esquerda — que inclui os social-democratas, os que defendem o “socialismo de mercado”, os antigos eurocomunistas, os liberais sociais etc. — que defende uma visão igualitária e democrática divide-se entre Dilma e Aécio. Sendo que a candidata do PT tem mais votos úteis na extrema-esquerda e centro-esquerda (ou esquerda moderada), enquanto o candidato do PSDB tem votos da esquerda moderada e uma quantidade ampla de votos na centro-direita e votos úteis da extrema-direita de matriz antipetista.

Nesta eleição, o eleitor centrista é que irá decidir o jogo. Aécio leva mais vantagem e se Dilma “esquerdizar” mais o discurso para tentar atingir Aécio com a pecha de “direitista” poderá sofrer ampla rejeição, como efeito bumerangue. O eleitorado brasileiro é majoritariamente centrista e conservador.

E o voto no Aécio?

A eleição no segundo turno tem outro caráter, pois aumenta o voto por oposição, enquanto no primeiro turno é maior o voto por identificação. Este é, por exemplo, o meu caso. Considero negativo mais quatro anos de gestão petista e entendo que a prioridade democrática é derrotar o projeto hegemonista do PT. Assim sendo, voto em Aécio Neves (PSDB), mesmo não tendo concordância integral ou majoritária com seu programa.

O cientista político J. A. Guilhon Albuquerque (1992) traduz esse voto de exclusão da seguinte maneira:

“No voto por oposição, a dimensão estratégica está mais presente, e o eleitor valoriza mais a remoção do obstáculo, ou a derrota do adversário, do que a questão de saber quem realiza a ação, ou a própria concretização do objetivo. Eu voto em quem tem os mesmos adversários que eu. Trata-se de uma identificação indireta, mediada pelo outro, e que tem um conteúdo pragmático: já que não posso obter o que quero, trato de evitar o que eu não quero. Do ponto de vista psicológico o voto por oposição ou voto negativo envolve mecanismos mais complexos do que a identificação e, do ponto de vista político, representa a passagem de mecanismos puramente psicológicos para mecanismos institucionais. Ou, para manter as categorias de Montesquieu, a passagem da paixão para a virtude” (pp. 55-56).

O voto por exclusão não se dá pela minha identificação ou paixão pelo candidato — no meu caso, Marina Silva — mas em oposição ao outro que considero um obstáculo maior a ser removido, a presidenta Dilma/PT. Ele tem um conteúdo pragmático e poderá significar uma ação estratégica que será usada por um eleitor de esquerda ou de direita. Conheço eleitor do PSOL — para usar um exemplo da extrema-esquerda — que irá votar no PSDB para excluir o PT. Ele deixou de ser de esquerda? Óbvio que não, mas fez uma escolha estratégica. Os eleitores agem estrategicamente usando o seu acumulo de informações sobre os candidatos, os partidos, os programas e o próprio processo de campanha eleitoral.

Quem vota em Aécio é de esquerda?

Não necessariamente. Se você me acompanhou até aqui já percebeu que diversas razões orientam eleitores diferentes a votar em Aécio Neves e não votar na Dilma. Eduardo Jorge (PV) e Roberto Freire (PPS) votarão em Aécio por razões diferentes do pastor Everaldo (PSC, pequeno partido de centro-direita). Eleitores de centro-esquerda (ou esquerda moderada), centro-direita e até de extrema-direita irão votar em Aécio, mas seguindo orientações bem diferentes.

A democracia envolve incerteza, alternância de poder e grande dose de paciência para se construir pactos e respeitar os ritos processuais (Przeworski, 1994). A longa reunião da Rede Sustentabilidade para decidir legitimar politicamente o voto em Aécio, bem como o voto de abstenção, é um exemplo de que a política envolve sempre aquela capacidade de dialogar com as diferenças e construir pontes com o possível, para além daquilo que eu desejo, sonho ou considero o melhor.

Neste momento, penso que aquelas e aqueles que se identificam com a defesa da redução das desigualdades sociais com a garantia das liberdades e das regras do jogo democrático têm na candidatura de Aécio Neves (PSDB) a oportunidade de excluir um projeto de captura das instituições republicanas representada pela candidata Dilma Roussef (PT). É na democracia que teremos o ambiente político para avançarmos na luta por uma sociedade mais igualitária e que possa combinar justiça e mercado.

Obras Citadas

Albuquerque, J. A. (1992). Identidade, oposição e pragmatismo: uma teoria política do voto. Lua Nova n° 26 , 53-79.

Bobbio, N. (1995). Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp.

Crick, B. (1981). Em defesa da política. Brasília: UnB.

Giddens, A. (1996). Para além da esquerda e da direita: o futuro da política radical. Rio de Janeiro: Unesp.

Motta, L. E. (2014). A favor de Althusser: revolução e ruptura na teoria marxista. Rio de Janeiro: Gramma.

Przeworski, A. (1994). Democracia e mercado: reformas políticas e econômicas na Europa Oriental e América Latina. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.

[1] Estou me referindo aos eurocomunistas que na década de 1970 teve grande força em diversos partidos comunistas e ainda hoje são referenciais para uma esquerda democrática no interior das poliarquias.

[2] Para não dizer do clássico ensaio de Carlos Nelson Coutinho, de 1979, e as reflexões de Francisco Weffort na década de 1980.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
Gostou do artigo?
Assine a newsletter e receba as novidades em primeira mão!

4 respostas para “Sobre a esquerda que não deseja Dilma”

Ronald said On 13 outubro 2014 Responder

Márcio, bom texto! Evidente, que é uma visão particular dos fatos e abordagens. Dois exemplos: dos debates do pcb saíram 2 partidos, não só o pps. A proposta de uma via reformista para o socialismo antecede Marx. O que eu não acho que ajuda nesse debate maior são s análises apaixonadas da trajetórias de partidos e personalidades, nada se discute sobre o sistema eleitoral e partidário. Partidos são máquinas de disputa de poder (muito mais do que de sonhos – Marina) e o nosso sistema, como qualquer outro, adéqua sonhos e personalidades as suas dinâmicas institucionais. Ele é muito democrático (melhor dizendo), pluralista na oferta de opções de organização e candidaturas, mas cruel na transformação de votos em cadeiras e, mais ainda, na vinculação entre o que é dito na campanha e as políticas públicas implementadas. Sou cada vez mais a fim do voto em lista fechada com financiamento público. O perigo da oligarquização existe em qualquer cenário. Abraço!

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Estamos juntos na defesa do voto em lista partidária e, quem sabe, em outros temas também da reforma política. Abraço!

Nilton Correia said On 13 outubro 2014 Responder

Na verdade o autor do texto é um direitista inveterado que procurou argumentos para justificar uma posição que provavelmente contradiz a sua posição camuflada de centro esquerda Não há muito o que discutir, se não que está em jogo dois projetos totalmente diferentes e que não se complementam: de um lado há o projeto social do PT e da Dilma, que prioriza o investimentos na grande maioria da população brasileira, buscando inseri-la na sociedade através da educação, economia de consumo e mercado. Por outro lado se tem o projeto do PSDB e do Aécio, claramente de centro direita, que prega o Estado minimo, tendo como elemento fomentador do desenvolvimento a inciativa privada sem a intervenção do governo, deixando que agencias regulem e fiscalizem a oferta e o consumo. O projeto neoliberal já fracassou em diversos país, principalmente porque a iniciativa privada não dá conta por se só de todas demandas da sociedade. EU VOTO EM DILMA.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Não sei se já se arrependeu deste voto, com Levy comandando a economia do governo petista. Acho contraditório chamar-me de “direitista inveterado” e ao mesmo tempo dizer que sou de centro-esquerda. Além disso, sem querer defender tucanos, considero distorção dos fatos dizer que Aécio defende estado mínimo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>