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REALIDADES

Frederico Britto passou pelo armazém, como faz costumeiramente.

“Bom dia, seu Joaquim.”

“Bom dia, rapaz. Vai para o trabalho?”

“É, vou sim.”

Trabalhou até as 17h30 e não conseguiu nada, nem um cliente, nem mesmo apresentar uma casa para alguém. A corretagem de imóveis já não dava mais tanto dinheiro como nos anos setenta.

“Velhos tempos”, pensava.

Ao chegar em casa, cansado, sentou-se na sala e, dirigindo-se à mãe Rosane, disse:

“Tudo bem com a senhora?”

“Vai-se indo, meu filho, vai-se indo…”

“Qual é o rango de hoje?”

“Tem feijão de ontem, mas está bom. Estou esquentando o arroz e fritei dois ovos para você.”

Fred levantou-se, sem querer aparentar o desânimo com o terceiro dia consecutivo do ovo, e foi tomar um banho. Retornou lavado, cheiroso e sentou-se à mesa. Comeu sem muito ânimo e retornou à sala para ver televisão.

A mãe passou, depois de arrumar a cozinha e disse:

“Vou dormir.”

“Boa noite mãe!”

 

 

No dia seguinte, acordou cedo para comprar o pão e o jornal, quando, depois de cumprimentar o velho Joaquim, encontrou Martinha, antiga namorada, velho amor que não foi correspondido.

“Está melhor, Fred?”

“Estou ótimo”, respondeu seco, sem querer alongar a prosa, mas, ao mesmo tempo, interiormente feliz por rever Martinha, tão bonita, doce, inteligente.

“E eles? Continua vendo-os?”

“Mamãe está bem, apesar da idade; e seu Joaquim, acabei de falar com ele lá na esquina. Você o viu também?”

“Fred, por que você não me deixa levá-lo a um médico?”

“Por quê?”

“Acompanhe-me, só isso. O doutor Kant é ótimo e poderá ajudá-lo com os seus conhecidos. Faça isso por mim, pelo amor que já alimentamos juntos.”

Fred sentiu-se tocado por Martinha, afinal, qual era o mal em acompanhá-la na visita a um médico amigo que queria ajudá-lo? Ainda que ele não carecesse de nada, a não ser do dinheiro que a corretagem lhe negava, o fato de estar com Martinha já era em si agradável demais para justificar a ida ao médico. Fred já conhecia as antigas preocupações de Martinha com sua saúde, motivo do rompimento amargo entre os dois, no ano anterior.

“Beleza! Qual é o dia do médico?”

“Sexta-feira pela manhã, você pode?”

“Dou um jeito, falo lá com o pessoal da corretora e aviso à mãe.”

 

 

Sexta-feira, 8 horas em ponto, Martinha tocou a campainha da casa. Ele gritou lá de dentro:

“Já vou!”

A mãe, de soslaio, estranhou o gesto de Fred, mas nada disse.

Saiu ele meio desengonçado com uma pastinha embaixo do braço e ajeitando a carteira no bolso de trás da calça jeans, muito surrada, velho presente de Martinha que nem notara o fato. Na porta de entrada para o quintal da casa, ela foi logo perguntando:

“E sua mãe Rosane, onde está?”

“Você sabe, ela é muito tímida e ficou no quarto lendo seus romances. Ela agora está empolgada com O Quinze e chegou a comentar ontem comigo que a miséria continua a mesma lá para as bandas do Nordeste.”

Desceram juntos à rua. Ele cumprimentou o velho Joaquim que bebia um café pingado na esquina e pegaram o ônibus que os conduziria até a clínica onde Martinha trabalhava e havia deixado agendada a consulta. Entraram.

“Avise ao doutor Kant que eu estou aguardando com o Fred.”

A recepcionista entendeu e saiu para transmitir o recado. Logo voltou dizendo:

“Em cinco minutos podem entrar”.

Fred, aproveitando a espera inevitável, queria lembrar o passado, as velhas promessas de amor não realizadas, mas Martinha se esquivava em manter qualquer prosa mais alongada com ele e dizia monossílabos:

“É…”

“Sei…”

“Hum…”

Mais de cinco minutos se passaram quando a recepcionista informou:

“Podem entrar, o doutor Kant os aguarda”.

Os dois se levantaram e chegaram à sala confortável, bem diferente das salas do posto de saúde municipal onde ele já estivera com sua mãe Rosane.

“Oi Martinha! Trouxe o nosso amigo…”, disse o doutor, logo se levantando da cadeira e apertando a mão dos dois.

Fred não gostou da intimidade – “nosso amigo?” – mas relevou tudo pelo amor à Martinha. Sentaram-se. O médico ajustou os óculos. O clima era visivelmente constrangedor, mas Fred não percebia.

“E aí?”, perguntou Fred, meio sem saber o que estava fazendo ali.

“Fred… Você tem um problema, mas podemos, juntos, controlá-lo. É preciso que você queira e…”

Martinha interrompeu o médico e disse, mais afoita:

“Fred, nós já conversamos sobre isso antes, quando rompemos a nossa relação, lembra-se? Você sabe que é esquizofrênico e precisa se cuidar. Não existe nenhuma mãe Rosane, meu querido, nenhum velho Joaquim. Você entende isso?”

A fisionomia de Fred modificou-se. Sorumbático e irritadiço, começou a bater os pés, alternada, mas suavemente. O médico acrescentou:

“Tudo isso, quer dizer, esses fantasmas são produzidos pela sua mente, mas, ao aceitar se tratar, você receberá medicamento apropriado e isso gradativamente vai desaparecer. Esses fantasmas vão parar de te perturbar, compreende?”

“E quem vai fazer a minha comida depois que chego da corretora? Quem vai colocar manteiga no meu pão pela manhã, porque vocês odeiam minha mãe e um velho inofensivo? Eles não são fantasmas que me perturbam. É a minha mãe, meu amigo, meu trabalho. Acho que vocês é que não entendem nada.”

Martinha e o doutor se entreolharam, sem saber o que dizer.

“Pense com calma nisso tudo e volte na próxima semana para conversarmos um pouco mais sobre isso, tudo bem?”, disse o médico.

“Tá bom”, disse Fred, nervoso.

Martinha, decepcionada, levantou-se e acompanhou Fred até sua casa. Em frente ao portão, os dois combinaram.

“Sexta-feira que vem eu passo aqui, no mesmo horário, para irmos lá no médico, certo?”

Fred olhou fundo nos olhos de Martinha, contemplou sua beleza escultural, lembrou as noitadas ardentes e disse:

“Tudo bem, Martinha. Se isso é importante para você, eu vou naquele doido”.

“Ele não é doido, é um excelente psiquiatra, um pesquisador do assunto.”

Fred olhou debochado, mas acatou. Entrou em casa e falou com sua mãe.

“O almoço está pronto?”

“Ainda não. Espere um pouco. Vai ler o jornal e tome o seu remédio.”

 

 

A semana passou rápida e dentro da implacável rotina de Fred: casa-trabalho-casa. Quando Martinha se posicionava para apertar a campainha do “esconderijo” – como Fred costumava chamar sua casa – ele já espreitava pelo basculante ao lado da porta da sala que dava para o quintal e o portãozinho da frente. A campainha soou e Fred saiu desembestado pela porta da frente e disparou três tiros certeiros e fulminantes que explodiram na jovem donzela. Martinha tombou numa poça de sangue, olhos abertos, chocados, sem tempo para reações. Ele se aproximou do corpo caído e o examinou sem piedade. Virou as costas e entrou melancólico.

“Mãe, eu matei Martinha.” Sentou no sofá e começou a chorar convulsivamente. A velha, vendo a cena, tranqüilizou-o:

“Meu filho, ela nunca existiu!”

Ao longe, o som da sirene da polícia ecoava na sala.

 

 

Originalmente publicado na revista O CAIXOTE, n° 13, em 2003.

http://www.ocaixote.com.br/caixote13/cx13_contos_mssaraiva.html

 

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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