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QUANDO ENGRAÇADO É A MORTE ALHEIA

O filme “A entrevista” é uma comédia da Sony dirigida por Seth Rogen e Evan Goldberg e conta com atores pouco conhecidos do público internacional como o próprio Seth Rogen, James Franco e Lizzy Caplan. A ideia é simples. Trata-se de um plano secreto da CIA para matar o presidente da Coréia do Norte, Kim Jong-Um. Veja o trailer do filme e retorne ao texto:

CLIQUE AQUI E VEJA “A ENTREVISTA” (TRAILER)

Parece divertido né? Nem tanto. Hackers da gangue Dark Seoul invadiram os arquivos secretos da empresa Sony — circulam babados terríveis sobre as celebridades que agora processam a Sony por falta de segurança com os dados — e também ameaçaram as salas de cinema que exibissem o filme. Pronto. Estava feito o salseiro. Qual o cinema queria exibir o filme? Nenhum! A Sony cancelou o lançamento e os EUA acusam o governo da Coréia do Norte de estar por trás desse “terrorismo virtual”.

Com a derrota japonesa na Segunda Guerra Mundial, em 1945, a Coréia foi ocupada pelos Estados Unidos e pela União Soviética, e dividida em dois países distintos. A Coréia do Norte era aliada da URSS e a Coréia do Sul dos EUA. De 1950-1953 viveu um conflito armado com apoio das duas potências que terminou sem um acordo de paz. Isolada pelo embargo econômico, a Coréia do Norte desenvolveu um socialismo próprio chamado de “ideologia juche” (auto-suficiente) e tem uma população de 23 milhões de habitantes, na sua maioria, pessoas sem religião. O budismo e o confucionismo é forte no país, além do xamanismo coreano. Protestantes e católicos são poucos por lá, não chega a 100 mil pessoas.

De acordo com a lei norte-coreana, o país é governado pela Frente Democrática para a Reunificação da Pátria, uma coalizão do Partido dos Trabalhadores da Coreia (o mais forte) e outros dois partidos menores, o Partido Social Democrático Coreano e o Partido Chongu Chondoista. Com forte culto à personalidade, em torno de Kim Il-sung (o grande líder e fundador) e seu filho Kim Jong-il (morto e considerado “o presidente eterno”), o país tem o maior Exército do mundo e um programa nuclear que assusta o capitalismo ocidental.

A economia é nacionalizada, planificada e dirigida centralmente, com alimentação, saúde, educação (obrigatória até o ensino médio, com uniforme, livros etc. garantidos) e habitação ofertados gratuitamente pelo Estado. Em 1974, aboliram a cobrança de impostos para todo o povo, mas isso não evitou a crise da fome na década de 1990 que contou com a ajuda da Coréia do Sul, China e Japão, os EUA não participaram. Quase toda a população tem sistema de esgoto e água, mas a qualidade da água não é das melhores, dependendo da região.

Enfim, há muita coisa sobre a Coréia do Norte. Para ocidentais como nós, encontramos elementos esquisitos, estranhos e julgamos com rapidez: é uma ditadura hereditária. Pode ser, mas precisamos olhar com maior cuidado antropológico, compreender sua história nacional, seus particularismos culturais, seu povo e suas crenças.

Considerado por Bush como parte do “Eixo do Mal”, a Coréia do Norte vem sendo estrangulada economicamente. O objetivo é derrubar o regime. Agora, a Sony lança este “inocente” filme sobre o assassinato do seu líder-presidente. O que esperar das reações?

Pensemos com calma. Se a Sony lançasse uma comédia onde a CIA prepara o assassinato de Dilma, contendo cenas hilariantes sobre a mesma, fazendo todas as chacotas imagináveis, como nós nos sentiríamos? E se a Índia lançasse um filme assim, mas o presidente a ser assassinado era Obama. Como reagiria os EUA?

A polêmica sobre o filme “A entrevista” nos convida a pensarmos no uso político da indústria cultural cinematográfica norte-americana, mas não só isso. Precisamos também pensar nossos modelos culturais, os juízos que fazemos sobre os outros e o direito à diferença num mundo globalizado pelo capital.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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