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Quando a política se transforma em guerra: os “fascistas direitistas golpistas” e os “petralhas vermelhos”

O segundo governo Dilma Roussef começa em clima de fim de festa. Problemas na área econômica, crise energética, água, desvio de dinheiro na Petrobras, enfim, tudo parece uma pegadinha do destino contra quem ganhou a eleição de 2014, mas não é. O que está arrebentando hoje tem uma história.

Podemos dizer que Dilma 2 está herdando as bombas armadas pela Dilma 1. Parece a lei de ação e reação tão propagada pelo budismo, hinduísmo e espiritismo kardequiano. Já ouvi senador dizer que a derrota de Aécio (PSDB) e Marina (Rede-PSB) foi um “livramento de Deus”. É, pode ser.

As investigações da Lava-Jato avançam e cada dia fica mais difícil dizer que a presidente nada sabia. A reunião do ministro da Justiça com advogados das empreiteiras é apenas mais uma trapalhada política de um governo que parece perdido e sem rumos. Nesses momentos de crise, falta a experiência de um FHC ou a sagacidade de um líder como Lula. Dilma está longe desses dois modelos e parece não ter vocação para dialogar e fazer política, com “P” maiúsculo.

Fiz quatro postagens na minha linha do tempo no facebook sobre este tema e considero que elas resumem não somente aquilo que penso, mas o sentimento de parcela significativa de brasileiras e brasileiros. Em todas busquei sair do ataque odioso e apostar nas reflexões políticas conjunturais apelando para o bom senso, sem usar linguagem acadêmica.

A primeira postagem eu fiz no dia 07 de fevereiro de 2015:

Vamos direto aos pontos?

1- Qualquer pessoa de inteligência mediana sabe que a corrupção chegou no Brasil com Pedro Álvares Cabral e não com o PT.

2- Óbvio que teve episódios de corrupção no governo do PSDB liderado então por Fernando Henrique Cardoso.

3- O fato de que o PT não inventou a corrupção não minimiza o tamanho e a gravidade do mensalão e do petrolão. Ambos são vergonhosos para um partido que se colocava como o paladino da ética – uma “UDN de tamancos” como dizia Brizola.

4- Criticar os governos petistas não faz de ninguém um militante de direita, defensor da ditadura militar ou golpista. Mais uma vez o PT tenta emplacar o jogo do “nós” contra “eles”.

5- O PT pediu impeachment de Collor, Fora Itamar, Fora FHC com CPI das Privatizações etc. Tudo isso era visto como parte do jogo democrático e da liberdade de expressão crítica. Por que agora que o partido está no poder não se pode pensar ou escrever sobre tais assuntos sem ser tachado de golpista?

6- Se a roubalheira foi “bem pior” com as privatizações do PSDB e seus gestores na Petrobras, por que o PT que está a doze anos no poder nunca cancelou nenhuma privatização da era FHC? Por que o PT nunca encaminhou nenhuma auditoria das gestões da Petrobras anteriores ao seu governo?

7- Ainda que todos os governos anteriores ao PT fossem exercidos por bandidos, a eleição do PT em 2002 não seria o fim de tudo isso? Um novo Brasil sem miséria e com ética na política? Não foi essa a promessa?

8- Por que o PT não deixa de lado a tese de “golpismo da direita e da mídia” e assume que companheiros erraram? Por que não afastar do partido todos os suspeitos até que se apurem todos os fatos? Não seria o momento para um congresso de reorganização com um “relatório Krushev”?

9- É uma projeção psicopatológica culpar os outros pela “criminalização” do partido quando o próprio PT mantém em suas fileiras criminosos condenados e suspeitos que são aplaudidos de pé.

10- Ser de esquerda ou progressista não é defender Dilma e o PT, custe o que custar. Todos devem ser investigados e, comprovada a culpa, punidos. E defender isso não é uma questão de disputa ideológica, mas de princípios. Não importa se é do PT, PSDB, PMDB, PP etc. Roubou? Está provado? Prende!

Essa postagem despertou um saudável debate e teve grande quantidade de apoiamentos e compartilhamentos, sinal de que este sentimento/percepção tem penetração social nas redes.

No dia 09 de fevereiro eu fiz uma segunda postagem, pois aumentava os compartilhamentos pedindo o impeachment de Dilma e, em alguns casos, usando a minha primeira postagem como suposto argumento.

Impeachment já?

Só para não deixar dúvidas. Neste momento, não vejo um conjunto probatório que me deixe seguro para apoiar qualquer movimento pró-impeachment da presidente Dilma. Penso o seguinte.

1- É compreensível a indignação de parte significativa dos brasileiros com os episódios de corrupção, crise econômica e promessas de campanha eleitoral que não se efetivaram no Governo Dilma;

2- Percebo que, na sua maioria, os defensores do impeachment são pessoas de bem, cidadãos interessados em ver um Brasil honesto e próspero. Muitos, mas nem todos, são de direita (o que não é nenhum demérito em si) e, naturalmente, se sentem ofendidos quando são tachados de “burros”, “reacionários”, “defensores da ditadura” e “golpistas”;

3- Compreendo também o quanto é duro para aquelas e aqueles que votaram em Dilma — que ainda apóiam seu governo ou são petistas — lidar com uma avalanche de fatos negativos, zombarias e estigmatizações (“petralhas”, por exemplo) que só aumentam a raiva e a sensação de agressão, de “golpe” e de “ataque”;

4- A generalização é um recurso inadequado (coisas como “PT é o partido da corrupção nacional”), pois a maioria dos militantes e muitos parlamentares do PT são pessoas honestas que lutam por um Brasil justo, soberano e próspero, dentro das suas premissas.

Considerando esses quatro pontos expostos acima, poderíamos criar uma esfera pública de comunicação que expurgasse a violência dos ataques — dos dois lados! — e garantir um ambiente social de paz e acompanhamento atento do trabalho realizado pela Justiça do Paraná, MPF e Polícia Federal, evitando culpar pessoas apressadamente, não rotulando os críticos da governança petista de “reacionários imbecis” só porque entendem que o impeachment é o melhor caminho de resolução das crises.

Numa democracia, há espaço para a defesa do Governo Dilma, bem como para a crítica deste, sem adjetivações sarcásticas e simbolicamente violentas. Assumo aqui que minha posição é de oposição independente ao Governo Dilma. No segundo turno das eleições de 2014, eu votei em Aécio Neves (PSDB), mas não me sinto bem nesse clima de beligerância que se espalha nas redes sociais e ameaça invadir às ruas do meu país.

Como simples cidadão brasileiro, uso meu facebook para fazer este apelo ao bom senso, à Justiça e ao respeito pelas regras do jogo democrático. Que façamos o bom debate, mas sem agressões.

Vejam que meu objetivo é firmar um pacto de respeito mútuo entre posições políticas divergentes, pois o clima de guerra entre petistas e antipetistas está transformando um sério debate político (impeachment) em briga de torcida organizada. Parte da militância simpatizante do governo Dilma, sentido-se ofendida, foi para o contra-ataque espalhando todas as possíveis mazelas dos governos “diabólicos” do PSDB. A racionalidade argumentativa saiu para entrar o ataque de sujos. “Se eu sou ladrão, você é mais ladrão do que eu”. Jogo feio.

No dia 15 de fevereiro, postei uma charge sobre a relação Dilma e PMDB. Dizia o seguinte:

 dilma e pmdb

Enquanto muitos petistas e simpatizantes do governo Dilma se preocupam em demasia com o suposto “golpismo da oposição”, não percebem que dormem com o inimigo. ‪#‎Acorda

De fato, não haverá impeachment por um simples desejo da oposição tucana com DEM e PPS de aliados. Numericamente, é impossível. O PMDB é o partido que irá decidir o jogo, pois tem a presidência da Câmara e do Senado, tem amplo apoio parlamentar, portanto, o perigo para os petistas não é o PSDB, mas a postura ambígua do PMDB. Sabemos que no caso de impeachment quem assume o governo? Ele!

O debate ganhou volume. Em alguns casos, tornou-se histérico. Muitos simpatizantes do governo tentam imprimir um clima pré-64, como se Dilma fosse um governo de esquerda perseguido por forças direitistas que tentam aplicar um golpe de Estado. Nesse papel de vítima, o governismo tenta então unir sua tropa fragmentada e usar essa “guerra do impeachment” a seu favor.

No dia seguinte, 16 de fevereiro, fiz nova postagem sobre o tema onde tentei diminuir o clima de confusão entre aquelas e aqueles que me acompanham nas redes sociais. Disse o seguinte:

Esclarecimento:

1) Dilma não é Jango;

2) O PT não faz um governo reformista de esquerda que está sob ameaça da direita (Maluf apóia Dilma, Renam, Collor e Sarney também!);

3) Dilma governa com amplo apoio dos setores empresariais e financeiros;

4) Não existe golpismo, pois os militares da nova geração não se metem mais em política e nem haveria respaldo internacional para uma insanidade dessas;

5) Defender o impeachment da Dilma é um direito democrático regulado pela constituição, portanto, ninguém é golpista por isso;

6) O governismo está criando esse clima de histeria golpista para se legitimar no poder e unir a tropa dilmista que está fragmentada;

7) Se tiver uma votação pelo impeachment no Congresso a oposição é minoria e não consegue aprovar, mesmo se quisesse;

8) O problema maior não é o PSDB, é o ziguezague do PMDB, este sim, perigoso e caro para o governismo;

9) Continuo achando essa discussão do impeachment artificial, precipitadíssima, insuflada e interessante para o governo petista usar como espantalho;

10) Compreenda que Carta Capital, 247, Revista Fórum, Brasil Atual, Rede EBC, Carta Maior, Conversa Afiada e muitos outros são porta-vozes do governismo. É bom ler, mas não fique somente nisso para que você não se transforme em fantoche do Palácio do Planalto.

Seja crítico, independente e não entre na histeria coletiva. Analise tudo com racionalidade. O Brasil tem instituições democráticas fortes.

Obs. Em caso de impeachment, não é o Aécio Neves (PSDB) que assume. É o vice-presidente Michel Temer (PMDB) que deverá convocar novas eleições em 60 ou 90 dias. Outra interpretação diz que somente terá nova eleição se Temer também for impedido – e o nome dele já aparece na Lava-Jato. Sendo assim, Eduardo Cunha (presidente da Câmara) ou, depois dele, Renam Calheiros (presidente do Senado) assume e chama eleições para presidente em 60-90 dias. Estas são as interpretações jurídicas quando o impeachment acontece antes dos dois anos e um dia de governo. Que os constitucionalistas se manifestem sobre isso e aguardemos a investigação sem julgamentos precipitados.

É claro que não é fácil manter a racionalidade diante da explosão passional de ataques ao PT e de defesas escalafobéticas do governo. No tiroteio, as pessoas não prestam mais atenção no que lêem, perdem a capacidade de ponderar, atacam o outro que não concorda com seus argumentos e o clima de torcida cega-nos diante dos fatos simples. Para piorar, alguns setores conservadores jogam pesado na sua campanha anti-governista, da mesma forma, uma miríade de revistas, sites e bolgs simpatizantes do governo petista derramam uma avalanche de ataques e matérias “jornalísticas” que buscam criar outro universo de fatos e alimentar a sua militância.

Talvez você dirá que política é isso mesmo. Paixão e espetáculo. Uma guerra sórdida para impor sua versão, seu discurso, sua narrativa, sua hegemonia sobre o outro que deve ser esmagado e desconstruído. A campanha eleitoral da Dilma foi assim no ano passado, mas será que vale a pena?

Eu ainda prefiro apostar na inteligência de quem lê, na sensatez do homem comum, no argumento, na racionalidade. Claro que reconheço essa dimensão de “guerra” e passionalidade que existe no universo da política, mas não considero que este seja o seu aspecto mais nobre. O bem comum, a busca do possível sem abandonar a utopia, o debate que poderá nos conduzir ao consenso, o cuidado da polis, da coisa pública, estas são as dimensões que, no meu entender, deveríamos valorizar na política. Esses aspectos me motivaram a estudar ciência política.

 

Imagem: “Vientos de Guerra” do colombiano Andrés Loboguerrero (2011)

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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4 respostas para “Quando a política se transforma em guerra: os “fascistas direitistas golpistas” e os “petralhas vermelhos””

Marcelo Langer said On 26 fevereiro 2015 Responder

Você me foi recomendado por gente que respeito. Mas seu blog é uma apologia ao óbvio com respaldo digno de qualquer macaco astronauta aposentado da NASA. Na linguagem de minha profissão temos o termo metafórico “mimimi”. Adilam é isto, a Graça Foster é aquilo, o Dirceu tá solto, o bolsa familia é coisa do demônio e por aí vai. Você pode assumir a cátedra disto. Aponta os dedos para todos os lados se escondendo atrás de uma retóriaca absolutamente inútil Náo oferee uma ÚNICA alternativa ao status quo. Passa raspando quando comenta”pois os militares da nova geração não se metem mais em política e nem haveria respaldo internacional para uma insanidade dessas”; Bobagem. Se o General 5 star spangled Ozires Silva não o estiver babando colorido sobe a rampa do planalto, liga para o general duas estrelas no vcomado do primiro exército do Rio e manda cercar o congresso com blindados; Três filas indianas. Senadores e deputados, concursados e comissionados. 3 delegados da PF com terminais do Serpro. Checam os CPFs. Condenados são encaminhado para Guantanamo II em Sergipe AGUARDAR julgamento. Sem pau de arara, sem afogamemtp. sem Doi Codi, sem golpe. Mandam a dilma esperar em regime de prisão domiciliar até que se concluam os inquéritos a ela atribuídos. Impeachement só depois de julgada. Se não é golpe. E outro aI-5 não vai ter graça. Lugar de vagabundo é na cadeia. E não precisa de muro nem guarda prisional. Arame farpado e cerca elétrica. Fica pronto em 15 dias.. Ninguém tenta fuga. e se decreta estad de sítio depos das 19:00 por trinta dias. Saiu na rua fantasiado de Black Block para queimar ônibus no terminal Dom Pedro e orelhões arranca a máscara e encarcera.sem sem direito a sursis.Se resolverem queimar Lamborghinis e Porsches há espaço para máscaras. Mas fuder mais ainda o povo não pode. Com isto se saneia dentro dos princípípios da magna carta um congresso eleito pelo povo e o Jorge Paulo Leman. Johanpeter Gerdau, David Feffer, Armínio Fraga, Gustavo Franco, Marina Silva, David Uip, Antônio Patriota, Gil, Joaquim Bardosa vem/voltam e assumem o comando dos ministérios e o bom velhinho volta para sua cuia de chima. Em cinco anos eles consertam o país. Sem encheção de saco da anistia internacional e com RESPALDO do resto do mundo. De novo, lugar de vagabundo é na cadeia. E num estado democrático não se conserta um país de gente decrépita, faminta e inculta.Simples assim. Sem mimimi.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Marcelo Langer, poderia dizer que teu “mimimi” reacionário é tão óbvio quanto os meus argumentos de “macaco aposentado da NASA”, mas isso em nada contribuirá para um bom debate. Se não gostou do texto, respeito. Se discorda, coloque argumentos melhores do que o senso comum: “lugar de vagabundo é na cadeia”. Certo, e aí? Conte-me outra.

João said On 28 fevereiro 2015 Responder

10) Compreenda que Carta Capital, 247, Revista Fórum, Brasil Atual, Rede EBC, Carta Maior, Conversa Afiada e muitos outros são porta-vozes do governismo.
Ah sim, e Veja, Globo, Folha, Estadão são as porta vozes da verdade. Por que você não recomenda a mesma cautela quanto ao ‘resto’? Aliás, ‘resto’, não, hegemonia.
Tirando isto, a intenção foi boa.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

É uma questão de contexto João. Perceba que estou falando de uma “histeria coletiva” que pode favorecer o petismo no poder, por isso mesmo, citei a blogosfera governista. No mais, você tem razão. Devemos sim fazer leituras críticas de todos os veículos de informação. Abraços!

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