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Quando a esquerda é instrumento da burguesia parasitária

Estado e mercado é um problema clássico na esquerda, em especial, no campo marxista que, na origem, desconfiava do Estado e hoje o ama.

Quando se defende a liberdade do mercado, identifica-se classicamente este argumento como “de direita” e o senso comum entende direita como sendo alguma coisa “contra o povo”.

A defesa do Estado, das regulações estatais na economia e até mesmo da estatização aparece, aos olhos de muitos, como algo “progressista” e de “esquerda”, entendendo esquerda como alguma coisa “a favor dos mais pobres”.

Penso que a realidade social é bem mais complexa do que esta simplificação da díade esquerda e direita. Precisamos repensar isso à luz do socialismo real e das experiências da social democracia européia. Por que viver na Suécia ou Nova Zelândia parece ser bem melhor do que viver em Cuba ou na Venezuela? Pensemos com calma e sem paixões ideológicas a priori.

O caso “petrolão” é muito elucidativo. Quando o Estado detém o monopólio de um setor econômico, há uma tendência entre os empresários de capturar este poder estatal para os seus próprios interesses. É óbvio que empresários não gostam de concorrência e desejam o máximo de lucro possível. Se o Estado tem o controle, o que acontece? Simples. Pressionam o Estado para conseguir tarifas protecionistas contra seus concorrentes, para ganharem subsídios com juros ínfimos (o BNDES se torna uma “mãe dos ricos”) e para criar agências reguladoras que, na verdade, garantem os interesses dos grandes empresários e prejudicam a concorrência que poderia baratear determinado serviço.

O resultado disso é um capitalismo sob controle do Estado, cartelizado, assentado em grandes conglomerados empresariais que mantém com a elite dirigente política acordos nem sempre honestos. Em outras palavras, os empresários “pagam” para garantir seus lucros e impedir que o Estado venha a atrapalhar seus negócios — a propina nasce assim. Grande Estado, grandes propinas. Resultado: baixa transparência na gestão de recursos e baixo controle da sociedade civil. É a festa dos “de cima” e a desgraça dos “de baixo”.

A esquerda defende, tradicionalmente, os interesses dos trabalhadores, dos mais pobres (proteção social) e o combate as desigualdades socioeconômicas. Quem poderá promover essa agenda? Entendem que o Estado é o melhor alocador de recursos, garantidor da justiça redistributiva e mais favorável aos interesses dos trabalhadores do que a corja de empresários gananciosos e egoístas. Mas Marx não dizia que o Estado é “instrumento dos interesses da burguesia”? Por que a esquerda confia tanto no Estado como agente de justiça?

A tese estatista da maioria da esquerda é bacana, simplória, tem forte apelo emocional, simbólico e político. Na prática, a elite estatal (governos e parlamentos) associa-se com os empresários, por conta do que já foi exposto. Empresários elegem políticos em todos os níveis. Não esqueçamos da discussão sobre o financiamento das campanhas eleitorais e quem paga o “almoço” tem lá seus “direitos”.

Quanto mais a esquerda defende o monopólio do Estado na economia, o crescimento do poder do Estado e suas regulações sobre o mercado, indiretamente e sem o querer, ela está ampliando a propina, a corrupção, a ineficiência (sem concorrência, não há melhoria, o Leste Europeu e a ex-URSS já provaram isso) e favorecem a aliança entre empresários que detestam a concorrência e os mecanismos estatais de garantia contra estas mesmas concorrências. A esquerda clássica e apegada aos paradigmas do século passado, ao defender os mais pobres, enterra-os! Claro, com boas intenções.

Dito de outra maneira, a esquerda, quando defende mais Estado na economia e na vida humana, tem como conseqüência não-intencional a ampliação do poder de uma elite corrupta e ineficaz de grandes empresários que se consorciam com este mesmo poder estatal. Os pequenos empresários, agricultores familiares, empreendedores e o cidadão comum são esmagados pela parafernália de regras estatais de regulação que só favorecem os tubarões da economia que tem seus ganhos associados ou quem tem dinheiro para burlá-las.

No final, quem paga a conta do gigantismo estatal? Os pobres e os trabalhadores assalariados, justamente aqueles que a esquerda clássica julga defender. As grandes obras ficam caras, as escolas construídas ficam caríssimas, o sistema médico público é caro, ineficaz e corrupto, as empresas estatais são dirigidas por indicações políticas que se associam com grandes empresários e corroem o dinheiro público, os produtos têm preços mais altos do que o necessário, os serviços oferecidos são de baixa qualidade (protegidos pelo Estado e suas regras), a inflação rouba os salários, os produtos no mercado sofrem tributações exorbitantes etc. Por isso mesmo, não é estranho que grandes tubarões do mercado privado gostem de “governos de esquerda”, sabem que terão grandes lucros e sem concorrência nacional ou internacional.

Para citar um exemplo, os donos de universidades e faculdades particulares preferem um governo que garanta uma cascata de dinheiro via ProUni enquanto as universidades públicas se transformam em lixões. Isso é “progressista”?

Se é correto afirmar, como diz a esquerda, que o mercado absolutamente desregulamentado (criticado como “neoliberalismo”) pode gerar enormes assimetrias, pois nem todos partem do mesmo ponto (as oportunidades são desiguais), por outro lado, um dogmatismo estatista, como defende a esquerda clássica, só prejudica os mais pobres e os trabalhadores que pagam mais caro, assistem o desvio do dinheiro público — conluio entre elites políticas e elites empresariais — e podem ter seus salários corroídos pela inflação sem conseguir fazer investimentos de defesa, afinal, os trabalhadores não tem como depositar suas economias em paraísos fiscais, por exemplo.

A pergunta que fica é: ser de esquerda hoje é defender com unhas e dentes o Estado e a ampliação das regulações sobre o mercado ou investir mais na sociedade civil, na economia solidária, nos empreendimentos auto-organizados pelos trabalhadores, nas cooperativas, na geração de empregos e igualdade de oportunidades, na liberdade do empreendedorismo e na desburocratização do Estado e das regras de mercado? Enquanto uma nova esquerda — antenada com o século 21 e consciente dos fracassos do século 20 — não nasce, ficamos brincando de acusar sempre o outro como “de direita”. É mais agradável repetir manuais e fugir à discussão.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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4 respostas para “Quando a esquerda é instrumento da burguesia parasitária”

DDP said On 16 dezembro 2014 Responder

Besteira esse artigo, ele inventa que se nao há regulamentação de repente os empresarios parasitarios nao existem e o Estado nao é corrupto e nao se formam carteis e oligopolios. Ao contrario, com a desregulamentação os setores se monopolizam mais faciomente, os serviços ficam mais caros e ineficientes porque os grandes vao ter destruido por conta propria a concorrencia. O que adianta falar de estimular o empreendedorismo, se quando alguma empresa nao tradicional começa a se destacar ela é destruída pelas grandes ja estabelecidas? Independente do tamanho do Estado, os ricos vao continuar comprando políticos para servir aos seus interesses e votar leis que os favorecem em detrimento dos mais pobres. Pelos menos o Estado, por ser uma entidade pública, sente mais as pressões da sociedade civil do que uma grande multinacional. Participação do Estado na economia capitalista pode nao ser uma otima alternativa, mas é o melhor que temos a disposição.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Não defendo desregulamentação nos moldes do liberalismo radical, mas o gigantismo estatal, ao que me parece, favorece demasiadamente os sistemas de corrupção nos anéis burocráticos.

João Cavalcante said On 17 dezembro 2014 Responder

olá professor,

Parabéns, você foi muito feliz em seu texto, é exatamente o que acontece e o que penso.
Gostaria apenas se permitir, incluir nesse conluio os sindicatos, sejam de trabalhadores como patronais e também um parte do funcionalismo. Tenho um pequeno negócio e sei muito bem o quão duro é mantê-lo.

um grande abraço

João

Francisco Júnior said On 15 fevereiro 2016 Responder

Perfeito , sintetizou o que penso . O pior é que a esquerda ”clássica” condena a esquerda ”moderna” , fala que é uma esquerda falsa, que só fortalece os interesses da direita …

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