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PERDÃO NATALINO

Ela se sentia sozinha. Ex-evangélica, decepcionada com a Graça, tentava se concentrar na leitura de Bauman. Nada. Passeou pelo e-mail e facebook enquanto ouvia os sons das mensagens que chegavam ao seu celular. Sentia-se aflita com os inúmeros torpedinhos de “feliz natal”.

— Que merda!

Bip! Chegou mais uma mensagem. Ela leu:

— Que Jesus seja a alegria do seu Natal. Cassandra e família.

Piranha! Passou o ano inteiro dando para todo mundo na empresa, agora faz o papel de mulher de família monogâmica feliz e cristã. Pensou, sem nenhum espírito de caridade com os pecados alheios e as incoerências humanas.

Sua timeline estava entulhada de tantas marcações. Ela lembrou-se de Cláudio. Sua boca, seu corpo, seu. Seria sim, um feliz natal, mas…

— Por que as pessoas teimam em esfregar sua suposta alegria na cara de quem não pediu mensagens? Que merda de tantas mensagens! Se eu não responder, logo me chamarão de depressiva e antissocial. Mal educada talvez. Mas se responder a todos, nem poderia viver esse frenesi criado pela cultura do shopping center. Nem quero. Nem vou viver isso. Que se danem todas as mensagens!

Fechou o notebook com violência. Desligou o celular. Sentou-se no sofá. Jogada. Levantou em seguida e foi até a geladeira. Abriu um vinho barato, deitou na taça, guardou a garrafa e voltou para seu sofá. Ligou a TV.

— Creia no senhor Jesus, Ele sim é o verdadeiro natal e não o peru!

Trocou de canal. Não suporto esses pastores de televisão, disse consigo mesma.

— Esse anel de ouro puro por apenas 300 reais, somente para os primeiros 50 telespectadores que ligarem.

Trocou.

— Hoje, Roberto Carlos fará o seu Natal mais feliz, a partir das…

Nem esperou. Pulou diversos números até que uma imagem subtraiu sua irritação.

— Oh my God! Oh my Jesus!

Não era um canal religioso. Pelo menos, não no sentido em que a maioria do ocidente compreende como sendo religião, mas ela gostou. Olhava atentamente e o vinho começou a deslizar, suave, pela sua garganta que ressecava diante daqueles corpos que balançavam de prazer e despertavam lembranças. Cláudio.

As cenas foram mudando suas motivações ou o vinho ou os dois.

— Que papai Noel é esse?

O corpo aquecia. Era ele. A ausência dele. Nas imagens. Um gole de vinho e suas mãos deslizaram pelo corpo, suavemente, como a teclar no piano do orgasmo seu. Ainda era de tarde. As imagens, os dedos, o calor, a bebida.

Ligou o celular. Diversos avisos sonoros, nem ligou. Ligou, mas para Cláudio.

— Oi Amanda, se é para começarmos tudo de novo eu vou desligar?

— Calma meu amor. Cadê o espírito natalino?

— Depois do que você fez ontem, tu ainda tens a cara de pau de falar em espírito natalino?

— Ué… O menino Jesus vai nascer em nossos corações! E o perdão, a paz, o amor, a solidariedade, a…

— Tá de sacanagem comigo Amanda?

— Claro que não! Quero sacanagem contigo, mas é coisa pacífica, brincadeiras de Natal.

A voz estava suave e levemente embriagada. Seu corpo suava e ouvir Cláudio parecia estimular-lhe todos os sentidos. Ele hesitava, mas queria. Compulsão para repetição diria Freud. Que fazer? Entrega-te, pensou ele.

— Passo aí em uma hora.

Desligou. Eram vizinhos e pós-modernos. Nada de casamento tradicional. Moravam em casas separadas, mas unidos pela mesma paixão. De corpos, de almas.

Amanda sorriu. Abandonou as cenas na sala, o celular e acabou de um gole todo o vinho. Tirou imediatamente sua roupa. Apenas uma blusa e a calcinha. Entrou no banho por trinta minutos e mergulhou em cheiros e cremes importados.

A campainha tocou.

— Já vou!

Enrolou-se na toalha vermelha. Ele entrou, tinha a chave. Ela abriu a porta que dava para a varanda da frente e estava ele. Lindo, como sempre, mas sem sorriso. Seu perfume amadeirado, o tronco, os braços fortes e os chinelos davam-lhe um ar moleque. Já era maduro. Ela piranha.

— Entre e me perdoe!

Ele entrou, pegou-a firme pelos braços, jogou-a no sofá e sobre ela mostrou-lhe toda a selvageria do seu perdão. A taça de vinho, vazia, fitava-os, lembrando o verdadeiro espírito natalino.

Bip! Chegou mais uma mensagem no celular: Feliz Natal!

 

 

Obs. Publicado originalmente no Natal de 2013, em Unaí-MG.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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