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Para entender o espiritismo

O espiritismo foi fundado, na segunda metade do século XIX, pelo pedagogo francês prof. Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec. Ele reuniu um conjunto de observações, reflexões filosóficas e mensagens de diversos espíritos que configuraram o que veio a ser a “doutrina espírita” ou “doutrina dos espíritos”. O termo “kardecismo” é rejeitado pela maioria das suas lideranças que consideram a origem do espiritismo “extramundana”, portanto, Kardec não teria sido propriamente o “fundador”, mas o organizador (“codificador”) à serviço dos espíritos bons e sábios que ditaram os textos e supervisionaram todo o trabalho.

No Brasil, o espiritismo cresceu sobremaneira, especialmente pelo seu viés mais místico e cristão, reforçado por figuras devotas como Bezerra de Menezes e Chico Xavier, tendo a frente a Federação Espírita Brasileira (FEB). Ainda hoje, o espiritismo continua crescendo através de médiuns como Robson Pinheiro, Zíbia Gasparetto, Wanderley Oliveira, Divaldo Pereira Franco, Raul Teixeira, Francisco do Espírito Santo Neto e pencas de livros do espírito Ramatís.

Há muitas controvérsias internas sobre o caráter do espiritismo. Ele seria uma nova religião, uma filosofia de vida aberta para qualquer pessoa religiosa ou não, uma ciência empírica de novo tipo com conseqüências morais? As discussões não têm fim. Elas se dão inclusive sobre o status das diversas mensagens enviadas pelos espíritos através da psicografia. Quais seriam as mensagens “verdadeiramente” espíritas? Quais os elementos culturais brasileiros que distorcem as intenções do projeto kardequiano?

As diversas narrativas disputam o legado kardequiano que, no Brasil, é estimado em 20 milhões de adeptos e um número muito maior de simpatizantes. As ideias espíritas são mais amplas que o próprio espiritismo, já que milhões acreditam na reencarnação, em Deus como inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, na comunicação entre o mundo dos espíritos e o mundo dos vivos (“encarnados”) e na salvação como processo contínuo de evolução até que todos cheguem a “casa do Pai” (em teologia, salvação universal).

Sendo assim, penso que o correto seria falarmos em “espiritismos” já que há diversidade de interpretações e não existe nenhum “comitê central” capaz de dizer quem é verdadeiramente espírita e/ou impor uma unidade interpretativa. Da mesma forma que o protestantismo se dividiu entre luteranos, batistas, metodistas, presbiterianos etc. o espiritismo também tem suas divisões internas entre laicos, roustenguistas, ubaldistas, ramatisianos/universalistas, kardequianos religiosos etc. Em comum, todos respeitam as obras básicas de Allan Kardec como marco fundacional de uma nova era para a humanidade.

Distante dessas disputas internas, as massas que acorrem aos centros espíritas buscam apenas uma mensagem de consolo e bom ânimo diante das batalhas dessa vida. Recorrem aos passes, água magnetizada e cirurgias espirituais para aplacar seus sofrimentos do corpo e da alma. A leitura, especialmente de romances espirituais, é amplamente difundida. Os estudos das obras de Allan Kardec são feitos, ora de forma sistematizada e dogmática; ora de forma mais aberta, crítica e contextualizada. A diversidade é a marca.

O grande sucesso popular ainda é a obra de Kardec intitulada “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Nela encontramos uma reinterpretação da moral cristã sem dogmas, dando ênfase à mudança interior e pessoal (“reforma íntima”) através da prática do amor-caridade como o caminho de “salvação” para todos os seres humanos e para a estruturação de uma nova sociedade fraterna.

 

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Veja o vídeo sobre a vida e obra de Allan Kardec

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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Uma resposta para “Para entender o espiritismo”

Luciana said On 25 janeiro 2015 Responder

Amigo, que texto ótimo! O pior é que são justamente aqueles que rejeitam e combatem a ideia do espiritismo ser uma religião, que mais agem como religiosos (e fanáticos!!!). Se eles pudessem, mandavam os hereges espiritólicos para a fogueira! hahaha
É triste, amigo, essa confusão toda com algo que foi enviado pela espiritualidade para a libertação da alma e expansão da mente! Mas como vc sabe, acredito ser uma fase necessária, embora frustrante. Um dia tudo vai encontrar a ordem e a harmonia. :)

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