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O “sincericídio” de Marina: o anti-marketing de uma liderança política

Gosto de Marina Silva, como pessoa e como liderança política. Votei nela em 2014 no primeiro turno, ajudei na construção da Rede Sustentabilidade, sou filiado ao partido e considero que ela é o melhor nome/projeto para a presidência do Brasil em 2018.

Marina tem valores pessoais importantes: honestidade, caráter, compromisso com os trabalhadores e com a população socialmente vulnerável, inteligência e habilidade, promotora da paz, antipopulista, republicana, laica etc.

Sei bem que a “pretíndia” ─ como carinhosamente é chamada por Gil ─ não é propriamente de “esquerda” ou socialista (ainda que sua origem seja o Partido Revolucionário Comunista/PRC), mas sustenta posicionamentos progressistas e avançados em diversos pontos programáticos.

Na presidência, penso que ela pode ser um vetor importante para, em conjunto com o parlamento e movimentos sociais, colocar o Brasil em patamar mais avançado no interior da ordem global do capital. E na medida em que ela defende o paradigma da sustentabilidade, creio que o conflito da Rede/Marina com os interesses do mercado financeiro, do baronato de nossa atrasada burguesia industrial e dos poderosos latifundiários do agronegócio brasileiro será inevitável. Sua liderança poderá ajudar a unir o povo nessa empreitada socioeconômica e cultural, mas a linguagem não ajuda.

O problema, vendo a entrevista dela ontem — programa É NOTÍCIA da Rede TV — é que Marina Silva sofre de terrível “sincericídio” (suicídio político pelo uso de verdades que incomodam), contrariando o marketing populista de dizer coisas mais agradáveis e fáceis de compreender, preto ou branco. Marina fala uma linguagem que o povo não entende.

As massas querem A ou Z, mas Marina tenta explicar que no mundo existe um alfabeto de oportunidades, possibilidades e interpretações. Ela relativiza, problematiza, passa pela teologia, fala em psicanálise e projeção de Michel Temer, mergulha em conceitos como horizontalidade, democracia de alta intensidade, consenso progressivo, perdão e amor como motores da transformação sociopolítica etc. É bacana, nobre, bonito de se ouvir, mas quem entende isso, além de intelectuais, artistas e parte da classe média letrada? Tem a identificação por imagem. Ela é negra, cabocla, alfabetizou-se tardiamente, vem dos cafundós do Acre, sempre trabalhou muito. É a cara do povo brasileiro. Mas será que o povo gosta de se ver na tela da história? Joãozinho Trinta dizia que o povo gosta de luxo e não de pobreza ou simplicidade. Estaria o histriônico carnavelesco equivocado ou descobrira ele um dado social e psicanalítico importante de nossa brasilidade?

A quantidade de vezes que, na entrevista, ela assume “não sei” é algo que me toca. Admiro pessoas que dizem não saber. Esse humilde ceticismo evita arrogâncias exclusivistas, mas espanta a maioria das pessoas que necessitam de líderes messiânicos, cheios de certezas que possam servir de amparo para um ego danificado e frágil. A impressão que fica, para o senso comum, é de uma pessoa “indecisa” ou “utópica” demais, “fraca” e sem certezas. Os pragmáticos ficam tensos com suas falas, com sua escrita escorregadia e incerta, com suas metáforas e alegorias. Marina está mais para a Universidade e para o divã, como psicanalista, do que para a ação política de massas em país latino-americano. Ainda assim, tenho esperanças e assumo o risco. Quem sabe?

Apoio Marina e penso que seu “choque de capitalismo”, com base no paradigma da sustentabilidade, poderá mover, no médio-longo prazo, a locomotiva da história brasileira, abrindo brechas para múltiplas ações sociais onde, no limite, poderá emergir uma nova sociedade, outro mundo pós-capitalista.

É minha aposta, pois não acredito que sustentabilidade se conjugue pacificamente com o capitalismo de mercado e sua democracia oligárquica, tal como o conhecemos hoje. Vamos ver.

 

Clique aqui para ver a entrevista de 25 de janeiro de 2016 (REDE TV)

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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10 respostas para “O “sincericídio” de Marina: o anti-marketing de uma liderança política”

Hylton Sarcinelli Luz said On 26 janeiro 2016 Responder

Márcio, estamos de acordo, compartilho este percepção e obrigado por dar palavras a este controverso sentimento de interrogações e crença. Talvez seja exatamente isso o que pode comover a população, ouvir quem fala de sentimentos e sentidos para a vida e, deste modo perceber a brutal diferença do perfil tradicional. Também não tenho certeza, não sei se esta é a medida que toca as almas e pode fazer as massas despertarem para a necessidade das mudanças.

Marcio Sales Saraiva said On 27 janeiro 2016 Responder

Estamos juntos querido Dr. Hylton nas incertezas e nas apostas. Quem sabe, como disse Felipe Maia e Rômulo Carvalho, o povo não precisa de um político #semfiltro, direto, sincero, sem promessas levianas, sem conversê malandro. Pode ser, pode ser….

Renan said On 26 janeiro 2016 Responder

Ótimo texto. Concordo integralmente com você.

Gosto de Marina, meu voto foi dela em 2010 e 2014, e muito provavelmente será em 2018. Mas ela deixa muito a desejar na hora de se expressar. Ela precisa trabalhar melhor nisso.

Abraço

Joao said On 27 janeiro 2016 Responder

Marina não consegue falar a língua do povo porque não fala a língua preto/branco. Marina é cinza, Marina é oposição quando projetos que apenas visam aumentar o populismo sofrível desse governo são aprovados na Câmara, Marina é situação quando bons projetos são propostos pela base governista. Marina é uma política de alto nível – o Brasil não está preparado para recebê-la. E essa falsa polarização em que o Brasil se atolou só prejudica um eventual ressurgimento de Marina.

Paulão said On 28 janeiro 2016 Responder

Rapaz gostei muito do seu texto,mas como brazuca que sou (operario do porto),não entendi um bocado de palavras que vc usou,mas gostei assim mesmo e concordo com o que endendi.

Marcio Sales Saraiva said On 29 janeiro 2016 Responder

Fico feliz com sua leitura e qualquer dúvida, me mande um e-mail: saraivamsales@gmail.com
Abraços!

Patricia said On 31 janeiro 2016 Responder

Frequentemente me sinto quase um ET por gostar muito da Marina, da sua coerência, da sua honestidade, da sua história, da sua competência, da sua visão, etc. Fiquei feliz de ler essa opinião. Me senti menos sozinha. Mas também não me importo com a opinião de massa sobre Marina. Pra mim é mais uma evidência de que ela está certa. E afinal todos os revolucionários tiveram um duro começo. Marina é o futuro.

Marcio Sales Saraiva said On 16 fevereiro 2016 Responder

Patrícia, estamos juntos e somos milhões de brasileiros!

Paulo Rodrigues said On 21 março 2016 Responder

Márcio, votei nela em 2010 e 2014 mas estou decepcionado por ela não se posicionar veementemente a favor do meio ambiente e populações atingidas nos últimos golpes que sofreram.

Marcio Sales Saraiva said On 13 abril 2016 Responder

Ela se posicionou sim Paulo. Procure mais informações. Abraços

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