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O primeiro governo de FHC e o “Estado necessário”

O livro nasce com uma entrevista dada por Fernando Henrique Cardoso para a revista Veja em 10 de setembro de 1997. O jornalista Roberto Pompeu de Toledo acrescentou mais vinte horas de entrevistas feitas entre 27 de outubro de 1997 e 20 de novembro do mesmo ano. E o penúltimo ano do primeiro governo FHC e o clima era de otimismo com o Brasil — será que a tese da reeleição ajudou nisso?

A entrevista é datada, mas o livro traz pérolas de imenso valor para quem gosta de estudar a política brasileira. A linguagem é objetiva e as didáticas notas de rodapé ajudam o leitor que não tem domínio sobre conceitos da sociologia, ciência política e economia, bem como esclarece personagens e siglas importantes.

FHC fala de tudo um pouco. A nossa herança escravocrata, a hierarquia social do “sabe com quem está falando?”, crise dos partidos políticos e alianças (onde critica o simplismo de chamar de liberal qualquer um que pense o mercado), a teoria da mudança social (curto-circuito e revolução), o Plano Real (e a tentativa dele de lançar o gaúcho Antônio Brito [PMDB] ou o cearense Tasso Jereissati [PSDB] para presidente em 1994), globalização (onde defende a tese da “inserção soberana”, na época, criticada pela esquerda radical que era contra a globalização), a queda do Muro de Berlim, a defesa de um Estado regulamentador/indutor (e a suposta injustiça dos que o chamavam de “neoliberal”), Mercosul, drogas e violência, o poder da mídia, religião e política (há críticas sobre a tentativa de juntar marxismo e cristianismo na Teologia da Libertação e FHC considera que os católicos progressistas não compreenderam Marx), campanha eleitoral e marketing, direita e esquerda no Brasil (aqui ele reclama da falta de diálogo do PT e diz que não há uma direita organizada e assumida no Brasil), burocracia estatal e fisiologismo, os partidos e a função presidencial, reformas políticas, o federalismo brasileiro, Nordeste “atrasado”?, questões indígenas, o MST, saúde e orçamento democrático, reforma do Estado (econômica e social), a tal “democracia racial”, avaliação dos presidentes do Brasil, o regime militar e um pouco da história do seu pai.

Não se trata de um livro profundo ou acadêmico. FHC está “passeando” por diversos temas. Lendo o livro de 1997 com o olhar de 2014 é fácil perceber onde FHC se equivocou e onde ele foi “profético” em relação ao Brasil. Além disso, podemos notar os temas-gargalos onde até hoje o Brasil não andou, como na reforma do Estado, reforma política, o velho debate esquerda versus direita, o poder da mídia, a “marquetagem” que sufoca os conteúdos das campanhas eleitorais, a dificuldade em aceitar os limites de um Governo, o problema de articulação no Congresso Nacional que pede “mundos e fundos” aos governos de plantão, a sede de poder dos partidos políticos (o PSDB reclamava que o PFL/DEM “mandava” demais no governo) etc.

O capítulo 16 — sobre os partidos — é profético ao falar do “transformismo” do PT. Lula, ex-cabo eleitoral de FHC quando este foi candidato ao Senado pelo MDB-SP, acaba aderindo ao PT fundando pelos trotskistas da Convergência Socialista (atual PSTU). FHC critica a “estreiteza” de um partido da classe trabalhadora e defende a ideia de um partido das massas assalariadas que incluísse a classe média, nos moldes da social-democracia européia.

Na época, Lula simbolizava o mito do operário bom, laborioso e reivindicador o que ocasionou danos a imagem de FHC como “pessoa má” e “de direita” somente porque derrotou Lula, “o homem bom”. O sociólogo tenta demonstrar que sempre foi amigo de Lula e que o PT deveria dialogar com ele, ao invés de se colocar como inimigo do governo. Hoje sabemos que FHC contribuiu para a transição governamental quando Lula já dava sinais de que ganharia as eleições de 2002, mas o livro não aborda isso, por óbvio, é de 1997.

FHC defende o PSDB como um “partido de centro olhando para a esquerda” e se mostra otimista com o Brasil:

“Supondo que não haja duas coisas — colapso econômico e desatino político — acredito que em questão de dez ou quinze anos mudamos qualitativamente o Brasil” (p. 267).

Há pontos polêmicos onde FHC defende a meritocracia, critica o burocratismo das Universidades federais, considera a pauta de MST “atrasada” (ainda que necessária) em termos capitalistas, o mecanismo da reeleição, o erro da mídia de atribuir intenções aos atores políticos, a defesa das privatizações como dinamizadoras do capitalismo brasileiro, o erro de nomear ministros achando que irá ganhar o apoio do partido político dele (alô Dilma!), a necessidade de quebrar a aliança entre setores corruptos da burocracia estatal com a burocracia das grandes empresas — olha a Petrobrás aí gente! — e a ingenuidade do voluntarismo moral do PT.

O livro merece ser lido, desde que você não tenha ilusões de que irá encontrar ali teses acadêmicas do sociólogo FHC, mas bons insights e informações interessantes você encontrará com certeza. Mais ainda, perceberá que a “satanização” de FHC e do PSDB não faz sentido, pois diversos pontos defendidos pelo então presidente em 1997 é hoje consenso, até em setores de esquerda. Nada como o tempo.

O presidente segundo o sociólogo: Entrevista de Fernando Henrique Cardoso a Roberto Pompeu de Toledo. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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