Blog

Home/Blog/O heroísmo cotidiano: honestidade, trabalho e honra num mundo sem coração

O heroísmo cotidiano: honestidade, trabalho e honra num mundo sem coração

Mario Vargas Lliosa é peruano, tem 79 anos e já é um autor consagrado da literatura latino-americana. Em 1994 recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes e em 2010 o Prêmio Nobel de Literatura. É autor de “Batismo de Fogo” (1963), “A casa verde” (1966), “Lituma nos Andes” (1993), “Travessuras da menina má” (2006) e de diversos outros romances, peças de teatro e ensaios.

O romance “O herói discreto” (2013), seu último trabalho, traz dois personagens importantes.

Na pequena cidade de Piura, no interior do Peru, Felícito Yanaqué, dono da empresa de transportes Narihualá, casado com Gertrudis e pai de dois filhos, é um exemplo de empresário que cresceu com muito trabalho e de forma honesta. “Homem de colhões”, não participava de nenhum cartel, não pagava propinas e acabou sendo vítima de ameaças e chantagens por conta de mafiosos que queriam extorqui-lo, mas ele “não arriou as calças para esses filhos da puta”. O esquema das cartas com símbolo da arainha é semelhante a “proteção” dada por narcotraficantes e milicianos em troca de dinheiro. Yanaqué não aceita o jogo, denuncia o caso para a polícia — mesmo esta instituição sendo suspeita de ligação com a máfia — e irá até as últimas conseqüências. O desfecho é absolutamente surpreendente.

O relacionamento de Yanaqué com sua amante Mabel e, depois, as descobertas sobre a profundidade das dores e sofrimentos de sua esposa Gertrudes, foram os momentos mais dolorosos da minha leitura. Estava no trem, da Central para o Engenho de Dentro, e as lágrimas caíam. Sou do tipo que, dependendo da beleza da construção literária, choro mesmo.

Não se tratava de um triângulo (Yanaqué-Gertrudis-Mabel) típico das putarias machistas. Tinha elementos de amor, generosidade, companheirismo, frustração, silêncio e purgação de pecados.

“(…) com o passar dos anos sua mulher [Gertrudis] tinha se transformado numa espécie de móvel, que deixara de ser uma pessoa viva. Os dois passavam dias inteiros sem trocar uma palavra, fora os bom-dia e boa-noite”.

Paralelo a isso, na capital Lima, outro empresário, muito mais rico, internado por problemas de saúde, percebe nos cochichos de seus dois filhos, “uma hienas vagabundas”, que os mesmos torcem pela sua morte para ficarem logo com toda a herança. Diante deste desejo, Ismael Carrera, dono de uma empresa de seguros, “ressuscita”, casa com a pobre e honesta Armida e vai ser feliz longe dos dois. A trama que se segue é assustadora. O ódio dos filhos, a busca por destruir Armida e tomar a empresa e o dinheiro do velho pai, revela as facetas mais cruéis de uma sociedade de consumo, a ausência de limites de um superego, a crise moral de nossa sociedade.

“Era velho de merda para cá, que exploda de uma vez para lá, tudo isso a menos de um metro de mim, felizes por saber que eu estava agonizando —lembrou Ismael, falando devagar, com os olhos perdidos no vazio. —Sabe de uma coisa, Rigoberto? Eles me salvaram da morte. Sim, eles, juro. Porque quando ouvi essas barbaridades me deu uma vontade incrível de viver. Para não dar esse prazer a eles, para não morrer. E juro que meu corpo reagiu. Foi aí que decidi, ali mesmo na clínica. Se me recuperar, eu me caso com Armida. Vou foder com eles antes que eles me fodam”.

Eu fui mastigando a leitura de Llosa. Não fiz de um pulo. Foi quase um ano lendo o livro de 342 páginas. A angústia da trama, em alguns momentos, parecia me paralisar.

O elemento mais belo de todo o livro é a discrição dos seus heróis. Todos eles têm aversão pela imprensa, fama, entrevistas, jornalistas etc. São seres do cotidiano, que aprenderam a viver uma vida correta com seus pais e avós. Não se acham melhores e nem superiores, não são perfeitos ou “santos”, mas apenas reproduzem o que consideram o certo, o justo, o que deveria ser feito.

Yanaqué, em alguns momentos, lembrou-me a corretude do pobre Padre Amâncio, do romance “Pedra Bonita”, de José Lins do Rego. Não sei se exagero ou crio uma correlação indevida ao dizer que Felícito Yanaqué é uma versão agnóstica de Padre Amâncio com uma Bíblia de apenas um trecho: “Nunca se deixe pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que posso lhe deixar” (p. 11) disse seu pai.

Outro elemento chave é a centralidade do trabalho como valor positivo. Todos os heróis trabalham e duro. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber, veio à mente em alguns momentos da leitura.

A narrativa de Vargas Llosa corre em duas histórias paralelas até se encontrarem nos últimos capítulos, com recursos de flashback no interior da mesma narrativa que não confunde o leitor, pelo contrário, esclarece detalhes importantes.

Se você não tem o preconceito ideológico, típico em alguns setores da esquerda, de que todos os empresários são seres abjetos e corruptos, recomendo a leitura de “O herói discreto”. Tem até um espírito chamado Edilberto Torres, mas “não sei se existe ou não existe” (p. 97), aliás, “é impossível conhecer as pessoas a fundo, são todas insondáveis” (p. 175).

 

LLOSA, Mario Vargas. O herói discreto. Rio de Janeiro, Objetiva, 2013.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
Gostou do artigo?
Assine a newsletter e receba as novidades em primeira mão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>