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O compromisso do cristão com o que é justo

Em novembro de 2010 eu comecei a leitura de “Bonhoeffer, o mártir. Responsabilidade social e compromisso cristão moderno” (Editora Vida) e terminei hoje. A vida e as palavras de Bonhoeffer são profundas e inquietantes, desaloja-nos, ainda que o autor do livro nos conduza sem nenhum academicismo hermético. Trata-se de Craig Jonathan Slane, professor de Teologia na Universidade de Simpson em Redding, Califórnia. Ao receber seu PhD pela Faculdade Luterana de Teologia em Chicago, em 1999, Slane começou a escrever e lecionar extensivamente sobre a vida e o legado de Dietrich Bonhoeffer.

Este livro é de 2004, mas foi lançado no Brasil em 2007. Centralmente, o autor defende a tese de que o pastor luterano e antinazista Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) é um mártir da igreja cristã, mesmo sendo ele alguém que conspirou para matar Hitler — portanto, alguém que assumiu seu pecado de ter tentado assassinar outro — e acabou preso pela Gestapo e enforcado três semanas antes do suicídio de Hitler, em 09 de abril de 1945, no campo de concentração de Flossenbürg.

A primeira parte do livro é um longo debate sobre o status de mártir. A pergunta que o autor faz é: Bonhoeffer é realmente um mártir? Slane então conta a origem burguesa de um cristão radical, o problema do martírio — na medida que a ordem sociopolítica o condenou como “traidor” e não como cristão — e sua origem no cristianismo como “imitatio Christi”, o próprio Jesus de Nazaré como ícone do martírio etc.

O capítulo 5 é de grande riqueza teológica e mística. Nele encontramos algumas reflexões de Bonhoeffer sobre a morte e o martírio. Para ele, há dois tipos de igrejas no mundo. Uma busca o sucesso e se torna escrava dos poderes desse mundo (não é o que mais vemos hoje?) e a outra vive da fé em função da “cruz do Gólgota”. Em tempos de “show da fé” e descompromisso dos cristãos com a justiça (“a defesa dos mais fracos e dos mais indefesos”), as reflexões e práticas de Bonhoeffer parecem esquisitas, desencontradas. Elas falam de outro tempo, de outro cristianismo, onde o discipulado, baseado na ética do Sermão do Monte, era central. Diz Bonhoeffer:

“Sei que, internamente, serei realmente puro e honesto somente quando tiver começado a levar a sério o Sermão do Monte”

E quem, hoje, leva a sério essas questões éticas que envolvem um compromisso com a prática social? O século 21 apresenta um cristianismo acomodado aos poderes desse mundo e, quando não, defendendo valores contrários ao martírio, ao sofrimento pela justiça e aos mais fracos.

“Fugir na direção da invisibilidade é negar o chamado” de Cristo, dirá Bonhoeffer sobre a comunidade de fé, a igreja. Sendo assim, “o mundo deve ser contradito no mundo” e a igreja assume sua função profética e visível contra os poderes opressivos das trevas, do totalitarismo e da injustiça.

O compromisso do cristianismo com os judeus, a partir de uma leitura de Gálatas 3:28, leva Bonhoeffer a se escandalizar com a omissão dos cristãos alemães diante da barbárie do nazismo. Considerava que destruir o nazismo era preservar a civilização cristã e manter a coerência entre o que se crê e o que se faz (o penúltimo capítulo tem oportunas reflexões sobre fé e prática, juízo moral e juízo prudencial, ponto de vista moral etc.). A fé é expressão do nosso relacionamento com Deus numa nova vida de “existência em favor dos outros” (servir), portanto, incongruente é calar-se diante das injustiças, das perseguições, do totalitarismo e ainda assim dizer-se cristão, mantendo-se apenas como “observador” distante das questões do mundo.

“Desse modo não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gálatas 3:28)

A parte 2 do livro é um panorama da interpretação (hermenêutica) do martírio, colocando a própria vida e fé do cristão como morte contínua. O capítulo 8, “A vida cristã como prática de morte” é altamente recomendado.

No final (parte 3), o livro aborda o próprio Dietrich Bonhoeffer na perspectiva martiriológica e sacrificial. Primeiro pela centralidade de sua cristologia, tendo como fato o encontro com Jesus Cristo, Aquele do Sermão do Monte, que nos impulsiona a sermos discípulos nesse mundo. A natureza humana considera insuportável viver o Sermão do Monte, portanto, os cristãos vivem em contradição e dor, uma vida marcada pelo que se é e um ainda não. Ele chama isso de viver sua “cruz” e alerta-nos para os perigos de uma domesticação do caráter insubordinado e subversivo da Boa Nova de Jesus pela teologia. Para Bonhoeffer, esta operação significa que “Cristo ainda está sendo traído por um beijo”.

Encontrando Cristo no mundo é um dos eixos do pensamento bonhoefferiano, contrário a um misticismo alienado e voltado para si mesmo. Lembre-se, fé é existir em favor dos outros. Ética cristã, realidades penúltimas, justificação pela graça, sentido da morte e o compromisso do cristão com o mundo. Dirá Bonhoeffer, num dos momentos mais emocionantes do livro:

“A terra [o mundo!] permanece sendo nossa mãe, assim como Deus permanece sendo nosso pai, e nossa mãe só colocará nos braços do Pai quem permanecer fiel a ela”.

Essa é a perspectiva de unidade (mãe terra, Deus pai) que defenderá a responsabilidade dos cristãos pela “modelagem da história em toda a situação e em todo o momento, sejamos nós os vitoriosos ou vencidos” diante do regime de opressão.

No capítulo 11 temos a vida de Bonhoeffer na comunidade de Finkenwalde e como isso o influenciou e o preparou para o testemunho diante das forças nazistas. As questões transmorais, a importância do ritual/liturgia como fixação da ética na comunidade, a restauração da igreja através de um novo tipo de monasticismo que ressalte o discipulado ativo (João 3:21), a simplicidade litúrgica contra o “liturgismo esteticizante” (confissão pessoal, oração intercessória e meditação) etc.

Ser cristão é, para Bonhoeffer, viver em oração intercessora e atos de justiça. Por isso mesmo, o teólogo vê com seriedade a recomendação de Provérbios 31:8:

“Fale a favor daqueles que não podem se defender. Proteja os direitos de todos os desamparados”

É esse o caminho do seu martírio e seu exemplo cristão torna-se um sinal da presença sofredora de Deus nesse mundo e a favor desse mundo. Bonhoeffer levou às últimas consequências o compromisso que todo o cristão deve ter com a justiça, ainda que pague preço de sangue.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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2 respostas para “O compromisso do cristão com o que é justo”

Adriana Brasil said On 5 março 2015 Responder

Em minha “Divina Incompletude”: um texto quase completo! Que você sempre seja inspirado pelo ” Céu dos céus” a conduzir a muitos a altaneiras Verdades Eternas.

Marcio Sales Saraiva said On 15 março 2015 Responder

Obrigado Adriana Brasil.

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