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O aniquilamento da esquerda brasileira ou a festa da direita

Sempre considerei uma lástima a ausência de uma direita brasileira nítida, objetiva e assumida. Com o fim da ditadura civil-militar (1964-1985), pegava mal alguém se dizer “de direita”. A palavra ficou associada a “ditadura”, “fascismo”, “torturador”, “dedo-duro”, “anti-povo”, “lambe-saco do FMI” etc. Não é por acaso que o partido que dava sustentação política ao regime civil-militar mudou seu nome em 1980 de “Aliança Renovadora Nacional” (ARENA) para “Partido Democrático Social” (PDS). Até a direita gosta da palavra “democracia” e “social” ou social-democracia. Nenhum partido de direita, no Brasil, se diz claramente de direita.

Depois que as eleições diretas para presidente não passou pelo Congresso Nacional (a emenda Dante de Oliveira foi derrotada), em 1985 tivemos eleições indiretas para presidente. O partido da direita (PDS) rachou e formou-se a “Frente Liberal” para apoiar o candidato de oposição, Tancredo Neves. Parcela dos milicos e a direitona ficou com Paulo Maluf, candidato oficial do regime. Maluf perdeu, Tancredo ganhou e a “Frente Liberal” se transformou em PFL (Partido da Frente Liberal) no mesmo ano.

Veja bem. O PFL era um partido liberal em economia, mas de direita no campo moral-político. O nome “liberal” poderia ocultar sua carranca política. Aureliano Chaves, Marco Maciel, Jorge Bornhausen, Ney Braga, Guilherme Palmeira, José Sarney, Antônio Carlos Magalhães (vulgo “Toninho Malvadeza”) e José Agripino Maia, os cabeças da nova legenda, eram também cabeças de sustentação da ditadura pós-64.

Em 2007, o PFL será refundando com novo nome: os democratas (DEM). Cambalacho ideológico? Sim, pois tradicionalmente os democratas (nos Estados Unidos) são conhecidos como o partido mais “progressista” e considerado por alguns politicólogos como de “centro-esquerda” diante da direita USA – os republicanos. Enquanto no Brasil, os nossos democratas (DEM) nada mais eram do que a metamorfose de uma dissidência que sempre apoiou a ditadura militar.

E o PDS? Também mudou de nome. Extinto em 1993, depois da fusão com o pequenino “Partido Democrata Cristão” (PDC), ele passou a se chamar “Partido Progressista Renovador” (PPR). Em 1995 mudou novamente para “Partido Progressista Brasileiro” (PPB) e, por último, em 2003, morreu e reencarnou como “Partido Progressista” (PP). Ficava claro que a velha direita conhecida como ARENA aderira a moda pós-ditadura e passou a se chamar de “progressista”, uma etiqueta tradicionalmente atribuida aos grupos de esquerda. É uma fraude ideológica? Sim, mas a direita brasileira é envergonhada.

Não sei se você notou, mas o PDS da ditadura militar mudou de nome três vezes e hoje é conhecido como PP, partido que apoia o governo Dilma, em tese, liderado por um partido que se coloca como “de esquerda”. O PP apoia o governo do PT. Entendeu? Não? Sigamos em frente.

Recentemente, pós-Olavo de Carvalho, começou um movimento de auto-estima positiva dentro da direita brasileira que ampliou-se com as redes sociais. Gradualmente, perdeu-se a vergonha de se assumir como pessoa de ideologia conservadora, liberal de direita ou radical de direita (defendendo, por exemplo, golpes militares, elitismo e regimes de força).

No campo da representação parlamentar, poucos ainda assumem esse campo político de direita, ainda que por debaixo dos panos, sabemos que a maioria do Congresso Nacional é conservadora e tendencialmente de direita. No DEM encontramos Ronaldo Caiado, no PMDB há Eduardo Cunha e Kátia Abreu, no PP temos Jair Bolsonaro. Há movimentos que proliferam como a velha conhecida Ação Integralista Brasileira (AIB), Revoltados On Line, Brasil Livre, Endireita Brasil e S.O.S. Forças Armadas, todos de direita.

O PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira), nascido em 1988 de uma dissidência do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro, que foi oposição na ditadura militar) anti-Sarney e anti-Quércia, reinvindicou-se de centro-esquerda. Depois que assumiu o poder com a eleição de Fernando Henrique Cardoso (FHC) em 1994, o partido deu uma guinada à direita, tornando-se centrista-liberal em vários aspectos. Afinal, o PSDB governou o Brasil com o apoio do PFL (depois DEM) e do ex-PDS (PPR, PPB e depois PP). Recentemente, alguns setores do PSDB fazem discursos mais a direita, defendendo alianças com grupos de direita (MBL, Revoltados On Line, #VemPraRua), redução da maioridade penal, combate aos direitos LGBT etc.

Em síntese, no campo da representação política, encontramos a direita brasileira espalhada por partidos como DEM, PP, PR, PSDB, PMDB etc. Parte significativa desta direita deu sustentação política a “Era PT”, também responsável por esta depravação da esquerda brasileira.

Se na Constituinte, nos anos 80, as forças progressistas e de esquerda tinham grande peso político e conseguiu barrar propostas de direita – lideradas pelo chamado “Centrão” -, hoje a esquerda está desmoralizada pelos governos petistas (corrupção e gestão equivocada da economia) e em franca minoria. Os grandes meios de comunicação, aliados com grupos de direita nas redes sociais, aproveitam-se dos escândalos de corrupção do governo PT para ridicularizar toda a esquerda e massacrar a ideia de comunismo.

Neste momento histórico, tudo de ruim está sendo associado as palavras “socialismo”, “esquerda” e “comunismo”, como se o PT fosse o representante fiel, único e legítimo destas expressões ideológicas. Aqui não quero fazer história do PT, fica para uma próxima oportunidade.

O fato é que a ideia de “esquerda” está sendo desconstruída numa batalha ideológica que visa aniquilar qualquer tentativa futura de mudança social, garantindo assim plena hegemonia ideológica para a direita, agora com a auto-estima elevada.

Para quem ainda se reinvindica no campo político da esquerda ou tem no comunismo – que não pode ser reduzido e confundido com o socialismo real – uma utopia radical de transformação societária, são tempos sombrios. A resistência é o caminho para enfrentar a guerra ideológica que pretende nos aniquilar do mapa político do Brasil.

Que o PT sofra as consequencias dos seus erros e alianças, mas nem toda a esquerda pode ser responsabilizada por este governo mequetrefe de Lula-Dilma, incluindo aí uma pleiade de marxistas/comunistas que não se curvaram ao neopopulismo messiânico do petismo no poder. A utopia democrática-igualitária permanece no horizonte de uma sociedade que vai se desintegrando com a crise ambiental, econômica, social e de representação política.

 
P.S. Estou usando esquerda e direita inspirado numa perspectiva adotada por Norberto Bobbio, ainda que eu tenha em relevo as relativizações dessa díade feita por Anthony Giddens.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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9 respostas para “O aniquilamento da esquerda brasileira ou a festa da direita”

Andre said On 31 julho 2015 Responder

“Neste momento histórico, tudo de ruim está sendo associado as palavras “socialismo”, “esquerda” e “comunismo”, como se o PT fosse o representante fiel, único e legítimo destas expressões ideológicas. Aqui não quero fazer história do PT, fica para uma próxima oportunidade.”

Acho que o Sr. como sociólogo/cientista político (e eu presumo de orientação política à esquerda), poderia fazer uso da história, para não escrever um artigo descolado da própria materialidade histórica. A associação negativa das esquerdas na sociedade brasileira deriva no mínimo desde os anos de 1930, com a perseguição dos comunistas do PCB pela ditadura varguista. Não é preciso nem dizer nada a respeito da perseguição dos esquerdistas durante o regime militar a partir de 64. Dizer que isso é culpa exclusiva do PT por conta dos erros estratégicos do governo (que sim, são muitos!), beira a infantilidade.

“O fato é que a ideia de “esquerda” está sendo desconstruída numa batalha ideológica que visa aniquilar qualquer tentativa futura de mudança social, garantindo assim plena hegemonia ideológica para a direita, agora com a auto-estima elevada.”

Baita novidade. O campo político brasileiro, hegemonicamente, sempre foi historicamente direcionado ao autoritarismo, conservadorismo, elitismo, etc. Somente a partir dos anos de 1980 que esta balança equilibrou um pouco, e pendeu em alguns (raros) momentos pra esquerda. Mas a hegemonia de poder sempre esteve com a direita. Seria desonesto afirmar que a esquerda está sendo desconstruída por conta de “deslizes petistas”. O senso comum construído pela mídia da direita oligárquica mal sabe diferenciar um PT de um PCB, PSOL ou PSTU.

Seria prudente entendermos o atual processo histórico como um momento de ascensão e reorganização dos movimentos de direita (e de extrema-direita, inclusive fascistas), não só no plano nacional mas em boa parte dos países que enfrentam situação de crise econômica, que no caso brasileiro atinge setores muito específicos da economia (industria automobilística por exemplo!) e tem sido muito mais ideológica e propagandeada pelos interesses específicos das elites tradicionais e dos grandes meios de comunicação. Isso não pode ser jogado na conta do PT apenas, mas sim em toda a esquerda, incapaz de produzir um discurso de união e frente popular contra os avanços históricos (não apenas de hoje) da direita.

Dizer a máxima de que “o congresso reacionário não nos representa” é muito óbvia de uma perspectiva de esquerda. Mas este congresso não representaria uma força social considerável que os elegeu pelo voto? Não seria isso o resultado da romantização de alguns teóricos da esquerda que acreditam que todas as camadas populares pensam e agem como esquerda, portadoras da tal “consciência de classe” pronta e acabada? E o fenômeno “bolsonaro” inclusive entre membros das classes populares, não serviria de exemplo pra ilustrar o quanto a esquerda é carente de análise de conjuntura, de militância de base, e de se reconhecer como potência de representação?

Marcio Sales Saraiva said On 1 agosto 2015 Responder

Respondendo rapidamente, por tópicos:

1. André, em nenhum momento eu disse que tudo é culpa exclusiva do PT, ainda que ele tenha grande responsabilidade pela desmoralização atual da ideia de esquerda no Brasil, portanto, sua concepção de infantilidade não cabe.
2. Poderia ser ter feito um pouco de história, mas não desejei fazê-lo nesse breve artigo. É uma escolha pessoal que eu explicitei.
3. Eu escrevi um artigo e não uma tese de doutorado, sendo assim, não tinha a pretensão de apresentar novidades. Queria apenas desabafar questões e percepções pessoais.
4. Não há nenhuma desonestidade em afirmar, categoricamente, que hoje, a ideia de esquerda e de socialismo está sendo desconstruída por conta da experiência da “Era PT”. Aliás, essa constatação é comum a diversos sociólogos e cientistas políticos. Eu não sou o único.
5. Se a esquerda, a seu ver, erra em não criar um discurso unificado de frente popular, portanto, pelo menos aqui, você reconhece indiretamente que o crescimento da direita no Brasil não é mero epifenômeno de tendência global, mas um caso particular de fracasso/erro da esquerda.
6. Longe de mim qualquer romantismo sobre “as massas”. Não vejo nenhuma tendência de esquerda nas classes trabalhadoras ou nas multidões, pelo contrário, elas tendem a ser moralmente conservadoras e somente no campo econômico tendem a defesas da CLT e demais temas da agenda do Estado Social.

Lin-Cão Lin-Cão said On 19 outubro 2015 Responder

Pra mim, o que tornou a direita tão popular foi justamente o fato de ela se encontrar na oposição somado ao fato do PT ter decidido administrar o capitalismo em vez de romper com ele, a direita faz hj o que o PT fez em 2002, canalizou o descontentamento e desespero do povo ante os ataques do neoliberalismo, o homem comum , carente de uma formação ideológica não sabe discernir esquerda de direita, mas percebe quando foi enganado, no seu tatear ,ele não associa PSDB a governos passados, e sim uma forma de punir o que está no poder com oposição, esse caminho de fanfarrões com camisa da Cbf e mulheres peladas foi pavimentado pelo PT, que como a direita tradicional, optou pelo assistencialismo , quanto essa direita, assim que assumir o poder ela cairá na impopularidade, pois terá de administrar o capitalismo em fase terminal, com direito a arrocho, maior abismo social,e miséria!

juan de dios fabra said On 17 outubro 2015 Responder

Não se pode mais reportar historia, para falar, ou fazer apologia das esquerdas no mundo, especialmente, as ditaduras populistas ou mesmo o proprio comunismo. É simplesmente
Fácil e logico e palpável , o resultado no mundo, dessas ideologias. Um próprio
Comunista acabou com a antiga União
Soviética ( Micail Gorbachow ), e esse
Fato acabou com o MORAL Do Comunismo Europeu. Os Lunáticos chefes das ditaduras populistas nas
americas, estão acabando com suas proprias e falsas Ideologias. Tao nefasto e negativo foi e está sendo o resultado Social, de seus governos
Charlatães. Nao é preciso ir a Engel, Marx, Lenin ou Antonio Gramsci, é só ver o resultado final social de suas
façanhas em todos os lugares, em todos os tempos. O COMUNISMO PURO, DE FATO FOI SEMPRE UMA BELA TEORIA ( PODE-SE DIZER QUE AS IDEIAS DE JESUS CRISTO SÃO COMUNISTAS.) MAS FOI FARTAMENTE PROVADO, ATRAVEZ DA HISTÓRIA, QUE NÃO FUNCIONOU,
NÃO FUNCIONA, E NUNCA FUNCIONARÁ na pratica. SIPLESMENTE PORQUE TIRA AS LIBERDADES FUNDAMENTAIS DO HOMEM….TODOS NOTARAM QUE É MELHOR UM CAPITALISMO SELVAGEM, MAS COM LIBERDADE E DIREITO DE VC. SUBIR PELO TEU ESFORÇO, DO QUE SER ESCRAVO DO ESTADO E SEM PODER TER A LIBERDADE DE EXPRESSÃO, DE IR E VIR…. DE SUBIR NA VIDA E SER DONO DO TEU NARIZ E DAS TUAS CONQUISTAS……..O COMUNISMO FERE A ALMA HUMANA, ALEM DE TER
SIDO, O SISTEMA QUE MAIS MATOU INDIVIDUOS. NO MUNDO.( AQUI EXCLUIMOS O NAZISMO DE HITTLER, PORQUE AÍ FOI UMA CIRCUNSTÂNCIA
ATEMPORAL, DE MOMENTO, CASUAL. E LOCALIZADO…)…MAS O COMUNISMO É MESSIANICO, na sua
MALFADADA HISTORIA..

Marcio Sales Saraiva said On 15 dezembro 2015 Responder

Considero seu comentário injusto com o socialismo real, pois comunismo nunca existiu de fato. Além disso, dizer que “não funciona e nunca funcionará” é, no mínimo, querer assenhorear-se dos rumos históricos. Deixemos que o tempo diga.

Welington said On 18 outubro 2015 Responder

Não sou um cientista politico, sou um cidadão comum. Gostaria se possível que me explicasse como defender o comunismo, se em toda nação que se disse comunista, os “lideres” comunistas massacraram a população e só legislaram em causa própria? Em algum lugar do mundo o comunismo deu certo? O povo foi beneficiado?

Marcio Sales Saraiva said On 15 dezembro 2015 Responder

Wellington, essa conversa é “para mais de metro” como dizem os mineiros. De fato, nunca existiu o comunismo. O que existiu foram governos socialistas dirigidos por Partidos Comunistas. Nesse sentido, muitos erros foram cometidos no socialismo real, mas também muitas políticas públicas igualitárias foram ali testadas e serviram de inspiração para os ajustes sociais do capitalismo ocidental. Sobre “massacrar a população”, há péssimos exemplos de autoritarismo em regimes comandados por Partidos Comunistas como os há também nas democracias ocidentais. Abraços!

Parada said On 20 outubro 2015 Responder

Esqueceu que o PPS com Roberto Freire (exPCB) e PV com Eduardo Jorge (ex PT) apoiam o PSDB há anos?PSDB é centro. Fez privatizações (ainda bem), criou inúmeros projetos sociais (ótimos)e defende igualdade de gênero, políticas anti racismo, discussão sobre aborto e sobre discriminização da maconha. Centro é bom. É possível. É chegar no meio termo. Os extremos não são democráticos. Ou tornam-se ditatoriais, ou populistas.

Marcio Sales Saraiva said On 15 dezembro 2015 Responder

Concordo que o PSDB é de centro, mas com inclinações à direita em alguns temas e votações. O PPS e o PV me parecem também de centro, mas com inclinações à esquerda aqui e acolá. Abraços!

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