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Ninguém ganhou, mas Pezão levou

 

É preciso compreender que o eleitorado do Rio de Janeiro ficou angustiado diante de duas opções que não despertavam paixões. Até onde este autor pode perceber, não foi o voto da convicção, pelo menos, para a maioria.

De um lado, o bispo Crivella (PRB) com apoio de Lindberg (PT) e Garotinho (PR). Tratava-se não de um senador qualquer, mas do homem de confiança da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma organização comanda pelo bispo Macedo e que tradicionalmente faz ataques ao catolicismo, espiritismo, umbanda, candomblé além de espalhar o preconceito contra pessoas gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais. E não é só isso. A IURD é famosa por suas ligações com a estranha teologia da prosperidade e negócios de caráter duvidoso. Soma-se a TV Record e a desconfiada das outras igrejas evangélicas diante do “imperialismo” da IURD.

Do outro lado estava Pezão (PMDB). O marketing do peemedebista foi eficaz em vendê-lo como homem simples, do interior, independente e tocador de obras. Na verdade, tratava-se do candidato do odiado governo Sérgio Cabral que extrapolou na repressão dos protestos em 2013. Um governo onde há suspeitas de ligações estranhas com setores monopolistas do capital privado, incluindo farras em Paris.

Como pode Pezão ganhar no segundo turno com 56%, deixando o bispo com minguados 44%?

Em primeiro lugar, o medo de deixar as instituições do estado do Rio de Janeiro nas mãos de um representante de uma igreja fundamentalista neopentecostal com estranhos negócios privados contou muito na hora do eleitor fazer sua escolha. Para complicar, esse candidato tinha o apoio de Garotinho (PR), o rei da rejeição eleitoral no Rio. Foi o beijo da morte.

Com certeza, há o marketing que, como já disse antes, ajudou Pezão a se descolar de Cabral e do próprio PMDB, um partido com imagem bastante desgastada no Rio, mas não é só marketing.

Existe uma terceira variável importante que ajudou Pezão. A quantidade de pessoas que boicotaram a oportunidade de escolher, aliás, um gesto legítimo e democrático. Não acho que as pessoas devem ser obrigadas a votar ou escolher, mas se somarmos os 3% de votos em branco, 14% de votos nulos e 22% que nem compareceram, teremos quase 40% dos eleitores que não votaram em ninguém! O “ninguém” ganhou a eleição, e indiretamente, permitiu que Pezão (PMDB) saísse vitorioso ou, dito de outra forma, autorizou os 60% restantes a fazer a escolha final.

Eu já assumi publicamente que votei no número 15 para excluir o bispo da IURD. É questão de coerência com minha militância, meu campo de pesquisa e minha consciência. Agora, quem votou em branco, nulo ou não compareceu, indiretamente, permitiu este resultado. A inação de Pilatos não o exime da responsabilidade indireta pelo assassinato de Cristo. Em política, não existe “neutralidade”. Quando anulamos, apertamos o botão “em branco” ou não comparecemos, nós estamos passando uma procuração para os outros eleitores em nome de uma “paz de consciência” que, na minha leitura, me parece duvidosa, ainda que legítima.

Em síntese, a vitória do Pezão só pode ser compreendida dentro desse quadro maior de boicote eleitoral que deixou aos 60% dos eleitores que compareceram para escolher a missão de decidir entre o bispo da IURD ou a continuação do PMDB, com todos os erros e problemas. A maioria dos eleitores que não boicotaram escolheu sensatamente excluir o candidato do PRB do Palácio Laranjeiras. Mas não foi somente voto de exclusão, houve também um voto pragmático, do auto-interesse. A proliferação de obras públicas e manutenção da UPP jogou um papel importante na motivação de parte significativa do eleitorado fluminense. Nada é por acaso. O voto tem suas razões.

P.S. Será que o PT volta para o governo do PMDB ou vai disputar com o PSOL e outros o mercado eleitoral de oposição?

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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