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Não seja um mala: Dilma não é Stálin e Aécio não é Hitler

(Rogério Galindo do Caixa Zero, da Gazeta do Povo)

Legal, então você tem um candidato neste segundo turno. Está convicto de que ele (ou ela) representa o melhor para o país. Parabéns. Aceite, no entanto, um conselho. Nem por isso você precisa ficar em redes sociais afirmando que o partido adversário é o representante de Satanás na terra. Combinemos o seguinte: a eleição brasileira não se dá entre Hitler e Stálin. Ao contrário do que andam insinuando por aí, Dilma não nos mandará para o Gulag, nem Aécio criará guetos para pobres no Nordeste.

Claro: isso não equivale a dizer que os dois candidatos são iguais ou que os dois projetos sejam equivalentes. É absolutamente lícito, aliás, que sejam diferentes. Se todos pensássemos igual haveria algum problema Estaríamos na Matrix ou algo que o valha. Faz parte da democracia que haja propostas diferentes e até mesmo opostas, justamente para que tenhamos a possibilidade de escolher o que nos pareça melhor. Quem quer que não se defendam as ideias opostas às suas está precisando matar o ditadorzinho que existe dentro de cada um de nós.

Explicando bem explicadinho. Dilma Rousseff não representa o mal nestas eleições. Sim, houve corrupção no governo do PT. Sim, o governo esteve longe de ser perfeito. Sim, o PT tem lá seu projeto de poder. Preencha mais algumas linhas com o que lhe vier na cabeça. Mas não, Dilma não foi a pior governante do mundo, Michel Temer não é satanista nem o PT pretende implantar o bolivarianismo no Brasil.

Aécio Neves igualmente não é o mal encarnado. Claro, o PSDB não é um partido de vestais. Sim, o mensalão original foi do PSDB (e de Minas Gerais, ainda por cima). Verdade, há várias denúncias de corrupção relativas ao governo de Minas. Siga em frente se quiser enumerando outros problemas. Mas Aécio não tem, ódio aos pobres, não é candidato a ditador nem vai acabar com o Estado brasileiro para implantar o libertarianismo.

Ok: você pode achar que um caminho é melhor do que o outro, e inclusive tem o direito de achar que um dos partidos está realmente errado em suas teses e suas posturas. Mas isso não autoriza ninguém a ficar falando inverdades sobre os outros. Muito menos a ficar xingando todos os milhões de brasileiros que pensam diferente de você. Pior ainda: há gente tão sem noção que chega a praticar racismo para atacar o adversário, dizendo que só as pessoas da categoria x ou y (que obviamente são consideradas imbecis) poderiam votar num(a) candidato(a) tão ruim.

A democracia brasileira ainda é recente, então vale reforçar os princípios básicos. Numa democracia, cada pessoa tem um voto. O empresário tem um voto, o carrinheiro tem um voto, o nordestino tem um voto, o paulistano também. O homossexual e o heterossexual têm, o mesmo voto. A mulher e o homem também. O sujeito com MBA e o analfabeto pesam o mesmo. Conforme-se. Se você é contra isso, você está indo contra um princípio básico da democracia. Novamente: você está dando asas ao ditadorizinho que mora dentro de você. Mate-o. O quanto antes.

Acreditar que só você e os que pensam igual a você sabem da “verdade” e que os outros são rematados idiotas que merecem ser xingados em público por suas convicções não faz bem a ninguém. Aliás, como cada um só tem um voto, seria bom que ao invés de xingar os outros, você se concentrasse em convencê-los com argumentos. E qual foi a última vez que alguém passou a concordar com você depois de você chama-lo de retardado?

Olha, o mal nestas eleições não está representado nem por Dilma nem por Aécio. Mas ele bem pode estar representado pelos eleitores incapazes de ser tolerantes com o voto alheio. Respeito, não custa lembrar, é sempre bom.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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2 respostas para “Não seja um mala: Dilma não é Stálin e Aécio não é Hitler”

Thomaz Raposo de Almeida Filho said On 13 outubro 2014 Responder

Respeito seus comentários mas como professor, gostaria de colocar que como cientista político e por estar na PUC, deverias comentar a história como ela é e não pelos seus “pensamentos”.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Não existe “a história como ela é”. Todos nós somos atravessados pelos nossos valores pessoais. É o que J. Rawls chamou de “limitações da razão humana”.

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