Blog

Home/Blog/Marina e PSB: um noivado que já deu certo

Marina e PSB: um noivado que já deu certo

O “Manchetometro” publicou ontem (24/09) um artigo do prof. Wanderley Guilherme dos Santos chamado PSB e Marina: um noivado mal arranjado. Tenho imenso respeito pela obra e o rigor acadêmico do autor, mas peço licença, como aluno, para discordar do grande mestre.

Santos comete o primeiro erro ao abrir o seu artigo dizendo:

A candidata a presidente Marina Silva não tem partido e o Partido Socialista Brasileiro não tem candidato.

Não é verdade. Marina Silva pertence ao partido Rede Sustentabilidade que ainda não obteve o reconhecimento formal pelo TSE. Ela está no PSB através da filiação democrática, um instrumento fundamental na década de 1970-1980 para a sobrevivência do MR-8, PCB e PCdoB no interior do MDB/PMDB que serviu à época de abrigo institucional.

Já o PSB tem candidata e é Marina Silva. Seu vice, Beto Albuquerque, é um quadro orgânico do partido e pessoa da mais alta confiança do falecido líder Eduardo Campos, bem como da executiva. Dizer que o PSB não tem candidato é negar os fatos políticos ou, como dizia Campos, criar uma ingrisia.

A morte de Eduardo Campos subverteu a hierarquia da coalizão (proto-Rede e PSB) impondo um noivado em que nenhum dos nubentes escolheria voluntariamente o outro.

É fato que houve uma inversão na chapa, mas foi por força das circunstâncias e da lógica do processo, pois se Eduardo Campos e o PSB confiava em Marina Silva para ser vice-presidente, no país com tradição em assumir o vice, é porque de fato confiavam nela. João Goulart, José Sarney e Itamar Franco comprovam a importância do vice em nossa história recente. Natural, portanto, que na ausência de Campos, Marina assumisse a campanha e o programa construído em conjunto. Sendo assim, não existe nenhum “noivado” imposto, mas um relacionamento maduro e dialogal desde o momento em que Marina Silva apoiou Eduardo Campos para presidente sem exigir a vice-presidência. Lembremos. Marina foi convidada a ser vice-presidente.

Certamente, Marina Silva nunca foi uma socialista e nem o Partido Socialista Brasileiro teria imaginado apoiar a hegemonia de um banco na Presidência da República.

Não sei qual o conceito de “socialismo” que está sendo usado aqui nesta classificação. Dependendo, nem mesmo Eduardo Campos seria socialista. Dilma é socialista? Aécio? Eduardo Jorge? É necessário esclarecer melhor o pressuposto usado para afirmar que Marina “nunca foi uma socialista”.

No mais, acusar que Marina representa a “hegemonia de um banco na Presidência da República” é abdicar de qualquer critério de razoabilidade e abraçar o ataque mais vulgar e indigno da carreira de um dos mais brilhantes cientistas políticos desse país.

Candidata à vice-presidência, Marina podia difundir o Rede, continuando a apologia de uma política de princípios inegociáveis, enquanto cabia a Eduardo Campos conduzir a campanha de acordos eleitorais conforme a conveniência.

Aqui há um maniqueísmo que empobrece a analise do jogo político, bem mais complexo do que a caricatura “Marina inegociável” e “Eduardo Campos de conveniência”. Na minha leitura, pareceu mesmo insinuar que Marina faria o papel de “pura” enquanto Campos faria o “jogo sujo” da política real e que tal dobradinha poderia render ganhos para o projeto de protagonismo do PSB.

É preciso romper com a resistência em conjugar princípios éticos inegociáveis com capacidade de dialogar e fazer acordos/alianças. As coisas não são, em si mesmas, inconciliáveis. Quando Weber separou pedagogicamente a “ética de convicção” da “ética de responsabilidade”, não me pareceu que insinuava uma exclusão do tipo ou-ou.

Os acordos e as alianças são necessários em qualquer democracia no mundo onde há o respeito ao pluralismo. Já em regimes totalitários ou hegemônicos se impõe a vontade majoritária ou de uma elite de poder. Penso que é consenso que Marina Silva não defende totalitarismo, nem o PSB, nem a Rede. Portanto, faz-se necessário a construção de maioria na pluralidade. A questão que se coloca é: É possível construir uma maioria mantendo fidelidade a princípios éticos e balizas programáticas?

Sim, é possível combinar flexibilidade política na construção de uma maioria com fidelidade aos pontos de demarcação, aos eixos centrais que orientam sua ação. É isso que está sendo chamado de “nova política”. Na verdade, é fazer política sem destruir seus próprios princípios.

O que esta nova política questiona é: Em nome da responsabilidade e da governança vale qualquer tipo de acordo com qualquer tipo de liderança/partido sem se importar com qualquer escrúpulo? Marina Silva e a Rede Sustentabilidade pensa que não. É preferível perder uma partida no sistema democrático do que ganhar perdendo. Não se trata de “negar a política”, mas de realiza-la em outro nível. O PSB compreende isso e está unido em torno de Marina, apesar dos diversos ataques externos que tentam criar a cizânia dentro da coligação.

Cabeça de chapa, Eduardo Campos estava a salvo de interpelações sobre temas delicados…

Aqui Wanderley dos Santos começa a fazer um esboço das intenções do falecido Eduardo Campos. Eu não me arriscaria em terreno tão pantanoso como analisar questões internas dos atores políticos, além disso, Eduardo faleceu e não tem como confirmar a interpretação feita por Santos. Como não pretendo levar este debate para a psicografia espírita, creio que é melhor deixar de lado esses devaneios interpretativos.

Não sei, admito, as reais e profundas intenções de Eduardo Campos ao convidar Marina Silva para vice-presidente da chapa e penso que ninguém sabe. Podemos conjecturar algumas linhas, sem jamais fazer afirmações sobre o que ele pensava na intimidade.

O texto do prof. Wanderley segue com o que considero irretocável analise feita sobre o crescimento do PSB e do PCdoB nas ultimas três eleições. O primeiro cresceu 59% e o segundo 25%, mas quando o prof. Wanderley dos Santos diz que o PSB foi

coadjuvante leal e solidário nos períodos presidenciais do PT

ele libera o recalcado esboço de explicação para a busca do PSB em construir uma identidade política contemporânea que não ficasse mais à sombra dos desejos do PT. Esse era o papel visível, observável, que Eduardo Campos estava jogando e foi ele mesmo que entendeu que Marina Silva com a Rede ajudaria neste processo.

Esse papel de coadjuvante leal e solidário do PT desde 1989 que o PSB/Eduardo Campos rompeu. Campos morreu e Marina seguiu com o mesmo projeto. Isso explica o ódio de certos setores do lulopetismo em relação à candidatura de Marina Silva. Ela garante a autonomia do PSB e a continuidade deste projeto de novo protagonismo diante do hegemonismo petista que queria manter o partido de Arraes na gaveta do Palácio Alvorada.

A ideia de que Marina Silva teria recebido essa candidatura como “mórbido presente da Providência” para, de forma macabra e diabólica, tramar a condução do PSB para a “direita”, aproxima as linhas de Wanderley dos Santos à literatura surrealista. O cientista político brilhante abandona a cena para entrar o ideólogo e suas teorias conspiratórias. Diz ele:

A rápida subida nas pesquisas de intenção de voto precipitou [em Marina] um relaxamento em sua guarda e iniciou os anúncios e declarações absolutamente incompatíveis com o histórico do PSB.

O programa de governo foi construído com Eduardo Campos vivo e se há uma incompatibilidade entre o que é defendido por Marina e pelos líderes do PSB, incluindo seus economistas — que dialogam com a chapa Eduardo e Marina desde o começo — essa incompatibilidade ainda não se mostrou com essa clareza que só existe na percepção do prof. Wanderley dos Santos.

O programa do PSB da década de 1940 não era mais defendido por ninguém no partido, ainda que permanecesse como inspiração histórica que apontava para os compromissos centrais: justiça e igualdade. No governo de Eduardo Campos em Pernambuco, até onde pude perceber, o PSB que apoiou Lula e Dilma mostrou-se um partido alinhado com uma esquerda contemporânea e bem distante do estatismo de sua origem na Terceira República. Onde há o abismo agora?

Fica parecendo implicância infantil. Se o PSB se mantem como submisso coadjuvante do PT ele é “histórico” e de “esquerda”, mas como ele ousou lançar-se com independência, agora ele representa a “direita” mais abjeta e incompatível com o seu “histórico”.

O incômodo da coligação entre Marina e o Partido Socialista Brasileiro resulta da associação de dois projetos truncados e opostos: sendo o de Eduardo e do PSB o de elevar o partido a grande protagonista na esquerda e o de Marina alcançar destaque na rede da direita, dona de um partido de ambígua definição ideológica. O resultado não podia ser outro: uma campanha amarga e gaguejante da candidata a presidente em que os socialistas se vêem constrangidos a votar contra si próprios.

No final do seu artigo, Wanderley Guilherme dos Santos me deixa espantado com uma tese mirabolante que até então eu não tinha lido em nenhum autor, mesmo os mais ferozes no combate a candidata da aliança PSB-REDE-PPS-PPL. Diz Santos que a direção do PSB e Eduardo Campos tinham um projeto de transformar o partido em “grande protagonista da esquerda” brasileira (X), enquanto Marina Silva queria o “destaque na rede de direita” (Y). Sendo assim, X-Y representa uma impossibilidade, dois “projetos truncados e opostos”, um “noivado mal arranjado” onde o casamento gerará, necessariamente, sofrimento para ambos e separação em curtíssimo prazo – se é que chega a casar.

Veja aqui neste vídeo de 14 de abril de 2014 onde a palavra casamento já surge na boca de uma Marina Silva feliz e celebrando o lançamento da pré-candidatura com Eduardo Campos na liderança. Nada aponta para um “noivado mal arranjado”.

Falta explicar algumas coisas. Se Eduardo Campos/PSB desejava algo totalmente oposto à Marina/Rede, por que aceitaram o apoio dela? Por que a convidaram para ser vice? É algo esquisito desejar o protagonismo na esquerda brasileira, romper com o PT e convidar uma suposta “rede de direita” ou teria Eduardo Campos e os dirigentes do PSB errado na avaliação do significado político de Marina/Rede?

Se o PSB/Eduardo Campos queria construir uma nova esquerda pós-PT, com certeza, entenderam que a Rede Sustentabilidade seria parceira neste caminho e que Marina Silva tinha muito para agregar ao processo de mudança.

Veja aqui a unidade e clareza do significado da aliança nas palavras de Eduardo Campos e Marina no vídeo postado em 21 de agosto de 2014:

Se Marina e a Rede no seu encontro com o PSB e Eduardo Campos representam “dois projetos truncados e opostos” porque não racharam? Como podem ter convivido bem até a data de sua trágica morte? E o que explica a continuidade deste projeto “truncado-oposto” mesmo depois da trágica morte de Eduardo Campos?

Outras perguntas vão surgindo dessa estranha tese. Se Marina Silva quer apenas o “destaque na rede de direita” porque não entrou para o DEM? Por que não aceitou o convite de algum outro partido já formado? Para quê gastar tanta energia em debates sobre um partido de tipo novo se o que se pretende é apenas um lugar de destaque no campo da velha direita? E por que Marina/Rede apoiaria Eduardo Campos/PSB e não Aécio Neves ou pastor Everaldo se sua intenção era criar um novo campo de direita?

Penso que a tese do prof. Wanderley não se coaduna com os dados de realidade. Claro que há diferenças entre PSB e Rede Sustentabilidade, como havia diferenças entre Eduardo Campos e Marina Silva, mas jamais existiu “dois projetos truncados e opostos” como quer fazer crer o prof. Wanderley. Se fossem truncados e opostos não teríamos tal coligação, simples assim.

O noivado entre PSB e Rede Sustentabilidade tem boas possibilidades de derrotar o hegemonismo petista de 12 anos, abrindo o país para novos tempos que não negam as conquistas de FHC e Lula.

Como qualquer noivado, tem seus momentos de “de-erre” (discussão da relação), mas nada que abale o projeto maior de abrir um novo tempo de mudanças nesse país. É o medo de mudar que desestabiliza setores sociopolíticos arraigados nas estruturas de poder e mexe também com a elite acadêmica, criando incertezas momentâneas, desassossegando algumas convicções naturalizadas, mas também abrindo possibilidades para apostas esperançosas.

Diante deste “noivado” entre a tradição do PSB com a tradição socioambiental representada por Marina Silva, há os que se alegram com a proximidade da festa de casamento, os que reclamam do formato da festa e os que nem acreditam que essa festa poderá acontecer. O tempo dirá, pois as analises ganham em qualidade quando tomamos distância dos fenômenos e das paixões de conjuntura.

É com imenso respeito pelo prof. Wanderley dos Santos que manifesto publicamente esta minha divergência, sem jamais renunciar a minha admiração pela sua obra. Espero que compreenda as linhas tortas e inseguras deste seu aluno.

Por fim, te convido a assistir este vídeo de 27 de março de 2014 onde Eduardo e Marina falam do “encontro das trajetórias” e do processo de construção dessa aliança. Sem afogadilhos e com muito diálogo, compreendendo a importância do significado mudancista do “noivado” PSB e Rede Sustentabilidade. Nada aponta para algo mal arranjado.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
Gostou do artigo?
Assine a newsletter e receba as novidades em primeira mão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>