Blog

Home/Blog/Jaqueline Gomes fala sobre transfeminismo, movimento negro, Dilma e Marina

Jaqueline Gomes fala sobre transfeminismo, movimento negro, Dilma e Marina

Jaqueline Gomes de Jesus é psicóloga com doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (UnB) e conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal. Tem 36 anos e é casada. Professora em diferentes instituições de ensino superior, pesquisa trabalho e identidade, gestão da diversidade e movimentos sociais, tendo diversas publicações.
Militante em direitos humanos, foi presidente de diferentes ONGs LGBT e coordenadora do Centro de Convivência Negra da UnB.
Engajada nos estudos de gênero e feministas, é um das referências nacionais do transfeminismo, área pioneira do feminismo que critica a ideia de que o gênero é definido pelo sexo biológico.

Está no Rio de Janeiro para concluir sua pesquisa de pós-doutoramento em trabalho e movimentos sociais (CPDOC/FGV), ministrar um curso sobre diversidade no trabalho para técnicos e professores da UFRJ e organizar a edição do livro “Transfeminismo: Teorias e Práticas” (Editora Metanoia), que será lançado em novembro. Confira a entrevista dela para o Blog do Saraiva:

Como foi desenvolver uma carreira acadêmica sendo negra, mulher e transexual?

Jaqueline_9
A minha vida, como acadêmica, sempre foi pautada por enfrentamentos constantes, determinados pelos preconceitos que atravessam as percepções estereotipadas, deste nosso país estruturalmente racista, sobre as pessoas negras e não enquadrada nos modelos sexistas e heteronormativos.

O primeiro deles é a tentativa de invisibilizar a pessoa como pesquisadora: ainda se vêem negros e pessoas trans como objetos de estudo, e não como produtores de conhecimento.

O segundo é a tentativa de deslegitimar o conhecimento produzido por tais sujeitos, a partir do malfadado argumento elitista, e extensamente aplicado às mulheres, de que o nosso trabalho científico em Ciências Humanas e Sociais não poderia ser isento de tendenciosidades por, supostamente, não sermos capazes de nos distanciar daqueles que pesquisamos.

O terceiro é a tremenda dificuldade de inclusão no ambiente acadêmico, pautado por lógicas de empoderamento que, historicamente, não consideram pessoas negras e trans como docentes e/ou pesquisadores possíveis.

Por isso tudo me entendo como a sobrevivente de um sistema que apaga identidades, dentro de uma sociedade que aniquila vidas, no sentido psicossocial e, literalmente, físico.

O que é transfeminismo?

Em termos técnicos, o transfeminismo é uma novíssima linha de pensamento e ação feminista de terceira onda, herdeira do feminismo negro, que nega o caráter biologicista culturalmente atribuido ao gênero, reconhece a intersecionalidade das identidades, critica a hierarquia de opressões e, consequentemente, aponta para a necessidade de se criticar o sexo biológico como elemento orientador dos discursos socais, incluindo os científicos, e das políticas públicas.

Em termos políticos, o transfeminismo é uma prática que valoriza as contribuições de todas as pessoas para a discussão dos direitos e a produção de saberes sobre os corpos, ao mesmo tempo em que empodera as falas, escritos e participação das pessoas trans.

O que você pensa sobre o cenário politico brasileiro?

Acho que é pobre em ideias e propostas sérias, repleto de atores políticos carismáticos que buscam defender os interesses de seus grupos oligárquicos e sem qualquer estadista. Sinto um profundo pessimismo com relação a tudo isso que aí está, e a sensação que piora quando vejo movimentos sociais que compactuam com essa lógica, seja por idealismo, por inércia ou, pior, por interesse. Ao nível macro, vivemos uma crise das instituições, e ao nível micro, verificamos a permanência de lógicas gerencialistas que, lamentavelmente, endossam o presenteísmo e a precarização do trabalho como políticas laborais para as organizações públicas, o que preocupa, pois gera insatisfação e sofrimento entre os trabalhadores.

Jaqueline_1

Nos 12 anos do PT o Governo avançou na agenda do movimento negro e trans feminista?

Creio que sim, no que tange à agenda negra, mas investindo menos do que poderia. Criou-se a Secretaria Especial de Promoção de Políticas para a Igualdade Racial (SEPPIR), no entanto com recursos muito reduzidos para o tamanho descomunal do seu desafio; o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado após mais de uma década pelo Congresso Nacional, com a orientação mais efetiva do Executivo a seus aliados no Legislativo, porém com lacunas que prejudicam a sua efetividade; as ações afirmativas para a população negra vêm sendo propostas e aprovadas, entretanto têm sido limitadas a poucas reservas de vagas em seleções para órgãos públicos, sem considerar as outras estratégias necessárias; aprovou-se a Lei de ensino da história e cultura afrobrasileira nas escolas, que infelizmente não tem sido respeitada como deveria.

Quanto à agenda transfeminista, não vejo avanços, principalmente porque as políticas para mulheres ainda são femistas, ou seja, focadas apenas num ideário essencialista de mulher como fêmea biológica, o que redunda na formulação de políticas públicas voltadas para um determinado modelo de mulher, mãe e cuidadora, esquecendo-se de todas as outras mulheres, em especial das trans. O mesmo pensamento, pode-se dizer, prejudica as travestis e os homens trans, que ainda não tratados, de maneira errônea, como suficientemente atendidos pela políticas sociais para LGBT, as quais aliás, nem estão sendo realizadas a contento.

Dilma e Marina, duas mulheres disputando a presidência. As mulheres estão tomando o poder dos homens?

Sim, no sentido em que a disputa em espaços públicos não é mais considerada como uma atribuição exclusivamente masculina. Em outro aspecto, eu diria que não, porque a maioria dos cargos de chefia neste país ainda são ocupados por homens, ainda que as mulheres tenham qualificação para ocupá-los. Esse mesmo problema, que chamamos tecnicamente de “teto de vidro” (porque as mulheres estão nas organizações, enxergam, querem e podem alcançar o topo, mas são impedidas por uma barreira “invisível”), também prejudica a ascensão de negras e negros no mercado de trabalho e no mundo da política. Meu entendimento é que a ocupação efetiva de espaços de poder ainda não é entendida como uma possibilidade efetiva para as mulheres, principalmente se forem negras. Por isso considero relevante a concorrência empoderada de uma mulher negra, Marina Silva, na disputa para a presidência da república.

Marina Silva é uma ameaça para as questões de gênero e raça/etnia?

Não, é uma oportunidade. Lamento o fato, para mim evidente, de que ela esteja sendo alvo do racismo moderno, associado ao machismo, que avilta a imagem das mulheres negras neste país. O ideário de quem pode ser presidente é orientado pela ideia de que essa pessoa precisa ser homem, ou então agir de maneira como se entende, em nossa cultura, que homens devem se comportar quando são gestores.

Então, quando falamos de uma pessoa negra, a situação piora, pois ainda somos alvos de subalternização, e a maioria da população tem uma ótica, reproduzida pelos formadores de opinião, de que um(a) negro(a) não pode ser chefe, quanto mais presidente! Por isso tantas pessoas querem exigir de Marina uma estética embranquecida, e tentam ridicularizar sua aparência como uma mulher negra típica desta sociedade, a qual eles somente associam com cargos menos prestigiados no escalão sócio-econômico. Existe muito preconceito e discrimina ção em críticas que são feitas a essa candidata, as quais não são repetidas a outros candidatos, que não são negros. Chega-se ao ponto de não se considerar que ela é negra, mas indígena ou “cabocla”, como já me disseram, simplesmente porque ela nasceu no Norte. Assim, há também uma estereotipia atrelada a sua origem geográfica.

É nesse sentido que Marina Silva oportuniza uma rediscussão, nas dimensões de gênero e cor/raça, com relação aos espaços de poder atribuidos a negros, mulheres e nortistas no Brasil.

Uma presidenta evangélica não será um entrave para todxs que defendem um Estado laico?

Jaqueline_6

De forma alguma. Admitir isso corresponderia a afirmar que, pela pessoa adotar uma religião, ela necessariamente repudiaria a ideia do Estado Laico. Isso é preconceito. Tivemos vários presidentes católicos e nunca lhes foi impingida a pecha de serem contra a laicidade. Ao passo que tivemos outros que se diziam agnósticos ou ateus, no entanto assinaram acordos com determinadas autoridades religiosas e se expressaram usando termos correntes das religiões predominantes. O Estado laico é um projeto incompleto que esta república vem urdindo desde a sua proclamação, o qual ainda precisa ser alcançado.

Vivemos um momento de intenso fundamentalismo religioso, engajado nos processos políticos, que é representado por certas lideranças evangélicas, o que reforça o estereótipo do evangélico como fundamentalista, porém tal redundância precisa ser criticada e limitada ao que lhe cabe, como um fato localizado, e não como uma generalização.

O fortalecimento da laicidade, no Brasil, não depende da eleição deste ou daquele político para a presidência, mas sim da luta organizada de todos os setores da sociedade, principalmente os religiosos, para que todas as religiões – e mesmo a não religião – sejam respeitadas pelo Estado, sem proselitismo para esta ou aquela.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
Gostou do artigo?
Assine a newsletter e receba as novidades em primeira mão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>