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IRRACIONALIDADE, MENTIRAS E ÓDIO: A DEMOCRACIA TRUNCADA

Não está fácil debater política no Brasil, em especial, nas redes sociais. Desde a campanha de 2014, os ânimos se acirraram e nunca mais voltamos a “normalidade” das discussões. Claro que, sempre rola uma pitadinha de humor ou um sarro aqui e acolá, mas ultimamente, a coisa virou guerra mesmo. Até dentro dos bares o clima é esse.

Se alguém posta uma notícia do “Antagonista” ou da revista “Veja” é “coxinha”, “elite”, “direitista”, “tucano” e “reacionário”. Se a notícia é da “Carta Capital” o sujeito logo é tachado como “petralha” ou “esquerdopata”. Resta-nos os grandes veículos como El País, Estadão, Folha, Globo, Uol, G1, Brasil Post etc. Ainda assim, sempre terá alguém na sua timeline para tentar te enquadrar na “esquerda” ou na “direita”, no “governismo petista” ou na “oposição tucana”. Tudo é recortado em preto ou branco, em à favor ou contra. Sumiu o colorido das diversas posições.

Além do desejo de entalar o Outro numa caixinha ideológica, é espantosa a perda de qualidade. As referências usadas são precárias. O abuso de mêmes como tradução do pensamento de alguém é lastimável. Esses dias vi o facebook do Emir Sader, ex-intelectual petista, postando um même absolutamente falso sobre Marina Silva. Ninguém precisa simpatizar com Marina para defender a verdade, os fatos. Por que um homem de saber mais amplo que o senso comum mente e espalha uma sacanagem dessas? Não é simplesmente uma “narrativa” possível, mas uma mentira mesmo, coisa que nunca existiu.

Esse é outro problema do debate contemporâneo em redes sociais. Com a onda relativista pós-moderna – que tem dado algumas contribuições provocadoras e positivas – alastrou-se a ideia de que tudo o que temos são “narrativas”, cada indivíduo tem a sua, todas essas “narrativas” são de igual valor e, consequentemente, “verdadeiras”. Pululam sites, blogs e revistas digitais para todos os gostos e que nenhum compromisso tem com a analise séria dos fatos, com a compreensão dos fenômenos políticos e com a interpretação das possíveis causalidades envolvidas.

Cada um conta sua versão e, com certeza nazista, afirmam como verdade algo que racionalmente não existe nenhuma confirmação de que verdade seja.

As pessoas compartilham notícias sem pé nem cabeça, dão opinião sobre aquilo que jamais estudaram, nem mesmo leram um único artigo de jornal sobre o tema e divergem com agressividade sobre um assunto que, no máximo, ouviu dizer de um amigo. Como assim? É a era da insensatez e da irracionalidade política. Do show, do truque, do sofisma, das artimanhas de quem quer vencer um debate sem ter razão – saudades aqui de Schopenhauer.

As famílias, o ambiente de trabalho e até as comunidades religiosas estão divididas entre defensores do impeachment (numa caricatura, indivíduos que odeiam o PT, Dilma, Lula, Foro de São Paulo, “Bolsa-Vagabundo” etc.), governistas que acusam “golpe de direita” quando alguém espirra no ônibus e os descolados do “tô fora desse jogo”.

Como dialogar de forma racional e civilizada?

É possível uma razão pública que emerja de um amplo debate onde prevaleça a razão argumentativa habermasiana ou a política é apenas a guerra sob o manto falso da “paz”?

Tenho revisto muito do que estudei até aqui sobre democracia, argumentação e política em sociedades de massas (no tempo das multidões). Eu me sinto desencaixado, fora do lugar. Quero argumentos, mas encontro pancadaria e adjetivação banal, tosca e cheia de humor de qualidade duvidosa. Foi-se o tempo dos bons embates, onde as pessoas apresentavam racionalmente seus argumentos favoráveis e contrários. Ao final, se um dos lados não foi convencido, prevalecia o profundo respeito ao pluralismo democrático das ideias. Hoje o desejo é de esmagar as diferenças através de tentativas autoritárias de “converter” o outro para a sua interpretação ou então desconstruí-lo com deboches, ataques pessoais (burro, ingênuo, reacionário, esquerdopata, petralha), dados falsos, induções levianas, insinuações maliciosas, afirmações descontextualizadas etc.

Poucos se dão ao trabalho de, antes de afirmar algo ou negar, pesquisar no Google, ler uns dois ou três artigos com enfoques distintos. Não querem “perder tempo”, mas tem opinião na ponta da língua (ou dos dedos, que teclam com voracidade). Neste caso, não há debate! Apenas um diz que é assim, outro diz que é assado. Fim de papo! Jogam lá no face e há uma multidão de imbecis dispostos a curtir qualquer coisa, qualquer asneira, qualquer tipo de mentira.

Sobre a passeata contra o governo Dilma e pelo impeachment no dia 13 (domingo) eu já postei que não vou. Acho a passeata legítima, nada tem de “golpismo” nisso. É um direito democrático, extremamente saudável para o amadurecimento da nossa sociedade, mas eu não vou. Por quê?

Primeiro porque não consigo estar num evento onde tem o apoio de Bolsonaro, Feliciano, Malafaia, defensores da intervenção militar “constitucional” e AIB (Ação Integralista Brasileira, nossos fascistas tupiniquins). Todas essas jararacas juntas? Dá não.

Sei bem que há gente progressista e democrata de boa cepa participando dessa passeata do dia 13. Conheço muitos. São indivíduos que se encontram convencidos de que o impeachment é o melhor para o Brasil, ainda que paguemos o preço de um governo de transição liderado pelo Michel Temer (PMDB). Imaginem o PMDB sozinho no comando? Senhor, tende piedade de nós!

Não quero generalizar, em respeito aos progressistas que lá estarão, mas que essa passeata do “Fora Dilma” tem um tom “verde-amarelo-direita” isso tem. Vejo alguns babando de raiva contra o uso da cor vermelha! Coisa de louco! Como se a cor vermelha pertencesse ao PT ou ao lulodilmismo.  Isso me incomoda demais. Eu não vou.

O segundo motivo é que não estou convencido sobre o impeachment. Mesmo esse processo de cassação da chapa Dilma-Temer (PT-PMDB) que corre no TSE me parece solução pelo alto, acerto entre instituições da cabeça do sistema. Reconheço que Marina Silva e a REDE, meu partido, defendam com mais simpatia esse processo no TSE que deve ser muito criterioso, mas, eu sonho algo diferente.

Eu mesmo ficaria muito feliz se o povo brasileiro fosse chamado as urnas para decidir. É isso mesmo! Democracia direta, Os eleitos o foram pelo povo, portanto, a democracia é o regime onde o povo deve ser soberano e dar a última palavra, sem menosprezar aqui a representação.

A pergunta na maquininha é simples!

“Você deseja que Dilma-Temer continue presidindo o país até 2018?”

Em caso de vitória do “sim”, tudo segue como está. Se a vitória for do “não”, convoca-se novas eleições em 60 dias e o povo resolve essa parada. É solução por baixo. O povo coloca, o povo tira. Não seria mais democrático?

O terceiro motivo que não vou à passeata do dia 13 é que ela tem um tom forte anti-Dilma, mas não anti-PMDB. Se é para sair Dilma e o PT, que levem junto o PMDB. Ambos se beneficiaram do mesmo dinheiro sujo de campanha, ambos dividiram cargos no governo e nas estatais, ambos se lambuzaram nos cofres públicos com o apoio do PP de Paulo Maluf e do PCdoB de Aldo Rebelo. Fora os “esqueminhas” do PSDB (SP, PR, MG e Brasil) ou que tiveram origem na época de FHC. É tudo “mano”, mas na hora de pagar o pato, só cai a Dilma? Não! Considero isso uma injustiça.

Conclusão. Vou ler jornal, ver TV, estar com meus filhos e orar. Olho com tristeza para toda essa irracionalidade política onde as pessoas se atacam como torcedores fanáticos de time de futebol. A razão cede para a paixão e, desde Max Weber, a paixão (“ética da convicção”) não é um bom caminho para a política democrática que exige uma “ética de responsabilidade”. Onde estará Norberto Bobbio e suas lições de moderantismo? Cadê a sensatez?

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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5 respostas para “IRRACIONALIDADE, MENTIRAS E ÓDIO: A DEMOCRACIA TRUNCADA”

Luciana said On 12 março 2016 Responder

Amigo, texto excelente, como todos que vc escreve! Só discordo do dia 13-03 ser para pedir o impeachment da Dilma, porque o que mais tenho visto nas convocações é com o fim de apoiar a lava-jato. Há algumas semanas atrás o Moro foi à público em nome da equipe da lava-jato e disse que de agora em diante a operação só conseguiria continuar se tivesse o apoio popular, desde então que a movimentação em torno do dia 13-03 tem tomado proporções imensas para esse fim, não para o impeachment. O impeachment já é coadjuvante dessa movimentação, o protagonista é a lava-jato.
Sobre o lance de ter o apoio de Bolsonaro e cia, eu acho que o povo não deve deixar de ir às ruas reinvindicar, apoiar ou qualquer coisa que seja seu direito fazer, porque alguns oportunistas estão aproveitando pra se autopromoverem. Sempre terão esses oportunistas, não podemos abrir mão de nossos direitos por eles.
Achei realmente muito boa a ideia do plebiscito, mesmo que ontem, quando estávamos lanchando, eu tenha dito que demoraria demais! rsrsrs
Demora, mas achei brilhante a ideia, mais democratico que isso acho que não tem!
Texto primoroso! <3

Marcelo Monteiro said On 12 março 2016 Responder

Você não sabe a alegria que me dá ler este seu texto. Por haver luz no meio de tanta escuridão. Abração.

Roberto Xavier said On 12 março 2016 Responder

Como disse o escritor americano Ralph Waldo Emerson: “Suas atitudes falam tão alto que não consigo ouvir o que você diz.”
Em tempos bicudos como o atual é necessário sempre procurar onde está a razão e a verdade e elas podem não estar em lugar algum.
Por princípio vejo qualquer tentativa de interrupção do mandado de um governante eleito como golpe.
Foi assim, com Getúlio, foi assim com Jango e quase foi assim com Collor.
Acredito que nos 2 primeiros casos as consequências foram trágicas demais porque não se cumpriu o rito democrático e porque efetivamente os defenestrados não tinham responsabilidade alguma sobre as acusações que lhes foram imputadas.
No caso do Collor, nem uma coisa nem outra: o rito foi cumprido e ele tinha claros envolvimentos e responsabilidades sobre os fatos que deram respaldo para o processo de ruptura.
Neste momento me incomoda muito mais a forma que o conteúdo. Se cumprido o rito democrático, um possível processo de impeachment não resiste a 5 minutos de análise mais isenta.
Mas está quase impossível dialogar com qualquer um que defenda essa insanidade.
Gostaria de dizer como o Professor Carlos Melo: “Já fui um petista militante, hoje não sou mais, mas tampouco sou anti petista, nem um dissidente do PT.
Diferente dele, o Partido, para mim, não é como a Itabira de Drummond: um quadro pendurado na parede; às vezes dói, na maioria das vezes, não.
Na verdade, ainda me desperta muitas paixões. Não é apenas um objeto de análise. Mas, claro que minha visão muito mais que a dele a respeito disso tudo deve estar de algum modo comprometido pela vida que tive e pelos valores que tenho. Mas, quem será diferente disso? Nem ele, muito menos eu.
Isto posto, vamos analisar alguns pontos:
A Dilma não é a Presidenta dos sonhos dos petistas, nunca foi, mas também não é esse pesadelo que estão pintando. Daí a achar eu ela deva ser afastada há uma distância abissal.
De longe não é a pior que já tivemos. Em uma lista que tem José Sarney, 5 Generais Ditadores e Jânio Quadros isso só para ficar nos últimos 60 anos, chega a ser leviana e desprovida de qualquer base histórica e econômica uma afirmação dessa, mas enquanto opinião pessoal não tenho como contestar, só lamentar.
No entanto, quando se refere a legalidade, e só quando se refere a legalidade, não faço distinção de Esquerda e Direita, portanto, independente de quem seja, é legal e correto interromper um mandato porque uma parte da população não gosta do eleito? O momento de fazer isso não seria na eleição que o elegeu? A eleição é, e sempre foi, o melhor momento de se julgar um Governante sobretudo aqueles que disputam uma reeleição. Neste momento ao invés dos 11 juízes da Suprema Corte ou dos 594 Deputados e Senadores ou ainda de alguns milhares de manifestantes temos mais de 100 milhões de juízes para “julgar” o candidato.
E mesmo esses milhões de eleitores precisam aceitar que há o momento e regras para isso. Qualquer coisa diferente disso é ilegal e portanto sou contra. A livre manifestação faz parte do jogo, mas até pra isso tem que haver responsabilidade. O próprio PT só ganhou a credibilidade da sociedade quando passou a respeitar o jogo democrático e parar de colocar o povo na rua por qualquer coisa.
Por fim, antes que me critiquem por isso, não estou comparando ninguém, estou comparando momentos. Muito menos comparando Dilma a Getúlio, até porque é fácil lembrar do Getúlio democrata eleito pelo povo e que defendia os trabalhadores, mas é difícil lembrar do Getúlio ditador golpista que o antecedeu que foi um dos piores e mais violentos governantes dessa nossa pátria sem memória.

Juliana said On 20 março 2016 Responder

Excelente texto. Necessária a reflexão. Eu gostaria que vc falasse mais sobre “esquerda e direita”. Eu abomino a turma que pede volta da ditadura, bolsonaro e cia. Temo a transição com o PMDB. Mas sempre antipatizei com a soberba do PT. E talvez por isso eu seja daquelas que não gostam do vermelho nas manifestações. Nunca gostei. Então, pela sua análise, eu talvez seja verde-amarelo-direita… Mas não consigo entender essa definição. E foi dita em tom negativo. Acho que existe um tremendo engano nesse separatismo “esquerda” x “direita”, não cabe esse tipo de classificação no momento atual. Parece sempre que quem é de esquerda é “povo” e quem é classificado de direita além de não ser considerado “povo” é “xingado” de rico, elite, coxinha, defensor da ditadura, etc… Gostaria de ouvir você sobre essas definições! Obrigada mais uma vez por tentar trazer sensatez e elevar o nível do debate!

Marcio Sales Saraiva said On 20 março 2016 Responder

Tenho artigo aqui mesmo, nesse blog, sobre esses temas. Abraços!

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