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Fundamentalismo religioso e politicamente corretos: a aliança perversa

Os ataques terroristas na França detonaram uma onda de debates nas redes sociais e na mídia sobre os significados. A razão humana pede compreensão dos fatos e Freud explica o mal estar do incognoscível.

No facebook acontece uma explosão de hipóteses, teorias, manifestações passionais e defesas relativistas. Tem de tudo e para todos os gostos e estilos ideológicos.

Primeiro veio o impacto e todos nós nos solidarizamos. “Je Suis Charlie”. Em seguida, quando muitos descobriram o caráter anárquico e satírico do periódico, incluindo aí gozações nada “comportadas” em relação à fé cristã, houve um pequeno freio de arrumação. Alguns começaram a defender os “limites” da liberdade de expressão, outros chegaram mesmo a culpar os jornalistas: “eles abusaram, eles queriam isso mesmo”. Argumento semelhante ao machismo em relação a certas mulheres quando estupradas: “com essas roupas provocantes, ela pediu isso”.

Na wibe do politicamente correto, veio também a onda “Je Suis Ahmed”. Sim, pois o policial morto pelo extremista muçulmano era também irmão de fé. Tratava-se de um muçulmano pai de família que protegia o jornal que “zombava” de seu profeta. Anti-herói?

Daí para frente, o debate ficou acalorado. Parcela da esquerda brasileira, nutrida com um ódio a Rede Globo, posiciona-se pelo método Brizola: “Se a TV Globo apoia o jornal ateu, então somos contra”. Surgiram então as manifestações de simpatia subliminar — ou radical relativismo antropológico — pelos terroristas como uma minoria “oprimida”, sendo estes oriundos dos pobres subúrbios franceses, a maioria imigrantes, dentro de um país onde somente 10% são muçulmanos. Bateu compaixão. “Coitados desses terroristas, eles estão se vingando contra todo o mal que o ocidente imperialista faz contra eles, contra sua fé e contra seu povo”.

O discurso da multiplicidade de regimes de verdade logo ganhou força. Se não existe uma verdade, todas as versões são parciais, em especial, a versão do ocidente, dos cristãos, da TV Globo, dos ianques, do imperialismo, da esquerda social-democrata etc. Portanto, olhemos para “o outro lado dessa história”, para a narrativa dos próprios muçulmanos. O problema é que o ataque foi condenado por todos os governos muçulmanos e seus mais importantes teólogos e intelectuais, incluindo grupos guerrilheiros como Hezbollah. A Al-Qaeda e o Estado Islâmico (EI ou ISIS) estão sozinhos nessa jihad particular.

Até o momento, consolidei algumas opiniões que podem mudar de acordo com o processo histórico em curso. Sem dogmatismo, fiz as seguintes leituras:

(1) Os ataques representam a ampliação de um novo tipo de terrorismo. O terrorismo autoral não tem vínculos fortes com organizações e hierarquias, mas atua em rede, de forma mais rápida e descentralizada. Ainda que receba treinamento e apoio da Al-Qaeda e do EI, eles agem de forma anárquica, autônoma e sem um núcleo duro de direção. Essa pulverização faz de qualquer “pacato cidadão” um terrorista potencial, o que aumenta a paranóia coletiva e pode favorecer a ascensão da extrema-direita européia e seu discurso anti-Islã.

(2) Zizek, em seu livro “Violência”, nos apresenta três alternativas para lidar com os muçulmanos. Podemos tratá-lo com uma condescendência que esconde nossa arrogância. Algo do tipo: “coitados, eles ainda estão nessa fase de apego à verdade, morrem por ela, são seres pouco evoluídos que precisam do nosso amparo e compreensão”. Uma segunda maneira de lidar com o Islã é o relativismo dos múltiplos regimes de verdade. É aquela conversa de que “devemos respeitar a verdade deles, a interpretação que eles fazem do Alcorão é legítima e nos cabe somente buscar dialogar, encontrar brechas de convivência”. O problema é que o Islã usa o relativismo dos ocidentais para abrir mesquitas e ampliar sua propagação enquanto proíbe a fé cristã em seus territórios. Relativizar é um exercício que os muçulmanos fazem contra o ocidente, usando até mesmo os conceitos ocidentais de democracia e tolerância, mas não relativizam a própria fé deles, nem seus regimes político-teocráticos. A terceira maneira de lidar com o Islã, para Zizek, é tratá-los como adultos e responsáveis pelos seus atos e pela sua fé, inclusive, pelos seus extremistas. Submeter a fé muçulmana a uma análise crítica é tratá-los com pessoas sérias e dignas, é respeitá-los. Esse é o caminho mais difícil, em especial, para setores da esquerda que tendem a um alinhamento automático com qualquer tipo de ação ou movimento contra Israel ou contra o “capitalismo ocidental”.

(3) O extremismo muçulmano é conservador e reacionário. É contra os direitos das mulheres, das pessoas LGBT e basicamente anticomunista. Lembremos que esses extremistas já foram financiados pela CIA e pelo ocidente contra a URSS e os países do “socialismo real”. Bin Laden é um produto norte-americano! Os extremismo islâmico é a face oculta do imperialismo ocidental. É por isso que considero bizarro que parte da militância de esquerda, em especial no facebook, alimente discursos relativistas e condescendentes em relação ao extremismo muçulmano. Para citar três exemplos, o Partido Comunista Sírio e o Partido Comunista Libanês, bem como os comunistas palestinos, travam longa batalha contra o fundamentalismo muçulmano e suas concepções obscurantistas. As esquerdas sofrem no mundo muçulmano!

(4) A crítica ao terrorismo que faço — e muitos outros também — não é a mesma que os reacionários e as forças de direita fazem. Atenção aqui. Nem toda a crítica ao terrorismo é sinal de “alinhamento aos EUA”, “defesa da direita sionista” ou sinal de “coxinha”. Esse maniqueísmo é burro, estreito e pouco dialético.

(5) Defendo a paz, mas não sou ingênuo. Voltando a Zizek, é necessário que haja mortes e pessoas treinadas para matar para que eu durma em paz. Esse é um dos paradoxos do pacifismo. O combate ao terrorismo irá usar elementos de violência, é óbvio. O que devemos lutar é para que a direita reacionária não encampe como seu o discurso de “combate ao terrorismo” e “defesa da liberdade democrática”, como se as esquerdas fossem aliadas do fundamentalismo religioso violento. Na minha opinião, “nem terrorismo, nem Le Pen”. Esse deve ser o nosso foco progressista. A defesa do Estado laico, de regras universais e não submetidas aos regimes de verdade religiosa são bandeiras de esquerda. As verdades religiosas são legítimas no campo privado e tem o direito de se colocar na esfera pública do debate (Habermas), mas a pretensão de submeter toda uma população ao seu regime de verdade é fascista.

(6) Quanto à liberdade de expressão, precisamos encarar o paradoxo democrático: como ser tolerante com os intolerantes? O problema é antigo. Não há fórmulas prontas. Precisamos construir coletivamente regras de convivência cultural-religiosa onde a fé do outro não pode justificar a restrição da minha liberdade, mas que também a minha liberdade não seja pretexto para assassinar a fé do outro. Simplesmente censurar periódicos satíricos e ateus não é uma solução adequada, como assassinar os homofóbicos Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e Marco Feliciano não o é. Não poderemos resolver todas as nossas diferenças com um fuzil AK-47 nas mãos. O debate deve ser posto de outra maneira, até porque, já existe nas poliarquias regras que regulam a liberdade de expressão e a justiça tem esse papel normativo, com todas as falhas e ressalvas que possamos fazer a este aparelho de Estado.

O que quero evitar é o pesadelo que expressou Zizek: “uma sociedade regulada por um pacto perverso entre os fundamentalistas religiosos e os pregadores do politicamente corretos da tolerância e do respeito com as outras crenças, uma sociedade imobilizada pela preocupação com não ferir o outro”. Ousemos pensar fora das caixinhas e dos coxinhas.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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3 respostas para “Fundamentalismo religioso e politicamente corretos: a aliança perversa”

Jaqueline Gomes de Jesus said On 10 janeiro 2015 Responder

O politicamente correto, como ortodoxia, ficou ridicularizado.
Passou a ser visto, de forma generalizada, como censura, quando passou a desconstruir a linguagem de maneira trivial.
O seu potencial crítico, ante à maneira depreciativa como as pessoas se dirigem a grupos sócio-historicamente discriminados, é, comumente, desperdiçado em discussões mais sintáticas e anatemáticas do que semânticas e problematizadoras.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Essa versão ortodoxa e dogmática do “politicamente correto” é algo que emburrece-nos. Abreijos!

Amanda Colares said On 12 janeiro 2015 Responder

Discurso sensato!!!

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