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Eu, ela, Camões, o padre e outras conjugalidades

No decorrer desta minha existência, tive poucos namoros e alguns casamentos. Na verdade, nunca casei, mesmo sendo eu pessoa passional, do tipo que dá flores e vexames.

Esta ausência do sacramento é, para alguns mais conservadores, um sinal de que minha vocação para o sacerdócio como celibatário fora rejeitada por mim, pessoa rebelde que sou aos desígnios do Altíssimo. O “castigo” seria esta ausência.

Sei não. Gosto muito das relações amorosas, do contato, da pele. Padre Carpinteiro – que hoje já está do outro lado da vida e me aconselhou ser padre – me perdoe se eu estiver errado em minha avaliação. Talvez pudesse “negociar” com o Todo-Poderoso e servi-Lo como padre entre os meus amados católicos anglicanos. Lá o amor é livre e o celibato opcional. Ainda assim, ando muito cansado dessas estruturas eclesiásticas.

Veja bem. Eu continuo acreditando em Jesus Cristo (diz Calvino que os eleitos não perdem a fé), leio as Escrituras, tenho grande apreço pelos ritos, hinos e sacramentos, mas aquele reme-reme burocrático-político, os bastidores do poder nas igrejas, as fofocas e rede de intrigas, a falsa santidade de muitos carolas, a teologia fechada para os ventos do Espírito que sopram em todos os cantos religiosos, enfim, tudo isso me parece enfadonho demais e, por isso mesmo, prefiro a heresia dos sincretismos populares do que a “pureza” das fidelidades identitárias das religiões oficiais. Penso que Jesus está em outra parada. Como diz a Palavra, Ele “não habita mais em templos feitos por mãos de homens” (Atos 7:47-50).

Por que estou falando de namoro, casamento, igreja e celibato? Ah, para falar de meus relacionamentos. Pois bem. Na minha primeira viagem conjugal, fiquei quatorze anos com uma pessoa que não queria casar comigo. Considerava que os papéis cartoriais poderiam trazer azar para aquilo que, na prática, já dava certo. Ela me amava, eu sei disso, mas seu receio supersticioso era ainda maior.

Na minha segunda experiência, a pessoa não poderia casar comigo. A complicação era outra. Problemas jurídicos falaram mais alto do que o sonho das supostas “bençãos dos céus”. Fizemos um ritual de união, mas não foi um casamento nos conformes, a moda antiga, com papel passado e foto para colocar na cabeceira da cama. Seja lá como for, fiquei cinco anos vivendo esse novo grande amor. Depois acabou, como todas as coisas nessa vida finita. Aí regressei a mim mesmo.

Estaria eu debaixo de uma espécie de maldição de padre Carpinteiro antes de morrer? “Serás padre ou não casarás”. Não pode ser. Padres são agentes de Deus no mundo, não amaldiçoam ninguém, assim quero crer na minha ingenuidade católica apostólica baiana. Carpinteiro era um homem bom, ecumênico, sacerdote dedicado, vovô de luz que habitava aquela Paróquia em Cascadura. Não, ele não me amaldiçoou. Era um “branco-velho” sem cachimbo.

Depois desses duas vivências amorosas, namorei uma psicóloga encantadora e muitos pensaram que, dessa vez, eu iria casar. Casei não, mas foi bom. Com ela aprendi a valorizar mais a gestalt, pois antes era Freud, Klein, Jung, os existencialistas e só. A amizade ficou, sempre fica.

Pensei em desistir dessa coisa chamada casamento ou de qualquer parceria semelhante. Tenho boas lembranças com todas elas. Não se trata de nenhum trauma, mas temi o prognóstico do padre até conhecer uma mineira. Eita trem bão.

Foi ótimo, mas casei não. Vivemos três bons anos juntos, mas tinha uma diferença religiosa que, da parte dela, parecia atrapalhar um pouco. Acho que ela não se sentia confortável com a igreja, missas e ritos. Compreendi e juntos seguimos até onde o destino traçou.

Oficializada a ruptura com Minas, comecei um “lance” com a Daniela. Carioca mesmo, da mesma idade que a minha. No início era alguma coisa bem despretenciosa. Cada qual vinha de suas decepções e trazia na sua bagagem medos, dores, frustrações, questões familiares e manias.

Nos três primeiros meses começamos a fazer a experiência, não sem alguns conflitos aqui e ali. Chegamos a terminar, para em seguida recomeçar. E os recomeços podem ser bem melhores do que os começos. Normal isso. Ajustar-se depois dos 40 me parece algo complicado demais. Nos tornamos pessoas exigentes, ranzinzas, impacientes e inseguras quanto aos sonhos amorosos da juventude. Em outras palavras, ficamos velhos. É isso mesmo. Velhos! (E esta palavra me parece mais adequada do que o politicamente correto “terceira idade”, “feliz idade”, “idoso” e assemelhados. Eu gosto de ser velho)

Mas não é só velhice. Se somarmos os quatorze anos com a primeira, os cinco anos com a segunda e os três anos com a terceira, tenho aí 22 anos dormindo com alguém todos os dias. Sem papel e sem o sacramento eclesial, mas é casamento também. Como estou com 43 anos, restou 21 anos de vida sem estar casado. Se descontarmos 14 anos de minha infância e adolescência, sobrará 7 anos de solteiro. É pouco? Pode ser, mas e a tal vocação para padre? Não seria ela me rondando como fantasma e complicado minha matemática dos relacionamentos?

Que nada! Meu ceticismo diz que tudo isso é apenas a minha necessidade pessoal de “cobertor de orelha”. Imaturidade emocional? Pode ser. Deixo esses assuntos mais profundos para a minha terapia. O fato é que adoro casa cheia e cama ocupada, pelo menos, sempre gostei.

Hoje ando mais eremítico e meditante, apreciando mais os silêncios do que as algazarras. Ainda assim, uma companheira é sempre uma ideia sedutora. Não sei se é para casar (com ou sem o sacramento da tradição cristã), mas é bom demais termos alguém para compartilhar dores e alegrias, derrotas e conquistas, leituras e devaneios, beijos e prazeres. Ah gente… é bom viver essas coisas.

Todas essas palavras acima expressam minha desalinhada e apaixonante história de conjugalidades. Tem muito mais, claro, mas o que aqui exponho já é suficiente. Agora todos sabem que casei sem nunca ter casado e hoje estou fazendo quatro meses de namoro. Sinto-me adolescente ao dizer isso. Namoro. E alguém com 43 namora? Sim, namora. E está bom assim.

Daniela é, acima de tudo, companheira. Não é dada à arroubos intelectuais, nem a questões metafísicas que dão curto circuito em meus neurônios. Não tem a alma atormentada como a minha, graças a Deus.

Ela me ensina o carinho do contato, da pipoca com filme, das mãos apertadas dentro do teatro, no cinema e na peregrinação da fé. São coisas bem mais simples, mas dizem que a beleza está na simplicidade e não nas complexidades. A jardinagem do cotidiano pode nos ensinar mais sobre nós mesmos e o sentido da vida do que mergulhos profundos nas questões herméticas da filosofia, psicologia, religião e sociologia. Sei o quanto gosto destes mergulhos, mas ter uma mão que me puxe do abismo faz bem.

Há momentos em que me pego pensando sobre o futuro. Devaneios meus. Até onde caminharemos juntos, eu e Daniela? Será que dessa vez eu caso no papel e tudo? E o padre? Não sei, não sei, não sei. Aprendi com os anos que tudo pode acontecer. Tudo! Viver é um arriscar-se na diversidade de caminhos. Em “Tempo de Esperas”, padre Fábio de Melo – de novo esses padres! – nos diz:

“Não tema a ausência de respostas. Há um encanto resguardado neste silêncio, acredite. Nem sempre a vida fala. Por vezes o que dela temos é o silêncio. Descanse um tempo maior neste seu não saber. Quem sabe assim o encaixe das peças venha a acontecer” (p. 44).

Quatro meses. Sei que parece muito pouco e é, mas uma ilusão cognitiva me faz pensar em tantas coisas já vividas com ela, tantos detalhes. Palermice minha.

Conheço quem considere babaquice juvenil ficar comemorando mês a mês um relacionamento. Expor isso em rede social então seria atestado de imbecilidade afetiva. “Um babaca desses não pode ser cientista político, nem sociólogo”.

Bem, acho que sou babaca mesmo. Concordo com os meus críticos. Não tenho a malandragem dos espertos, a sisudez dos acadêmicos, a sobriedade de muitos intelectuais e nem a secura dos mais vividos. Sou velho-criança. Minhas ciclotimias me arrastam para as montanhas da alegria amorosa e os baixios da melancolia existencial. Tudo isso sou eu. Todas essas personas me pertencem.

Agora, eu e Daniela adentramos o quinto mês. Não sei se isso muda alguma coisa, mas sinto que temos uma relação mais firme do que no passado recente. É meio óbvio. O tempo! O tempo!

Se eu a amo?

Amor é palavra tão gasta que o seu significado anda perdido na teia de múltiplas definições. Eu sou daqueles que ama o mundo, amo todas as pessoas que comigo conviveram, amo meus filhos e tento até amar os que se colocam como meus adversários. Difícil, eu sei, mas a Graça d’Ele nos ajuda.

Quanto a Daniela, só pode ser amor. O desejo e o prazer de estarmos juntos, ainda que seja para comer um cachorro quente na pracinha, só pode ser coisa da flexada do Cupido ou artimanha de Santo Antônio, pois se não fosse, não resistiria até aqui.

Eu sei, eu sei, eu sei. Relacionamentos doentios e neuróticos também podem resistir aos ventos do tempo e ainda assim não ser amor. O autoengano nos espreita a todo momento. Mas quem pode ocupar o lugar do observador isento para diagnosticar patologias amorosas?

Sigo assim neste relacionamento. Sem datas, sem previsões, sem juras e sem diagnósticos. Apenas vivo o hoje do amor e quero estar amanhã com ela. “Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê”. E se eu quero estar amanhã com ela é porque está valendo a pena, pois amor não é coisa fácil.

“Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer”

(Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”)

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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Uma resposta para “Eu, ela, Camões, o padre e outras conjugalidades”

Daniela Santos said On 8 julho 2015 Responder

O bom da vida é isso, permitir-se amar repetidas vezes. Quantas forem necessárias e possíveis. Amar é tão bom!

Vida sem amor é cinza, muda, vazia e sem calor. Medo de sofrer, quebrar a cara todos temos. Mas são os corajosos que experienciam as melhores coisas, justamente por isso. Permitem-se, abrem-se para o amor e o que ele proporciona.

Não é palermice ou besteira expressar um sentimento tão grandioso, positivo e forte por alguém. Palermos são os que não amam e criticam quem o faz. rsrs…

E eu, bem… eu amo você por inteiro, amo o ser humano que você é, amo tudo o que vivemos e descobrimos todos os dias. Mesmo quando discordamos. Hoje me permito viver um dia de cada vez, não quero mais a ansiedade louca de projetar um futuro no tempo presente. Perdendo assim o que está aqui na minha frente para ser vivido.

Sobre votos e casamento, você sabe minha opinião sobre o assunto :) Curioso é você ser o segundo “quase padre” que aparece na minha vida. o.O rsrs!

Seguimos sem datas ou previsões, mas com juras sim.. de amor, alegria e respeito enquanto estivermos juntos. Amo você!

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