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E se você pagasse $1 real por cada postagem no Facebook?

Ontem conversava com meu filho Michel sobre esta rede social. Não buscávamos um consenso ou uma explicação geral, mas queríamos apenas levantar questões sobre o que levam as pessoas a postar o que postam em sua “timeline”.

— Ego e vaidade. Todos buscam o máximo de “curtidas”. Disse ele com ar de pedagogo.

— Sim, mas somente em parte. Pensei eu.

Há quem vive obsessivamente buscando “like”, isso é fato. Fotos ousadas e sensuais, textos chocantes ou óbvios demais, frases de otimismo e motivação etc. Sempre o gosto das massas, aquilo que poderá agradar um grande número de pessoas. Por vezes, alguma polêmica, mas sempre ao lado da maioria, da “opinião pública”, do campo onde mais de 60% apóia. Narcísico ao extremo, esse tipo torna-se dependente de “likes” como se estes significassem aplausos, aceitação social e fama. Ficam ofendidos quando você ou algum “fulano” não curte algo que eles postam. Marcam quem não percebe o aviso de aniversário e se magoam com a ausência de “parabéns”. “O mínimo eu” sobrevive psiquicamente (C. Lash).

Por outro lado, há o tipo fechado em si mesmo. Não busca obsessivamente as “curtidas”, mas usa seu mural no facebook apenas para falar de si, de sua família, dos seus amigos, dos seus hábitos mais pueris e de suas esquisitices. Não interage, não troca, não vê o que os outros postam. Não se interessa pelo Outro. Convicto de sua “genialidade ímpar” ou de sua “inadequação social”, somente fala/posta sobre si. Fecha-se em sua “bolha” existencial. Sente-se “autêntico” quando, na verdade, me parece cultuar certo “isolamento cult” ou agressividade “chique” e gratuita.

Aliás, muito se tem escrito sobre agressividade nas redes sociais. Penso que as redes espelham apenas aquilo que vai dentro de cada um, amplificando. Pessoas autoritárias, violentas e “senhoras da verdade” encontram nas redes sociais um palco para exibirem todo seu estúpido arsenal de certezas e perseguir quem pensa de forma diferente como burro, “vermelho”, “petralha”, “coxinha”, “reacionário”, “alienado”, “fútil”, “viadinho”, “babaca” etc. Poucos argumentam. A maioria prefere a chacota e a etiquetagem, o compartilhamento de notícias e dados sem nenhuma verificação prévia e cuidadosa. Em geral, compartilham sem acrescentar nada de si mesmos. No máximo um “é verdade”.

Nos dois extremos, entre os fechados em si mesmos e os que buscam obsessivamente as “curtidas”, há também os que tentam fazer um uso mais razoável/mediatizado das redes sociais. Posta aquilo que verdadeiramente pensa, sem se preocupar em “agradar o gosto da maioria”, mas faz isso com mediações, sem violência na comunicação. Não é fácil. Michel aqui perguntou novamente, sempre inteligente e atento (óbvio, ele é meu filho!):

— Mas esses “razoáveis” também não querem “curtidas”? Quem escreve para não ser lido?

Bem, é verdade. Ninguém escreve para não ser lido (transtornos assim são raros). Escrevemos porque sentimos necessidade de expressar algo que vai n’alma, mas também temos a expectativa de correspondência, de que a dinâmica “Eu—Outros” aconteça naquela postagem. O razoável (1) fica tranqüilo quando essa dinâmica não acontece, o obsessivo (2) fica revoltado quando não é reconhecido/curtido e o fechado em si mesmo tem uma única certeza: (3) “não me importo, todos são ignorantes, ninguém me entende”.

Terminamos nosso diálogo sem conclusão alguma. Sentimos os problemas que existem nas redes sociais, a emergência de novos paradigmas comunicacionais, a amplificação de uma nova esfera pública ainda pouco conhecida nos seus efeitos. Questões da psiquiatria/psicologia/psicanálise como voyeurismo e exibicionismo ganham aqui um novo campo de expansão. Onde chegaremos?

Espanto-me com a assombrosa explosão de “mundinhos” pessoais em vitrine para todo mundo ler e ver, como se o fato de que beltrano vai tomar banho e sair para a balada fosse uma grande revelação, uma questão pública. Talvez para a turma dele, com quem ele marcou de sair, mas eu tenho que ler isso também? E as fotos de namorados? E as postagens de indireta? As discussões conjugais pelo facebook? Qual o limite entre privado e público-social?

Encerro retomando o começo de minha conversa com meu filho. Se cada um de nós tivéssemos que pagar $1 real para postarmos alguma coisa no facebook, não seríamos mais criteriosos? Será que postaríamos tantas bobagens e repetições do que milhões de outros/as já postaram?

Talvez tivéssemos um ganho de qualidade (será que os ricos e a classe média postam “coisas melhores” do que os empobrecidos e de baixa escolaridade?), mas poderíamos estar também discriminando e excluindo aqueles que não têm dinheiro para pagar mais postagem. O caráter aberto e anárquico é a marca democrática da internet. O dinheiro criaria hierarquia de quem pode/não pode e assimetrias de falas/narrativas e “azelitebranca” também posta bobagens cotidianamente.

Com todos os meus incômodos e, por vezes, até mesmo com a minha indignação diante de manifestações de preconceito e ódio, eu ainda prefiro o caótico mundo virtual aberto para todas e todos, sem exclusão econômica ou de conteúdos. Aquilo que eu considero ruim, não leio! Lixo serve para ser jogado fora, mas pode ser também objeto de reciclagem e de ressignificação. Podemos interpretar. No máximo, se a agressão extrapolar o razoável (há agressões razoáveis?) e o limite da lei, abrir um processo contra o sujeito.

Posso também bloquear pessoas indesejadas/discordantes, retirá-las do meu “feed de notícias”, ignorá-las. Na campanha eleitoral do ano passado este recurso foi um sucesso. Mas isso não é um tipo novo de exclusão?

Não preciso ler e ver o que não gosto, mas aí, no limite, eu não estou criando um mundo “cor de rosa” e todo ele de acordo com minha visão de mundo? Além do algoritmo usado pelo facebook, eu mesmo não estaria contribuindo para ver e ler somente aquilo que concorda comigo?

Como poderei amadurecer intelectualmente e ser desafiado nas minhas reflexões, na minha visão de mundo se eu bani toda a discordância?

Quais os limites da tolerância com intolerantes?

Como poderei lidar com os diferentes numa rede social que eu construí um “espelho”, somente com pessoas como eu, parecidas comigo, da mesma corrente ideológica que a minha, da mesma fé ou descrença?

Aí já é assunto para outra postagem aqui no blog.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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