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E depois de velho, ele virou “viado”: sobre o dia de combate à homofobia

“Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” (2 Coríntios 3:17)

Estive casado por três anos com uma mulher transsexual. Antes, fui casado por mais de uma década com uma mulher cisgênero e por cinco anos com outra. Tenho quatro maravilhos@s filh@s.

Quando souberam que eu estava casado com uma trans (ou “um traveco”, na linguagem chula e estúpida de quem nada entende sobre a diversidade sexual humana), a primeira constatação dos preconceituosos foi:

“E depois de velho, virou “viado”. Que desperdício”

Não vou comentar sobre essa ridícula ideia de “desperdício” quando outro ser humano não corresponde ao nosso desejo. Sobre transgêneros e cisgêneros, remeto ao texto de Bia Pagliarini: Apagamento das identidades trans e não-cis.

É que para muitas pessoas, mulheres trans são “homens com roupas de mulheres” (e nem imaginam a diferença entre travestis e transexuais), portanto, um homem cisgênero que se relaciona com uma trans “é gay”, em alguns casos, é até visto como “gay enrustido”: “Falta a ele a coragem de assumir uma relação com um macho, aí ele disfarça com outro macho de batom e calcinha”. É nessas horas que percebo como faz falta o debate franco e honesto sobre sexualidade e orientação sexual, a começar pelas escolas e, óbvio, nas famílias.

Faz muitos anos que milito em defesa dos direitos humanos, em especial, em defesa da liberdade de expressão sexual e dos direitos das pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer e intersexuais). Quando estava no casamento com uma mulher cisgênero, alguns amigos achavam estranha essa minha postura.

“Por que você se preocupa em defender “viado”? Você não gosta disso! É pai de família!”

Bem, depois que casei com uma mulher trans, eles tiveram certeza:

 “Não disse, era “viado encubado”, pois quem defende direitos LGBT só pode ser um deles”.

Viu o vídeo? Então, na percepção de pessoas que ignoram o assunto (por falta de informação ou por conta das defesas do ego como negação, projeção ou formação reativa), há dois equívocos: (1) gays e lésbicas não podem “fazer” filhos e (2) defender o direito de alguém é concordar com as práticas desse “alguém” ou ter o mesmo tipo de desejo que esse “alguém” tem.

Por conta de tais equívocos, os conservadores e reacionários consideram que a pessoa que defende direitos humanos “tem tesão por bandidos” e “concorda que é correto ser criminoso”, ou então, quem defende direitos LGBT “só pode ser gay ou sapatão”.

Nada mais enganoso e preconceituoso do que pensar assim, pois eu não preciso ser uma mulher para defender os direitos feministas, a Lei Maria da Penha e combater a misoginia, bem como não preciso ser negro para defender os direitos das pessoas negras e com elas lutar contra o racismo. Também não preciso ser índio para compreender suas histórias e seus direitos, e da mesma forma, unir-me a eles na luta contra o genocídio e a invasão de suas terras. Ainda assim, deixo claro que ser um aliado não me dá o direito de retirar o protagonismo da ação e da fala de mulheres, negras/os e índias/os. Elas/eles devem ser os atores centrais de suas lutas, sujeitos de sua emancipação.

nao precisa ser

“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gálatas 5:1).

Senti o preconceito e a força das microagressões quando era casado com uma mulher trans e, de forma diferente, depois de minha separação, sofri preconceito quando comecei a namorar uma mulher cisgênero – que também passou a sofrer preconceitos por estar namorando “alguém como eu” (sic).

Um velho amigo (?) postou abertamente numa rede social algo do tipo:

“Marcio é agora um ex-gay, pois foi curado pelo pastor Marco Feliciano e está com uma mulher cisgênero para agradar a sociedade”.

Quanta estupidez e incompreensão sobre a sexualidade, a libido, os deslizamentos do objeto sexual e suas pulsões! A começar pelo fato de que homens que se relacionam com mulheres trans não são gays. Para maiores detalhes sobre isso, há um farto material disponível nas redes sociais, basta pesquisar.

Ainda assim, permanece uma questão:

Se eu fosse gay, qual o problema nisso?

Nenhum! Aliás, se eu fosse gay, eu também poderia ser uma pessoa feliz — e a felicidade é sempre uma possibilidade que não se resume à condição sexual — e esta ideia não me causa nenhum embaraço ou constrangimento. Apenas considero equivocada e reprodutora da lógica de identidades/papéis/práticas sexuais rígidas e enquadradas numa moldura comportamental perene.

As pessoas conservadoras e de “mente fechada” criam um falso problema para, na verdade, manifestarem seu preconceito, o desejo do escárnio, a celebração festiva da repulsa diante do Outro que percebe sua sexualidade fora das “caixinhas” da sociedade heteronormativa.

A questão central aqui é: como sociedade, ainda temos imensas dificuldades de aceitarmos a sexualidade como direito à liberdade individual e privada, bem como respeitarmos a pluralidade de afetos, inclusive suas manifestações públicas.

Hoje é o DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À HOMOFOBIA. De maneira muito rápida, a homofobia é medo, ódio e nojo por pessoas não-heterossexuais (recentemente se fala em LGBTfobia como uma maneira de incluir todo o espectro de sexualidades dissidentes). Estou tentando resumir, numa linguagem mais simples possível, questões que exigiram amplos estudos e que há um enorme debate em torno delas.

Há um componente maior e para além do preconceito, pois a homofobia envolve um desejo de eliminação (simbólica ou física) desse Outro que é considerado abjeto e portador de algo que “contamina” as pessoas “normais” (heterossexuais).

É claro que criticar homossexuais ou travestis não é necessariamente sinal de homofobia. O pastor conservador que entende que “homossexuais serão condenados ao inferno” está expressando uma tradução literal e empobrecedora das Escrituras, mas não é necessariamente homofóbico. Nem tudo é homofobia e o próprio conceito de homofobia merece um maior rigor acadêmico. O problemático na ideia de homofobia – ainda que o uso desse termo seja operacional – é que ela parte da mesma premissa dos preconceituosos: a estigmatização do Outro pela patologização.

Posto isso, quero aqui expressar minha alegria em viver sexualmente não limitado pela opressão normatizadora da heterossexualidade, ainda que eu seja atravessado por esta. Nesse sentido, entendo-me como pessoa queer, “ininquadrável” e livre de tarjas ou etiquetas.

Numa concepção libertária, a luta contra a homofobia deve ser também a luta contra os rígidos e tradicionais padrões sexuais e seus papéis impostos às crianças desde o útero materno — algo que Berenice Bento chamou de “heteroterrorismo”.

Esta é uma luta ainda maior, pois se dá contra todas as formas de opressão e preconceito, contra todas as formas de violência física ou simbólica sobre os diferentes. No seu aspecto mais profundo, é uma luta democrática pela liberdade humana.

“Falem e ajam como quem vai ser julgado pela lei da liberdade” (Tiago 2:12)

Não iremos mudar a sociedade de uma tacada só. As “estruturas mentais” só se modificam no longo prazo da história. Além disso, eu não quero que “o mundo seja gay”, pois a beleza do mundo está na diversidade de tons e flores do jardim de Deus ( como pensava Santa Terezinha de Liseaux). Quero sim um mundo colorido, onde todos e todas tenham tratamento justo-igualitário, tenham seu espaço existencial assegurado, seus direitos respeitados e sua liberdade garantida pelo Estado democrático de direito. Isso é pedir privilégios?

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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