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Deus, whisky com Red Bull e nossa pós-modernidade

Nesses tempos pós-modernos, vivemos dilacerados internamente e confusos em nossas ações. A marca da pós-modernidade, segundo alguns dos seus teóricos, é a esquizofrenia (por exemplo, JAMESON, F. Pós-modernidade e sociedade de consumo. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo nº 12, pp. 16-26, jun. 85). E ela se manifesta na cultura, na arquitetura, na dilaceração das grandes utopias, na fragmentação do sagrado. Tudo vai transformando-se em coisa, tudo é muito superficial, consumível e descartável. Isso vale para pessoas, relacionamentos e até identidades políticas ou religiosas.

Fragmentação, incerteza, angústia, desconstrução, sensação de vazio. O mundo visto pela ótica pós-moderna é um caleidoscópio vertiginoso de sensações, percepções, valores e verdades, todas mais ou menos iguais entre si, pois as hierarquias também foram corroídas em nome de um horizontalismo “democrático”, gerado pelas desconstruções raivosas das metanarrativas que “oprimem” os indivíduos.

E agora? Somos mais felizes do que nossos pais e avós? Penso que não! O ser humano fragmentado e superficial da pós-modernidade é uma dilaceração trágica e uma perda irracional do centro de si mesmo, quiçá do que entendemos como humano.

Não quero negar valores positivos desse tempo, tais como o pluralismo, a crítica à mitificação do progresso evolutivo, os grandes avanços tecnológicos, a liberdade individual e o antiautoritarismo dos grandes discursos que impunham verdades únicas. Mas é espantoso ouvir, como hoje, uma vizinha em altos sons curtindo música gospel, música pop americana e funk com linguagem agressivamente pornográfica com apologia ao crime e às drogas, tudo misturado. Quem é ela? Onde ela está? O que verdadeiramente crê na vida? Penso que ela é pós-moderna. Seres fragmentados, superficiais, caleidoscópicos e sem sentido algum, sem totalidade, sem um eu que seja alicerce. E por que não dizer sem Deus (ainda que para a maioria dos pós-modernos a ideia de Deus seja quase um absurdo arrogante e totalizador)? Não estou julgando ninguém, apenas pensando e compartilhando, “pensando alto” como se diz.

Defender hoje a razão, o bom senso, o diálogo (penso aqui em J. Habermas, teórico alemão da chamada “Escola de Frankfurt”) e um projeto ético global de emancipação humana parece piada, um retardo mental ou coisa de gente inocente e “fora da nova ordem mundial”. A festa pós-moderna nos convida a misturar tudo, mesmo que não faça o mínimo sentido (mas qual é mesmo o sentido se não aquilo que cada um dá para si mesmo? perguntará um pós-moderno). Ecletismo, pastiche, simulacros. Deus, funk “proibidão”, maconha, aleluia, ateísmo light, incenso, cocaína, frases bíblicas, novenas, livros de autoajuda, citações desconexas de autores que ninguém de fato lê. Tudo é lixo, tudo é luxo, tudo é interessante e ao mesmo tempo chato demais se passar dos 140 caracteres. Quem tem tempo e paciência para coisas mais profundas? Quem lê textos num facebook “twittizado”?

É um viver esquizóide, sem tempo para nada que seja longo ou profundo. Essa tal pós-modernidade é ao mesmo tempo festiva e depressiva. Uma depressão surda e epidêmica, ocultada pelos bailes funks, raves, orgias coloridas, garrafas de whisky com red bull, drogas de todos os tipos e gritos de aleluias.

“Whiski ou água de coco pra mim tanto faz”, canta um MC do complexo da Maré. O importante é mais e mais, alucinar-se até não aguentar. “Beber, cair e levantar” embalado pelo consumo e por uma nostalgia angustiante de algo que estamos perdendo, mas nem sabemos exatamente o que é. Não se trata de moralismo, nem de campanha antidrogas, mas de uma reflexão ontológica sobre o sentido da vida, de estar no mundo.

Na modernidade, as religiões, partidos políticos e outras instituições ajudavam na coesão social, na manutenção dos laços sociais e forneciam utopias que davam sentido à vida comunitária e individual, hoje também se encontram degradadas e, em muitos casos, capitularam.

O que significa viver num país com mais de 30 partidos sem fidelidade programática muito nítida? O que é o PSD do Kassab se não o nada com coisa nenhuma? É a desideologização da política, seu esvaziamento cultural e sua transformação em siglas de mercado para consumo pessoal e coletivo. A política se transforma em simples espaço para a manutenção de elites e oligarquias de poder que se revezam com muito dinheiro para comprar eleitores, eleições e consciências, também vendáveis. Os aparelhos midiáticos ajudam nesse espetáculo (ou o produz?) e mantém um clima de democracia, na qual há na verdade manipulação descarada e abuso de poder econômico. As massas também participam e gozam, assistindo e negociando seu preço, comendo nos churrascos eleitorais e arrumando uns trocados, enquanto sustentam discursos puritanos contra as “canalhices dos políticos”. Eleitos por quem?

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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Uma resposta para “Deus, whisky com Red Bull e nossa pós-modernidade”

jersgamneds said On 9 fevereiro 2015 Responder

An amazing article. Thanks!

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