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Depois de desconstruir Marina, agora é Aécio!

Eu fico estarrecido — para usar uma expressão dilmista — com o comportamento airado de alguns petistas (eu digo “alguns” porque conheço gente sensata dentro do partido de Lula).

O PT está — de forma muito eficaz, com a ajuda do chamado “João ‘Goebells’ Santana” (1), do jornalista Franklin Martins e da militância desatinada nas redes sociais — seduzindo uma parcela de indivíduos apedeutas sobre um “malvado Aécio” construído pelo marketing dos donos do poder. O candidato do PSDB está sofrendo a mesma desconstrução que Marina Silva (PSB-Rede), mas o tom e o foco é outro. O comissariado alojado no Palácio Alvorada é perito na arte de moer pessoas e alterar biografias.

Aécio é tratado pelos desatinados como branco (como se isso fosse ofensa), drogado (um tipo de preconceito bem direitista), elitista, playboy, péssimo gestor (mesmo Dilma tendo elogiado o moço na eleição passada), misógino, filho do demônio, privatizador da mãe, contra o salário mínimo, contra os pobres e espancador de mulheres. Há outros ataques, mas esses são centrais. O alto comissariado finge que não vê nada disso e acusa apenas um suposto crescimento do “fascismo” (leiam-se, indivíduos que criticam o PT e seus métodos).

É claro que há também setores estúpidos na campanha de Aécio, afinal, ninguém tem o monopólio da agressividade. Mas, para sermos fieis aos fatos, foi a campanha da Dilma que começou essa inépcia com os adversários, ainda no primeiro turno. Marina ficou chocada, mesmo assim, até seu choro foi objeto de deboche. O nível descia e sinalizava para a militância dilmista: “tudo é permitido, o importante é vencermos”.

Essa campanha violenta de destruição da reputação pessoal — e não se trata aqui de nenhuma discussão de programa de governo ou luta ideológica de uma suposta “esquerda” versus “direita” — é feita nos subterrâneos, enquanto na superfície, os mesmos desatinados fazem um discurso de que Dilma é “uma pobre mulher que está ‘apanhando’ do Aécio nos debates”. A presidenta é vítima de uma pessoa “machista” e “dura demais” com uma mulher, em síntese, um “homem arrogante”. E isso só porque Aécio não dá a outra face como Marina fez. Agora, saturados pela estratégia da guerra que eles mesmos criaram e contaminaram com um ódio que quebrou até amizades e casamentos, os mesmos adoidados petistas mudaram seu discurso. Eles são vítimas das “elites”, do “fascismo anti-PT”, do “preconceito social” etc. A onda é repetir até virar uma verdade: “nós somos o povo” e eles “são da elite branca, machista, misógina, neoliberal”.

O maniqueísmo é grosseiro, nós sabemos. Ele empobrece a profundidade dos debates programáticos, mas, na propaganda política, ele é uma arma eficaz, infelizmente. Facilita a escolha eleitoral entre “lado A” ou “lado B”, “nós” ou “eles”. Simplifica o jogo para o senso comum, traduzindo a complexidade da vida política, da polifonia das demandas, das diversas matizes de propostas, num falso dilema: preto ou branco.

A disputa entre Dilma e Aécio, no campo das intenções de voto, se mantém equilibrada. Empate técnico é o que dizem os institutos de pesquisa. É como se o povo assistisse bestializado a tudo isso. Escolher é sempre uma angústia, o fardo da liberdade como dizia Sartre. Assumir o voto em Aécio é arriscado para quem deseja se manter em paz, por isso muitos silenciam e há uma “onda silenciosa”, como também há os conservadores que preferem a continuidade com Dilma e a manutenção do mesmo partido no poder. Também há os que preferem sair dessa dicotomia e dizem que não vão comparecer ou, se muito, vão votar branco ou nulo. Alguns com razões ideológicas, a maioria por desânimo diante das opções ou medo de escolher e se arrepender depois, descuidando-se para o fato de que toda a escolha envolve riscos.

Minha compreensão — e insisto em dizer que respeito as compreensões divergentes da minha — é que a vitória de Aécio significaria o êxito da racionalidade derrotando o medo criado pelas distorções típicas de um marketing agressivo. Além disso, Aécio é uma liderança que tem capacidade de diálogo político para construir uma maioria congressual necessária em qualquer projeto de reforma. Já o triunfo de Dilma sinalizaria tempos sombrios de truculência. O PT sairia das urnas convencido de que a “política de guerra” — e seus marqueteiros — deve permanecer como estratégia orientadora das ações institucionais. A mesma seria deslocada para política de Estado contra os seus “inimigos” e isso reforçaria o viés autoritário de uma aliança que poderia chegar a dezesseis anos de poder, sem contar com o sonho de Lula em 2018 — ficar mais oito anos no poder. No total, o lulopetismo poderá ficar, no mínimo, 24 anos no poder. A tendência é forte.

Seja lá qual for o resultado, o Brasil sairá rachado desta eleição e até mesmo relações familiares precisarão ser reconstruídas. Muitos precisarão desbloquear centenas de amigas e amigos no facebook. O Congresso Nacional precisará de uma articulação cuidadosa para construir a coalizão que irá governar os próximos quatro anos. Dilma não chega a 100 deputados féis, enquanto Aécio tem mais deputados, mas ambos precisarão dialogar muito com uma Câmara que abriga 513 deputados federais, além das especificidades do Senado. A vantagem, neste ponto, é que Aécio parece mais habilidoso que Dilma.

Na oposição, o PSDB já mostrou que é de paz. Uma das provas disso é que os tucanos nem pediram o impeachment do Lula no auge do “mensalão” — se fosse o contrário, é lógico que o PT faria isso sorrindo. De qualquer forma, o “calor” desta campanha poderia engendrar uma oposição mais dura caso Dilma saísse vencedora. Por outro lado, o PT na oposição faria “o diabo” — lembrando de Dilma — para destruir o Governo Aécio, mesmo em pontos onde o partido, racionalmente, deveria apoiar. Foi essa cegueira — em alguns casos foi oportunismo mesmo — que assistimos na oposição raivosa que o PT e outros setores de extrema esquerda fez ao Governo FHC (1994-2002).

A nossa democracia ainda é muito jovem e imatura, mas é o melhor dos regimes que conhecemos até agora. O eleitorado brasileiro vai fazendo escolhas mais sensatas do que fazia em 1989 ou em 1992. É o tempo. A democracia pede paciência.

Garantir a alternância no poder e evitar uma hegemonia maior do PT sobre as instituições da República é o que me motiva a votar em Aécio. Se for necessário, eu prefiro ser oposição no governo do PSDB — e que acabem com a reeleição, por favor! — do que me arriscar a mais doze anos de PT no poder. Pode ser que, seduzidos, os petistas não queiram sair mais de lá. E, pense por um instante: sair do poder fará bem ao PT. Ele, como partido que se diz de esquerda, precisa voltar para as ruas e movimentos sociais. Depois de tanto tempo na burocracia do Estado brasileiro (são milhares de cargos comissionados) e imerso em tantos escândalos de corrupção, acredite, votar no Aécio é também contribuir com um PT mais combativo e depurado.

Referência:

1- O marqueteiro do PT está sendo associado com o estilo Goebbels de propaganda. Goebells foi ministro do Governo Hitler. Sugiro a leitura de algumas matérias sobre João Santana e seu marketing agressivo.

Leia aqui: Aécio critica método nazista

Leia aqui: Cineasta identifica João Santana com método Goebells de propaganda

Leia aqui: Beto Albuquerque também ficou indignado com a propaganda petista

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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4 respostas para “Depois de desconstruir Marina, agora é Aécio!”

Kaio said On 22 outubro 2014 Responder

Excelente texto. Concordo em praticamente tudo.
P.S.: Achei corajoso você postá-lo no grupo do IESP/UERJ, instituição que tem uma agressiva “bancada petista”. Prepare-se para receber ataques levianos.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Aposto sempre nos bons argumentos! O IESP é da UERJ e não do PT. ;)

Henrique Acker said On 22 outubro 2014 Responder

Márcio, vc está com toda razão no que diz respeito ao método grosseiro utilizado pelo PT nesta campanha. Tenho convicção de que isso tornou a eleição um vale-tudo e empurrou uma parcela considerável do eleitorado de Marina para o voto em Aécio. Não vou entrar no mérito da figura de Aécio, porque não é isso que importa. O que importa é o que ele representa. E aí, amigo Márcio, não tenho dúvida de que Aécio e o PSDB são os representantes do capital financeiro internacional e do legítimo modelo neoliberal, implantado nos governos FHC e até certo ponto plagiado nos 12 anos de PT. Por isso, e só por isso, votarei 13 em 26 de outubro.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Querido Henrique;
Hoje, podemos ver com mais clareza quem estava e está de braços dados com o capital financeiro internacional e um mar de corrupção. Abraços!

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