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Conselhos de um suburbano carioca para a “Rainha soberana da Nação”

Foi uma eleição difícil e de grandes emoções. Diversas reviravoltas aconteceram no percurso. Estou cansado. O sentimento duplo de derrota não é agradável. É claro que eu gostaria que no segundo estivesse Marina Silva, como também é óbvio que eu e alguns milhões preferíamos um governo Aécio Neves a ter que enfrentar quatro anos de Dilma Roussef com Lula na sombra. O operário já é candidato para 2018.

Respeitar os resultados eleitorais não significa comemorá-los. Não estou de luto, mas tenho preocupações com o futuro, ainda que mantenha minha fé na capacidade das instituições democráticas encontrarem soluções razoáveis para os conflitos que virão.

Se eu pudesse dar uns conselhos para Dilma, eu diria o seguinte. Primeiro, seja mais humilde presidenta. Dialogue com o Congresso Nacional, os movimentos sociais — que devem ser autônomos e não financiados pelo Governo — e as diversas organizações da sociedade civil. É um dado importante o fato de que 30 milhões não compareceram, estavam desmotivados. Além destes, 2 milhões votaram em branco e 5 milhões anularam o voto, enquanto 51 milhões votaram no candidato de oposição Aécio Neves, aquele que a senhora nem mesmo mencionou em seu primeiro discurso. Tudo isso dá 58 milhões que compareceram e não apoiaram o seu governo que teve legítimos 54 milhões de votos. São números para a senhora pensar.

Outro conselho seria refazer o pacto federativo. A senhora perdeu a eleição no Acre, Distrito Federal, Rondônia, Espírito Santo, Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul, Roraima, São Paulo, Goiás, Mato Grosso do Sul e Santa Catarina. Trate-os de forma republicana, sem boicotes ou tentativas de sufocar as políticas públicas regionais. O Executivo federal é muito concentrador e o nosso presidencialismo é de cooptação — para além das coalizões. Os Estados e sobretudo os municípios precisam de mais liberdade, respeito e autonomia.

A nossa economia precisa estar em ordem. Não é conversa de “tucano”, é sério presidenta. Combater a inflação não é coisa de “neoliberal”, é coisa de gente preocupada com o dinheiro dos trabalhadores. São os pobres e trabalhadores, que não tem dinheiro aplicado no exterior, os que mais sofrem com os processos inflacionários. Ouça os economistas que criaram o Plano Real. Não precisa dizer isso para a imprensa, mas ouça-os! Da mesma forma, responsabilidade fiscal com o dinheiro público não é uma “mania da direita”, mas é gestão sensata e não populista, é respeito com o dinheiro do cidadão-contribuinte.

Discuta com toda a sociedade a urgente reforma política. Concordo que é essencial, mas não imponha o projeto de reforma política que o PT deseja. Aí não será democrático. Já existem no Congresso ótimas propostas, não invente a roda. Tenha sabedoria para fazer escolhas depois de muito dialogar com os atores sociais relevantes.

Por último, cumpra com aquilo que prometeu. Combata a corrupção epidêmica, traga a inflação para o centro da meta, invista em educação e saúde, entre com seriedade na área de segurança, mantenha a valorização dos salários e não esqueça do meio ambiente — a senhora sempre negligencia este assunto! — e das pessoas em condições de subalternidade como negros, quilombolas, indígenas, ciganos, LGBT.

Sabemos que a campanha eleitoral foi jogo sujo. Seus marqueteiros extrapolaram os limites razoáveis da crítica. Desconstruíram pessoas, espalharam o ódio, criou-se um clima ruim entre os brasileiros. Agora é o momento de unir, juntar os cacos. A senhora terá um papel importante nisso. Não dê mais entrevistas incentivando o maniqueísmo, a guerra de nordestinos contra sul-sudeste, dos pobres contra os ricos, do “povo” contra as “elites”, dos “progressistas” contra os “reacionários”. Essa lógica de luta de classes que o PT ainda traz no seu DNA é perniciosa para construirmos consensos sociais democráticos. A democracia é, até aqui, o melhor regime e procedimento para resolvermos os conflitos, não coloque gasolina na fogueira das paixões ideológicas.

E por falar em gasolina, salve a Petrobras dos aloprados do seu partido. Ela é nossa e não dos partidos da coalizão governista. Imprima uma lógica racional e técnica na burocracia das estatais, afaste a politicagem e aproveite para reduzir esses 39 ministérios. Para que isso tudo presidenta? A maioria poderia ser uma simples secretaria nacional. A eficácia na gestão faz bem para todos e não pense, mais uma vez, que isso é “papo de coxinha”. Uma boa gestão ajuda no combate as desigualdades, a bandeira maior da esquerda.

 

P. S. Muitas amigas votaram na senhora com medo do PSDB acabar com o Bolsa Família. Coloque-o na LOAS, transforme-o em política de Estado e pense com seriedade na chamada “porta de saída”. É preciso que o Bolsa Família promova ascensão social e quebre o ciclo de miséria. Administrar a pobreza é “coisa de direita”. Lembra da LBA?

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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2 respostas para “Conselhos de um suburbano carioca para a “Rainha soberana da Nação””

Claudia Maria Madureira de Pinho said On 13 março 2015 Responder

Puxa, que texto mais do que perfeito, Marcio, adorei, não conhecia. Abraços”

Marcio Sales Saraiva said On 15 março 2015 Responder

Bom saber que uma pessoa sensível como você gostou do texto.

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