Category : Uncategorized

Home/Archive by Category "Uncategorized"

“Prefiro menor crescimento com maior distribuição” diz economista Daniel Duque

Conheci o jovem e inquieto Daniel Duque em alguma reunião de simpatizantes da Rede Sustentabilidade. Já o acompanhava no facebook e convergimos em vários assuntos, mesmo na diversidade do que somos. Ele na economia, eu na ciência política. Ele mais liberal, eu mais próximo da esquerda.

Combinei então de fazer uma entrevista com ele para o BLOG DO SARAIVA. Enviei várias perguntas e o resultado está aí. Corrupção, PT, governo Dilma, ajuste fiscal, socialismo de mercado, meio ambiente versus capitalismo e muitos outros temas para além dos dogmas da esquerda do século passado e da nova direita ultraliberal e socialmente insensível.

 

De onde surgiu Daniel Duque? (risos)

Minha trajetória intelectual começou pela minha carreira política e depois ambas foram se retroalimentando. Muitos membros da minha família foram políticos (ministros e fundadores de partidos). Meu avô, por exemplo, foi um dos fundadores do PDT, e conheceu o próprio Miro Teixeira. No entanto, eu mesmo conheci a política meio autonomamente, graças à onda verde de Gabeira, em 2008, quando eu tinha ainda 15 anos. Naquela época já tinha lido o Manifesto Comunista (Marx) por curiosidade e, com a animação de um candidato verde no segundo turno, acabei virando ecossocialista e militante político. Entrei para a então Nova Organização Voluntária Estudantil, que organizou os protestos contra os vazamentos do Enem e, após uma eleição frustrada para o grêmio do meu colégio (com digníssimos 39% dos votos), resolvi me aprofundar nas grandes questões materiais e ecológicas que fazem o rumo da sociedade. Fui cursar economia na UFRJ.

Do meu período na UFRJ, ficou muito marcado minha mudança qualitativa como economista quando entrei para um estágio no Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, com Armando Castelar, um dos melhores economistas do país. Graças ao trabalho com ele, questionei todos os meus dogmas anteriores e comecei a pensar em um diferente paradigma de desenvolvimento, fortalecendo muito minha capacidade analítica.

12734276_1007257932674859_5579330239320505428_n

Desde então acumulei outras pesquisas, como das desigualdades raciais, sob a orientação do grande Marcelo Paixão, e energias renováveis, com o professor João Mathias Cury, que me reaproximou de Marina Silva, por quem eu tinha militado em 2010, e da Rede. Creio que se não fosse por ele eu não estaria hoje tão envolvido na política. Infelizmente, acordei tarde para o micro universo na universidade, e só ano passado montei uma chapa para disputar o Centro Acadêmico do Instituto de Economia, tendo perdido novamente, mas dessa vez com 49% dos votos.

Hoje, porém, o grupo chamado Ágora ainda não se dissolveu, mas de fato só faz crescer: estamos hoje com ainda mais membros e já fizemos dois debates políticos, com perspectivas de mais dois para o mês de Maio. Além disso, estou hoje no chamado Clube Autonomia que está organizando um evento de promoção à livre migração, uma bandeira que considero absolutamente urgente para nossa sociedade.

 

Como você avalia a chamada “era petista”? O balanço é somente negativo como muitos parecem insinuar?

Não, é óbvio que não. Lula pode ter tido toda sorte do mundo, com o boom de commodities, a liquidez internacional e o bônus demográfico, mas é impossível não reconhecer sua orientação política acertada, de conjugação da estabilidade macroeconômica com políticas redistributivas, não só de renda, mas também de terras. Foi uma orientação ensaiada no segundo mandato do FHC, e muito fortalecida por Lula.

No entanto, tenho que admitir que tenho revisto muitas ideias elogiosas sobre o governo Lula, e fui obrigado a me fazer perguntas incômodas, como: valeu a pena o ciclo virtuoso do primeiro operário presidente ao preço do escalonamento da corrupção da Petrobras, da compra de votos no mensalão? São perguntas para as quais eu realmente não tenho resposta.

 

A corrupção é um problema deste governo ou é algo estrutural nas sociedades de mercado?

A corrupção ocorre quando existe uma dificuldade e surge alguém para vender uma facilidade. Essa dificuldade pode ser estrutural da economia de mercado, como a competição entre empresas. Competir é muito ruim para qualquer empresário, que acaba tendo que gastar com propaganda ou abaixando seus preços. Já temos aí, portanto, um incentivo para os empresários buscarem vantagens anticompetitivas.

No entanto, para isso ocorrer, é preciso ter, na outra ponta, alguém vendendo facilidades. Esse é o caso dos agentes do Estado. Quando damos aos políticos e burocratas a capacidade de arbitrar regras e leis em qualquer esfera e nível da sociedade, é óbvio que alguém vai querer comprar as facilidades que isso oferece. Temos aí, a corrupção, tal como foi na Petrobras, por exemplo.

A coisa é ainda pior quando o Estado cria, ele mesmo, dificuldades para vender facilidades a um alto preço. É o caso de toda burocracia estatal que serve basicamente para que seja economicamente melhor para as empresas ter um despachante para tratar dos assuntos com os agentes do Estado, sejam eles legais ou não. É também o caso do pipoqueiro que, por não conseguir licença para vender, tem que dar pipoca todo dia para o guarda municipal. Essa corrupção absolutamente estrutural não acaba enquanto dermos ao corpo burocrático do Estado a capacidade tanto de criar dificuldades quanto de vender facilidades, pois há verdadeiramente muitos poucos santos que vão resistir a tão vantajosos incentivos.

 

O chamado tripé econômico dos dois governos FHC estava correto? Os governos petistas erraram em relativizar esse tripé?

O governo Lula nao relativizou esse tripé, mas o fortaleceu. Mesmo em 2009, no auge da crise mundial, e decrescimento do PIB brasileiro, o governo apresentou um superávit primário positivo. Claro que, naquele momento, ele fez políticas expansionistas, porque, é bom lembrar, havia muita folga fiscal para isso, e dificilmente a equipe de FHC teria feito muito diferente.

A grande ruptura com o tripé macroeconômico foi com Dilma, e não em 2011, mas em 2012, com a chamada Nova Matriz Econômica. Ali que se tentou inovar macroeconomicamente – com ideias muito velhas, na verdade, que remontam à ditadura militar.

Mas o pior para a economia, ao meu ver, não foram os erros bem intencionados de Dilma, mas os mal intencionados. Isso porque no segundo semestre de 2013 já havia um diagnóstico geral de que a Nova Matriz Econômica tinha dado errado e era preciso voltar ao rumo anterior, mas as jornadas de junho estavam a mil e a eleição estava logo ali. Portanto, para maquiar a situação e se manter no poder, Dilma tentou ativamente iludir os agentes econômicos, entre eles os eleitores, aí lançando mão das pedaladas fiscais para esconder o déficit nas contas públicas e do controle artificial dos preços administrados para fingir que a inflação estava sob controle. Passadas as eleições, vislumbramos uma crise repentina, que poderia facilmente ter sido suavizada caso Dilma tivesse agido honestamente.

 

Se o Estado pode ser fonte de ineficiência e corrupção, a “mão invisível” do mercado nem sempre gera justiça social e prosperidade para todos. Como sairmos dessa encruzilhada entre liberais e socialistas? Estado ou mercado?

O mercado, pelos incentivos que gera através da competição, sem alguém vendendo facilidades, tende estruturalmente ao aumento da produtividade, além da redução de preços e lucros. Isso não sou eu que fala, mas Marx, já nos primeiros capítulos d’O Capital. Portanto, uma sociedade de mercado só tem um rumo possível: o crescimento econômico. Não é a toa, por exemplo, que desde o século XIX a humanidade saiu de sua estagnação histórica para um período de crescimento contínuo e ininterrupto de sua opulência material.

12794519_1020463601354292_6140967661998664872_n

É importante levar em conta que o mercado não é um agente, um conglomerado de empresas ou de bancos, mas um processo de trocas. Quando se fala em mercado de trabalho, mercado de bens e serviços e mercado de crédito, estamos falando de trocas voluntárias entre pessoas que creem que estarão melhor trocando algo do que sem essa troca. Isso é muito diferente do que se tinha antes do século XIX, quando as trocas eram todas politicamente orientadas, e a produção era em grande parte centralizada. Parece besteira, mas foi quando as pessoas foram convidadas a participar das escolhas econômicas que afetavam suas vidas que o mundo começou a a ficar ininterruptamente mais rico.

Isso não significa que o Estado não deva existir. A questão é até onde ele pode impedir trocas voluntárias entre as pessoas. E isso nada tem a ver com distribuição de renda, por exemplo. É totalmente possível que tenhamos uma ampla rede de redistribuição equitativa da renda conjugada à liberdade de trocas voluntárias. O próprio Milton Friedman, por exemplo, defendia algo parecido com o chamado imposto de renda negativo, e é do libertário Hayek que vem a proposta de uma renda mínima, defendida hoje pelo ex senador petista Eduardo Suplicy.

 

Alguns teóricos falam em socialismo de mercado. Isso é possível?

Há quem diga que o modelo Chinês seria um socialismo de mercado, mas não vejo nada na economia chinesa além de um capitalismo de Estado, próximo ao que tínhamos no período da ditadura militar no Brasil

Agora, se estamos falando realmente de socialismo com livre mercado, podemos citar o pensador Kevin Carson, que escreveu a célebre frase: “Livre Mercado como Comunismo Pleno”. Temos também o historiador Fernand Braudel, que fala que o mercado não é igual ao capitalismo, e que pode ser mantido o primeiro sem que se mantenha o segundo.

São perspectivas que eu acho muito interessantes e que valem a leitura. Vão muito na ideia citada anteriormente que o mercado é um sistema de trocas voluntárias, o que não precisa nem ao menos comungar com a necessidade da busca pelo  lucro individual.

 

Combinar sustentabilidade socioambiental com o caráter expansionista e “crescimentista” do capitalismo não te parece impossível? A busca do lucro não se choca com a preservação ou a “exploração sustentável” dos recursos?

Essa é uma questão complexa, e que certamente ainda vai dar muitos fóruns de discussão no futuro. Há algumas perspectivas que permitem certo otimismo, como a mudança estrutural na composição setorial do PIB do mundo. Isso porque muitos países, principalmente os desenvolvidos, estão se desindustrializando. É fato, por exemplo, que uma indústria de automóveis polui mais do que um serviço de design de software, porém ambos podem produzir o mesmo valor agregado no período de um ano. Isso permite um aumento da produção com uma redução, ao menos relativa ao PIB, da poluição.

Também, é claro, sabe-se que quão mais rico ficamos, menos de nossa renda é destinada a bens físicos. Uma pessoa pobre certamente gasta praticamente 100% do que ganha em roupas, alimentos, um eletrodoméstico aqui, outro ali, etc… Já uma pessoa rica destina pouco de sua renda a tais bens. A maior parte vai para restaurantes, colégio particular para os filhos, festas, entre outros serviços que não emitem tanta poluição para serem ofertados quanto produtos físicos.

Carlos Góes, mestre em economia pela Universidade Johns Hopkins, é ainda mais otimista: em um artigo no Mercado Popular, do qual é pesquisador-chefe, e onde também sou colunista e editor, afirma que é possível já ver evidências estatísticas de que os ganhos de produtividade estão gerando maior crescimento econômico e menor emissão absoluta de CO2.

 

europa carbono

 

Se você não for tão otimista, porém, o que eu acho razoável, certamente vamos ter que rever nosso modelo de combate às iniquidades sociais via crescimento, tendo que passar para um modelo via destribuição de renda inter e intra países. Eu viveria muito bem em um mundo que crescesse pouco mais distribuísse muito, mas temos que pôr as coisas em perspectiva: o PIB per Capita do mundo, atualmente, é de cerca de R$ 2.500 reais por mês. Portanto, ninguém, nem eu, nem você, poderia ganhar muito mais que isso, e por muito tempo. Essa é uma escolha política viável?

 

Qual o papel da sociedade na construção de políticas econômicas? Como sairmos das soluções tecnocráticas?

Nao acredito que caiba (somente) aos economistas decidir o rumo da economia do país. Essa é uma ideia anti democrática e ilusoriamente tecnocrata, porque a melhor decisão é a decisão que a maioria (ou o consenso) preferir, e só dá para saber isso se você perguntar à população. Os economistas devem, no máximo, apontar os caminhos e as possíveis consequências de cada um. É da sociedade o papel de assumir o risco do caminho que escolhe rumo ao fim que desejar. Por isso também os economistas devem sempre sair de seus elefantes brancos e falar de economia de forma que as pessoas consigam compreende-la. Vejo muita preguiça de meus companheiros de tornar a economia acessível à população, bradando apenas o que se deve fazer. Claro que há poucas e honrosas exceções, na direita e na esquerda, mas a regra é essa.

 

Com o Congresso que temos, é possível aprovarmos reformas econômicas e estruturais?

Depende de que reformas são essas, e de quem e como vai articulá-las. Tendo a ver o Congresso como uma massa de modelagem, se você pressionar e manipular do jeito certo, pode vir qualquer coisa dali. Essa é a parte boa da democracia, afinal de contas, e foi isso que permitiu um Congresso ocupado por 80% de brancos instituísse, por exemplo, a lei de cotas raciais nas universidades em 2011.

Atualmente precisamos de reformas que permitam pelo menos que se enxergue no futuro uma trajetória de déficit das contas do governo não tão explosiva quanto a atual. Para isso, em um momento de crise, é impossível que alguém não perca algo, e defendo fortemente que quem pague a conta seja o andar de cima. Para não ficarmos na ladainha do imposto sobre grandes fortunas, que dificilmente será aprovado, acho que outras frentes precisam ser atacadas, entre elas: a gratuidade universal das universidades públicas, que são ocupadas majoritariamente pela elite, os super salários de alguns servidores, que compõe grande parte da classe alta brasileira e a Previdência Social, que além de deficitária é regressiva, ou seja, concentra renda. Essas pautas podem não parecer muito voltadas à esquerda, mas com as reformas corretas, elas poderiam dar mais solidez fiscal ao país e reduzir sua desigualdade social.

 

Qual é a dificuldade de alguns economistas em fazer política e dialogar com os partidos?

Economistas, como dito anteriormente, tendem a ficar em seus elefantes brancos, crendo que estão com o bastião da verdade. Política, porém, não se trata de ter uma verdade, mas de dialogar versões. O maior erro dos economistas, portanto, é ver a verdade nos números e a ilusão nas pessoas – porque afinal, os números da economia representam justamente a população.

A melhor saída para a economia é mesmo o impeachment de Dilma? Considera esse processo justo?

A melhor saída para a economia é certamente a saída de Dilma. A presidenta, apesar das aparentes boas intenções de seu segundo mandato, não conseguiu articular um plano para a saída da crise, mas ficou apenas apagando incêndios, e das piores maneiras. Estamos atualmente com um desemprego e uma inflação de 10%, um dos piores dos cenários possíveis para qualquer macroeconomista. Eu não vejo Dilma apontando uma solução para isso, nem nenhum dos meus colegas.

No entanto, é claro, a saída de Dilma não precisa ser pelo impeachment. Considero o processo sim justo, porque as pedaladas fiscais foram operações de crédito do CEF e do BB para com o governo, o que está expressamente proibido na Lei de Responsabilidade Fiscal, e se engana quem crê que isso também foi feito em governos anteriores. O que sempre ocorreu antes foram eventualidades de os saques dos beneficiários de algum programa social serem maiores do que o repasse em um mês, o que era corrigido no mês seguinte. A partir de 2013, até setembro de 2015, o que Dilma pioneiramente fez foi atrasar sistematicamente os repasses aos bancos que controla, de modo a acumular saldos negativos com os mesmos.

 

pedaladas

 

Agora, não é porque acho que é justo que creio que seja a melhor solução para a atual crise. Essa é, afinal de contas, a beleza do caráter político do processo do impeachment. De fato, acredito que o melhor caminho para que consigamos sair dessa sinuca de bico econômica sejam novas eleições, para que se dê legitimidade popular ao governante para ele poder fazer as reformas que tiverem o respaldo da população que o elegeu.

 

Qual é sua avaliação sobre um possível governo Michel Temer? Seu programa de governo (“Ponte para o Futuro”) é positivo para a maioria dos brasileiros?

Não tenho como acreditar no sucesso de um eventual governo Temer. A conjuntura política de sua gestão não seria muito diferente do atual Governo Dilma: teríamos um presidente mal avaliado pela população, o partido do governo envolvido em diversos escândalos de corrupção, uma oposição a barrar qualquer iniciativa politicamente custosa, inúmeros partidos disputando a máquina pública em um contexto de aperto fiscal e, muito provavelmente, manifestações constantes até as eleições. É impossível avançar em qualquer frente que seja desse jeito.

 

Li a “Ponte para o Futuro” com boa vontade, e é verdade que, entre alguns aparentes retrocessos, como a flexibilização das licenças ambientais, vi boas propostas para a economia. Há, no entanto, uma gritante ausência de enfatizar que as reformas propostas teriam caráter distributivo. Esse eu creio que seja o grande erro dos liberais no Brasil: eles mesmos não parecem crer – nem mesmo parecem achar importante – que suas reformas seriam pró pobres, ou seja, redistribuiriam melhor a renda do país. Eu não tenho dúvida, por exemplo, que a melhor maneira de reduzir o déficit da Previdência é reduzir sua regressividade. Mesmo a polêmica mudança no salário mínimo, com a qual não concordo inteiramente, seria benéfica em termos distributivos, pois hoje o Estado paga esses aumentos se endividando, sendo obrigado, portanto, a pagar mais juros para quem compra seus títulos da dívida – notadamente os mais ricos do país. Desse modo, qualquer redução de gasto pouco distributivo, como as aposentadorias atreladas ao salário mínimo, hoje, leva à uma redução da desigualdade social, e falta muito às pessoas que defendem essas reformas falarem isso.

 

Qual é a maior lição que a economia pode nos oferecer nesse momento de crise?

Que as dificuldades se combatem com a verdade, não com a ilusão. Essa crise já teria acabado ano retrasado se, lá em 2013, Dilma tivesse falado a verdade para com a população e feito, com a legitimidade popular que tinha, o que sabia que devia fazer.

Nesse momento, não há uma lei econômica a se aplicar, mas o mais importante é que, munidos de discursos honestos, possamos construir pontes, não para o futuro, porque ninguém sabe o que se aguarda lá na frente, mas para com nós mesmos. Somente uma sociedade munida de honestidade e diálogo conseguirá vencer uma tragédia que se formou através da enganação e polarização. É essa a lição que eu creio que se possa oferecer através da economia.

A esquerda nunca governou o Brasil, nem o PT

“A unidade centralizada do Estado não reside numa pirâmide, na qual bastaria ocupar o topo a fim de assegurar seu controle. Há mais: a organização institucional do Estado permite que a burguesia transfira o papel dominante de um aparelho a outro, no caso de que a esquerda, ocupando o governo, consiga controlar o aparelho que até então desempenhava o papel dominante. Dito de outra maneira, esta organização do Estado burguês permite que ele funcione por meio de transferências e deslocamentos sucessivos, permitindo a mudança do poder da burguesia de um aparelho a outro: o Estado não é um bloco monolítico, mas um campo estratégico” (Nicos Poulantzas, L’État, le pouvoir, le socialisme. Paris: Les Prairies Ordinaires, 2013, pp, 204-5) 1

 

Não sei se por ingenuidade ou esperteza, o Partido dos Trabalhadores (PT) avaliou que, depois da “Carta aos brasileiros” (2002), onde as forças do mercado foram tranquilizadas diante da possibilidade da vitória de um candidato de esquerda como Lula, bastaria ocupar o topo da pirâmide do Estado, a chefia do poder executivo, e fazer as reformas necessárias para a maioria do povo brasileiro. Faltava combinar com “os russos”.

De fato, o PT ganhou a eleição presidencial de 2002, mas já com diversas e graves concessões. Antes da “Carta aos brasileiros”, havia expulsado correntes internas mais radicais como a Causa Operária (que deu origem ao Partido da Causa Operária/PCO) e a Convergência Socialista (que fundaria o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado). Logo em seguida, já no poder, expulsaria Heloísa Helena, Babá, Chico Alencar e Luciana Genro que arrastaria uma nuvem de militantes para fundar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

Todos esses expurgos, comandados pelo campo majoritário, consolidaria o PT como um partido de “esquerda light”, próximo da amigável social-democracia, confiável para os grandes empresários, “sem radicais”, aberto para alianças “mais amplas”. As lutas sociais foram substituídas pelas alianças no Parlamento. Althusser já alertara que o objetivo da esquerda socialista “não é limitar sua atuação ao Parlamento”². Os petistas esqueceram disso tudo ou desejam mesmo não lembrar. Era a degeneração do partido que estava ganhando imenso espaço, mas muitos fingiam não saber – o mecanismo de negação é aqui um dado interessante para pensarmos freudianamente este problema – e outros tinham convicção que esse era o caminho da sensatez política-administrativa, além dos oportunistas que pensam apenas no próximo cargo e em como ganhar mais dinheiro.

No primeiro momento, avesso ao fisiologismo do PMDB, o lulismo buscou alianças com partidos médios e pequenos, no campo do centro e da centro-direita. Assim conseguira maioria congressual para governar. O preço foi o “mensalão”. Escândalo!

O PT continuou na mesma linha. Considerou que o “mensalão” foi culpa de uma escolha equivocada e “erros pessoais de alguns companheiros”. José Dirceu deu o tom: “precisamos consolidar uma maioria estável com o PMDB”. Se o PT tinha o controle do aparelho de governo, pensavam alguns, tais alianças “pragmáticas” não afetariam suas políticas públicas reformistas. Grave erro! Óh estupidez!

A ideia de que basta controlar os aparatos de governo que as reformas viriam “naturalmente”, criando assim uma “democracia popular”, mostrou-se de uma ingenuidade atroz. Como dizia Poulantzas, o Estado não é um ator monolítico, mas um “campo estratégico” e cheio de conflitos por dentro. O que havia de esquerda no PT-PCdoB foi ficando isolado.

As forças conservadoras, alinhadas com os interesses do mercado financeiro e da burguesia nacional/transnacional, “por meio de transferências e deslocamentos sucessivos”, controlavam setores do Judiciário, grande mídia e Parlamento, impondo ao projeto reformista do PT inúmeros e sucessivos recuos e derrotas, a tal ponto que podemos afirmar que o PT mesmo, o núcleo que deu origem ao projeto de 1989, nunca governou o Brasil nesses 14 anos.

Se com a primeira coalizão, implodida pelas revelações bombásticas e midiáticas do deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), o PT não conseguiu imprimir seus sonhos de um governo democrático-popular – projeto construído desde 1989 com a “Frente Brasil Popular” (PT-PSB-PCdoB) -, a segunda coalizão, já com o PMDB-PP-PR desempenhando um fortíssimo papel, os petistas não avançaram em mais nada. A diferença entre o governo do PSDB e do PT começavam a se diluir.

Dilma, pessoa dura e contrária ao jogo político-parlamentar, tentou “pelo alto” impor um governo neodesenvolvimentista (trabalho, renda, consumo e subsídios ao capital nacional), mais conectado com o projeto original do reformismo petista de 1989-2001. O isolamento foi ainda pior e crescia a oposição. Os erros na condução econômica, a incapacidade de manter maioria congressual, o endurecimento dos setores mais à direita, a queda na popularidade, a vitória de 2014 construída de forma frágil e usando promessas irrealizáveis no curto-médio prazo, o fim do diálogo com os movimentos sociais que restaram, a resistência em ouvir os gritos das ruas em 2013, tudo isso levou o governo Dilma ao colapso, sendo extorquido pelo bloco PMDB-PP-PR em tudo que podiam.

A leniência e complacência com a corrupção estrutural – que não foi inventada pelo PT, mas que a mídia conseguiu fabricar uma opinião pública histericamente antipetista e anticomunista – queimou o capital ético acumulado por este partido ao longo de décadas.

Os trabalhadores e as classe medias debandaram de sua base social de apoio. Restou o “Bolsa Família”, o agronegócio com Kátia Abreu e os financistas. Insustentável. Paralisia. Tensão interna permanente entre ministros e destes com os líderes no Congresso.

A Operação Lava-Jato – ingênua, mas corretíssima nos seus princípios, foi usada de forma seletiva pela burguesia e seus aparatos midiáticos – somada aos péssimos indicadores econômicos levou o governo petista à lona. Somente as carcomidas estruturas sindicais-estudantis (UNE, MST, MTST, CUT etc.), já desmoralizadas pela cooptação, ficaram com o governo, além dos que se beneficiavam do Bolsa-Família que agora viam no supermercado seu dinheiro evaporar. O desemprego chegara a 10 milhões e aqueles setores fisiológicos que davam maioria congressual (PMDB-PP-PR) começam a debandar para a ideia de impeachment, aliando-se ao futuro possível, o projeto de poder do vice-presidente Michel Temer e seu ideólogo, Moreira Franco. “A ponte para o futuro” é a alegria da burguesia sem freios. É o projeto de governo dos mercados.

O futuro é ainda incerto. Dilma caindo ou ficando, o cenário será de conflito e muitas dificuldades no campo econômico. Os trabalhadores e as classes medias pagam a conta de toda essa crise e poderão sofrer ainda maiores reveses no provável governo Temer e seu arco de alianças claramente liberal de direita.

As lições começam a se desenhar, ainda que nebulosas. Estamos ainda empapados pelo presente. É cedo, dirão alguns sociólogos, economistas, historiadores e cientistas políticos. Pode ser, mas arrisco:

1) A esquerda no Brasil é minoria. Têm, na boa vontade, 100 deputados federais (1/5 da Câmara) e chega a no máximo 15 senadores (perto de 1/3). Se esperar milagres do Parlamento, será mastigada.

2) Qualquer governo progressista deverá se ancorar no povo, usando mecanismos como plebiscito, referendo e consulta popular, caso contrário, será refém de um Congresso majoritariamente fisiológico e politicamente de centro e centro-direita. Corre-se o risco de um governo assim ser acusado de usar poderes concentracionários (L. Cânfora) ou apelar para certo populismo (a pecha de “bolivarianos” vai de encontro a essa propaganda ideológica da direita), mas sem isso, não vejo como realizar reformas estruturais que favoreçam a maioria do povo contra a perpetuidade das oligarquias econômicas/políticas e seus interesses.

3) Composições de esquerda com o centro e a centro-direita inviabilizam as promessas reformistas dos partidos de esquerda, construídas ao longo da história e “vendidas” no mercado eleitoral. Essa percepção popular de incoerência e o garrote posto pelos partidos de centro/centro-direita desestabilizam qualquer governo minimamente progressista (e nem precisa ser socialista ou de esquerda).

4) Construir uma hegemonia progressista e de esquerda não é simplesmente ganhar uma eleição presidencial e conquistas o governo. As forças reacionárias se deslocam dentro do “campo-Estado” e conseguem desgastar qualquer projeto reformista, derrubando-o em seguida, seja pela via institucional, ideológica e/ou na eleição seguinte.

5) Sem maioria no Congresso não se governa, mas dependendo de como é construída essa maioria (repensar as alianças e as ações de governo é fundamental), nenhum projeto que fira os interesses do latifúndio, do agronegócio, dos bancos, dos desmatadores, das empresas que poluem, da corrupção estrutural e das grandes mídias irá passar. Em outras palavras, nesse cenário, a esquerda pode até ganhar, mas jamais governará. Aliás, como disse antes, nem precisa ser de esquerda, mas basta futucar os interesses do “andar de cima” e será derrubado.

Que essas primeiras lições sejam compreendidas, mas acima de tudo, debatidas abertamente por todas as forças que sonham em construir no Brasil um projeto de poder que nos conduza a sustentabilidade ambiental, social, econômica e política, dentro de uma perspectiva emancipatória e centrada no mundo do trabalho, nos interesses da maioria do povo brasileiro.

As oligarquias sempre estiveram no comando e continuam. O PT, compreendido aqui ao pé da letra como projeto reformista de caráter democrático-popular, jamais governou o nosso país e, pior, perdeu-se no seu projeto ao fazer alianças que o descaracterizaram. Esvaziou-se ao compactuar com a corrupção sistêmica, talvez, pensando que assim poderia melhor governar, sem entraves. Caiu. Quem será o próximo?

 

 

1 Agradeço ao cientista político Luiz Felipe Miguel pela lembrança dessa passagem.

2 Aparelhos Ideológicos de Estado. Rio de Janeiro, Graal, 1985, p. 120.

 

A MINHA ANGÚSTIA TALVEZ SEJA A SUA

1) Senti-me envergonhado de ver Eduardo Cunha presidindo a instalação da Comissão do Impeachment. Não é ilegal, mas é imoral. Cunha deveria estar preso! Creio que a maioria dos que defendem o impeachment também tem esse sentimento de repulsa.

2) E não é só o Cunha. A Comissão é formada por 65 parlamentares, entre eles, mais da metade estão “pendurados” com problemas na Justiça e quatro são alvos da mesma Operação Lava-Jato. É ilegal? Não, mas é imoral. Ver alguns bandoleiros fazendo discurso de virgem, “em defesa da moralidade pública”, é abjeto.

3) Cabe a Comissão investigar e decidir, mas ontem os deputados já declaravam apoio ao Governo ou gritavam “Fora Dilma”, sendo assim, a “investigação” é farsa. Será apenas um palco midiático para a guerra. As decisões já estão tomadas antes mesmo de qualquer escuta justa e atenta das partes envolvidas.

4) Talvez já tenhamos provas suficientes que incriminem Dilma em crime de responsabilidade. Não se trata de dizer que a presidente é pessoalmente corrupta. Até aqui, parece que jamais desviou 10 centavos para sua conta pessoal ou para injetar no PT, mas pode ser responsabilizada por aquilo que deveria ver e não viu, deveria fazer e não fez, deveria não assinar e assinou. Isso é irresponsabilidade. Além disso, há o problema da chamada “cegueira deliberada” quando o ator político não quer ver ou “não quer saber” aquilo que sabe/intui. O povo chama isso de “fazer vista grossa”. É crime? Que falem os especialistas.

5) Sim, é verdade que o PSDB tem muitos casos de corrupção e escolhas públicas nebulosas. No passado e no presente. Mas o fato de que o maior partido de oposição esteja envolvido em corrupção não isenta a coalizão do PT de pagar pelos seus supostos crimes. A guerra sobre “quem roubou mais, Lula-Dilma ou FHC” é patética. Que a Justiça apure e puna os casos em que há provas de corrupção contra membros do PSDB. Aécio Neves e Pimenta da Veiga já caíram em desgraça e poucos comentam isso. Alckmin poderá ir para o abismo. Que bom. Que o combate à corrupção não seja seletivo ideologicamente ou partidariamente.

6) Há sim um espetáculo midiático em torno desse tema. Compreensível. Jornalistas gostam de “furos”, coisas explosivas e grotescas. Isso vende, traz leitores. O povo gosta de ver e saber das maracutaias e fofocas dos bastidores. Se pegarmos os grampos de Lula como exemplo, a maioria das coisas que Lula falou não é crime. Pode sim revelar uma personalidade autoritária, debochada e desrespeitosa com as instituições políticas-jurídicas, mas é direito dele falar o que falou no âmbito privado. O foco deveria ser o que é realmente grave: a tentativa de interferir nos processos de apuração. Esse é o ponto!

7) Infeliz o povo que precisa de heróis. Todos os regimes totalitários tiveram como base essa mitificação de figuras humanas. O juiz Sergio Moro, até aqui, parece homem de bem, pessoa justa e honrada, além de ter o apoio da magistratura brasileira, ou seja, não é cavaleiro solitário. Por outro lado, ele pode sim cometer erros, posto que não é deus. Se errar, tem órgãos de accountabillity para corrigi-lo e até mesmo anular os supostos erros. Isso não deveria ser a preocupação, mas o conteúdo que foi divulgado, isto sim, causou um furacão político. Ao invés de ficarmos debatendo sobre a origem dos furacões, poderíamos nos concentrar sobre como resolver o problema do furacão. As consequências políticas estão dadas! Vamos ao foco? O que fazer?

8) Talvez seja justo o impeachment de Dilma. Eu ainda não estou convencido de que ela cometeu alguma irresponsabilidade criminosa, mas há fortes indícios que merecem maior debate e aprofundamento. O que me angustia é simplesmente “derrubar” Dilma e deixar o poder nas mãos do PMDB que já tem o apoio do PSDB para realizarem um governo de coalizão. Não se trata de um ódio pessoal contra o PMDB – ainda que eu assuma minha antipatia! – mas para que haja justiça plena, entendo eu que se Dilma cometeu crime de responsabilidade e se a campanha de 2014 recebeu dinheiro sujo, o PMDB estava neste barco também. O PMDB tinha o vice da chapa, vários cargos na Petrobras, diversos ministérios, autarquias e empresas estatais. Como impedir Dilma e deixar Temer? Ainda que se prove que Dilma cometeu crime de responsabilidade, o PMDB não deveria sair “limpinho” disso. Temer está envolvido em denúncias na Lava-Jato também!

9) Alguns defendem a tese do “gradualismo de derrubada”. Primeiro impedir Dilma, depois Temer, depois Cunha e Renam. A “limpeza” seria por etapas, mas ninguém combinou isso “com os russos”. Temo que o impedimento de Dilma e ascensão do PMDB-PSDB encerre a Lava-Jato ou retire a força dela, pois nesse cenário teríamos o presidente Temer, Cunha (Câmara) e Renan (Senado) como alvo da mesma operação. Eles não combinariam o esvaziamento da equipe do juiz Sergio Moro? Tendo apoio majoritário no Congresso o que eles podem fazer não só contra a Lava-Jato, mas em relação aquele programa socialmente regressivo chamado – piada! – “Ponte para o Futuro” que o PMDB apresentou com a chancela de Michel Temer e a coordenação de Moreira Franco, conhecido aqui no Rio como “o gato angorá” (apelido dado por Brizola)?

10) “Marcio, então você é contra o impeachment da Dilma?” Não, não é bem isso. Sou contra o caráter pequeno do impeachment, tal como se apresenta hoje (novos dados surgem a cada minuto!). Se é para “passarmos o Brasil a limpo” e se há provas contra Dilma, precisávamos também incluir o PMDB como corresponsável. Existe uma aliança! É por isso que simpatizo com uma saída popular, as eleições gerais. Precisávamos aprovar uma “PEC do Recall” e chamarmos os brasileiros às urnas. O processo do TSE que pede a cassação da chapa Dilma-Temer (bem mais justo!) parece demorar um tempo onde a desgraça já terá nos conduzido a um abismo ainda maior. Imaginemos mais quatro ou cinco meses nessa crise? O que vai sobrar disso?

11) Por último, os extremismos me preocupam. Os setores democráticos e progressistas estão ficando emparedados. Cresce a direita radical e o populismo “apolítico” da “onda amarela”. Eles podem dar o tom do impeachment e saírem mais fortes para 2018. Por outro lado, o petismo – entendido aqui como militantes, simpatizantes e parte da sociedade brasileira que gravita ainda em torno do PT e nele tem alguma esperança de regeneração – poderá partir para o confronto aberto. Já há muitos conflitos nas ruas e isso poderá se ampliar. O processo de impeachment durará em torno de 45 dias, mais 15 dias no Senado. Para fazer uma conta redonda, 2 meses. Imaginemos o drama?! Todos os dias! Não vejo nenhum risco de golpe, pois as nossas Forças Armadas estão absolutamente enquadradas nos marcos da democracia constitucional, mas a fratura social poderá ser imensa e trará consequências imprevisíveis.

12) Conclusão: Nenhuma! Eu disse que apenas iria desabafar angústias pessoais que podem encontrar alguma ressonância com a angústia de milhões de brasileiros que não se sentem representados nem pelos tucanos, nem pelo PMDB, nem pelo petismo. Estamos desencaixados e preocupados. As eleições gerais seriam uma saída fora desse arranjo pelo alto, mas será que nossa elite política compreenderá isso? Aprovaria uma PEC nesse sentido? Os partidos progressistas irão se unir nessa bandeira popular? O povo brasileiro irá entender? Os dados estão lançados. Poderemos varrer esta atual oligarquia política no voto democrático ou teremos uma saída pelo alto com um governo de coalizão PMDB-PSDB ou, ainda mais dramático, Dilma-Lula governando um país esfacelado até janeiro de 2019.

IRRACIONALIDADE, MENTIRAS E ÓDIO: A DEMOCRACIA TRUNCADA

Não está fácil debater política no Brasil, em especial, nas redes sociais. Desde a campanha de 2014, os ânimos se acirraram e nunca mais voltamos a “normalidade” das discussões. Claro que, sempre rola uma pitadinha de humor ou um sarro aqui e acolá, mas ultimamente, a coisa virou guerra mesmo. Até dentro dos bares o clima é esse.

Se alguém posta uma notícia do “Antagonista” ou da revista “Veja” é “coxinha”, “elite”, “direitista”, “tucano” e “reacionário”. Se a notícia é da “Carta Capital” o sujeito logo é tachado como “petralha” ou “esquerdopata”. Resta-nos os grandes veículos como El País, Estadão, Folha, Globo, Uol, G1, Brasil Post etc. Ainda assim, sempre terá alguém na sua timeline para tentar te enquadrar na “esquerda” ou na “direita”, no “governismo petista” ou na “oposição tucana”. Tudo é recortado em preto ou branco, em à favor ou contra. Sumiu o colorido das diversas posições.

Além do desejo de entalar o Outro numa caixinha ideológica, é espantosa a perda de qualidade. As referências usadas são precárias. O abuso de mêmes como tradução do pensamento de alguém é lastimável. Esses dias vi o facebook do Emir Sader, ex-intelectual petista, postando um même absolutamente falso sobre Marina Silva. Ninguém precisa simpatizar com Marina para defender a verdade, os fatos. Por que um homem de saber mais amplo que o senso comum mente e espalha uma sacanagem dessas? Não é simplesmente uma “narrativa” possível, mas uma mentira mesmo, coisa que nunca existiu.

Esse é outro problema do debate contemporâneo em redes sociais. Com a onda relativista pós-moderna – que tem dado algumas contribuições provocadoras e positivas – alastrou-se a ideia de que tudo o que temos são “narrativas”, cada indivíduo tem a sua, todas essas “narrativas” são de igual valor e, consequentemente, “verdadeiras”. Pululam sites, blogs e revistas digitais para todos os gostos e que nenhum compromisso tem com a analise séria dos fatos, com a compreensão dos fenômenos políticos e com a interpretação das possíveis causalidades envolvidas.

Cada um conta sua versão e, com certeza nazista, afirmam como verdade algo que racionalmente não existe nenhuma confirmação de que verdade seja.

As pessoas compartilham notícias sem pé nem cabeça, dão opinião sobre aquilo que jamais estudaram, nem mesmo leram um único artigo de jornal sobre o tema e divergem com agressividade sobre um assunto que, no máximo, ouviu dizer de um amigo. Como assim? É a era da insensatez e da irracionalidade política. Do show, do truque, do sofisma, das artimanhas de quem quer vencer um debate sem ter razão – saudades aqui de Schopenhauer.

As famílias, o ambiente de trabalho e até as comunidades religiosas estão divididas entre defensores do impeachment (numa caricatura, indivíduos que odeiam o PT, Dilma, Lula, Foro de São Paulo, “Bolsa-Vagabundo” etc.), governistas que acusam “golpe de direita” quando alguém espirra no ônibus e os descolados do “tô fora desse jogo”.

Como dialogar de forma racional e civilizada?

É possível uma razão pública que emerja de um amplo debate onde prevaleça a razão argumentativa habermasiana ou a política é apenas a guerra sob o manto falso da “paz”?

Tenho revisto muito do que estudei até aqui sobre democracia, argumentação e política em sociedades de massas (no tempo das multidões). Eu me sinto desencaixado, fora do lugar. Quero argumentos, mas encontro pancadaria e adjetivação banal, tosca e cheia de humor de qualidade duvidosa. Foi-se o tempo dos bons embates, onde as pessoas apresentavam racionalmente seus argumentos favoráveis e contrários. Ao final, se um dos lados não foi convencido, prevalecia o profundo respeito ao pluralismo democrático das ideias. Hoje o desejo é de esmagar as diferenças através de tentativas autoritárias de “converter” o outro para a sua interpretação ou então desconstruí-lo com deboches, ataques pessoais (burro, ingênuo, reacionário, esquerdopata, petralha), dados falsos, induções levianas, insinuações maliciosas, afirmações descontextualizadas etc.

Poucos se dão ao trabalho de, antes de afirmar algo ou negar, pesquisar no Google, ler uns dois ou três artigos com enfoques distintos. Não querem “perder tempo”, mas tem opinião na ponta da língua (ou dos dedos, que teclam com voracidade). Neste caso, não há debate! Apenas um diz que é assim, outro diz que é assado. Fim de papo! Jogam lá no face e há uma multidão de imbecis dispostos a curtir qualquer coisa, qualquer asneira, qualquer tipo de mentira.

Sobre a passeata contra o governo Dilma e pelo impeachment no dia 13 (domingo) eu já postei que não vou. Acho a passeata legítima, nada tem de “golpismo” nisso. É um direito democrático, extremamente saudável para o amadurecimento da nossa sociedade, mas eu não vou. Por quê?

Primeiro porque não consigo estar num evento onde tem o apoio de Bolsonaro, Feliciano, Malafaia, defensores da intervenção militar “constitucional” e AIB (Ação Integralista Brasileira, nossos fascistas tupiniquins). Todas essas jararacas juntas? Dá não.

Sei bem que há gente progressista e democrata de boa cepa participando dessa passeata do dia 13. Conheço muitos. São indivíduos que se encontram convencidos de que o impeachment é o melhor para o Brasil, ainda que paguemos o preço de um governo de transição liderado pelo Michel Temer (PMDB). Imaginem o PMDB sozinho no comando? Senhor, tende piedade de nós!

Não quero generalizar, em respeito aos progressistas que lá estarão, mas que essa passeata do “Fora Dilma” tem um tom “verde-amarelo-direita” isso tem. Vejo alguns babando de raiva contra o uso da cor vermelha! Coisa de louco! Como se a cor vermelha pertencesse ao PT ou ao lulodilmismo.  Isso me incomoda demais. Eu não vou.

O segundo motivo é que não estou convencido sobre o impeachment. Mesmo esse processo de cassação da chapa Dilma-Temer (PT-PMDB) que corre no TSE me parece solução pelo alto, acerto entre instituições da cabeça do sistema. Reconheço que Marina Silva e a REDE, meu partido, defendam com mais simpatia esse processo no TSE que deve ser muito criterioso, mas, eu sonho algo diferente.

Eu mesmo ficaria muito feliz se o povo brasileiro fosse chamado as urnas para decidir. É isso mesmo! Democracia direta, Os eleitos o foram pelo povo, portanto, a democracia é o regime onde o povo deve ser soberano e dar a última palavra, sem menosprezar aqui a representação.

A pergunta na maquininha é simples!

“Você deseja que Dilma-Temer continue presidindo o país até 2018?”

Em caso de vitória do “sim”, tudo segue como está. Se a vitória for do “não”, convoca-se novas eleições em 60 dias e o povo resolve essa parada. É solução por baixo. O povo coloca, o povo tira. Não seria mais democrático?

O terceiro motivo que não vou à passeata do dia 13 é que ela tem um tom forte anti-Dilma, mas não anti-PMDB. Se é para sair Dilma e o PT, que levem junto o PMDB. Ambos se beneficiaram do mesmo dinheiro sujo de campanha, ambos dividiram cargos no governo e nas estatais, ambos se lambuzaram nos cofres públicos com o apoio do PP de Paulo Maluf e do PCdoB de Aldo Rebelo. Fora os “esqueminhas” do PSDB (SP, PR, MG e Brasil) ou que tiveram origem na época de FHC. É tudo “mano”, mas na hora de pagar o pato, só cai a Dilma? Não! Considero isso uma injustiça.

Conclusão. Vou ler jornal, ver TV, estar com meus filhos e orar. Olho com tristeza para toda essa irracionalidade política onde as pessoas se atacam como torcedores fanáticos de time de futebol. A razão cede para a paixão e, desde Max Weber, a paixão (“ética da convicção”) não é um bom caminho para a política democrática que exige uma “ética de responsabilidade”. Onde estará Norberto Bobbio e suas lições de moderantismo? Cadê a sensatez?

A demissão de Cid Gomes e as lições de Weber: verdade e responsabilidade

O discurso do, agora, ex-ministro da educação Cid Gomes (PROS-CE) é um exemplo da clássica discussão do sociólogo Max Weber sobre a ética de convicção e ética de responsabilidade. Claro que a discussão weberiana é bem mais profunda, mas não deixa de tocar no que vimos ontem.

Ao assistir, na íntegra, todo o seu discurso e os desdobramentos dele, é fácil identificar-se com a profunda verdade que o espalhafatoso Gomes apenas verbalizou. “Cabe a oposição ser oposição e quem é da base do governo ser governo ou então larguem o osso e vá para oposição”. Disse mais.

“Eu prefiro ser acusado de mal educado do que achacador”, apontando o dedo para Eduardo Cunha (PMDB), o atual presidente da Câmara, que ouvia atentamente o discurso. Neste momento explode o tumulto e pede-se a retirada da claque do cearense que ocupavam as galerias para o aplaudir.

Leonardo Picciani (líder do PMDB), filho da oligarquia política dos Picciani no Rio de Janeiro, falou em seguida, em tom de falsa tranqüilidade. Falou dos “limites de civilidade democrática e republicana”. Acusou o ex-ministro de críticas “vazias e levianas”, posto que Cid Gomes acusava de “chantagistas e achacadores” em torno de 300-400 parlamentares federais, mas sem dizer os “nomes dos bois”. Em síntese, Picciani disse que Gomes “ultrapassou os limites de civilidade democrática e, por isso, não tem mais condições de ser ministro de Estado”. O PMDB cravava a faca no dia em que Dilma Roussef tentava retomar o protagonismo com o seu pacote anticorrupção.

Eduardo Cunha passa a palavra para o oposicionista Mendonça Filho (PE, líder do DEM) que se diz “pasmo com a capacidade deste governo produzir crise, embaraços e situações vexatórias que nunca pude imaginar em 28 anos de vida pública”. Jogava gasolina. “Cid Gomes não pediu desculpas” e “acusou o deputado Eduardo Cunha de achacador em episódio lamentável que irá entrar para a história do Parlamento do mundo. Ou o ministro pede demissão ou a base do governo assume que é formada por achacadores”. A fissura estava posta.

Mendonça Filho tem razão ao dizer que, agindo da forma como Cid Gomes agiu, nem precisa de oposição no Congresso Nacional, pois a própria base de apoio da Dilma Roussef produz conflitos e crises dentro da coalização que deveria dar sustentação ao seu governo. Além disso, lembrou a Cid Gomes que um ministro de Estado fala como ministro e não pode se “despir” do seu cargo para falar como cidadão comum. A ética de responsabilidade (para quem está em função pública e de gestão) não poderia ceder à ética de convicção pessoal, típica dos militantes apaixonados.

Artur Maia (líder do SSD) sobe a tribuna para dizer que a agressão de Gomes, neste momento, é desnecessária e que teria ele colocado Dilma numa “encruzilhada”: “ou ela preserva a base parlamentar ou o senhor no Governo”. Mais uma vez, lembra a agressão do dedo em riste contra Eduardo Cunha. Bruno Araújo (líder da minoria, PSDB-PE) seguiu na mesma linha, batendo em Gomes. O PT assistia a tudo em silêncio e deixava assim o ministro do seu governo ao abandono.

Domingos Neto (PROS-CE) daria um momento de alívio, fazendo a defesa de Cid Gomes. PT, PDT e PCdoB permaneciam em silêncio. Neto o colocava como “vítima” dos interesses da oposição e até de setores da base governista em criar um problema para deixar vago um ministério. Terminou denunciando “interesses políticos obscenos” que estariam por trás da fritura do ministro Gomes.

Andre Moura (PSC-SE) assumiu o papel mais agressivo. Disparou que Gomes “perdeu a condição de se manter ministro da Educação” ao ofender todos os parlamentares como achacadores e faz acusações do jatinho alugado para viagens pessoais do ex-governador. Acusando-o diretamente de ser ele achacador do povo do Ceará como na obra do aquário público de 300 milhões de reais e no show de Ivete Sangalo no valor “superfaturado” de 650 mil reais para inaugurar Hospital em Sobral (onde o ex-ministro foi prefeito por 8 anos). O Hospital teria desabado um mês depois quando em janeiro de 2013, depois dele inaugurar uma agencia do Banco do Brasil em Sobral, envolve-se com um asfaltamento de 2 milhões de reais para cobrir apenas 2 Km. “Mal educado e desqualificado, sem moral, sem decência, sem ética e achacador do povo do Ceará, tendo sorriso irônico e cínico, sem honradez e dignidade para continuar ministro”. O jogo ficava pesado!

Nilson Leitão (PSDB-MT) sobe com o dicionário na mão e explica o significado de achacar. “Somos 106 deputados de oposição”, portanto, nada teria com os supostos 400 achacadores. Acusa Cid Gomes de “traduzir o sentimento da presidente Dilma, a personificação pronta e acabada dela”. Pede para que Gomes descreva os nomes dos achacadores (“ladrões”) e usou as palavras do seu irmão, Ciro Gomes, que chamou Dilma de “péssima gestora e não sabe montar equipe” de governo. Diz que Gomes aceitou ser ministro de um governo mergulhado em corrupção, desde o “mensalão”, mas diz que “esta briga não é nossa, mas de um ministro com sua base”. “O maior pedido de desculpas é apresentar a lista dos achacadores”.

Chico Alencar (PSOL-RJ) reclama do vexatório “castigo escolar” que Cid Gomes estaria sofrendo, calado, sem direito a fala. O “ministro convalescente” parecia resignado e Eduardo Cunha explicava que assim era o rito da casa, depois ele teria direito a fala. De fato, era humilhante o que estavam fazendo com Cid Gomes. Criticou a fala de Gomes (“, mas criticou o “espírito de corpo” do Parlamento brasileiro, o exagero com que receberam as palavras de Gomes: “Não é o fim da República!”. O PSOL chegou a ser elogiado por Cid Gomes pela coerência que, na visão dele, faltaria a base governista. Pareceu óbvio que Eduardo Cunha tentava silenciar o mais rápido possível o deputado Chico Alencar que levantava questões importantes, inclusive, dizendo do seu mal estar, posto que a crise era do governo (e ele não é governo) com sua base aliada e questionava a quem interessava o prolongamento desta crise. Óbvio, interessava a oposição e aos setores que desejam mais espaço dentro do governo Dilma, leia-se, PSDB e PMDB.

Pompeo de Mattos (PDT-RS) criticou o erro no foco da discussão. “O povo deseja que nós discutamos aqui a educação no país e não essa sessão pastelão”. Criticou a depreciação do Parlamento na fala do ministro e que os deputados têm razão nisso, mas “todos iremos para o fundo do poço” com aquela troca de acusações. O PDT se sentia desculpado, aceitava o pedido de desculpas de Gomes, não tem nomes envolvidos em lista nenhuma de corrupção e não agem como achacadores do governo, mas criticou o número de 400 achacadores como exagero e generalização. A maioria do Parlamento é digna, séria e honrada.

Cabo Sabino (PR-CE), violento nas palavras, voltou a criticar Cid Gomes por “gostar de declarações em quatro paredes”, levantando o caso da Revista ISTO É que teria sido proibida pelo ex-governador. Defendeu os bombeiros e policiais que sofreriam “açoites” no estado do Ceará. Disse que Gomes não era digno nem de subir a tribuna como “empregadinho da mamãe” (Dilma?) que é. Vexame! Eu assistia e me perguntava: até quando esta sessão continuará?

E sobe Júlio Lopes (RJ) pela liderança do PP, partido envolvido até o pescoço com acusações de corrupção. Joga mais lenha na fogueira, critica a claque do ministro que ocupou as galerias e faz cena de indignado. Era um circo!

Depois da fala do procurador da Câmara (do DEM), o ex-ministro ocupou novamente a tribuna com 10 minutos e as coisas “esquentaram” ainda mais. Veja o vídeo quando Gomes retoma a palavra:

Cid Gomes abandonou o Congresso demitido, sabia disso, não dava mais, mesmo repetindo com “humildade e cautela” a frase que disse em local não-público. Explicou que muitos parlamentares “criam dificuldades para vender facilidades” e que este seria o sentido usado por ele para achacador e insinuou pressões do PMDB que, se deixar, “vai querer até a presidência da República”. Reafirmou fidelidade ao governo e disse que “Dilma é vítima” de setores políticos e sociais pouco republicanos que usam “proselitismos” e “sofismas”. Tentou, mais uma vez, separar visão pessoal de posição de ministro de Estado. Não convenceu o Parlamento, nem o governo e ainda foi chamado de “palhaço” pelo deputado Sérgio Szveiter (PSD-RJ). Caiu! Agora caberá a Dilma resolver quem ocupará o cargo de ministro da “Pátria Educadora” e acalmar mais uma revolta do PMDB.

Pessoalmente, compreendo o desabafo de Cid Gomes e não nego que simpatizo com suas palavras, mas não convém dizer em público o que eu falaria numa rodada de cerveja com amigos. Percebo também que não é de hoje que o ex-ministro, ao estilo do seu irmão Ciro Gomes, se mete a falar e fazer trapalhadas. Por que Dilma o nomeou assim mesmo? Para pagar a traição dos Gomes ao PSB de Eduardo Campos?

O episódio joga luz, mais uma vez, no tema da reforma política. A atual legislatura é, talvez, uma das piores e mais conservadoras das últimas décadas. O excesso de partidos, o fisiologismo, as incoerências, o falso moralismo, tudo somado, é repugnante.

Por certo, a situação da base governista é péssima, mas o ex-ministro conseguiu piorar. Errou ao confundir suas convicções pessoais — ainda que ele estivesse revelando uma verdade sobre a existência de muitos achacadores no Congresso e, sabemos, isso é bem possível! — com o cargo que exerce (a visão weberiana de ética de responsabilidade). Mais ainda, o momento é extremamente inoportuno para o governo petista (1) que agoniza com 62% de rejeição popular e (2) que tinha acabado de apresentar o seu pacote anticorrupção. Cid Gomes “melou” o dia.

Para entender o espiritismo

O espiritismo foi fundado, na segunda metade do século XIX, pelo pedagogo francês prof. Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec. Ele reuniu um conjunto de observações, reflexões filosóficas e mensagens de diversos espíritos que configuraram o que veio a ser a “doutrina espírita” ou “doutrina dos espíritos”. O termo “kardecismo” é rejeitado pela maioria das suas lideranças que consideram a origem do espiritismo “extramundana”, portanto, Kardec não teria sido propriamente o “fundador”, mas o organizador (“codificador”) à serviço dos espíritos bons e sábios que ditaram os textos e supervisionaram todo o trabalho.

No Brasil, o espiritismo cresceu sobremaneira, especialmente pelo seu viés mais místico e cristão, reforçado por figuras devotas como Bezerra de Menezes e Chico Xavier, tendo a frente a Federação Espírita Brasileira (FEB). Ainda hoje, o espiritismo continua crescendo através de médiuns como Robson Pinheiro, Zíbia Gasparetto, Wanderley Oliveira, Divaldo Pereira Franco, Raul Teixeira, Francisco do Espírito Santo Neto e pencas de livros do espírito Ramatís.

Há muitas controvérsias internas sobre o caráter do espiritismo. Ele seria uma nova religião, uma filosofia de vida aberta para qualquer pessoa religiosa ou não, uma ciência empírica de novo tipo com conseqüências morais? As discussões não têm fim. Elas se dão inclusive sobre o status das diversas mensagens enviadas pelos espíritos através da psicografia. Quais seriam as mensagens “verdadeiramente” espíritas? Quais os elementos culturais brasileiros que distorcem as intenções do projeto kardequiano?

As diversas narrativas disputam o legado kardequiano que, no Brasil, é estimado em 20 milhões de adeptos e um número muito maior de simpatizantes. As ideias espíritas são mais amplas que o próprio espiritismo, já que milhões acreditam na reencarnação, em Deus como inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, na comunicação entre o mundo dos espíritos e o mundo dos vivos (“encarnados”) e na salvação como processo contínuo de evolução até que todos cheguem a “casa do Pai” (em teologia, salvação universal).

Sendo assim, penso que o correto seria falarmos em “espiritismos” já que há diversidade de interpretações e não existe nenhum “comitê central” capaz de dizer quem é verdadeiramente espírita e/ou impor uma unidade interpretativa. Da mesma forma que o protestantismo se dividiu entre luteranos, batistas, metodistas, presbiterianos etc. o espiritismo também tem suas divisões internas entre laicos, roustenguistas, ubaldistas, ramatisianos/universalistas, kardequianos religiosos etc. Em comum, todos respeitam as obras básicas de Allan Kardec como marco fundacional de uma nova era para a humanidade.

Distante dessas disputas internas, as massas que acorrem aos centros espíritas buscam apenas uma mensagem de consolo e bom ânimo diante das batalhas dessa vida. Recorrem aos passes, água magnetizada e cirurgias espirituais para aplacar seus sofrimentos do corpo e da alma. A leitura, especialmente de romances espirituais, é amplamente difundida. Os estudos das obras de Allan Kardec são feitos, ora de forma sistematizada e dogmática; ora de forma mais aberta, crítica e contextualizada. A diversidade é a marca.

O grande sucesso popular ainda é a obra de Kardec intitulada “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Nela encontramos uma reinterpretação da moral cristã sem dogmas, dando ênfase à mudança interior e pessoal (“reforma íntima”) através da prática do amor-caridade como o caminho de “salvação” para todos os seres humanos e para a estruturação de uma nova sociedade fraterna.

 

Clique aqui e leia o livro “O que é o espiritismo?” de Allan Kardec

 

Veja o vídeo sobre a vida e obra de Allan Kardec