Category : Literatura

Home/Blog/Archive by Category "Literatura"

Eu sou minhas escolhas

Sei que faço escolhas erradas na vida, mas viver plenamente é arriscar-se. Sair da zona de conforto do “cafofo da mamãe” e do que as pessoas dizem para você que é “o caminho correto” e desbravar o mundo, com frio na barriga, claro. É ousar romper alguns padrões e expectativas, trair aquilo que os outros esperavam de mim para ser simplesmente eu mesmo.

Há coisas que me “arrependo”. Pesa-me saber que eu poderia ter escolhido o caminho “X” e não o “Y”. Faria diferente se eu pudesse rebubinar o filme da minha existência, mas ainda assim, mesmo nas “escolhas erradas”, eu aprendi muito. é a tal sabedoria dos equívocos que os mais velhos insistem em compatilhar com os mais jovens.

Esse saber da experiência concreta é formidável. Afinal, como discernir o “errado” de minhas escolhas se não as faço?

Atirar-se no oceano da vida é gozar, machucar-se e, ao mesmo tempo, aprender-evoluir como ser no mundo. Mergulhar na existência é assumir-se responsável por estas mesmas escolhas, ao invés de culpar os outros. “Você culpa seus pais por tudo”, cantava Renato Russo sobre o absurdo da imaturidade.

Desta forma, mesmo olhando em retrospectiva e identificando um conjunto de tropeços, posso dizer que eu sou quem sou. Escolhi assim. Em última instância, livremente escolhi como reagir aos fatos que eu não podia evitar.

Se por um lado as estruturas sociais, econômicas, culturais e psíquicas – o incosnciente, por exemplo – me constrangem a tomar determinado caminho ao invés de outro, posso afirmar também que a aceitação, rejeição ou a maneira como interagir com os dados dessa realidade multidimensional nunca deixaram de me pertencer. Para além dos constrangimentos socioeconômicos, culturais e psíquicos, a vida é minha. Os erros e acertos me pertencem. E é apartir disso que, eu e você, poderemos nos encontrar com a maturidade.

Eu, ela, Camões, o padre e outras conjugalidades

No decorrer desta minha existência, tive poucos namoros e alguns casamentos. Na verdade, nunca casei, mesmo sendo eu pessoa passional, do tipo que dá flores e vexames.

Esta ausência do sacramento é, para alguns mais conservadores, um sinal de que minha vocação para o sacerdócio como celibatário fora rejeitada por mim, pessoa rebelde que sou aos desígnios do Altíssimo. O “castigo” seria esta ausência.

Sei não. Gosto muito das relações amorosas, do contato, da pele. Padre Carpinteiro – que hoje já está do outro lado da vida e me aconselhou ser padre – me perdoe se eu estiver errado em minha avaliação. Talvez pudesse “negociar” com o Todo-Poderoso e servi-Lo como padre entre os meus amados católicos anglicanos. Lá o amor é livre e o celibato opcional. Ainda assim, ando muito cansado dessas estruturas eclesiásticas.

Veja bem. Eu continuo acreditando em Jesus Cristo (diz Calvino que os eleitos não perdem a fé), leio as Escrituras, tenho grande apreço pelos ritos, hinos e sacramentos, mas aquele reme-reme burocrático-político, os bastidores do poder nas igrejas, as fofocas e rede de intrigas, a falsa santidade de muitos carolas, a teologia fechada para os ventos do Espírito que sopram em todos os cantos religiosos, enfim, tudo isso me parece enfadonho demais e, por isso mesmo, prefiro a heresia dos sincretismos populares do que a “pureza” das fidelidades identitárias das religiões oficiais. Penso que Jesus está em outra parada. Como diz a Palavra, Ele “não habita mais em templos feitos por mãos de homens” (Atos 7:47-50).

Por que estou falando de namoro, casamento, igreja e celibato? Ah, para falar de meus relacionamentos. Pois bem. Na minha primeira viagem conjugal, fiquei quatorze anos com uma pessoa que não queria casar comigo. Considerava que os papéis cartoriais poderiam trazer azar para aquilo que, na prática, já dava certo. Ela me amava, eu sei disso, mas seu receio supersticioso era ainda maior.

Na minha segunda experiência, a pessoa não poderia casar comigo. A complicação era outra. Problemas jurídicos falaram mais alto do que o sonho das supostas “bençãos dos céus”. Fizemos um ritual de união, mas não foi um casamento nos conformes, a moda antiga, com papel passado e foto para colocar na cabeceira da cama. Seja lá como for, fiquei cinco anos vivendo esse novo grande amor. Depois acabou, como todas as coisas nessa vida finita. Aí regressei a mim mesmo.

Estaria eu debaixo de uma espécie de maldição de padre Carpinteiro antes de morrer? “Serás padre ou não casarás”. Não pode ser. Padres são agentes de Deus no mundo, não amaldiçoam ninguém, assim quero crer na minha ingenuidade católica apostólica baiana. Carpinteiro era um homem bom, ecumênico, sacerdote dedicado, vovô de luz que habitava aquela Paróquia em Cascadura. Não, ele não me amaldiçoou. Era um “branco-velho” sem cachimbo.

Depois desses duas vivências amorosas, namorei uma psicóloga encantadora e muitos pensaram que, dessa vez, eu iria casar. Casei não, mas foi bom. Com ela aprendi a valorizar mais a gestalt, pois antes era Freud, Klein, Jung, os existencialistas e só. A amizade ficou, sempre fica.

Pensei em desistir dessa coisa chamada casamento ou de qualquer parceria semelhante. Tenho boas lembranças com todas elas. Não se trata de nenhum trauma, mas temi o prognóstico do padre até conhecer uma mineira. Eita trem bão.

Foi ótimo, mas casei não. Vivemos três bons anos juntos, mas tinha uma diferença religiosa que, da parte dela, parecia atrapalhar um pouco. Acho que ela não se sentia confortável com a igreja, missas e ritos. Compreendi e juntos seguimos até onde o destino traçou.

Oficializada a ruptura com Minas, comecei um “lance” com a Daniela. Carioca mesmo, da mesma idade que a minha. No início era alguma coisa bem despretenciosa. Cada qual vinha de suas decepções e trazia na sua bagagem medos, dores, frustrações, questões familiares e manias.

Nos três primeiros meses começamos a fazer a experiência, não sem alguns conflitos aqui e ali. Chegamos a terminar, para em seguida recomeçar. E os recomeços podem ser bem melhores do que os começos. Normal isso. Ajustar-se depois dos 40 me parece algo complicado demais. Nos tornamos pessoas exigentes, ranzinzas, impacientes e inseguras quanto aos sonhos amorosos da juventude. Em outras palavras, ficamos velhos. É isso mesmo. Velhos! (E esta palavra me parece mais adequada do que o politicamente correto “terceira idade”, “feliz idade”, “idoso” e assemelhados. Eu gosto de ser velho)

Mas não é só velhice. Se somarmos os quatorze anos com a primeira, os cinco anos com a segunda e os três anos com a terceira, tenho aí 22 anos dormindo com alguém todos os dias. Sem papel e sem o sacramento eclesial, mas é casamento também. Como estou com 43 anos, restou 21 anos de vida sem estar casado. Se descontarmos 14 anos de minha infância e adolescência, sobrará 7 anos de solteiro. É pouco? Pode ser, mas e a tal vocação para padre? Não seria ela me rondando como fantasma e complicado minha matemática dos relacionamentos?

Que nada! Meu ceticismo diz que tudo isso é apenas a minha necessidade pessoal de “cobertor de orelha”. Imaturidade emocional? Pode ser. Deixo esses assuntos mais profundos para a minha terapia. O fato é que adoro casa cheia e cama ocupada, pelo menos, sempre gostei.

Hoje ando mais eremítico e meditante, apreciando mais os silêncios do que as algazarras. Ainda assim, uma companheira é sempre uma ideia sedutora. Não sei se é para casar (com ou sem o sacramento da tradição cristã), mas é bom demais termos alguém para compartilhar dores e alegrias, derrotas e conquistas, leituras e devaneios, beijos e prazeres. Ah gente… é bom viver essas coisas.

Todas essas palavras acima expressam minha desalinhada e apaixonante história de conjugalidades. Tem muito mais, claro, mas o que aqui exponho já é suficiente. Agora todos sabem que casei sem nunca ter casado e hoje estou fazendo quatro meses de namoro. Sinto-me adolescente ao dizer isso. Namoro. E alguém com 43 namora? Sim, namora. E está bom assim.

Daniela é, acima de tudo, companheira. Não é dada à arroubos intelectuais, nem a questões metafísicas que dão curto circuito em meus neurônios. Não tem a alma atormentada como a minha, graças a Deus.

Ela me ensina o carinho do contato, da pipoca com filme, das mãos apertadas dentro do teatro, no cinema e na peregrinação da fé. São coisas bem mais simples, mas dizem que a beleza está na simplicidade e não nas complexidades. A jardinagem do cotidiano pode nos ensinar mais sobre nós mesmos e o sentido da vida do que mergulhos profundos nas questões herméticas da filosofia, psicologia, religião e sociologia. Sei o quanto gosto destes mergulhos, mas ter uma mão que me puxe do abismo faz bem.

Há momentos em que me pego pensando sobre o futuro. Devaneios meus. Até onde caminharemos juntos, eu e Daniela? Será que dessa vez eu caso no papel e tudo? E o padre? Não sei, não sei, não sei. Aprendi com os anos que tudo pode acontecer. Tudo! Viver é um arriscar-se na diversidade de caminhos. Em “Tempo de Esperas”, padre Fábio de Melo – de novo esses padres! – nos diz:

“Não tema a ausência de respostas. Há um encanto resguardado neste silêncio, acredite. Nem sempre a vida fala. Por vezes o que dela temos é o silêncio. Descanse um tempo maior neste seu não saber. Quem sabe assim o encaixe das peças venha a acontecer” (p. 44).

Quatro meses. Sei que parece muito pouco e é, mas uma ilusão cognitiva me faz pensar em tantas coisas já vividas com ela, tantos detalhes. Palermice minha.

Conheço quem considere babaquice juvenil ficar comemorando mês a mês um relacionamento. Expor isso em rede social então seria atestado de imbecilidade afetiva. “Um babaca desses não pode ser cientista político, nem sociólogo”.

Bem, acho que sou babaca mesmo. Concordo com os meus críticos. Não tenho a malandragem dos espertos, a sisudez dos acadêmicos, a sobriedade de muitos intelectuais e nem a secura dos mais vividos. Sou velho-criança. Minhas ciclotimias me arrastam para as montanhas da alegria amorosa e os baixios da melancolia existencial. Tudo isso sou eu. Todas essas personas me pertencem.

Agora, eu e Daniela adentramos o quinto mês. Não sei se isso muda alguma coisa, mas sinto que temos uma relação mais firme do que no passado recente. É meio óbvio. O tempo! O tempo!

Se eu a amo?

Amor é palavra tão gasta que o seu significado anda perdido na teia de múltiplas definições. Eu sou daqueles que ama o mundo, amo todas as pessoas que comigo conviveram, amo meus filhos e tento até amar os que se colocam como meus adversários. Difícil, eu sei, mas a Graça d’Ele nos ajuda.

Quanto a Daniela, só pode ser amor. O desejo e o prazer de estarmos juntos, ainda que seja para comer um cachorro quente na pracinha, só pode ser coisa da flexada do Cupido ou artimanha de Santo Antônio, pois se não fosse, não resistiria até aqui.

Eu sei, eu sei, eu sei. Relacionamentos doentios e neuróticos também podem resistir aos ventos do tempo e ainda assim não ser amor. O autoengano nos espreita a todo momento. Mas quem pode ocupar o lugar do observador isento para diagnosticar patologias amorosas?

Sigo assim neste relacionamento. Sem datas, sem previsões, sem juras e sem diagnósticos. Apenas vivo o hoje do amor e quero estar amanhã com ela. “Na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê”. E se eu quero estar amanhã com ela é porque está valendo a pena, pois amor não é coisa fácil.

“Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer”

(Luís Vaz de Camões, in “Sonetos”)

Foi o pé dela

Estava eu atento às nobres palavras do expositor quando ela entrou e sentou-se à minha direita. Girei suavemente a cabeça e observei que ela havia sentado um pouco esbaforida. Estava atrasada e sua respiração era alta. Olhava também para o expositor.

Retomei minha atenção, mas coloquei meu braço direito sobre os ombros dela. Ela deixou, mas permaneceu séria, focada. A respiração foi ficando mais suave. Cansaço. Idade.

Nós dois ali, juntos na mesma sintonia espiritual. Queríamos respirar naquele ambiente de paz e boas vibrações depois de uma semana difícil.

A palestra seguia quando meu coração disparou. Ela dobrou a perna direita sobre a perna esquerda. Sentia, pelo contato do meu braço, que balançava. Será que posso ver os pés dela? Estava de sandálias ou sapato fechado

— Esquece isso agora, preste atenção no que está sendo dito!

Era uma voz interna. Superego ou o meu guia espiritual? Sei lá. Tenso fiquei. Quero ver os pés dela, seus dedinhos. Vejo, mas de rabo de olho. Estavam lá. Lindos, com unhas pintadinhas. Vontade imensa de tocar neles, fazer carícias.

Ela percebeu que havia uma paralisia no meu olhar. Não sei como, mas percebeu. Sorriu, ajeitou-se e escondeu-os de mim. Não queria perverter aquele ambiente de energias tão sublimes e sagradas, incentivando meu fetiche. Eu entendi e aquiesci. Razoável que o momento e o lugar não eram adequados.

Ela não fez por mal, mas é o mal que habita em mim. Mal?

Voltei-me para o discurso e olhava rígido para o orador que gesticulava sorridente. Eu nem sabia mais do que se tratava.

O heroísmo cotidiano: honestidade, trabalho e honra num mundo sem coração

Mario Vargas Lliosa é peruano, tem 79 anos e já é um autor consagrado da literatura latino-americana. Em 1994 recebeu o Prêmio Miguel de Cervantes e em 2010 o Prêmio Nobel de Literatura. É autor de “Batismo de Fogo” (1963), “A casa verde” (1966), “Lituma nos Andes” (1993), “Travessuras da menina má” (2006) e de diversos outros romances, peças de teatro e ensaios.

O romance “O herói discreto” (2013), seu último trabalho, traz dois personagens importantes.

Na pequena cidade de Piura, no interior do Peru, Felícito Yanaqué, dono da empresa de transportes Narihualá, casado com Gertrudis e pai de dois filhos, é um exemplo de empresário que cresceu com muito trabalho e de forma honesta. “Homem de colhões”, não participava de nenhum cartel, não pagava propinas e acabou sendo vítima de ameaças e chantagens por conta de mafiosos que queriam extorqui-lo, mas ele “não arriou as calças para esses filhos da puta”. O esquema das cartas com símbolo da arainha é semelhante a “proteção” dada por narcotraficantes e milicianos em troca de dinheiro. Yanaqué não aceita o jogo, denuncia o caso para a polícia — mesmo esta instituição sendo suspeita de ligação com a máfia — e irá até as últimas conseqüências. O desfecho é absolutamente surpreendente.

O relacionamento de Yanaqué com sua amante Mabel e, depois, as descobertas sobre a profundidade das dores e sofrimentos de sua esposa Gertrudes, foram os momentos mais dolorosos da minha leitura. Estava no trem, da Central para o Engenho de Dentro, e as lágrimas caíam. Sou do tipo que, dependendo da beleza da construção literária, choro mesmo.

Não se tratava de um triângulo (Yanaqué-Gertrudis-Mabel) típico das putarias machistas. Tinha elementos de amor, generosidade, companheirismo, frustração, silêncio e purgação de pecados.

“(…) com o passar dos anos sua mulher [Gertrudis] tinha se transformado numa espécie de móvel, que deixara de ser uma pessoa viva. Os dois passavam dias inteiros sem trocar uma palavra, fora os bom-dia e boa-noite”.

Paralelo a isso, na capital Lima, outro empresário, muito mais rico, internado por problemas de saúde, percebe nos cochichos de seus dois filhos, “uma hienas vagabundas”, que os mesmos torcem pela sua morte para ficarem logo com toda a herança. Diante deste desejo, Ismael Carrera, dono de uma empresa de seguros, “ressuscita”, casa com a pobre e honesta Armida e vai ser feliz longe dos dois. A trama que se segue é assustadora. O ódio dos filhos, a busca por destruir Armida e tomar a empresa e o dinheiro do velho pai, revela as facetas mais cruéis de uma sociedade de consumo, a ausência de limites de um superego, a crise moral de nossa sociedade.

“Era velho de merda para cá, que exploda de uma vez para lá, tudo isso a menos de um metro de mim, felizes por saber que eu estava agonizando —lembrou Ismael, falando devagar, com os olhos perdidos no vazio. —Sabe de uma coisa, Rigoberto? Eles me salvaram da morte. Sim, eles, juro. Porque quando ouvi essas barbaridades me deu uma vontade incrível de viver. Para não dar esse prazer a eles, para não morrer. E juro que meu corpo reagiu. Foi aí que decidi, ali mesmo na clínica. Se me recuperar, eu me caso com Armida. Vou foder com eles antes que eles me fodam”.

Eu fui mastigando a leitura de Llosa. Não fiz de um pulo. Foi quase um ano lendo o livro de 342 páginas. A angústia da trama, em alguns momentos, parecia me paralisar.

O elemento mais belo de todo o livro é a discrição dos seus heróis. Todos eles têm aversão pela imprensa, fama, entrevistas, jornalistas etc. São seres do cotidiano, que aprenderam a viver uma vida correta com seus pais e avós. Não se acham melhores e nem superiores, não são perfeitos ou “santos”, mas apenas reproduzem o que consideram o certo, o justo, o que deveria ser feito.

Yanaqué, em alguns momentos, lembrou-me a corretude do pobre Padre Amâncio, do romance “Pedra Bonita”, de José Lins do Rego. Não sei se exagero ou crio uma correlação indevida ao dizer que Felícito Yanaqué é uma versão agnóstica de Padre Amâncio com uma Bíblia de apenas um trecho: “Nunca se deixe pisar por ninguém, filho. Este conselho é a única herança que posso lhe deixar” (p. 11) disse seu pai.

Outro elemento chave é a centralidade do trabalho como valor positivo. Todos os heróis trabalham e duro. “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, de Max Weber, veio à mente em alguns momentos da leitura.

A narrativa de Vargas Llosa corre em duas histórias paralelas até se encontrarem nos últimos capítulos, com recursos de flashback no interior da mesma narrativa que não confunde o leitor, pelo contrário, esclarece detalhes importantes.

Se você não tem o preconceito ideológico, típico em alguns setores da esquerda, de que todos os empresários são seres abjetos e corruptos, recomendo a leitura de “O herói discreto”. Tem até um espírito chamado Edilberto Torres, mas “não sei se existe ou não existe” (p. 97), aliás, “é impossível conhecer as pessoas a fundo, são todas insondáveis” (p. 175).

 

LLOSA, Mario Vargas. O herói discreto. Rio de Janeiro, Objetiva, 2013.

Beije minha lápide: uma bala na cabeça!

Quando aquela senhora se levantou, no meio do espetáculo, e saiu batendo forte os saltos altos, eu já sabia que o texto de Jô Bilac encenado por Marcos Nanini (Bala), Carolina Pismel (advogada de Bala que hesita com sua bissexualidade), Júlia Marini (filha do prisioneiro e lésbica) e Paulo Verlings (carcereiro e admirador) chocaria os mais conservadores. Por outro lado, o que alguém careta vai fazer numa peça cheia de referências ao dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900)?

 Conheça aqui um pouco mais de Oscar Wilde

A platéia, que se transformou em cemitério e parte do próprio cenário sob a direção de Bel Garcia, oscilava entre o riso, a gargalhada e o espanto. Quando Bala, escritor gay e politicamente incorreto arria as calças para mostrar sua tatuagem íntima ao seu carcereiro (Paulo Verlings), eu tive a impressão que todos foram tomados de uma tensa expectativa: “ele não vai fazer isso”, mas fez! As gargalhadas irromperam o ambiente onde Bala parecia uma puta de Amsterdã.

beijeminhalapide 2

Nanini estava, em todos os sentidos, iluminado dentro da cadeia de vidro, depois de violar o túmulo de Oscar Wilde quebrando a barreira de proteção que evitava os constantes beijos com batom deixado pelos seus fãs ao longo do tempo. Aliás, sai-se da peça com imenso desejo de conhecer mais e melhor a obra e a vida de Oscar Wilde.

Não sou Barbara Heliodora — que partiu recentemente — e assumo que não tenho competência nenhuma para fazer crítica teatral, mas escrevo como expectador interessado. Nanini engoliu tudo. E todos. Seria proposital? Era esse o desejo do autor?

As falas provocavam-me profundas reflexões sobre a decrépita condição humana, sobre a hipocrisia social e a violência homofóbica, mas também sobre a arte de viver bem e não se transformar em parte do cemitério de vivos que é nossa sociedade de consumo e de jogos de aparência. O universo gay de Bala não é “doutrinação” barata, mas provocação sobre todos os amores humanos.

beijeminhalapide 3As referências à Wilde eram perceptíveis, mesmo para quem não é conhecedor do gênio rebelde. Por vezes, o clima parisiense da peça se confundia com a cena contemporânea brasileira, cheia de fundamentalismos religiosos e preconceitos disfarçados de bom mocismo higiênico. Bala alertava: “Há seres humanos que não valem um maço de cigarros!”. Quem discordaria?

 

 

Você precisa ir ao teatro para ver tudo isso, antes que ninguém beije sua lápide.

Veja aqui a entrevista de Marcos Nanini sobre o “Beije minha Lápide”: Nanini fala sobre a peça

Ficha técnica: Texto: Jô Bilac / Direção: Bel Garcia / Elenco: Marco Nanini, Carolina Pismel, Júlia Marini, Paulo Verlings e Pedro Henrique Moutinho (stand in) / Produção: Fernando Libonati / Cenografia: Daniela Thomas / Iluminação: Beto Bruel / Figurino: Antônio Guedes / Concepção e direção de vídeo: Julio Parente e Raquel André / Videogrbeijeminhalapide 4afismo: Júlio Parente / Trilha sonora: Rafael Rocha / Design gráfico: Felipe Braga / Assessoria de imprensa: Factoria Comunicação / Fotografia: Cabéra / Visagismo: Ricardo Moreno / Visagismo Marco Nanini: Graça Torres / Assistente de direção: Raquel André / Coordenação e gestão de projetos: Carolina Tavares / Direção de produção: Leila Maria Moreno / Produção executiva: Monna Carneiro / Assistente de produção: Gutemberg Rocha e Glauco Lopes / Realização: Pequena Central / 80 min / (RJ)

Ando meio café sem açúcar

 

Se há uma coisa que me deixa triste e irritado é café sem açúcar. Sei que a onda saudável recomenda café puro ou com mascavo, adoçante e/ou orgânico, mas eu sou das antigas. Gosto mesmo é do café melado e suave. Alegra-me.

Ando melancólico como café sem açúcar. Alguns podem psiquiatrizar isso com a etiqueta de “depressão”, mas tenho cá minhas dúvidas. Numa cultura pós-moderna onde se valoriza tanto o sucesso, o desempenho, a beleza estética, o dinheiro, o ter-coisas, qualquer pessoa que problematize isso será encarada como “perdedora” ou “depressiva”. Não é verdade.

Foi-se o tempo em que tínhamos espaço para os vazios reflexivos, para a crítica social profunda, para a melancolia — dolorosa e criativa — e seus devaneios existenciais. Hoje, tudo isso parece chato e fora de lugar. Legal é livro de “auto-ajuda”, beber para sorrir, manter obsessivamente o “pensamento positivo”, sufocar Thanatos com um Eros enlouquecido.

A melancolia vê o cinza ou o escuro que nos negamos a ver no turbilhão de coisas por fazer, perdidos que estamos no lesco-lesco tumultuado do cotidiano. Claro que há seus exageros (e podem dar origem a depressões crônicas ou mesmo tendências suicidas), mas a velha melancolia pode proporcionar um olhar crítico que por vezes falta ao senso comum. Uma percepção mais profunda, para além do “sorria, você está sendo filmado”.

A vida é bela, sim, eu sei. Mas sua beleza está justamente na sua inteireza, o que não exclui seus momentos perigosamente baixios, as depressões do relevo da existência humana. S. Freud e C. G. Jung, respeitando as diferenças entre eles, perceberam a riqueza que há na melancolia.

Com tudo isso, quero aqui defender o direito de estar melancólico como parte constitutiva do humano. A sombra de nós mesmos é algo que nos pertence e que nos esclarece muito do que somos e do que desejamos. Precisamos ouvi-la. Ela tem muito a nos dizer, pois “não haveria a luz se não fosse a escuridão”, como canta Lulu Santos. Somos uma mistura de medo e desejo.

 

O compromisso do cristão com o que é justo

Em novembro de 2010 eu comecei a leitura de “Bonhoeffer, o mártir. Responsabilidade social e compromisso cristão moderno” (Editora Vida) e terminei hoje. A vida e as palavras de Bonhoeffer são profundas e inquietantes, desaloja-nos, ainda que o autor do livro nos conduza sem nenhum academicismo hermético. Trata-se de Craig Jonathan Slane, professor de Teologia na Universidade de Simpson em Redding, Califórnia. Ao receber seu PhD pela Faculdade Luterana de Teologia em Chicago, em 1999, Slane começou a escrever e lecionar extensivamente sobre a vida e o legado de Dietrich Bonhoeffer.

Este livro é de 2004, mas foi lançado no Brasil em 2007. Centralmente, o autor defende a tese de que o pastor luterano e antinazista Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) é um mártir da igreja cristã, mesmo sendo ele alguém que conspirou para matar Hitler — portanto, alguém que assumiu seu pecado de ter tentado assassinar outro — e acabou preso pela Gestapo e enforcado três semanas antes do suicídio de Hitler, em 09 de abril de 1945, no campo de concentração de Flossenbürg.

A primeira parte do livro é um longo debate sobre o status de mártir. A pergunta que o autor faz é: Bonhoeffer é realmente um mártir? Slane então conta a origem burguesa de um cristão radical, o problema do martírio — na medida que a ordem sociopolítica o condenou como “traidor” e não como cristão — e sua origem no cristianismo como “imitatio Christi”, o próprio Jesus de Nazaré como ícone do martírio etc.

O capítulo 5 é de grande riqueza teológica e mística. Nele encontramos algumas reflexões de Bonhoeffer sobre a morte e o martírio. Para ele, há dois tipos de igrejas no mundo. Uma busca o sucesso e se torna escrava dos poderes desse mundo (não é o que mais vemos hoje?) e a outra vive da fé em função da “cruz do Gólgota”. Em tempos de “show da fé” e descompromisso dos cristãos com a justiça (“a defesa dos mais fracos e dos mais indefesos”), as reflexões e práticas de Bonhoeffer parecem esquisitas, desencontradas. Elas falam de outro tempo, de outro cristianismo, onde o discipulado, baseado na ética do Sermão do Monte, era central. Diz Bonhoeffer:

“Sei que, internamente, serei realmente puro e honesto somente quando tiver começado a levar a sério o Sermão do Monte”

E quem, hoje, leva a sério essas questões éticas que envolvem um compromisso com a prática social? O século 21 apresenta um cristianismo acomodado aos poderes desse mundo e, quando não, defendendo valores contrários ao martírio, ao sofrimento pela justiça e aos mais fracos.

“Fugir na direção da invisibilidade é negar o chamado” de Cristo, dirá Bonhoeffer sobre a comunidade de fé, a igreja. Sendo assim, “o mundo deve ser contradito no mundo” e a igreja assume sua função profética e visível contra os poderes opressivos das trevas, do totalitarismo e da injustiça.

O compromisso do cristianismo com os judeus, a partir de uma leitura de Gálatas 3:28, leva Bonhoeffer a se escandalizar com a omissão dos cristãos alemães diante da barbárie do nazismo. Considerava que destruir o nazismo era preservar a civilização cristã e manter a coerência entre o que se crê e o que se faz (o penúltimo capítulo tem oportunas reflexões sobre fé e prática, juízo moral e juízo prudencial, ponto de vista moral etc.). A fé é expressão do nosso relacionamento com Deus numa nova vida de “existência em favor dos outros” (servir), portanto, incongruente é calar-se diante das injustiças, das perseguições, do totalitarismo e ainda assim dizer-se cristão, mantendo-se apenas como “observador” distante das questões do mundo.

“Desse modo não existe diferença entre judeus e não-judeus, entre escravos e pessoas livres, entre homens e mulheres: todos vocês são um só por estarem unidos com Cristo Jesus” (Gálatas 3:28)

A parte 2 do livro é um panorama da interpretação (hermenêutica) do martírio, colocando a própria vida e fé do cristão como morte contínua. O capítulo 8, “A vida cristã como prática de morte” é altamente recomendado.

No final (parte 3), o livro aborda o próprio Dietrich Bonhoeffer na perspectiva martiriológica e sacrificial. Primeiro pela centralidade de sua cristologia, tendo como fato o encontro com Jesus Cristo, Aquele do Sermão do Monte, que nos impulsiona a sermos discípulos nesse mundo. A natureza humana considera insuportável viver o Sermão do Monte, portanto, os cristãos vivem em contradição e dor, uma vida marcada pelo que se é e um ainda não. Ele chama isso de viver sua “cruz” e alerta-nos para os perigos de uma domesticação do caráter insubordinado e subversivo da Boa Nova de Jesus pela teologia. Para Bonhoeffer, esta operação significa que “Cristo ainda está sendo traído por um beijo”.

Encontrando Cristo no mundo é um dos eixos do pensamento bonhoefferiano, contrário a um misticismo alienado e voltado para si mesmo. Lembre-se, fé é existir em favor dos outros. Ética cristã, realidades penúltimas, justificação pela graça, sentido da morte e o compromisso do cristão com o mundo. Dirá Bonhoeffer, num dos momentos mais emocionantes do livro:

“A terra [o mundo!] permanece sendo nossa mãe, assim como Deus permanece sendo nosso pai, e nossa mãe só colocará nos braços do Pai quem permanecer fiel a ela”.

Essa é a perspectiva de unidade (mãe terra, Deus pai) que defenderá a responsabilidade dos cristãos pela “modelagem da história em toda a situação e em todo o momento, sejamos nós os vitoriosos ou vencidos” diante do regime de opressão.

No capítulo 11 temos a vida de Bonhoeffer na comunidade de Finkenwalde e como isso o influenciou e o preparou para o testemunho diante das forças nazistas. As questões transmorais, a importância do ritual/liturgia como fixação da ética na comunidade, a restauração da igreja através de um novo tipo de monasticismo que ressalte o discipulado ativo (João 3:21), a simplicidade litúrgica contra o “liturgismo esteticizante” (confissão pessoal, oração intercessória e meditação) etc.

Ser cristão é, para Bonhoeffer, viver em oração intercessora e atos de justiça. Por isso mesmo, o teólogo vê com seriedade a recomendação de Provérbios 31:8:

“Fale a favor daqueles que não podem se defender. Proteja os direitos de todos os desamparados”

É esse o caminho do seu martírio e seu exemplo cristão torna-se um sinal da presença sofredora de Deus nesse mundo e a favor desse mundo. Bonhoeffer levou às últimas consequências o compromisso que todo o cristão deve ter com a justiça, ainda que pague preço de sangue.

Como construir uma sociedade justa, democrática e igualitária? John Rawls lido por Roberto Gargarella

Roberto Gargarella é sociólogo e jurista argentino nascido em 1964. É professor da Universidad Torcuato Di Tella e da Universidad de Buenos Aires. Ele é o autor deste livro, “As teorias da justiça depois de Rawls: um breve manual de filosofia política”, lançado originalmente em 1999 por uma editora espanhola (Las teorías de la justicia después de Rawls, Barcelona, Paidós) e, em 2008, pela Martins Fontes.

Na apresentação da obra, feita por Eduardo Appio (UFPR) em 2007, fica claro que Roberto Gargarella é um dos nomes mais importantes da tradição liberal norte-americana (ao lado de Cass Sunstein e Ronald Dworkin) e acerta ao escolher o pensamento de John Rawls (1921-2002), em especial, sua obra A Theory of Justice de 1973 (EUA), como divisor de águas no pensamento contemporâneo. A mesma serve de régua analítica para que Gargarella debata com diversas correntes: o liberalismo conservador de Robert Nozick (“anarco-capitalismo”), os igualitários G. Cohen, Sen, Dworkin e as feministas, o marxismo analítico e a hipótese socialista, os comunitaristas e multiculturalistas, por fim, os republicanos.

É importante dizer que a tradição liberal norte-americana de Gargarella nada tem como a ideia de “neoliberalismo” ou “Estado mínimo”. Trata-se da defesa de uma síntese filosófica, política, jurídica e social entre o princípio da igualdade e o princípio da diferença. A questão é como construir uma sociedade justa, igualitária, sem negligenciar a liberdade dos indivíduos e as diferenças, em outras palavras, a justiça como equidade.

Na introdução, escrita pelo próprio Gargarella, o embate de todo o livro já fica claro para quem lê. É uma defesa da liberdade e da igualdade, tal como exposto pela teoria rawlsiana, contra seus críticos. Pela “direita”, os que consideram que a teoria de Rawls não é tão liberal assim e que tem falhas no respeito à autonomia (Nozick e o liberalismo conservador entra aqui). Na crítica de “esquerda”, os que consideram que a teoria democrática rawlsiana é “insuficientemente igualitária”. Neste setor do campo, os críticos são vários. Ainda que todos sejam respeitosos com o esforço de John Rawls, buscam “aperfeiçoá-lo” ou “corrigi-lo” no sentido de garantir “mais igualdade”: Ronald Dworkin, Amartya Sen, Gabriel Cohen, Catharine MacKinnon. Esse é o eixo central da obra que, além disso, traz profundas discussões com outras três grandes correntes teóricas “rivais” ao liberalismo: o marxismo analítico, o comunitarismo (em alguns casos, com um viés de “esquerda”) e o republicanismo patriótico (onde o bem comum, a República, está acima dos direitos individuais).

O livro começa com uma exposição sumária do pensamento de Rawls que ajuda a situar todos os leitores para o que vem a seguir. A teoria rawlsiana é mostrada como um novo contratualismo que confronta com o utilitarismo, assegurando dois princípios básicos de justiça:

1) Cada pessoa deve ter direitos iguais dentro do mais amplo esquema de liberdades básicas iguais, compatível com semelhante esquema de liberdade para os demais. Aqui significa a garantia das liberdades civis e políticas, como o direito ao voto, ao devido processo legal, liberdade de expressão, liberdade de associação etc.

2) As desigualdades sociais e econômicas não podem ser injustas, mas constituídas de tal maneira que (a) sejam razoavelmente vantajosas para todos e (b) estejam vinculadas aos diferentes empregos e cargos que são acessíveis a todas as pessoas.

Não se trata de mera “igualdade de oportunidades”. Cabe ao Estado rawlsiano reconhecer as “vantagens dos mais beneficiados pela loteria da vida” (discriminações de raça ou sexo — podemos incluir aqui orientação sexual —, vantagens hereditárias de recursos e desigualdade em talentos naturais) sem deixar que isso impeça que haja arranjos políticos e esquemas socioeconômicos que melhore a expectativa dos menos favorecidos da sociedade. Citando Derek Parfit e sua “visão de prioridade”, “é mais importante beneficiar as pessoas quanto pior for sua situação”. O objetivo é gerar uma sociedade justa e estável, com “menor grau possível de ressentimento ou sensação de ser tratado injustamente” pelo sistema político e socioeconômico.

Numa sociedade liberal-democrática justa, cada um deve pagar o preço de suas próprias escolhas, desde que a sociedade reduza os “fatos arbitrários”, típicos da “loteria da vida”, pelos quais a pessoa não poderá ser responsabilizada. Não se trata de culpar a natureza, mas de responsabilizar as instituições pela maneira justa ou injusta com que processa os resultados pessoais da “loteria da vida”.

Os capítulos 3 e 4 são fundamentais para quem, como eu, vem de uma tradição comunista/socialista. A discussão feita com os que consideram Rawls insuficiente no seu igualitarismo, bem como as críticas do marxismo analítico, pode nos oferecer um rico manancial para repensarmos a “esquerda” no século 21. É de leitura obrigatória para o debate sobre socialismo e teoria da revolução depois das experiências do século 20.

O embate de Rawls com os comunitaristas (capítulo 5) é de extrema atualidade: a questão das minorias, cotas, sociedades multiculturais, relativismo etc. De fato, o comunitarismo tende a ser extremamente antiliberal, mas, no último capítulo, percebemos que Rawls aceitou o “golpe” em alguns pontos de sua teoria.

Surpreendente foi perceber o quanto há de republicanismo (em sentido moral) na esquerda brasileira. O capítulo 6 traça as origens históricas do pensamento republicano (pensamento greco-romano clássico, humanismo cívico, iluminismo, puritanismo inglês) e sua defesa de um Estado interventor e promotor de “virtudes cívicas” que assegurem a independência das pessoas, o bem comum e a coesão social da pátria. No republicanismo, o Estado não é “moralmente neutro” — como deve ser para a tradição liberal de Rawls — mas sim um indutor de “estilos de vida” que o Governo considera “saudáveis para a nação”.

O organicismo republicano é contrário ao individualismo tipicamente liberal e suas “minorias opressoras”. Nesse sentido, o pensamento republicano prioriza as políticas de bem estar geral e do “autogoverno coletivo” sobre os direitos/liberdades individuais, atingindo em cheio o núcleo central do temor de todos os liberais de “esquerda” (igualitários) ou de “direita” (conservadores): a “tirania da maioria”. Aqui, republicanismo e comunitarismo têm muitos pontos semelhantes. Ambos querem “produzir bons cidadãos” ao invés de assegurar a liberdade de escolha das pessoas.

Gargarella destaca diversos aspectos em que o liberalismo igualitário se aproxima do republicanismo, ainda que o liberalismo conservador (o que chamamos aqui no Brasil de “neoliberalismo”) seja antitético com os princípios republicanos. Reconhece que as duas correntes teóricas (republicanismo e liberalismo igualitário do tipo rawlsiano) partem de premissas bem diferentes: a pretensão liberal de defender “com unhas e dentes” a autonomia das pessoas — contra os abusos da maioria e do Estado — criará sempre uma tensão com a pretensão republicana de garantir o autogoverno coletivo majoritário (instituições da democracia representativa onde prevaleçam os interesses da “maioria do povo”) como gerador do bem comum, do bem estar coletivo.

No fim do livro, o autor coloca o foco na última obra de John Rawls (“Liberalismo político”, São Paulo, Ática, 2000) e verifica as modificações e revisões críticas que sua teoria da justiça sofreu depois dos anos 70.

Rawls faz alguns ajustes no sentido de responder as críticas das feministas e comunitaristas, garantindo a “estabilidade” da teoria política proposta. Nesse sentido, ele constrói a tese do “pluralismo razoável” que existe nas sociedades complexas onde diversas doutrinas filosóficas, morais e religiosas incompatíveis entre si, mas razoáveis (ele receberá críticas sobre a imprecisão do que seria o “razoável”), convivem no mesmo espaço público.

O “novo Rawls” admite os “limites naturais da razão humana” que faz escolhas difíceis diante da complexidade das evidências sobre um mesmo assunto, dificuldades de sopesar as diversas evidências (mesmo quando há consenso sobre a determinação delas), a ambigüidade de todos os conceitos que usamos na política, moral etc., a interferências das nossas experiências pessoais e valores na avaliação dos assuntos e problemas, dificuldades de sopesar disposições normativas favoráveis e contrárias sobre uma mesma questão e a genuína dificuldade de tomar uma decisão diante de complexos dilemas valorativos.

Reduz a justiça como equidade a uma proposta política da justiça, tendo como objeto somente instituições políticas, sociais e econômicas que seriam foco de acordo social. E estas mesmas teriam que passar pelo teste prático. Se necessário for, deveriam ser corrigidas. Esse ponto também recebeu muitas críticas, pois subordinaria a “missão” da filosofia política a uma “concepção parasitária da prática”.

A ideia de “consenso sobreposto” ganha força neste último Rawls como necessário para organizar sociedades com complexa diversidade de interesses e que precisa constituir maiorias e um consenso constitucional. Para isso, as razões privadas — como a aprovação ou reprovação pessoal do “casamento gay” — devem ser postas de lado para se construir na esfera pública um debate que se utilize somente de argumentos da razão pública — e nesse sentido, Rawls parece aprovar o casamento civil igualitário na medida em que o Estado não deve intervir nas preferências ou orientações sexuais privadas. A legitimidade democrática, portanto, deriva de uma razão pública e não de razões privadas, respeitando esse princípio, chegaríamos ao que ele chama de “dever de civilidade” (escutar os outros, explicações razoáveis e apoiadas na razão pública, respeito mútuo, justificar-se a partir do interesse do outro afetado).

A crítica questionará (1) como Rawls irá operar a separação das paixões pessoais e crenças privadas do debate público (redução da esfera do debate?), (2) o uso impreciso de conceitos de razoabilidade, (3) o recuo de uma proposta mais ampla de democracia deliberativa para “questões básicas de justiça” e “questões constitucionais essenciais” (depois Rawls irá defender uma concepção deliberativa de democracia), (4) a necessidade de ampliar o “dever de civilidade” para questões que envolvam os valores/interesses pessoais e, por último, os críticos irão apontar que em seu último livro, Rawls dá (5) prioridade para a liberdade e reduz a defesa do igualitarismo.

Em resumo, o último capítulo do livro de Gargarella aponta que as revisões da teoria da justiça feitas pelo próprio Rawls causaram mais rejeição do que entusiasmo entre os seus mais fiéis interlocutores. O “velho Rawls” ainda seria melhor do que o “novo Rawls”? Talvez, pelo menos, essa é a impressão que Gargarella deixa, minimizando as mudanças, elogiando os elementos que permaneceram na teoria rawlsiana e fazendo poucos elogios ao livro “Liberalismo político”.

No conjunto, o livro “Teorias da Justiça depois de Rawls” é leitura obrigatória, tanto para liberais (os conservadores podem torcer o nariz!) como para defensores de uma esquerda democrática ou, se quisermos evitar tais rotulações, a obra do sociólogo e jurista argentino Roberto Gargarella é fundamental para quem se preocupa com uma teoria que ajude no desenho institucional de uma sociedade justa, democrática e igualitária.

O primeiro governo de FHC e o “Estado necessário”

O livro nasce com uma entrevista dada por Fernando Henrique Cardoso para a revista Veja em 10 de setembro de 1997. O jornalista Roberto Pompeu de Toledo acrescentou mais vinte horas de entrevistas feitas entre 27 de outubro de 1997 e 20 de novembro do mesmo ano. E o penúltimo ano do primeiro governo FHC e o clima era de otimismo com o Brasil — será que a tese da reeleição ajudou nisso?

A entrevista é datada, mas o livro traz pérolas de imenso valor para quem gosta de estudar a política brasileira. A linguagem é objetiva e as didáticas notas de rodapé ajudam o leitor que não tem domínio sobre conceitos da sociologia, ciência política e economia, bem como esclarece personagens e siglas importantes.

FHC fala de tudo um pouco. A nossa herança escravocrata, a hierarquia social do “sabe com quem está falando?”, crise dos partidos políticos e alianças (onde critica o simplismo de chamar de liberal qualquer um que pense o mercado), a teoria da mudança social (curto-circuito e revolução), o Plano Real (e a tentativa dele de lançar o gaúcho Antônio Brito [PMDB] ou o cearense Tasso Jereissati [PSDB] para presidente em 1994), globalização (onde defende a tese da “inserção soberana”, na época, criticada pela esquerda radical que era contra a globalização), a queda do Muro de Berlim, a defesa de um Estado regulamentador/indutor (e a suposta injustiça dos que o chamavam de “neoliberal”), Mercosul, drogas e violência, o poder da mídia, religião e política (há críticas sobre a tentativa de juntar marxismo e cristianismo na Teologia da Libertação e FHC considera que os católicos progressistas não compreenderam Marx), campanha eleitoral e marketing, direita e esquerda no Brasil (aqui ele reclama da falta de diálogo do PT e diz que não há uma direita organizada e assumida no Brasil), burocracia estatal e fisiologismo, os partidos e a função presidencial, reformas políticas, o federalismo brasileiro, Nordeste “atrasado”?, questões indígenas, o MST, saúde e orçamento democrático, reforma do Estado (econômica e social), a tal “democracia racial”, avaliação dos presidentes do Brasil, o regime militar e um pouco da história do seu pai.

Não se trata de um livro profundo ou acadêmico. FHC está “passeando” por diversos temas. Lendo o livro de 1997 com o olhar de 2014 é fácil perceber onde FHC se equivocou e onde ele foi “profético” em relação ao Brasil. Além disso, podemos notar os temas-gargalos onde até hoje o Brasil não andou, como na reforma do Estado, reforma política, o velho debate esquerda versus direita, o poder da mídia, a “marquetagem” que sufoca os conteúdos das campanhas eleitorais, a dificuldade em aceitar os limites de um Governo, o problema de articulação no Congresso Nacional que pede “mundos e fundos” aos governos de plantão, a sede de poder dos partidos políticos (o PSDB reclamava que o PFL/DEM “mandava” demais no governo) etc.

O capítulo 16 — sobre os partidos — é profético ao falar do “transformismo” do PT. Lula, ex-cabo eleitoral de FHC quando este foi candidato ao Senado pelo MDB-SP, acaba aderindo ao PT fundando pelos trotskistas da Convergência Socialista (atual PSTU). FHC critica a “estreiteza” de um partido da classe trabalhadora e defende a ideia de um partido das massas assalariadas que incluísse a classe média, nos moldes da social-democracia européia.

Na época, Lula simbolizava o mito do operário bom, laborioso e reivindicador o que ocasionou danos a imagem de FHC como “pessoa má” e “de direita” somente porque derrotou Lula, “o homem bom”. O sociólogo tenta demonstrar que sempre foi amigo de Lula e que o PT deveria dialogar com ele, ao invés de se colocar como inimigo do governo. Hoje sabemos que FHC contribuiu para a transição governamental quando Lula já dava sinais de que ganharia as eleições de 2002, mas o livro não aborda isso, por óbvio, é de 1997.

FHC defende o PSDB como um “partido de centro olhando para a esquerda” e se mostra otimista com o Brasil:

“Supondo que não haja duas coisas — colapso econômico e desatino político — acredito que em questão de dez ou quinze anos mudamos qualitativamente o Brasil” (p. 267).

Há pontos polêmicos onde FHC defende a meritocracia, critica o burocratismo das Universidades federais, considera a pauta de MST “atrasada” (ainda que necessária) em termos capitalistas, o mecanismo da reeleição, o erro da mídia de atribuir intenções aos atores políticos, a defesa das privatizações como dinamizadoras do capitalismo brasileiro, o erro de nomear ministros achando que irá ganhar o apoio do partido político dele (alô Dilma!), a necessidade de quebrar a aliança entre setores corruptos da burocracia estatal com a burocracia das grandes empresas — olha a Petrobrás aí gente! — e a ingenuidade do voluntarismo moral do PT.

O livro merece ser lido, desde que você não tenha ilusões de que irá encontrar ali teses acadêmicas do sociólogo FHC, mas bons insights e informações interessantes você encontrará com certeza. Mais ainda, perceberá que a “satanização” de FHC e do PSDB não faz sentido, pois diversos pontos defendidos pelo então presidente em 1997 é hoje consenso, até em setores de esquerda. Nada como o tempo.

O presidente segundo o sociólogo: Entrevista de Fernando Henrique Cardoso a Roberto Pompeu de Toledo. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.

Stalin nunca foi um demônio: a obra de Domenico Losurdo

Domenico Losurdo é um historiador italiano comprometido com o comunismo (marxista-leninista). É professor de história da filosofia na Universidade de Urbano, na Itália, e autor de vários livros. Seu viés ideológico assumido não prejudica a obra, mas lhe dá clareza, pois sabemos de onde ele parte, qual é sua situação pessoal. Além disso, Losurdo é cuidadoso ao levantar muitos dados históricos e estatísticos que se não comprovam plenamente o que defende, pelo menos, abre uma dúvida sobre os acusadores.

Durante as férias de janeiro eu li a sua obra mais conhecida: “Stalin, história crítica de uma lenda negra”. São 350 páginas de defesa e combate. Losurdo assume nela a difícil tarefa de defender historicamente o “guia genial dos povos” e líder da antiga União Soviética, Joseph Stalin, das mais diversas e injustas acusações do pós-Muro de Berlim, em especial, das “mentiras e calúnias” dos trotskistas e do duvidoso “Relatório Kruschiov” — a narrativa dos vencedores — que seria o momento da “desestalinização” da URSS e dos partidos comunistas pelo mundo.

O primeiro capítulo vai direto ao ponto, o “Relatório Kruschiov” (em 25 de fevereiro de 1956), um suposto documento “secreto” — que os maiores inimigos do comunismo tiveram acesso rápido e em primeira mão — do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), liderado por Nikita Kruschiov, que tem como objetivo, na visão de Losurdo, “liquidar Stalin” no XX Congresso do partido. Stalin, que antes era visto como “Tio Joe”, “grande líder”, “homem que derrotou o nazismo”, “o salvador da Europa da barbárie de Hitler” etc. era, até então, elogiado por pessoas como W. Churchill, Harold Laski, Hannah Arendt, Benedetto Croci, Thomas Man, Norberto Bobbio, Carlo Rosseli e Arnold Toynbee e, especialmente a partir de 1956, redesenha-se o líder da URSS como “degenerado monstro humano”. Foi uma operação que “precipitou deus no inferno” e Losurdo tentará encontrar os motivos e questioná-los, um à um.

No capítulo 2, o autor analisará o conflito ideológico na URSS desde a Revolução Russa de 1917 até chegar nas origens do chamado “stalinismo” no capítulo 3. Depois disso, debruça-se sobre a “Era Stalin”, a democracia socialista e a ditadura do proletariado, os Gulags, a burocracia, a ditadura desenvolvimentista e a “necessidade” de um “universo concentracionário” — autoritarismo — para enfrentar as dificuldades e incertezas daquele tempo.

Losurdo dedica-se, nos capítulos 5, 6 e 7, a analise mitológica. O autor pretende demonstrar com diversos dados históricos, coletados inclusive de inimigos públicos de Stalin, como se deu a construção simbólica do “homem cruel”, a ideia de que Stalin e Hitler seriam “irmãos gêmeos” (a difícil tese que acusa de antissemitismo os comunistas daquele período), a paranóia ocidental e a psicopatologização de Stalin e como esse processo levou o homem Stalin a ter sua imagem submersa entre a história e a mitologia.

No último capítulo, Losurdo joga luz no mundo contemporâneo e traça como se deu a “demonização” — tudo que é ruim, ditatorial, concentracionário, autoritário é “stalinismo” — fazendo uma hagiografia do período. Acusa a “Nuremberg anticomunista” de reescrever a história do século XX não somente para desconstruir Stalin, mas para desmoralizar a própria ideia de comunismo.

No fim do livro, o ensaio de Luciano Cânfora, ácido crítico do que conhecemos como “democracia ocidental”, é um brinde para os leitores. Chama-se “De Stalin a Gorbatchov: como acaba um império”. Concordando com Losurdo, ambos vêem em Gorbatchov o artífice da patética derrocada da União Soviética, mas não compreendem os motivos exatos que levaram o projeto reformista de Gorbatchov o desastre geopolítico que favoreceu a hegemonia neoliberal e, em especial, dos Estados Unidos e da troika européia.

O livro é muito bom. O historiador se esforça para demonstrar que Stalin não era anjo, nem demônio, mas um homem de seu tempo que tomou medidas “apropriadas” ou somente compreensíveis no seu devido contexto. Trotski faria melhor? A resposta é um sonoro não, mas detalha os porquês.

Stalin morreu em 1953 e ainda hoje é um tema tabu dentro do campo marxista. Ainda há quem o admire no PCdoB, PCR, PPL (antigo MR-8), mas a hegemonia atual é dos seus críticos mais ferozes. No Brasil, o PT e o PSOL, dois partidos com forte hegemonia de trotskistas e ex-trotskistas, praticamente fez desaparecer os entusiastas do “Tio Joe”.

A leitura de Losurdo não absolve Stalin e o PCUS daquela época, mas relativiza as acusações mais levianas ao “stalinismo”, mostrando que o “totalitarismo” da URSS e seus satélites não pode ser posto em pé de igualdade com as barbaridades do nazi-fascismo.

Eu terminei o livro com a nítida impressão que Stalin não era “o monstro” que aprendi a atacar desde os tempos de militante do PCB nos anos 80. Continuo não sendo “stalinista” e defendo a democracia como valor universal, mas agora terei maior cuidado ao tratar do assunto. Só por isso, o livro valeu cada real investido.