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Eu estou com Jean

Na campanha de 2014 eu indiquei dois nomes para deputado federal. O combativo Wadih Damous, homem de esquerda, honesto e grande companheiro de lutas justas aqui no Rio de Janeiro. Outro nome foi o do meu querido Jean Wyllys, combativo defensor dos direitos humanos, assumidamente gay e socialista. O primeiro é [lamentavelmente, ainda] do PT (roxooo!) e o segundo é do PSOL. Nenhum dos dois pertencem ao meu partido, Rede Sustentabilidade. Minha indicação foi por conta da importância desses dois no Congresso Nacional, confio neles. Mesmo nas divergências – e não são poucas! – ambos são necessários para o avanço da “democracia” que temos.

 

Pois bem, recentemente começou uma nova campanha de difamação contra Jean Wyllys. Só mais uma, pois elas sempre surgem aqui e acolá. E constato, com tristeza, que continuarão. Só que dessa vez é “fogo amigo”. Surge de dentro da esquerda, por conta de uma visita do deputado à Israel e algumas postagens suas expondo algumas reflexões políticas, religiosas e pessoais.

israel e palestina 3

O alinhamento automático de parcela da esquerda com tudo que é anti-Israel logo o associou à direita israelense e suposto colaborador [indireto] do regime de Tel-Aviv. Outros tentam ainda intriga-lo com a justa luta do povo palestino contra o Estado de Israel governado pelos reacionários.  Nem um, nem outro para primar pelos fatos.

 

Jean Wyllys comete equívocos como qualquer ser humano (pode não parecer, mas ele não é deus!), mas nessa questão eu só vejo o exagero dos críticos.

 

Seria confortável para mim ficar calado e me omitir. “Que se danem! Eles que se atraquem”. Sei bem que não sou figura pública, não tenho fama e nem facebook com 50 mil pessoas. Minha opinião é importante para meia dúzia de gatos (e gatas!) pingados, se muito. Ainda assim, minha consciência me incomodou todos esses dias. Cheguei a comentar nas postagens de Milton Temer e fiz um comentário numa das postagens do Jean, mas me senti acovardado. Como ficar calado se Jean Wyllys é pessoa que admiro, que tenho carinho, que torço, que tenho como amigo (ainda que ele possa ter outra interpretação de mim) e ainda voto nele? Tá, ele andou vacilando com minha querida Marina Silva, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.israel e palestina

 

Jean Wyllys apoiou meu querido amigo [e atualmente vereador] dos tempos de UERJ, o sociólogo Jefferson Moura, em 2012. Minha amizade cresceu aí, pois já o admirava como militante da causa LGBT, da causa da liberdade humana.

israel e palestina 2

Então lá vai. Deixo claro que apoio Jean Wyllys. Estou com ele. Os ataques supostamente progressistas contra o deputado é, na verdade, uma reação de quem ignora a complexidade da questão palestina, em alguns casos, por certo fanatismo ideológico, passional (compreensível, até certo ponto). Mas há também os que fazem de má-fé, por ódio ao Jean ou por querer derrotá-lo politicamente. É possível que também tenha elementos de antissemitismo em alguns desses ataques. O ódio aos judeus tem longa história, infelizmente. Não são poucos os críticos de Jean Wyllys que, se preciso for, unem-se ao time de Bolsonaro para ampliar a tentativa suja de desconstruir um parlamentar fundamental para as causas justas desse país.

Por fim, deixo aqui o convite de Jean:

“(…) eu convido a esquerda brasileira que se solidariza com o povo palestino a abandonar a equivocada ideia do boicote a Israel – que prejudica um povo inteiro, detona as pontes e fortalece a direita e a extrema direita desse país – e começar a dialogar com a esquerda israelense. E quem puder visitar tanto Israel quanto a Palestina, como eu fiz, que o faça! A esquerda israelense luta pelas mesmas causas que nós e também é contra a ocupação dos territórios palestinos e defende a solução de dois estados. E há muitos ativistas palestinos e israelenses que trabalham juntos pela paz! Falar com eles ajuda a entender melhor e de fato um conflito sobre o qual muita gente no Brasil (e no Facebook) parece ter conclusões definitivas, mas pouca informação”. #EuEstoucomJean

 

P.S. Dr. James Green, da Universidade Hebraica de Jerusalém, questiona Paulo Sergio Pinheiro que atacou a visita de Jean Wyllys. Perceba como tem caroço nesse angu…

Clique aqui e veja o vídeo

 

 

E depois de velho, ele virou “viado”: sobre o dia de combate à homofobia

“Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade” (2 Coríntios 3:17)

Estive casado por três anos com uma mulher transsexual. Antes, fui casado por mais de uma década com uma mulher cisgênero e por cinco anos com outra. Tenho quatro maravilhos@s filh@s.

Quando souberam que eu estava casado com uma trans (ou “um traveco”, na linguagem chula e estúpida de quem nada entende sobre a diversidade sexual humana), a primeira constatação dos preconceituosos foi:

“E depois de velho, virou “viado”. Que desperdício”

Não vou comentar sobre essa ridícula ideia de “desperdício” quando outro ser humano não corresponde ao nosso desejo. Sobre transgêneros e cisgêneros, remeto ao texto de Bia Pagliarini: Apagamento das identidades trans e não-cis.

É que para muitas pessoas, mulheres trans são “homens com roupas de mulheres” (e nem imaginam a diferença entre travestis e transexuais), portanto, um homem cisgênero que se relaciona com uma trans “é gay”, em alguns casos, é até visto como “gay enrustido”: “Falta a ele a coragem de assumir uma relação com um macho, aí ele disfarça com outro macho de batom e calcinha”. É nessas horas que percebo como faz falta o debate franco e honesto sobre sexualidade e orientação sexual, a começar pelas escolas e, óbvio, nas famílias.

Faz muitos anos que milito em defesa dos direitos humanos, em especial, em defesa da liberdade de expressão sexual e dos direitos das pessoas LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer e intersexuais). Quando estava no casamento com uma mulher cisgênero, alguns amigos achavam estranha essa minha postura.

“Por que você se preocupa em defender “viado”? Você não gosta disso! É pai de família!”

Bem, depois que casei com uma mulher trans, eles tiveram certeza:

 “Não disse, era “viado encubado”, pois quem defende direitos LGBT só pode ser um deles”.

Viu o vídeo? Então, na percepção de pessoas que ignoram o assunto (por falta de informação ou por conta das defesas do ego como negação, projeção ou formação reativa), há dois equívocos: (1) gays e lésbicas não podem “fazer” filhos e (2) defender o direito de alguém é concordar com as práticas desse “alguém” ou ter o mesmo tipo de desejo que esse “alguém” tem.

Por conta de tais equívocos, os conservadores e reacionários consideram que a pessoa que defende direitos humanos “tem tesão por bandidos” e “concorda que é correto ser criminoso”, ou então, quem defende direitos LGBT “só pode ser gay ou sapatão”.

Nada mais enganoso e preconceituoso do que pensar assim, pois eu não preciso ser uma mulher para defender os direitos feministas, a Lei Maria da Penha e combater a misoginia, bem como não preciso ser negro para defender os direitos das pessoas negras e com elas lutar contra o racismo. Também não preciso ser índio para compreender suas histórias e seus direitos, e da mesma forma, unir-me a eles na luta contra o genocídio e a invasão de suas terras. Ainda assim, deixo claro que ser um aliado não me dá o direito de retirar o protagonismo da ação e da fala de mulheres, negras/os e índias/os. Elas/eles devem ser os atores centrais de suas lutas, sujeitos de sua emancipação.

nao precisa ser

“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão” (Gálatas 5:1).

Senti o preconceito e a força das microagressões quando era casado com uma mulher trans e, de forma diferente, depois de minha separação, sofri preconceito quando comecei a namorar uma mulher cisgênero – que também passou a sofrer preconceitos por estar namorando “alguém como eu” (sic).

Um velho amigo (?) postou abertamente numa rede social algo do tipo:

“Marcio é agora um ex-gay, pois foi curado pelo pastor Marco Feliciano e está com uma mulher cisgênero para agradar a sociedade”.

Quanta estupidez e incompreensão sobre a sexualidade, a libido, os deslizamentos do objeto sexual e suas pulsões! A começar pelo fato de que homens que se relacionam com mulheres trans não são gays. Para maiores detalhes sobre isso, há um farto material disponível nas redes sociais, basta pesquisar.

Ainda assim, permanece uma questão:

Se eu fosse gay, qual o problema nisso?

Nenhum! Aliás, se eu fosse gay, eu também poderia ser uma pessoa feliz — e a felicidade é sempre uma possibilidade que não se resume à condição sexual — e esta ideia não me causa nenhum embaraço ou constrangimento. Apenas considero equivocada e reprodutora da lógica de identidades/papéis/práticas sexuais rígidas e enquadradas numa moldura comportamental perene.

As pessoas conservadoras e de “mente fechada” criam um falso problema para, na verdade, manifestarem seu preconceito, o desejo do escárnio, a celebração festiva da repulsa diante do Outro que percebe sua sexualidade fora das “caixinhas” da sociedade heteronormativa.

A questão central aqui é: como sociedade, ainda temos imensas dificuldades de aceitarmos a sexualidade como direito à liberdade individual e privada, bem como respeitarmos a pluralidade de afetos, inclusive suas manifestações públicas.

Hoje é o DIA INTERNACIONAL DE COMBATE À HOMOFOBIA. De maneira muito rápida, a homofobia é medo, ódio e nojo por pessoas não-heterossexuais (recentemente se fala em LGBTfobia como uma maneira de incluir todo o espectro de sexualidades dissidentes). Estou tentando resumir, numa linguagem mais simples possível, questões que exigiram amplos estudos e que há um enorme debate em torno delas.

Há um componente maior e para além do preconceito, pois a homofobia envolve um desejo de eliminação (simbólica ou física) desse Outro que é considerado abjeto e portador de algo que “contamina” as pessoas “normais” (heterossexuais).

É claro que criticar homossexuais ou travestis não é necessariamente sinal de homofobia. O pastor conservador que entende que “homossexuais serão condenados ao inferno” está expressando uma tradução literal e empobrecedora das Escrituras, mas não é necessariamente homofóbico. Nem tudo é homofobia e o próprio conceito de homofobia merece um maior rigor acadêmico. O problemático na ideia de homofobia – ainda que o uso desse termo seja operacional – é que ela parte da mesma premissa dos preconceituosos: a estigmatização do Outro pela patologização.

Posto isso, quero aqui expressar minha alegria em viver sexualmente não limitado pela opressão normatizadora da heterossexualidade, ainda que eu seja atravessado por esta. Nesse sentido, entendo-me como pessoa queer, “ininquadrável” e livre de tarjas ou etiquetas.

Numa concepção libertária, a luta contra a homofobia deve ser também a luta contra os rígidos e tradicionais padrões sexuais e seus papéis impostos às crianças desde o útero materno — algo que Berenice Bento chamou de “heteroterrorismo”.

Esta é uma luta ainda maior, pois se dá contra todas as formas de opressão e preconceito, contra todas as formas de violência física ou simbólica sobre os diferentes. No seu aspecto mais profundo, é uma luta democrática pela liberdade humana.

“Falem e ajam como quem vai ser julgado pela lei da liberdade” (Tiago 2:12)

Não iremos mudar a sociedade de uma tacada só. As “estruturas mentais” só se modificam no longo prazo da história. Além disso, eu não quero que “o mundo seja gay”, pois a beleza do mundo está na diversidade de tons e flores do jardim de Deus ( como pensava Santa Terezinha de Liseaux). Quero sim um mundo colorido, onde todos e todas tenham tratamento justo-igualitário, tenham seu espaço existencial assegurado, seus direitos respeitados e sua liberdade garantida pelo Estado democrático de direito. Isso é pedir privilégios?

A incomunicação da estupidez e o caso Verônica

Tenho enorme apreço pelo diálogo e respeito profundamente as divergências como parte do processo democrático que vivemos. Afinal, o Outro não está de forma alguma obrigado a concordar comigo, ainda que isso possa ferir meu narcisismo. Na verdade, nem eu mesmo tenho convicção de que minha posição ou crença é a melhor. Paul Tillich, teólogo luterano, já dizia que a fé é aposta, quando se transforma em certeza é fundamentalismo irracional e fanático.

Numa democracia, o pluralismo das ideias e a liberdade de expressão devem ser assegurados (BOBBIO, 1986; CRICK, 1981), tanto para os chamados “progressistas” como para as opiniões ditas “conservadoras”. O espaço público para a esquerda, o centro e a direita devem permanecer em aberto (BOBBIO, 1995), ainda que eu tenha dúvidas sobre a validade dessas classificações políticas nos tempos atuais. Qualquer tentativa de perseguição/exclusão é abominável e uma ruptura com as regras do jogo e os procedimentos.

O problema central é a estupidez e o autoritarismo. Quando uma pessoa defende espancamentos, violação de direitos humanos, torturas etc. nós já saímos do campo democrático onde flui a divergência e entramos no tenebroso pântano da incivilidade e do gozo perverso diante da dor do Outro.

Admiro a construção do Estado de direito democrático como avanço dentro do liberalismo clássico (SCHUMPETER, 1984). Esse avanço contou com a participação das forças de esquerda/socialistas no decorrer de todo o século XX (COUTINHO, 1979; WEFFORT, 1984; PRZEWORSKY, 1995). O que temos hoje como “civilização ocidental” é fruto desse arranjo processual-histórico, conflituoso e riquíssimo, que entre avanços e recuos, consolidou uma cultura pluralista, potencialmente tolerante, laico e que repudiaria teocracias, ditaduras e fundamentalismos religiosos. Esse estado de direito é uma construção social das mais importantes, mesmo quando apresenta falhas e déficits (HABERMAS, 1997).

Os direitos humanos se tornaram socialmente aceitos e relevantes nas nações democráticas (BRASIL, 2007), mas é inegável o crescimento de uma onda fascista, irracionalista, xenófoba e radicalmente contrária aos valores democráticos do Ocidente. Na ânsia de “combater o capitalismo”, há também setores atrasados da esquerda que embarcam na defesa de bolivarianismos, Putin, Irã e assemelhados.

Não sei dos rumos do futuro de nossas instituições democráticas, não há mais um mapa de previsões e os problemas atuais são bem maiores do que aqueles listados por Bobbio (1986).

A pós-modernidade fragmentou discursos, ações e a própria tessitura do social (BAUMAN, 1998). As utopias, como o socialismo marxista clássico ou o neoliberalismo laissez-faire, faliram (WRIGHT, LEVINE, & SOBER, 1992). Há novos arranjos sociopolíticos e articulações em rede na defesa da justiça, do bem comum, da solidariedade humana e da democracia como valor universal a ser aperfeiçoado perpetuamente (SANTOS, 2013), mas o quê fazer com o crescimento ultraconservador e anticivilizatório? Como enfrentar a estupidez, a ignorância orgulhosa de si mesma e a barbárie (social, política e econômica)? Há muita coisa por ser feita, há muita luta pela frente. A realidade que vivemos precisa de uma reconstrução do social (BERGER & LUCKMANN, 1978).

Apostarei sempre na democracia, na liberdade, na emancipação e no debate público, na busca de uma razão pública comum/possível, no esclarecimento contra todas as formas de obscurantismo e alienação irracional (ADORNO & HORKHEIMER, 1985), mas as redes sociais libertaram demônios impensáveis. Atrás da tela de um computador, pessoas até então pacatas ou envergonhadas diante de ideias autoritárias e desumanas, agora parecem liberadas do superego social e explodem publicamente sua raiva irracional, sua calúnia cruel, seus desejos mais pérfidos.

O mal-estar da civilização, em Freud, se transformou agora em histeria idílica, “explosão thanatológica”, sem freios, sem mediações. O Outro, que discorda de mim ou que vive de uma maneira que não me agrada, se torna o problema que deve ser varrido, expurgado, eliminado, e assim, purificar o social de toda a “sujeira” (BAUMAN, 1998). É o retorno do recalcado (Lacan) pelos discursos da tolerância democrática, só que com uma violência que nos choca. Qualquer democrata e humanista — para além de uma filiação mais à “esquerda” ou mais à “direita” (GIDDENS, 1996) — estará hoje preocupado com o ódio, a intolerância e a defesa crescente de exclusões de todos os tipos.

Ao ler hoje que “o que aconteceu com o (sic!) travesti Verônica é pouco, merecia apanhar muito mais” eu me pergunto sobre a condição humana (ARENDT, 2007). A que ponto chegamos ou será que sempre fomos isso mesmo? Como manter a esperança (FROMM, 1984) diante do real que nos esmaga?

 

Bibliografia ou inspiração pessoal

ADORNO, T. W., & HORKHEIMER, M. (1985). Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

ARENDT, H. (2007). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

BAUMAN, Z. (1998). O mal estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

BERGER, P., & LUCKMANN, T. (1978). A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Rio de Janeiro: Vozes.

BOBBIO, N. (1995). Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp.

BOBBIO, N. (1986). O futuro da democracia; uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

BRASIL. (2007). PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA. Princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Brasilia: Secretaria Especial de Direitos Humanos.

COUTINHO, C. N. (1979). A Democracia como Valor Universal. Encontros com a Civilização Brasileira , 33-47.

CRICK, B. (1981). Em defesa da política. Brasília: UnB.

FROMM, E. (1984). A revolução da esperança. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

GIDDENS, A. (1996). Para além da esquerda e da direita: o futuro da política radical. Rio de Janeiro: Unesp.

HABERMAS, J. (1997). Direito e Democracia: entre facticidade e Validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

PRZEWORSKY, A. (1995). Estado e Economia no Capitalismo. Rio de Janeiro : Relume Dumará.

SANTOS, B. d. (2013). Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez.

SCHUMPETER, J. (1984). Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

WEFFORT, F. (1984). Por que democracia? São Paulo: Brasiliense.

WRIGHT, E. O., LEVINE, A., & SOBER, E. (1992). Reconstruindo o marxismo: ensaios sobre a explicação e teoria da história. Petrópolis: Vozes.

 

Políticas públicas para pessoas LGBT: minha dissertação de mestrado no PPGSS-UERJ

A presente dissertação faz uma análise do estado da arte das políticas públicas voltadas para pessoas LGBT no Rio de Janeiro.

Começamos refletindo sobre o que é o Estado, as origens dos estudos de políticas públicas e o que entendemos como políticas públicas. Depois, compreendendo o que é o Estado, passamos para a questão da representação democrática, as propostas de ampliação dos mecanismos democráticos, a “responsabilização” (accountability) dos agentes públicos, transparência e cidadania.

Na terceira etapa desta investigação, analisamos a cultura. Os indivíduos nascem imersos no conjunto de valores e papéis sociais pressupostos e o não cumprimento destas expectativas é fonte de assimetrias, punições e injustiças. Neste sentido, compreender o papel da religiosidade judaico-cristã na formação da maioria dos indivíduos de nossa sociedade é um aspecto importante para explicarmos os mecanismos do preconceito e da homofobia. A formação de um holding conservador com evangélicos e católicos, financiados pelo poder econômico do “mercado gospel” e explicitado na formação da “bancada evangélica” entra aqui.

No último bloco analisamos o que é a ALERJ, sua história e composição, quais foram os projetos de lei que se tornaram políticas de Estado para a comunidade LGBT. A interação entre militantes das organizações da sociedade civil de defesa dos direitos LGBT, parlamentares e atores invisíveis da democracia (acadêmicos, especialistas, gestores e burocratas) é o foco de nossa análise para compreender as engrenagens destas políticas públicas “desviantes” que foram efetivadas dentro de um contexto onde a heterossexualidade é a norma social.

A partir desse conjunto de análises, chegamos a algumas conclusões que supomos ser de interesse de todas as pessoas que militam pelos direitos humanos, em especial, pelos direitos das pessoas LGBT, bem como de agentes públicos e da comunidade acadêmica que tem interesse nos estudos LGBT.

“Políticas públicas e direitos LGBT no estado do Rio de Janeiro: Análise exploratória acerca da atuação do Poder Legislativo entre os anos de 1999 e 2013” é o nome da dissertação apresentada em outubro de 2014, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Orientada pelo Prof. Dr. Guilherme Silva de Almeida e aprovada em banca examinadora composta pelo Prof. Dr. Sérgio Castilho (Universidade Federal Fluminense/UFF), Profa. Dra. Paula Lacerda (UERJ) e Profa. Dra. Carla Almeida (UERJ).

Aproveito para agradecer o amparo diário de minha Giowana, a tutoria maternal de Mably Trindade (que controlava até o que eu deveria comer nos intervalos de aula rsrsrs), as críticas construtivas de Silene, Luiz Eduardo Soares e Miriam. Desculpo-me com amigos e filhos (Tatiana, Michel, Gabriela e Isabella) que acabei negligenciando por conta deste trabalho. Amo vocês!

Qualquer erro, lacuna ou imprecisão é de minha inteira responsabilidade e teimosia. Ah… Ainda farei mais uma revisão, portanto, aceito sugestões: saraivamsales@gmail.com

Sumário:

1.         Estado, políticas públicas e representação democrática

1.1.       A compreensão do Estado

1.2. Conceituando políticas públicas e a origem dos estudos sobre elas

1.3. Estado e representação democrática

2.         Políticas e Direitos para pessoas LGBT no Brasil

2.1.       O campo dos direitos humanos, cidadania e direitos LGBT no plano internacional

2.2.       Cidadania, sexualidade e direitos sexuais

2.3.       Trajetória dos direitos LGBT no Brasil contemporâneo

3.         Deus fez macho e fêmea? Binarismo de gênero e homofobia

3.1.       A complexa interseção entre religião, ação política e interesses econômicos

3.2.       Sexo, relações de gênero e papéis sociais

3.3.       A matriz judaico-cristã, o binarismo de gênero e a homofobia

4.         O Poder Legislativo no Estado do Rio de Janeiro: políticas e direitos LGBT

4.1. ALERJ: história e significado na produção de políticas e reconhecimento de direitos

4.2. Os direitos LGBT nos projetos de lei discutidos na ALERJ entre 1999 e 2013

5.         Considerações finais

Link para a dissertação completa: http://migre.me/oFcKn

 ou

https://www.dropbox.com/s/4s6m4umb2h36n6n/Dissertacao%20de%20Mestrado%20vers%C3%A3o%20final%20FEV%202015%20-%20Copia%20%282%29.pdf?dl=0

Jaqueline Gomes fala sobre transfeminismo, movimento negro, Dilma e Marina

Jaqueline Gomes de Jesus é psicóloga com doutorado em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (UnB) e conselheira do Conselho Regional de Psicologia do Distrito Federal. Tem 36 anos e é casada. Professora em diferentes instituições de ensino superior, pesquisa trabalho e identidade, gestão da diversidade e movimentos sociais, tendo diversas publicações.
Militante em direitos humanos, foi presidente de diferentes ONGs LGBT e coordenadora do Centro de Convivência Negra da UnB.
Engajada nos estudos de gênero e feministas, é um das referências nacionais do transfeminismo, área pioneira do feminismo que critica a ideia de que o gênero é definido pelo sexo biológico.

Está no Rio de Janeiro para concluir sua pesquisa de pós-doutoramento em trabalho e movimentos sociais (CPDOC/FGV), ministrar um curso sobre diversidade no trabalho para técnicos e professores da UFRJ e organizar a edição do livro “Transfeminismo: Teorias e Práticas” (Editora Metanoia), que será lançado em novembro. Confira a entrevista dela para o Blog do Saraiva:

Como foi desenvolver uma carreira acadêmica sendo negra, mulher e transexual?

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A minha vida, como acadêmica, sempre foi pautada por enfrentamentos constantes, determinados pelos preconceitos que atravessam as percepções estereotipadas, deste nosso país estruturalmente racista, sobre as pessoas negras e não enquadrada nos modelos sexistas e heteronormativos.

O primeiro deles é a tentativa de invisibilizar a pessoa como pesquisadora: ainda se vêem negros e pessoas trans como objetos de estudo, e não como produtores de conhecimento.

O segundo é a tentativa de deslegitimar o conhecimento produzido por tais sujeitos, a partir do malfadado argumento elitista, e extensamente aplicado às mulheres, de que o nosso trabalho científico em Ciências Humanas e Sociais não poderia ser isento de tendenciosidades por, supostamente, não sermos capazes de nos distanciar daqueles que pesquisamos.

O terceiro é a tremenda dificuldade de inclusão no ambiente acadêmico, pautado por lógicas de empoderamento que, historicamente, não consideram pessoas negras e trans como docentes e/ou pesquisadores possíveis.

Por isso tudo me entendo como a sobrevivente de um sistema que apaga identidades, dentro de uma sociedade que aniquila vidas, no sentido psicossocial e, literalmente, físico.

O que é transfeminismo?

Em termos técnicos, o transfeminismo é uma novíssima linha de pensamento e ação feminista de terceira onda, herdeira do feminismo negro, que nega o caráter biologicista culturalmente atribuido ao gênero, reconhece a intersecionalidade das identidades, critica a hierarquia de opressões e, consequentemente, aponta para a necessidade de se criticar o sexo biológico como elemento orientador dos discursos socais, incluindo os científicos, e das políticas públicas.

Em termos políticos, o transfeminismo é uma prática que valoriza as contribuições de todas as pessoas para a discussão dos direitos e a produção de saberes sobre os corpos, ao mesmo tempo em que empodera as falas, escritos e participação das pessoas trans.

O que você pensa sobre o cenário politico brasileiro?

Acho que é pobre em ideias e propostas sérias, repleto de atores políticos carismáticos que buscam defender os interesses de seus grupos oligárquicos e sem qualquer estadista. Sinto um profundo pessimismo com relação a tudo isso que aí está, e a sensação que piora quando vejo movimentos sociais que compactuam com essa lógica, seja por idealismo, por inércia ou, pior, por interesse. Ao nível macro, vivemos uma crise das instituições, e ao nível micro, verificamos a permanência de lógicas gerencialistas que, lamentavelmente, endossam o presenteísmo e a precarização do trabalho como políticas laborais para as organizações públicas, o que preocupa, pois gera insatisfação e sofrimento entre os trabalhadores.

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Nos 12 anos do PT o Governo avançou na agenda do movimento negro e trans feminista?

Creio que sim, no que tange à agenda negra, mas investindo menos do que poderia. Criou-se a Secretaria Especial de Promoção de Políticas para a Igualdade Racial (SEPPIR), no entanto com recursos muito reduzidos para o tamanho descomunal do seu desafio; o Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado após mais de uma década pelo Congresso Nacional, com a orientação mais efetiva do Executivo a seus aliados no Legislativo, porém com lacunas que prejudicam a sua efetividade; as ações afirmativas para a população negra vêm sendo propostas e aprovadas, entretanto têm sido limitadas a poucas reservas de vagas em seleções para órgãos públicos, sem considerar as outras estratégias necessárias; aprovou-se a Lei de ensino da história e cultura afrobrasileira nas escolas, que infelizmente não tem sido respeitada como deveria.

Quanto à agenda transfeminista, não vejo avanços, principalmente porque as políticas para mulheres ainda são femistas, ou seja, focadas apenas num ideário essencialista de mulher como fêmea biológica, o que redunda na formulação de políticas públicas voltadas para um determinado modelo de mulher, mãe e cuidadora, esquecendo-se de todas as outras mulheres, em especial das trans. O mesmo pensamento, pode-se dizer, prejudica as travestis e os homens trans, que ainda não tratados, de maneira errônea, como suficientemente atendidos pela políticas sociais para LGBT, as quais aliás, nem estão sendo realizadas a contento.

Dilma e Marina, duas mulheres disputando a presidência. As mulheres estão tomando o poder dos homens?

Sim, no sentido em que a disputa em espaços públicos não é mais considerada como uma atribuição exclusivamente masculina. Em outro aspecto, eu diria que não, porque a maioria dos cargos de chefia neste país ainda são ocupados por homens, ainda que as mulheres tenham qualificação para ocupá-los. Esse mesmo problema, que chamamos tecnicamente de “teto de vidro” (porque as mulheres estão nas organizações, enxergam, querem e podem alcançar o topo, mas são impedidas por uma barreira “invisível”), também prejudica a ascensão de negras e negros no mercado de trabalho e no mundo da política. Meu entendimento é que a ocupação efetiva de espaços de poder ainda não é entendida como uma possibilidade efetiva para as mulheres, principalmente se forem negras. Por isso considero relevante a concorrência empoderada de uma mulher negra, Marina Silva, na disputa para a presidência da república.

Marina Silva é uma ameaça para as questões de gênero e raça/etnia?

Não, é uma oportunidade. Lamento o fato, para mim evidente, de que ela esteja sendo alvo do racismo moderno, associado ao machismo, que avilta a imagem das mulheres negras neste país. O ideário de quem pode ser presidente é orientado pela ideia de que essa pessoa precisa ser homem, ou então agir de maneira como se entende, em nossa cultura, que homens devem se comportar quando são gestores.

Então, quando falamos de uma pessoa negra, a situação piora, pois ainda somos alvos de subalternização, e a maioria da população tem uma ótica, reproduzida pelos formadores de opinião, de que um(a) negro(a) não pode ser chefe, quanto mais presidente! Por isso tantas pessoas querem exigir de Marina uma estética embranquecida, e tentam ridicularizar sua aparência como uma mulher negra típica desta sociedade, a qual eles somente associam com cargos menos prestigiados no escalão sócio-econômico. Existe muito preconceito e discrimina ção em críticas que são feitas a essa candidata, as quais não são repetidas a outros candidatos, que não são negros. Chega-se ao ponto de não se considerar que ela é negra, mas indígena ou “cabocla”, como já me disseram, simplesmente porque ela nasceu no Norte. Assim, há também uma estereotipia atrelada a sua origem geográfica.

É nesse sentido que Marina Silva oportuniza uma rediscussão, nas dimensões de gênero e cor/raça, com relação aos espaços de poder atribuidos a negros, mulheres e nortistas no Brasil.

Uma presidenta evangélica não será um entrave para todxs que defendem um Estado laico?

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De forma alguma. Admitir isso corresponderia a afirmar que, pela pessoa adotar uma religião, ela necessariamente repudiaria a ideia do Estado Laico. Isso é preconceito. Tivemos vários presidentes católicos e nunca lhes foi impingida a pecha de serem contra a laicidade. Ao passo que tivemos outros que se diziam agnósticos ou ateus, no entanto assinaram acordos com determinadas autoridades religiosas e se expressaram usando termos correntes das religiões predominantes. O Estado laico é um projeto incompleto que esta república vem urdindo desde a sua proclamação, o qual ainda precisa ser alcançado.

Vivemos um momento de intenso fundamentalismo religioso, engajado nos processos políticos, que é representado por certas lideranças evangélicas, o que reforça o estereótipo do evangélico como fundamentalista, porém tal redundância precisa ser criticada e limitada ao que lhe cabe, como um fato localizado, e não como uma generalização.

O fortalecimento da laicidade, no Brasil, não depende da eleição deste ou daquele político para a presidência, mas sim da luta organizada de todos os setores da sociedade, principalmente os religiosos, para que todas as religiões – e mesmo a não religião – sejam respeitadas pelo Estado, sem proselitismo para esta ou aquela.

Advogada e militante LGBT, Giowana fala sobre Marina Silva e outros babados

Giowana Cambrone Araújo é mineira, mas mora no Rio de Janeiro há quase três anos. É advogada, 34 anos, casada, com pós-graduação em Gestão Cultural (FOGA – Espanha), Direito Constitucional (UGF) e Democracia Participativa (UFMG). Atualmente cursa o mestrado no PPFH-UERJ.

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Como mulher (transexual), Giowana é pessoa engajada na luta pelos direitos humanos e milita na Rede Sustentabilidade. Adepta do Candomblé, ela apoia Marina Silva para presidente e diz que “a maior inovação do programa [de Marina] é colocar a pessoa trans [travestis e transexuais] como grupo mais vulnerável, invisibilizado e sujeito a violências e exclusão”.

Abaixo, leia a íntegra da entrevista.

Na entrevista que você deu em 13 de maio de 2014 ao site da Rede Sustentabilidade disse que o partido abraça as causas que você defende. A REDE é um partido aberto para a agenda LGBT? Como se dá hoje a relação entre os coletivos LGBT da REDE, PPS e PSB?

Giowana: A Rede Sustentabilidade é um partido plural que traz em seus princípios o respeito pela diversidade humana. Tanto é que o Congresso Estadual da Rede/RJ aprovou por aclamação uma carta de princípios e compromissos do partido com a diversidade sexual, inserindo compromissos com a agenda de demandas da população LGBT. Posteriormente, esta foi ratificada e aprovada pelo Elo de Dirigentes Nacionais como material de estudo e orientação.
As representações dos coletivos LGBT dos partidos que compõem a coligação se aproximaram durante a campanha. Felizmente é composto por pessoas preocupadas com o coletivo e a relação se dá pelo respeito à diversidade e troca de ideias salutares ao processo democrático.

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Então o que aconteceu com o programa de governo de Marina Silva no capítulo sobre direitos da população LGBT? Qual o seu papel na construção desse capítulo?

Giowana: Participei junto com o representante do PSB (LGBT Socialista) da apresentação de propostas de movimentos sociais com a temática LGBT. Fui responsável pela condensação de um documento final de apresentação de propostas para este tema. Lá no início das convenções estaduais e seminários temáticos para a construção do programa de campanha estavam previstossó 5 eixos programáticos, no entanto, pelas demandas acumuladas, os coordenadores de programa, Neca Setúbal e Maurício Rands, acharam por bem a criação de um capítulo específico como Eixo nº 6, com o tema “Cidadania e Identidades”. Foi um avanço em relação a todas as propostas de candidatos.

Quando apresentamos as nossas propostas, saímos da reunião cientes de que na mediação que ainda haveria de ser feita para redação final, nem todas as proposições seriam contempladas. Isso é uma característica do processo democrático, da construção de um consenso progressivo. Infelizmente, por uma falha,o programa foi apresentado ao público e divulgado com todas as nossas propostas, “ipsliteris”, tal como havíamos feito, sem as mediações encampadas pelo conjunto da coligação.

Esse erro levou a revisão (a tal errata) e ao mal estar com a comunidade LGBT, agravada tanto pelos opositores, quanto pelos defensores da população LGBT.

Apesar da mudança, que pode não representar as reivindicações mais fortes do movimento social,ainda é o programa mais abrangente, pois aborda as questões dos direitos oriundo da união civil, o compromisso de combate a homofobia, e prevê atenção especial às necessidades de pessoas trans como o respeito a identidade de gênero, qualificação do atendimento em saúde pelo SUS às demandas mais específicas da comunidade e oportunizaçãode capacitação profissional para o mercado de trabalho.

Depois daquele sábado, 30 de agosto, você não tem feito campanha para Marina Silva. Mudou seu voto?

Giowana: Nem mudei meu voto, nem deixei de participar da campanha. Apenas naquele momento inicial senti necessidade de me afastar porque a imprensa e oposição estavam “marcando forte” naquelas pessoas que participaram da construção do programa. Procuravam quaisquer coisas que pudessem explorar negativamente. A oposição bateu muito forte, espalhando boatos.

Se dissesse em uma rede social “estou triste”, não importava com o que, para as pessoas era com Marina Silva. Não compartilho dessa política suja que a oposição vem fazendo, e nós, da Rede Sustentabilidade, acreditamos na cultura de paz. Achei preferível atuar na campanha de outra maneira. Na troca de ideias e no debate saudável, do que entrar numa guerrilha suja de acusações e especulações.

No campo dos direitos LGBT, a Marina Silva é a melhor candidata entre os três mais fortes nas pesquisas eleitorais? O que você destaca no programa de governo dela nesta área?

Giowana: De todos os candidatos, acredito que o programa de governo do candidato Eduardo Jorge (PV) é o que melhor satisfaz a agenda posta pelo movimento LGBT. No entanto, o programa de governo apresentado por Marina Silva com esta temática é o mais abrangente e traz demandas esquecidas por setores do movimento LGBT como, por exemplo, políticas para a saúde e a ampliação da oferta de demandas específicas desta população. E isto vai desde a ampliação de ações de combate e prevenção de DSTs/Aids, que teve orçamento reduzido na ultima gestão até a ampliação do atendimento dos programas de saúde de pessoas transexuais.

Acho que a maior inovação do programa é colocar a pessoa trans como grupo mais vulnerável, invisibilizado e sujeito à violências e exclusão.

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Os doze anos de governo petista não foram favoráveis às políticas LGBT? Dilma tem o apoio majoritário do movimento LGBT brasileiro?

Giowana: Nesses doze anos, o governo do PT cooptou grandes lideranças do movimento social trazendo-os para dentro do governo. Esse movimento, que inicialmente até pode ter sido bem intencionado, na prática precarizou os movimentos sociais, deslocando-os de sua natureza que é reinvindicação e contraposição ao governo. Vemos em secretarias do governo petista e em conselhos, diversas dessas lideranças que passam a simplesmente validar e legitimar as ações do governo.

Além disso, o governo Dilma antagonizou momentos emblemáticos de lutas LGBTs, como a retirada do material de combate à homofobia nas escolas, o não posicionamento diante da discussão da legalização da união civil entre pessoas do mesmo sexo decidido pelo STF e a orientação para o apensamento do PL 122 que criminaliza a homofobia à morosa Reforma do Código Penal. Este governo petista curvou-se a bancada fundamentalista em prol de uma governabilidade.

A população LGBT é diversa é plural, e o voto ainda muito disperso. Não acredito que Dilma receba o apoio majoritário da população LGBT, mas talvez tenha seus mais aguerridos e “interessados” defensores.

Você apoia Jean Wyllys (PSOL) para deputado federal. Ele é um crítico de Marina Silva. Como lida com essa questão?

Giowana: Não é porque eu apoio politicamente alguém que este apoio se transforma em algo incondicional. Há pontos — tanto do Jean Wyllys, como da Marina Silva — que concordo e apoio, há outros pontos que discordo. A minha escolha de voto é crítica e sem fanatismos partidaristas ou messiânicos. Meu voto no Jean Wyllys é pela relevância do trabalho que faz em defesa dos direitos humanos e de populações mais excluídas socialmente. No fundo, excluídas as divergências, acho Marina Silva e Jean Wyllys muito parecidos: ambos são agentes de uma nova visão políticavoltada para o coletivo.

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Você gravou vídeo para a campanha “Rio sem Preconceito” (campanha de carnaval), uma iniciativa do Coordenador da CEDS-Rio, Carlos Tufvesson, que é do governo Eduardo Paes (PMDB). Você apoiou Freixo (PSOL) em 2012, isso não é contraditório?

Giowana: Contraditório por quê? Na campanha de 2012 apoiei Marcelo Freixo do PSOL para prefeito do Rio de Janeiro, pelo seu histórico de lutas em favor dos direitos humanos e porque acredito que naquele momento ele tinha as melhores propostas para gerir a cidade. No entanto, não foi o que a maioria considerou, dando a vitória a Eduardo Paes, de quem não concordo com diversas políticas. Mas eu não sou cega, e nem serei omissa. Não vou deixar de participar de ações que considero que são positivas como uma campanha de prevenção a DSTs/Aids.Tufvesson é amigo e aliado de nossa luta, ainda que o governo do PMDB possa ter lá seus equívocos.

A agenda LGBT está para além dos partidos políticos? A direita não seria claramente homofóbica?

Giowana: A agenda LGBT diz respeito ao ser humano, portanto, é suprapartidária. O arco íris está para além da direita e da esquerda, está no dia a dia, está na vida. O que acontece é que os partidos políticos são formados por pessoas, pessoas que são atravessadas por valores e também preconceitos. Salvo algumas exceções de partidos radicais, há pessoas favoráveis e contra as demandas LGBT dos dois lados da díade direita e esquerda. Já vi vários partidos e movimentos ditos de esquerda, priorizarem a discussão e pauta econômica e da luta de classes, considerando as questões humanas como questões de segunda ordem. E há gestões e propostas de partidos de direita que são favoráveis as demandas da população LGBT.

Mesmo sendo você de candomblé, não teme uma presidenta evangélica?

Giowana: De forma alguma. Isso seria preconceito reverso, responder uma atitude de preconceito com outro é para gente ignorante.

vídeo de apoio ao Jean Wyllys

Vídeo beijo no ombro e rala preconceito

Vídeo beijo no ombro e camisinha no bolso

Marcelo Freixo fecha contra a homofobia – vídeo de apoio ao Freixo em 2012: