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O poder curativo da água

“Era a terra sem forma e vazia; trevas cobriam a face do abismo, e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas” (Gênesis 1:2)

Jorge Damas Martins é aquele espírita da velha fornada da querida Federação Espírita Brasileira (FEB). Psicólogo de formação ampla e humanista, é conhecedor profundo das obras de Allan Kardec, André Luiz, Emmanuel, J.-B. Roustaing, Pietro Ubaldi, Bíblia, taoísmo e outros saberes. Sem preconceitos, mas com apurado rigor doutrinário, Jorge Damas navega por autores yogues bem como pelas mensagens de Neio Lúcio através do lápis de Chico Xavier. O autor consegue ser profundo na sua capacidade de articular diversos pensamentos em síntese, mas, ao mesmo tempo, é de uma clareza simples e objetiva. Escreve bem, sem bancar pseudo-intelectualidade.

O seu mais recente livro, “A cura pela água” (Editora Lachâtre, 2015), é uma coletânea de preciosas informações sobre o poder curativo, relaxante, purificador e regenerador da água em suas mais variadas formas. Desde o copo com água até as brisas marinhas que animam nossa caminhada e renovação energética.

Contador de causos, Jorge Damas fala da relação de Allan Kardec, Darwin, Bezerra de Menezes, Pedro II e Chico Xavier (Clara Nunes, Irmão Jacob, Neio Lúcio, Emmanuel, André Luiz etc.) com a água comum que bebemos, as águas dos rios, mares e oceanos, a tradicional água fluidificada, os banhos termais (Caldas Novas, Águas de Lindoia, Caldas da Imperatriz, praias etc.), o banho em casa, os banhos rituais na Bíblia etc.

O livro é uma fascinante viagem no tempo. Com ele, percebemos que a água é um formidável remédio colocado pela Natureza e nem sempre valorizada por nós. Os bons espíritos a utilizam para diversos trabalhos de cura e terapia, mas nós precisamos saber mais e estarmos atentos, colaborando assim com o bem.

Veja aqui o livro na Editora Lachâtre (clique na frase)

O uso de roupa branca em centros espíritas

“O Espiritismo evangélico é o Consolador prometido por Jesus, que, pela voz dos seres redimidos, espalham as luzes divinas por toda a Terra, restabelecendo a verdade e levantando o véu que cobre os ensinamentos na sua feição de Cristianismo redivivo, a fim de que os homens despertem para a era grandiosa da compreensão espiritual com o Cristo” (Emmanuel, “O Consolador”, questão 352).

 

Em 15 de novembro de 1908, o caboclo das Sete Encruzilhadas anunciou a fundação da Umbanda e assim nasceu o primeiro templo da nova religião. Chamava-se Tenda Espírita Nossa Senhora. Todos os médiuns e trabalhadores usariam, por orientação espiritual, roupas brancas. E essa tradição já faz 107 anos.

 

Mas não é só na Umbanda. Encontramos o uso de vestes brancas em diversos segmentos esotéricos, nos diversos terreiros das religiões afro-brasileiras, entre sacerdotes católicos e líderes protestantes, entre os muçulmanos e nas mais variadas casas espíritas (algumas de orientação kardequiana, outras ramatisianas). O próprio Espiritismo kardequiano ficou conhecido pelo povo como “centro de mesa branca” e não me parece algo tão casual. Há um sentido profundo nisso tudo.

 

Vamos refletir. A presença das roupas brancas em tantos e variados locais de fé seria apenas uma coincidência de pessoas ignorantes? Seriam essas entidades orientadoras da Umbanda espíritos estúpidos e de baixa hierarquia? Ramatís seria uma entidade ignorante e das sombras? Gandhi, ao usar sempre o branco, era um “espírito apegado” às crendices? Jesus só usava túnicas brancas por acaso?

 

Quando pesquisamos de forma desapaixonada, encontramos a presença de vestes brancas em diversas narrativas míticas – como nos livros do hinduísmo – e nos movimentos místicos por todo o planeta. Os estudos da influência das cores (cromoterapia) também nos trazem dados interessantes sobre a cor branca.

 

O branco, historicamente, tornou-se símbolo de unidade, simplicidade, pureza, sabedoria, espiritualidade superior, energias de luz, angelitude e fraternidade. É a cor associada ao Cristo, governador do planeta Terra.

 

Brâmanes, druidas, os antigos magos brancos e Jesus usaram túnicas brancas. Nas guerras, a bandeira branca simboliza a paz, o fim do conflito. Assim também, nas áreas que envolvem a cura (médicos, enfermeiros, dentistas etc.), o branco é a cor padrão. A roupa branca transmite calma, paz espiritual, serenidade e limpeza. Ela é a unidade maior, pois contém dentro de si todas as outras cores.

 

Nas casas espíritas, o uso de vestes brancas tem também um sentido social e igualitário. Para que evitarmos que as pessoas sejam identificadas pela qualidade das roupas que usam e, com isso, reforçarmos diferenças socioeconômicas e profissionais, todos se tornam iguais no uniforme branco. As diferenças ficam assim diluídas, simbolizando nossa igualdade perante Deus e que na casa espírita estamos todos envolvidos no mesmo trabalho, não importa se rico ou pobre, se doutor ou analfabeto, se negro ou branco, se gay ou heterossexual, todos estamos de branco trabalhando em nome do Cristo e de Seus espíritos.

 

Ao usarmos o branco na casa espírita, nós adentramos o terreno simbólico dos nossos trabalhos de caridade espiritual e abandonamos nossa “persona social”, com seu status diferenciado no mundo e possíveis vaidades pessoais como, por exemplo, o uso de roupas de grifes famosas. Com isso, “o personalismo ou destaque individual é algo que jamais deverá existir [em nossos trabalhos]. Somos meros veículos de manifestação da espiritualidade superior, e por isto, devemos sempre nos mostrar coletivamente, sem identificações pessoais ou rótulos. Somos elos iguais de mesma força e importância neste campo de amor e caridade”.

 

Quando entramos no centro espírita e lá colocamos nossas vestes brancas – já devidamente magnetizadas pelos guias espirituais e mentores do local – estamos fazendo uma ruptura, dentro do espaço-tempo, com as coisas mundanas para nos entregarmos plenamente ao espírito de fraternidade, caridade e companheirismo igualitários. Todos juntos, de branco, servindo ao Cristo e ao próximo, em amor e simplicidade. Vestir o branco é um gesto simples, mas simbolicamente poderoso, além de psicologicamente eficaz e espiritualmente razoável.

 

Nas casas que adotam o uso de jalecos brancos, opcional em nossa União Espírita Cristo Rei, “todos são iguais e os assistentes não devem dar vazão às aparências do mundo profano na busca de sua espiritualização. Assim, quem freqüenta [o local] jamais terá a oportunidade de identificar no corpo mediúnico, estando seus membros vestidos todos de branco, eventuais ou supostas diferenças intelectuais, culturais e sociais, tal como não podeis visualizar as cores das penas de um bando de araras voando. Não importa se por trás da roupa branca sacerdotal se encontra o advogado, o arquiteto, o militar graduado ou o diplomata, um rico empresário ou um simples camelô, a funcionária concursada ou a empregada diarista, todos estão ali reunidos em um mesmo espaço religioso, igualados na intenção de servir incondicionalmente os seus semelhantes como medianeiros de Jesus” (Ramatís).

 

É claro que as vestes brancas devem estar sempre brancas, ou seja, limpas. O cuidado com as vestes é sintoma do cuidado que temos com nossa espiritualidade e da importância que atribuímos ao serviço mediúnico-assistencial, expressão de nosso amor ao próximo.

 

Na cromoterapia, o branco é claridade, pureza, paz, virtudes, iluminação, inocência, verdade, integridade, caminho de luz e esforço em direção à angelitude. É uma cor de cura, purificação e abertura para a influência da Luz Crística. É usado para limpeza mental e do campo áurico dos indivíduos que estão saturados de miasmas e influências deletérias do astral inferior. Recomenda-se o uso de vestes brancas sempre que a pessoa sentir necessidade de paz, calma, harmonia, limpeza e purificação de energias negativas.

 

No Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), usam a cromoterapia sem preconceitos, assim como a usam no avançadíssimo Instituto do Cérebro do Rio de Janeiro. Por que nós teríamos esse preconceito no uso de vestes brancas como se tal fosse um sinal de “atraso mental” ou “apego às crendices”? É a ciência que avança minhas irmãs e irmãos. E nós, como espíritas, seremos a ponte entre fé e ciência ou não? As casas espíritas não são também hospitais holísticos para todos os enfermos do corpo e da alma?

 

Allan Kardec nos diz, em “A Gênese”, que “se a religião [se] recusa caminhar com a ciência, a ciência avança sozinha” e que “a ciência e a religião são as duas alavancas da inteligência humana” (ESE). Na visão kardequiana, caberia ao Espiritismo o papel de diálogo entre estes saberes. Cumpriremos essa nossa missão ou nos fecharemos em dogmas?

 

Caminhemos, pois, na mesma fé e sem preconceitos, pois todos nós estamos irmanados pelas mesmas lições éticas/morais do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo (à luz do esclarecimento espírita) e “armados” com a simplicidade de nossas vestes brancas, no enfrentamento de nossas mazelas íntimas e das forças do Anticristo que operam em nosso planeta[1].

 

[1] “Podemos simbolizar como Anticristo o conjunto das forças que operam contra o Evangelho, na Terra e nas esferas vizinhas do homem, mas, não devemos figurar nesse Anticristo um poder absoluto e definitivo que pudesse neutralizar a ação de Jesus, porquanto, com tal suposição, negaríamos a previdência e a bondade infinita de Deus” (Emmanuel, resposta da questão 291 de “O Consolador”).

Para entender o espiritismo

O espiritismo foi fundado, na segunda metade do século XIX, pelo pedagogo francês prof. Rivail, mais conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec. Ele reuniu um conjunto de observações, reflexões filosóficas e mensagens de diversos espíritos que configuraram o que veio a ser a “doutrina espírita” ou “doutrina dos espíritos”. O termo “kardecismo” é rejeitado pela maioria das suas lideranças que consideram a origem do espiritismo “extramundana”, portanto, Kardec não teria sido propriamente o “fundador”, mas o organizador (“codificador”) à serviço dos espíritos bons e sábios que ditaram os textos e supervisionaram todo o trabalho.

No Brasil, o espiritismo cresceu sobremaneira, especialmente pelo seu viés mais místico e cristão, reforçado por figuras devotas como Bezerra de Menezes e Chico Xavier, tendo a frente a Federação Espírita Brasileira (FEB). Ainda hoje, o espiritismo continua crescendo através de médiuns como Robson Pinheiro, Zíbia Gasparetto, Wanderley Oliveira, Divaldo Pereira Franco, Raul Teixeira, Francisco do Espírito Santo Neto e pencas de livros do espírito Ramatís.

Há muitas controvérsias internas sobre o caráter do espiritismo. Ele seria uma nova religião, uma filosofia de vida aberta para qualquer pessoa religiosa ou não, uma ciência empírica de novo tipo com conseqüências morais? As discussões não têm fim. Elas se dão inclusive sobre o status das diversas mensagens enviadas pelos espíritos através da psicografia. Quais seriam as mensagens “verdadeiramente” espíritas? Quais os elementos culturais brasileiros que distorcem as intenções do projeto kardequiano?

As diversas narrativas disputam o legado kardequiano que, no Brasil, é estimado em 20 milhões de adeptos e um número muito maior de simpatizantes. As ideias espíritas são mais amplas que o próprio espiritismo, já que milhões acreditam na reencarnação, em Deus como inteligência suprema e causa primeira de todas as coisas, na comunicação entre o mundo dos espíritos e o mundo dos vivos (“encarnados”) e na salvação como processo contínuo de evolução até que todos cheguem a “casa do Pai” (em teologia, salvação universal).

Sendo assim, penso que o correto seria falarmos em “espiritismos” já que há diversidade de interpretações e não existe nenhum “comitê central” capaz de dizer quem é verdadeiramente espírita e/ou impor uma unidade interpretativa. Da mesma forma que o protestantismo se dividiu entre luteranos, batistas, metodistas, presbiterianos etc. o espiritismo também tem suas divisões internas entre laicos, roustenguistas, ubaldistas, ramatisianos/universalistas, kardequianos religiosos etc. Em comum, todos respeitam as obras básicas de Allan Kardec como marco fundacional de uma nova era para a humanidade.

Distante dessas disputas internas, as massas que acorrem aos centros espíritas buscam apenas uma mensagem de consolo e bom ânimo diante das batalhas dessa vida. Recorrem aos passes, água magnetizada e cirurgias espirituais para aplacar seus sofrimentos do corpo e da alma. A leitura, especialmente de romances espirituais, é amplamente difundida. Os estudos das obras de Allan Kardec são feitos, ora de forma sistematizada e dogmática; ora de forma mais aberta, crítica e contextualizada. A diversidade é a marca.

O grande sucesso popular ainda é a obra de Kardec intitulada “O Evangelho Segundo o Espiritismo”. Nela encontramos uma reinterpretação da moral cristã sem dogmas, dando ênfase à mudança interior e pessoal (“reforma íntima”) através da prática do amor-caridade como o caminho de “salvação” para todos os seres humanos e para a estruturação de uma nova sociedade fraterna.

 

Clique aqui e leia o livro “O que é o espiritismo?” de Allan Kardec

 

Veja o vídeo sobre a vida e obra de Allan Kardec

A minha fé é uma farofa divina? Pequena apologia de um cristianismo herege

Vez por outra alguém comenta comigo:

 — Marcio, eu te acho confuso. Qual é mesmo sua religião?

Eu sempre começo com um sorriso no canto da boca. Não é deboche. É porque eu já tive que responder isso inúmeras vezes. Hoje ainda, com mais de 40, não consegui ser compreendido. Uns poucos me entendem. A maioria me olha como estranho que gosta de andar com uma cruz pendurada no pescoço.

Pois bem, eu tentarei me explicar. Devo fazer isso? Talvez não, mas quero fazer isso. Quem sabe, a última vez. Começarei com o meu contexto familiar. Se não gosta de textos longos, convido você a abandonar esse aqui.

Eu fui criado com minha mãe Sueli e minha avó Maria. A maior parte da minha infância eu convivi com casa cheia. Pobre se amontoa como pode. Era assim na casinha do Engenho de Dentro.

A minha avó Maria veio do interior do Rio de Janeiro, de Campos. Era muito católica, devota de Nossa Senhora do Carmo, e desconfiada dos “bíblias” – os crentes naquela época eram chamados assim. Para vovó, os “bíblias” e os vendedores do Carnê do Baú da Felicidade mereciam distância defensiva.

Já minha mãe, sofreu essa mesma influência católica, mas chegou a conhecer a Igreja Batista quando esteve muito doente, antes de morrer. Logo retornou ao seio da Igreja de Roma. Morreu na Igreja, com os vicentinos. Desconfiava de “coisas espíritas”, ainda que não desacreditasse de todo. Tinha uma esperança de que essa vida espiritual fosse verdadeira.

Sabe como é católico popular brasileiro. A minha avó acendia todas as segundas, velas para os que já partiram. Aliás, ela quase obrigava todos os filhos e filhas a fazerem o mesmo, sempre debaixo do tanque, do lado de fora da casa. Eu via aquilo com muita seriedade e senso de sagrado. A vovó tinha certeza de que os mortos estavam vivos e precisavam das nossas rezas e orações. Ela fazia. Meus tios faziam.

Sempre às 18 horas, todos ouviam pelo rádio a Ave Maria e colocava-se um copo com água. É água de Deus. Todos bebiam depois da reza com reverência. Naquela época, as rádios colocavam a Ave Maria. Até nos mercados se ouviam. As pessoas faziam o sinal da cruz, no mínimo. Outros tempos.

Quando mais crescido, comecei a entender melhor as conversas religiosas da família. Todos eram católicos, mas como Nossa Senhora andava sobrecarregada de pedidos, por vezes, faziam uma visitinha ao preto-velho. Vovó Maria, vez por outra, ia resolver assuntos complexos na Tenda Umbandista lá para as bandas de Niterói e São Gonçalo. Depois, passou a resolver num terreiro do Engenho de Dentro, na Rua Dr. Bulhões. A minha mãe, meus tios e tias, tinham também seus cantinhos para resolver causos mais complicados. É que Nossa Senhora trabalha demais. Como poderá ouvir e resolver tantos pedidos sem a ajuda dos pretos-velhos?

Eu admirava esse mundo mágico onde as coisas podem se combinar, sem exclusões. Ninguém precisava abandonar a Igreja para socorrer-se nos espíritos dos ancestrais, afinal, eles apenas recomendavam rezas, benzeduras e velas. Creio que meu ecumenismo radical nasceu nesse ambiente familiar de respeito à diversidade do Sagrado.

Quando vovó Maria ficou doente demais, começou-se a apelar para os “bíblias”. Eles prometiam, no rádio, fazer milagres e curas impossíveis em nome de Jesus. Lembro-me de mamãe levando vovó na Casa da Benção, uma igreja pentecostal em Quintino, bairro próximo ao Engenho de Dentro. Achava estranho pagar para entrar, mas é o que a minha memória infantil registrou. Mamãe dava alguma “oferta” e entrava. Sentávamos todos juntos para o culto de cura e libertação. Eram muitos gritos. Não estava acostumado a isso. Religião me parecia silêncio. Tentou-se o milagre, mas vovó não alcançou a cura. Faltou fé, dirão os neopentecostais. Ela se resignou com Nossa Senhora do Carmo e os conselhos do além. Seus filhos e filhas também, pois nenhum deles virou crente.

Eu tinha me mudado para o bairro Abolição, bem pertinho do Engenho de Dentro. Lá descobri uma coleção de revistas no quarto da empregada – que foi embora, pois não tínhamos dinheiro para pagar nem mesmo nossas contas. Eram revistas das Testemunhas de Jeová e com elas eu aprendi a gostar da Bíblia. Comecei a ler. As revistas e a Bíblia. Eu estava terminando o primário no Colégio Maranhão, na Rua Adolfo Bergamini.

Com a vovó, ainda lembro o quanto eu rezava, sozinho, na Igreja de São José, em frente à estação de trem do Engenho de Dentro. Jogava bola no campo ao lado, mas rezava. Olhava maravilhado para as imagens e me sentia na presença d’Ele.

No começo da minha adolescência, uma amiga de minha mãe chamada Taninha, me apresentou textos espíritas. Psicografias de médiuns e textos de Allan Kardec. A minha mãe não gostou disso. Taninha era libertária demais. Na década de 1980 militava pelo Partido Verde, amava Gabeira, freqüentava Espiritismo e Umbanda, era separada e criava seus dois filhos. Não tinha preconceitos sexuais e conversava comigo de forma madura. Tornei-me seu companheiro e adorava ficar em sua casa conversando e tomando café. Dois assuntos. Religião e política.

O meu pai era esotérico. Frequentava a Sociedade Brasileira de Estudo do Eu – chamada Eubiose – e, vez por outra, levava eu e meu irmão Hugo para alguns eventos públicos. Lembro-me de Minas, São Lourenço, um grande culto esotérico. Saí de lá com um livro de Krisnamurti. Aos pés do Mestre. Voltei de ônibus com meu pai e meu irmão lendo esse livro. Lindo.

Depois disso, meu pai teve algumas decepções e reencontrou-se com Deus numa Igreja evangélica pentecostal e hoje participa da Ciência Cristã. Seguiu outros rumos. Sempre desejou que nós o seguíssemos em suas jornadas religiosas, mas sempre resistimos. Tínhamos convicções espirituais diferentes.

Ainda na adolescência, minha mãe contratou uma empregada chamada Sandra. Nós a conhecíamos como Midnight. Era negra, absolutamente negra e umbandista. Hoje, seria politicamente incorreto chamá-la de Midnight, mas na época, eu, o meu irmão e Sandra nos divertíamos demais, politicamente incorretos que éramos. Ela bebia em serviço, recebia entidades, dançava e dava consultas maravilhosas. Nós adorávamos essas transgressões que minha mãe nem poderia descobrir. Lembro-me do Exu e do Marinheiro.

Depois dos empréstimos de Taninha, sobre o olhar reprovador de minha mãe de meu padrasto Cândido, comecei a estudar mais a “doutrina” espírita. Conheci algumas casas religiosas e até uma mulher que incorporava Pomba-Gira com a Bíblia na mão. Dava conselhos evangélicos e sempre intercalava suas falas com “louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. A assistência respondia. “Para sempre seja louvado”. Ela não era diaba? Eu só observava como a diaba era mais evangélica que muitos cristãos.

Aos quinze anos, comprei diversos livros espíritas no centro do Rio com o dinheiro que ganhei de Natal. O Hugo, meu irmão, participou disso, lia também. Depois ele se embrenhou mais na Umbanda, mais tarde, na cultura indígena e no xamanismo, mas isso é outra história. Voltando. O meu padrasto Cândido sempre dizia:

— Sueli, esse garoto vai ficar perturbado com essas leituras de Espiritismo! Já vi muita gente enlouquecendo com isso.

Logo ele que mais tarde entraria para o AA e teria como livro de cabeceira “A loucura sob novo prisma” de Dr. Bezerra de Menezes. Cândido faleceu ouvindo a rádio espírita, todos os dias! Não enlouqueceu. Nem eu.

Aos quinze anos, eu já tinha algumas referências religiosas importantes. Com meu pai, aprendi que em todas as coisas há algo de profundo, simbólico e esotérico. Com minha avó aprendi a maravilhosa paz que vem da simplicidade dos rituais católicos e do auxílio do além. A minha mãe ensinou-me que uma vida reta e honesta é a melhor coisa que podemos aprender com a religião, ela mesma dava exemplo disso. Midnight e Aninha me ofereceram confirmações das coisas que eu lia em Allan Kardec e Chico Xavier: existe um mundo além desse nosso. No quartinho da empregada, apaixonei-me pela Bíblia e sua mensagem central de amor, perdão e misericórdia.

Somente no decorrer do curso de Ciências Sociais da UERJ e, depois, no curso básico de Teologia da PUC-Rio, que eu pude elaborar melhor a minha fé. Conceitualmente, aprendi sobre as religiões e seus significados com os antropólogos e teólogos. Estagiei no Programa de Estudos da Religião (PROEPER-UERJ) por três anos e madrugava em conversas com o antropólogo e babalorixá da nação ketu José Flávio Pessoa de Barros. Como aprendi.

Ouvia pessoalmente os ensinos ecumênicos do reverendo Nehemias Marien, um presbiteriano de mente aberta e que considerava o Espiritismo “um dos mais caudolosos afluentes do Rio do Cristianismo”. Dialogava com um colega de Filosofia que era pastor metodista, Marcos Gomes Torres. Era cristão e socialista, além de ser ecumênico. Que mente brilhante! Os livros de Kardec, Chico, Divaldo, J.-B. Roustaing, Ubaldi etc. As giras de Umbanda, os centros de meditação do Budismo. O querido padre anglicano Stephen Tylor na Paróquia do Méier. Meu confessor. Eduardo Costa, ainda ministro leigo, nas nossas rodas de vinho, cerveja e teologia. O “eixo do mal”, assim nos chamavam entre os anglicanos conservadores. O Sagrado me envolvia e eu aprendia com todos, incluindo os adventistas, como a tia Maria de Quintino e os amigos de Guadalupe.

— E aí, qual é sua religião?

Depois de perambular, viver diversas experiências e estudar diversos autores, digo que a minha religião é o amor, o perdão e a misericórdia. Jesus de Nazaré é meu exemplo máximo, mas não desprezo o que posso aprender com as lições de Buda e outros Iluminados. Perdi um pouco o tesão pelas igrejas-instituições, mas, vez ou outra, apareço na minha querida Paróquia Anglicana. A flexibilidade teológica do anglicanismo se tornou uma paixão. Lá eu posso ser o que sou, sem cobranças.

Ainda gosto de ouvir uma boa palestra espírita e receber um passe, mas considero a Umbanda mais aberta e pós-moderna, mais antenada com os diálogos contemporâneos do que o kardecismo ortodoxo, cientificista e positivista. Na Umbanda tem de tudo, se é tudo. É síntese. Gosto dessa farofa divina que é a Umbanda.

Se você deseja que eu dê uma etiqueta, posso lhe oferecer algumas opções. Poderá me chamar de cristão, se não for fundamentalista. Ou então, pode dizer que sou um espírita universalista ou universalista cristão. Acho as mensagens de Ramatís interessantes, pois tem um caráter antidogmático e muito próximo das minhas “heresias” pessoais. Talvez, um unitariano-universalista. Se desejar, pode resumir-me assim:

 “O Marcio é um homem ecumênico e pluralista. Sente o Sagrado e a Presença d’Ele de diversas maneiras. Tem na Bíblia uma referência central (sem ser fanático ou fundamentalista), mas está convencido de que o mundo espiritual é uma realidade e que este dialoga com o mundo físico, nesse sentido, ele tem muito de Umbanda e Espiritismo kardequiano. Sua fé é politicamente engajada, pois aprendeu muito com a Teologia da Libertação”.

Não sei se esta definição – isso é uma definição? – ajuda ou complica ainda mais. Suspeito que muitos ainda não entenderão, pois cultuam a “pureza” enquanto eu aprecio a diversidade e a heterodoxia. Outros terão certeza. “O Marcio é louco!”, mas como Jesus também era, ando em boa companhia.

A minha esperança é que encontre alguns que me digam “estamos juntos”, “eu te entendo”, “também sou assim”.

O Espírito sopra onde quer, quem tiver ouvidos para ouvir, ouça-o, pois somente Ele é a verdade.

 PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 06 DE JANEIRO DE 2014

O nosso assassinato de Cristo

“Deus que vem ao mundo como um pobre marginalizado é um mistério da fé cristã que se perde e se esquece na riqueza do natal”. (Jung Mo Sung)

O menino pobre na manjedoura como metáfora do Deus Todo-Poderoso que desce ao mundo dos oprimidos é um dos símbolos mais comoventes – e louco! – do cristianismo contra o consumismo doentio das atuais festanças natalinas. A secularização e captura do natal pelo mercado é também novo assassinato de Jesus Cristo que, por ironia, é agora cometido pela civilização ocidental que se julga portadora de sua herança.

Não são os muçulmanos, ateus ou “hereges” que matam o natal de Cristo, são os cristãos.

Deus, whisky com Red Bull e nossa pós-modernidade

Nesses tempos pós-modernos, vivemos dilacerados internamente e confusos em nossas ações. A marca da pós-modernidade, segundo alguns dos seus teóricos, é a esquizofrenia (por exemplo, JAMESON, F. Pós-modernidade e sociedade de consumo. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo nº 12, pp. 16-26, jun. 85). E ela se manifesta na cultura, na arquitetura, na dilaceração das grandes utopias, na fragmentação do sagrado. Tudo vai transformando-se em coisa, tudo é muito superficial, consumível e descartável. Isso vale para pessoas, relacionamentos e até identidades políticas ou religiosas.

Fragmentação, incerteza, angústia, desconstrução, sensação de vazio. O mundo visto pela ótica pós-moderna é um caleidoscópio vertiginoso de sensações, percepções, valores e verdades, todas mais ou menos iguais entre si, pois as hierarquias também foram corroídas em nome de um horizontalismo “democrático”, gerado pelas desconstruções raivosas das metanarrativas que “oprimem” os indivíduos.

E agora? Somos mais felizes do que nossos pais e avós? Penso que não! O ser humano fragmentado e superficial da pós-modernidade é uma dilaceração trágica e uma perda irracional do centro de si mesmo, quiçá do que entendemos como humano.

Não quero negar valores positivos desse tempo, tais como o pluralismo, a crítica à mitificação do progresso evolutivo, os grandes avanços tecnológicos, a liberdade individual e o antiautoritarismo dos grandes discursos que impunham verdades únicas. Mas é espantoso ouvir, como hoje, uma vizinha em altos sons curtindo música gospel, música pop americana e funk com linguagem agressivamente pornográfica com apologia ao crime e às drogas, tudo misturado. Quem é ela? Onde ela está? O que verdadeiramente crê na vida? Penso que ela é pós-moderna. Seres fragmentados, superficiais, caleidoscópicos e sem sentido algum, sem totalidade, sem um eu que seja alicerce. E por que não dizer sem Deus (ainda que para a maioria dos pós-modernos a ideia de Deus seja quase um absurdo arrogante e totalizador)? Não estou julgando ninguém, apenas pensando e compartilhando, “pensando alto” como se diz.

Defender hoje a razão, o bom senso, o diálogo (penso aqui em J. Habermas, teórico alemão da chamada “Escola de Frankfurt”) e um projeto ético global de emancipação humana parece piada, um retardo mental ou coisa de gente inocente e “fora da nova ordem mundial”. A festa pós-moderna nos convida a misturar tudo, mesmo que não faça o mínimo sentido (mas qual é mesmo o sentido se não aquilo que cada um dá para si mesmo? perguntará um pós-moderno). Ecletismo, pastiche, simulacros. Deus, funk “proibidão”, maconha, aleluia, ateísmo light, incenso, cocaína, frases bíblicas, novenas, livros de autoajuda, citações desconexas de autores que ninguém de fato lê. Tudo é lixo, tudo é luxo, tudo é interessante e ao mesmo tempo chato demais se passar dos 140 caracteres. Quem tem tempo e paciência para coisas mais profundas? Quem lê textos num facebook “twittizado”?

É um viver esquizóide, sem tempo para nada que seja longo ou profundo. Essa tal pós-modernidade é ao mesmo tempo festiva e depressiva. Uma depressão surda e epidêmica, ocultada pelos bailes funks, raves, orgias coloridas, garrafas de whisky com red bull, drogas de todos os tipos e gritos de aleluias.

“Whiski ou água de coco pra mim tanto faz”, canta um MC do complexo da Maré. O importante é mais e mais, alucinar-se até não aguentar. “Beber, cair e levantar” embalado pelo consumo e por uma nostalgia angustiante de algo que estamos perdendo, mas nem sabemos exatamente o que é. Não se trata de moralismo, nem de campanha antidrogas, mas de uma reflexão ontológica sobre o sentido da vida, de estar no mundo.

Na modernidade, as religiões, partidos políticos e outras instituições ajudavam na coesão social, na manutenção dos laços sociais e forneciam utopias que davam sentido à vida comunitária e individual, hoje também se encontram degradadas e, em muitos casos, capitularam.

O que significa viver num país com mais de 30 partidos sem fidelidade programática muito nítida? O que é o PSD do Kassab se não o nada com coisa nenhuma? É a desideologização da política, seu esvaziamento cultural e sua transformação em siglas de mercado para consumo pessoal e coletivo. A política se transforma em simples espaço para a manutenção de elites e oligarquias de poder que se revezam com muito dinheiro para comprar eleitores, eleições e consciências, também vendáveis. Os aparelhos midiáticos ajudam nesse espetáculo (ou o produz?) e mantém um clima de democracia, na qual há na verdade manipulação descarada e abuso de poder econômico. As massas também participam e gozam, assistindo e negociando seu preço, comendo nos churrascos eleitorais e arrumando uns trocados, enquanto sustentam discursos puritanos contra as “canalhices dos políticos”. Eleitos por quem?