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“Prefiro menor crescimento com maior distribuição” diz economista Daniel Duque

Conheci o jovem e inquieto Daniel Duque em alguma reunião de simpatizantes da Rede Sustentabilidade. Já o acompanhava no facebook e convergimos em vários assuntos, mesmo na diversidade do que somos. Ele na economia, eu na ciência política. Ele mais liberal, eu mais próximo da esquerda.

Combinei então de fazer uma entrevista com ele para o BLOG DO SARAIVA. Enviei várias perguntas e o resultado está aí. Corrupção, PT, governo Dilma, ajuste fiscal, socialismo de mercado, meio ambiente versus capitalismo e muitos outros temas para além dos dogmas da esquerda do século passado e da nova direita ultraliberal e socialmente insensível.

 

De onde surgiu Daniel Duque? (risos)

Minha trajetória intelectual começou pela minha carreira política e depois ambas foram se retroalimentando. Muitos membros da minha família foram políticos (ministros e fundadores de partidos). Meu avô, por exemplo, foi um dos fundadores do PDT, e conheceu o próprio Miro Teixeira. No entanto, eu mesmo conheci a política meio autonomamente, graças à onda verde de Gabeira, em 2008, quando eu tinha ainda 15 anos. Naquela época já tinha lido o Manifesto Comunista (Marx) por curiosidade e, com a animação de um candidato verde no segundo turno, acabei virando ecossocialista e militante político. Entrei para a então Nova Organização Voluntária Estudantil, que organizou os protestos contra os vazamentos do Enem e, após uma eleição frustrada para o grêmio do meu colégio (com digníssimos 39% dos votos), resolvi me aprofundar nas grandes questões materiais e ecológicas que fazem o rumo da sociedade. Fui cursar economia na UFRJ.

Do meu período na UFRJ, ficou muito marcado minha mudança qualitativa como economista quando entrei para um estágio no Instituto Brasileiro de Economia, da FGV, com Armando Castelar, um dos melhores economistas do país. Graças ao trabalho com ele, questionei todos os meus dogmas anteriores e comecei a pensar em um diferente paradigma de desenvolvimento, fortalecendo muito minha capacidade analítica.

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Desde então acumulei outras pesquisas, como das desigualdades raciais, sob a orientação do grande Marcelo Paixão, e energias renováveis, com o professor João Mathias Cury, que me reaproximou de Marina Silva, por quem eu tinha militado em 2010, e da Rede. Creio que se não fosse por ele eu não estaria hoje tão envolvido na política. Infelizmente, acordei tarde para o micro universo na universidade, e só ano passado montei uma chapa para disputar o Centro Acadêmico do Instituto de Economia, tendo perdido novamente, mas dessa vez com 49% dos votos.

Hoje, porém, o grupo chamado Ágora ainda não se dissolveu, mas de fato só faz crescer: estamos hoje com ainda mais membros e já fizemos dois debates políticos, com perspectivas de mais dois para o mês de Maio. Além disso, estou hoje no chamado Clube Autonomia que está organizando um evento de promoção à livre migração, uma bandeira que considero absolutamente urgente para nossa sociedade.

 

Como você avalia a chamada “era petista”? O balanço é somente negativo como muitos parecem insinuar?

Não, é óbvio que não. Lula pode ter tido toda sorte do mundo, com o boom de commodities, a liquidez internacional e o bônus demográfico, mas é impossível não reconhecer sua orientação política acertada, de conjugação da estabilidade macroeconômica com políticas redistributivas, não só de renda, mas também de terras. Foi uma orientação ensaiada no segundo mandato do FHC, e muito fortalecida por Lula.

No entanto, tenho que admitir que tenho revisto muitas ideias elogiosas sobre o governo Lula, e fui obrigado a me fazer perguntas incômodas, como: valeu a pena o ciclo virtuoso do primeiro operário presidente ao preço do escalonamento da corrupção da Petrobras, da compra de votos no mensalão? São perguntas para as quais eu realmente não tenho resposta.

 

A corrupção é um problema deste governo ou é algo estrutural nas sociedades de mercado?

A corrupção ocorre quando existe uma dificuldade e surge alguém para vender uma facilidade. Essa dificuldade pode ser estrutural da economia de mercado, como a competição entre empresas. Competir é muito ruim para qualquer empresário, que acaba tendo que gastar com propaganda ou abaixando seus preços. Já temos aí, portanto, um incentivo para os empresários buscarem vantagens anticompetitivas.

No entanto, para isso ocorrer, é preciso ter, na outra ponta, alguém vendendo facilidades. Esse é o caso dos agentes do Estado. Quando damos aos políticos e burocratas a capacidade de arbitrar regras e leis em qualquer esfera e nível da sociedade, é óbvio que alguém vai querer comprar as facilidades que isso oferece. Temos aí, a corrupção, tal como foi na Petrobras, por exemplo.

A coisa é ainda pior quando o Estado cria, ele mesmo, dificuldades para vender facilidades a um alto preço. É o caso de toda burocracia estatal que serve basicamente para que seja economicamente melhor para as empresas ter um despachante para tratar dos assuntos com os agentes do Estado, sejam eles legais ou não. É também o caso do pipoqueiro que, por não conseguir licença para vender, tem que dar pipoca todo dia para o guarda municipal. Essa corrupção absolutamente estrutural não acaba enquanto dermos ao corpo burocrático do Estado a capacidade tanto de criar dificuldades quanto de vender facilidades, pois há verdadeiramente muitos poucos santos que vão resistir a tão vantajosos incentivos.

 

O chamado tripé econômico dos dois governos FHC estava correto? Os governos petistas erraram em relativizar esse tripé?

O governo Lula nao relativizou esse tripé, mas o fortaleceu. Mesmo em 2009, no auge da crise mundial, e decrescimento do PIB brasileiro, o governo apresentou um superávit primário positivo. Claro que, naquele momento, ele fez políticas expansionistas, porque, é bom lembrar, havia muita folga fiscal para isso, e dificilmente a equipe de FHC teria feito muito diferente.

A grande ruptura com o tripé macroeconômico foi com Dilma, e não em 2011, mas em 2012, com a chamada Nova Matriz Econômica. Ali que se tentou inovar macroeconomicamente – com ideias muito velhas, na verdade, que remontam à ditadura militar.

Mas o pior para a economia, ao meu ver, não foram os erros bem intencionados de Dilma, mas os mal intencionados. Isso porque no segundo semestre de 2013 já havia um diagnóstico geral de que a Nova Matriz Econômica tinha dado errado e era preciso voltar ao rumo anterior, mas as jornadas de junho estavam a mil e a eleição estava logo ali. Portanto, para maquiar a situação e se manter no poder, Dilma tentou ativamente iludir os agentes econômicos, entre eles os eleitores, aí lançando mão das pedaladas fiscais para esconder o déficit nas contas públicas e do controle artificial dos preços administrados para fingir que a inflação estava sob controle. Passadas as eleições, vislumbramos uma crise repentina, que poderia facilmente ter sido suavizada caso Dilma tivesse agido honestamente.

 

Se o Estado pode ser fonte de ineficiência e corrupção, a “mão invisível” do mercado nem sempre gera justiça social e prosperidade para todos. Como sairmos dessa encruzilhada entre liberais e socialistas? Estado ou mercado?

O mercado, pelos incentivos que gera através da competição, sem alguém vendendo facilidades, tende estruturalmente ao aumento da produtividade, além da redução de preços e lucros. Isso não sou eu que fala, mas Marx, já nos primeiros capítulos d’O Capital. Portanto, uma sociedade de mercado só tem um rumo possível: o crescimento econômico. Não é a toa, por exemplo, que desde o século XIX a humanidade saiu de sua estagnação histórica para um período de crescimento contínuo e ininterrupto de sua opulência material.

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É importante levar em conta que o mercado não é um agente, um conglomerado de empresas ou de bancos, mas um processo de trocas. Quando se fala em mercado de trabalho, mercado de bens e serviços e mercado de crédito, estamos falando de trocas voluntárias entre pessoas que creem que estarão melhor trocando algo do que sem essa troca. Isso é muito diferente do que se tinha antes do século XIX, quando as trocas eram todas politicamente orientadas, e a produção era em grande parte centralizada. Parece besteira, mas foi quando as pessoas foram convidadas a participar das escolhas econômicas que afetavam suas vidas que o mundo começou a a ficar ininterruptamente mais rico.

Isso não significa que o Estado não deva existir. A questão é até onde ele pode impedir trocas voluntárias entre as pessoas. E isso nada tem a ver com distribuição de renda, por exemplo. É totalmente possível que tenhamos uma ampla rede de redistribuição equitativa da renda conjugada à liberdade de trocas voluntárias. O próprio Milton Friedman, por exemplo, defendia algo parecido com o chamado imposto de renda negativo, e é do libertário Hayek que vem a proposta de uma renda mínima, defendida hoje pelo ex senador petista Eduardo Suplicy.

 

Alguns teóricos falam em socialismo de mercado. Isso é possível?

Há quem diga que o modelo Chinês seria um socialismo de mercado, mas não vejo nada na economia chinesa além de um capitalismo de Estado, próximo ao que tínhamos no período da ditadura militar no Brasil

Agora, se estamos falando realmente de socialismo com livre mercado, podemos citar o pensador Kevin Carson, que escreveu a célebre frase: “Livre Mercado como Comunismo Pleno”. Temos também o historiador Fernand Braudel, que fala que o mercado não é igual ao capitalismo, e que pode ser mantido o primeiro sem que se mantenha o segundo.

São perspectivas que eu acho muito interessantes e que valem a leitura. Vão muito na ideia citada anteriormente que o mercado é um sistema de trocas voluntárias, o que não precisa nem ao menos comungar com a necessidade da busca pelo  lucro individual.

 

Combinar sustentabilidade socioambiental com o caráter expansionista e “crescimentista” do capitalismo não te parece impossível? A busca do lucro não se choca com a preservação ou a “exploração sustentável” dos recursos?

Essa é uma questão complexa, e que certamente ainda vai dar muitos fóruns de discussão no futuro. Há algumas perspectivas que permitem certo otimismo, como a mudança estrutural na composição setorial do PIB do mundo. Isso porque muitos países, principalmente os desenvolvidos, estão se desindustrializando. É fato, por exemplo, que uma indústria de automóveis polui mais do que um serviço de design de software, porém ambos podem produzir o mesmo valor agregado no período de um ano. Isso permite um aumento da produção com uma redução, ao menos relativa ao PIB, da poluição.

Também, é claro, sabe-se que quão mais rico ficamos, menos de nossa renda é destinada a bens físicos. Uma pessoa pobre certamente gasta praticamente 100% do que ganha em roupas, alimentos, um eletrodoméstico aqui, outro ali, etc… Já uma pessoa rica destina pouco de sua renda a tais bens. A maior parte vai para restaurantes, colégio particular para os filhos, festas, entre outros serviços que não emitem tanta poluição para serem ofertados quanto produtos físicos.

Carlos Góes, mestre em economia pela Universidade Johns Hopkins, é ainda mais otimista: em um artigo no Mercado Popular, do qual é pesquisador-chefe, e onde também sou colunista e editor, afirma que é possível já ver evidências estatísticas de que os ganhos de produtividade estão gerando maior crescimento econômico e menor emissão absoluta de CO2.

 

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Se você não for tão otimista, porém, o que eu acho razoável, certamente vamos ter que rever nosso modelo de combate às iniquidades sociais via crescimento, tendo que passar para um modelo via destribuição de renda inter e intra países. Eu viveria muito bem em um mundo que crescesse pouco mais distribuísse muito, mas temos que pôr as coisas em perspectiva: o PIB per Capita do mundo, atualmente, é de cerca de R$ 2.500 reais por mês. Portanto, ninguém, nem eu, nem você, poderia ganhar muito mais que isso, e por muito tempo. Essa é uma escolha política viável?

 

Qual o papel da sociedade na construção de políticas econômicas? Como sairmos das soluções tecnocráticas?

Nao acredito que caiba (somente) aos economistas decidir o rumo da economia do país. Essa é uma ideia anti democrática e ilusoriamente tecnocrata, porque a melhor decisão é a decisão que a maioria (ou o consenso) preferir, e só dá para saber isso se você perguntar à população. Os economistas devem, no máximo, apontar os caminhos e as possíveis consequências de cada um. É da sociedade o papel de assumir o risco do caminho que escolhe rumo ao fim que desejar. Por isso também os economistas devem sempre sair de seus elefantes brancos e falar de economia de forma que as pessoas consigam compreende-la. Vejo muita preguiça de meus companheiros de tornar a economia acessível à população, bradando apenas o que se deve fazer. Claro que há poucas e honrosas exceções, na direita e na esquerda, mas a regra é essa.

 

Com o Congresso que temos, é possível aprovarmos reformas econômicas e estruturais?

Depende de que reformas são essas, e de quem e como vai articulá-las. Tendo a ver o Congresso como uma massa de modelagem, se você pressionar e manipular do jeito certo, pode vir qualquer coisa dali. Essa é a parte boa da democracia, afinal de contas, e foi isso que permitiu um Congresso ocupado por 80% de brancos instituísse, por exemplo, a lei de cotas raciais nas universidades em 2011.

Atualmente precisamos de reformas que permitam pelo menos que se enxergue no futuro uma trajetória de déficit das contas do governo não tão explosiva quanto a atual. Para isso, em um momento de crise, é impossível que alguém não perca algo, e defendo fortemente que quem pague a conta seja o andar de cima. Para não ficarmos na ladainha do imposto sobre grandes fortunas, que dificilmente será aprovado, acho que outras frentes precisam ser atacadas, entre elas: a gratuidade universal das universidades públicas, que são ocupadas majoritariamente pela elite, os super salários de alguns servidores, que compõe grande parte da classe alta brasileira e a Previdência Social, que além de deficitária é regressiva, ou seja, concentra renda. Essas pautas podem não parecer muito voltadas à esquerda, mas com as reformas corretas, elas poderiam dar mais solidez fiscal ao país e reduzir sua desigualdade social.

 

Qual é a dificuldade de alguns economistas em fazer política e dialogar com os partidos?

Economistas, como dito anteriormente, tendem a ficar em seus elefantes brancos, crendo que estão com o bastião da verdade. Política, porém, não se trata de ter uma verdade, mas de dialogar versões. O maior erro dos economistas, portanto, é ver a verdade nos números e a ilusão nas pessoas – porque afinal, os números da economia representam justamente a população.

A melhor saída para a economia é mesmo o impeachment de Dilma? Considera esse processo justo?

A melhor saída para a economia é certamente a saída de Dilma. A presidenta, apesar das aparentes boas intenções de seu segundo mandato, não conseguiu articular um plano para a saída da crise, mas ficou apenas apagando incêndios, e das piores maneiras. Estamos atualmente com um desemprego e uma inflação de 10%, um dos piores dos cenários possíveis para qualquer macroeconomista. Eu não vejo Dilma apontando uma solução para isso, nem nenhum dos meus colegas.

No entanto, é claro, a saída de Dilma não precisa ser pelo impeachment. Considero o processo sim justo, porque as pedaladas fiscais foram operações de crédito do CEF e do BB para com o governo, o que está expressamente proibido na Lei de Responsabilidade Fiscal, e se engana quem crê que isso também foi feito em governos anteriores. O que sempre ocorreu antes foram eventualidades de os saques dos beneficiários de algum programa social serem maiores do que o repasse em um mês, o que era corrigido no mês seguinte. A partir de 2013, até setembro de 2015, o que Dilma pioneiramente fez foi atrasar sistematicamente os repasses aos bancos que controla, de modo a acumular saldos negativos com os mesmos.

 

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Agora, não é porque acho que é justo que creio que seja a melhor solução para a atual crise. Essa é, afinal de contas, a beleza do caráter político do processo do impeachment. De fato, acredito que o melhor caminho para que consigamos sair dessa sinuca de bico econômica sejam novas eleições, para que se dê legitimidade popular ao governante para ele poder fazer as reformas que tiverem o respaldo da população que o elegeu.

 

Qual é sua avaliação sobre um possível governo Michel Temer? Seu programa de governo (“Ponte para o Futuro”) é positivo para a maioria dos brasileiros?

Não tenho como acreditar no sucesso de um eventual governo Temer. A conjuntura política de sua gestão não seria muito diferente do atual Governo Dilma: teríamos um presidente mal avaliado pela população, o partido do governo envolvido em diversos escândalos de corrupção, uma oposição a barrar qualquer iniciativa politicamente custosa, inúmeros partidos disputando a máquina pública em um contexto de aperto fiscal e, muito provavelmente, manifestações constantes até as eleições. É impossível avançar em qualquer frente que seja desse jeito.

 

Li a “Ponte para o Futuro” com boa vontade, e é verdade que, entre alguns aparentes retrocessos, como a flexibilização das licenças ambientais, vi boas propostas para a economia. Há, no entanto, uma gritante ausência de enfatizar que as reformas propostas teriam caráter distributivo. Esse eu creio que seja o grande erro dos liberais no Brasil: eles mesmos não parecem crer – nem mesmo parecem achar importante – que suas reformas seriam pró pobres, ou seja, redistribuiriam melhor a renda do país. Eu não tenho dúvida, por exemplo, que a melhor maneira de reduzir o déficit da Previdência é reduzir sua regressividade. Mesmo a polêmica mudança no salário mínimo, com a qual não concordo inteiramente, seria benéfica em termos distributivos, pois hoje o Estado paga esses aumentos se endividando, sendo obrigado, portanto, a pagar mais juros para quem compra seus títulos da dívida – notadamente os mais ricos do país. Desse modo, qualquer redução de gasto pouco distributivo, como as aposentadorias atreladas ao salário mínimo, hoje, leva à uma redução da desigualdade social, e falta muito às pessoas que defendem essas reformas falarem isso.

 

Qual é a maior lição que a economia pode nos oferecer nesse momento de crise?

Que as dificuldades se combatem com a verdade, não com a ilusão. Essa crise já teria acabado ano retrasado se, lá em 2013, Dilma tivesse falado a verdade para com a população e feito, com a legitimidade popular que tinha, o que sabia que devia fazer.

Nesse momento, não há uma lei econômica a se aplicar, mas o mais importante é que, munidos de discursos honestos, possamos construir pontes, não para o futuro, porque ninguém sabe o que se aguarda lá na frente, mas para com nós mesmos. Somente uma sociedade munida de honestidade e diálogo conseguirá vencer uma tragédia que se formou através da enganação e polarização. É essa a lição que eu creio que se possa oferecer através da economia.

Você acredita que Temer acabará com a corrupção e a crise?

Quem me acompanha sabe que não votei em Lula nem em Dilma. Queria muito a derrota do PT em 2014, por várias razões. Mas quando vejo esse processo de impeachment comandado pelas oligarquias econômicas em associação com as grandes corporações midiáticas sinto profundo mal-estar. Soma-se a isto, significativa parcela do banditismo político nacional (chamados de “fisiológicos”). Claro que há algumas exceções honrosas apoiando o impeachment de Dilma, pessoas que admiro e respeito profundamente, mas a cabeça do processo não é desses homens de bem.

Não estou aqui querendo livrar a cara do petismo pragmático que ocupa o poder desde 2013. O governo Dilma é um desastre econômico, socioambiental, LGBT, feminista, indígena, quilombola etc. Apresentou retrocesso democrático (a lei antiterrorismo é um exemplo disso), foi aliado do fundamentalismo religioso, cooptou os movimentos sociais subordinando-os aos interesses de um governo vendido a esquemas históricos de corrupção sistêmica. E ainda tem muito mais a ser criticado no petismo.

Não defendo Lula, Dilma ou sua coalizão com o agronegócio, Collor, Maluf, Delfim Neto e o PMDB. Está claro isso.

Por outro lado, quando vejo a possibilidade de um novo governo encabeçado por Michel Temer, tendo Eduardo Cunha como vice-presidente efetivo e Renan Calheiros como presidente do Senado não posso ficar calado. Esse novo governo nasceria ancorado nos setores mais reacionários e subjugados à agenda dos mercados, por certo que isso me dá pavor.

Não quero um, nem outro. Nem Dilma nem Temer, mas me coloco contra o impeachment pelas razões que exponho aqui.

Estou fora dessa polarização PT versus PMDB/PSDB, mas suspeito que, com a coalizão PMDB/DEM/PP/PSDB no comando do país, a Operação Lava-Jato irá sumir do mapa, bem como as investigações do CARF. Temer vazou seu ensaio de discurso pós-impeachment e nada disse, em 14 minutos, sobre corrupção ou Operação Lava-Jato. Independente das limitações estruturais/políticas dessas investigações – e eu não tenho juiz como herói – é claro que Temer enviou a senha para os bandoleiros: “No meu governo, fiquem tranquilos”.

Se tudo isso não bastasse, ainda há o ultraliberalismo do programa de governo do PMDB batizado como “Uma ponte para o futuro”, tendo o gato angorá do Moreira Franco como mentor intelectual. É dose cavalar contra os interesses da maioria social e, em especial, das classes trabalhadoras. É um programa de governo tão regressivo que FHC irá parecer “de esquerda”.

Qual é a saída?

Estou desanimado. Considero que novas eleições seriam a saída mais legítima e democrática. O recall ou revogação de mandato é uma bandeira tradicional da esquerda que nunca teve medo do povo, das urnas ou de eleições, ao contrário dos fascistas. Infelizmente, é pouco provável que essa guinada radical e democrática aconteça, principalmente se Temer assumir.

Neste caso, com o PMDB no comando, as classes dominantes vão jogar pesado para “acalmar o ambiente”, garantir os ganhos de capital e paralisar o ímpeto da Operação Lava-Jato que ameaça alcançar os grandes operadores.

Eu prefiro ficar com a utopia democrática e, por isso mesmo, rejeito publicamente esse arranjo pelo alto, essa guerra de facção pelo poder onde o povo, mais uma vez, assiste a tudo bestializado. Eu, se lá estivesse, diria “não”, mas sem nenhum tipo de adesismo ao governo do PT. O meu “não” seria contra Michel Temer e não por algum “golpismo”, mas por conta do que ele representa.

CPI DAS OLIMPÍADAS RIO 2016: Tudo que você queria saber em linguagem simples

O prefeito Eduardo Paes e as empreiteiras que atuam nas obras cariocas nem querem ouvir falar em CPI das Olimpíadas. “Nervosinho” com o pedido de criação da mesma – feita pelo vereador Jefferson Moura (Rede) com o apoio de 16 outros vereadores – a tropa de choque do PMDB entrou em campo para ajudá-lo. O jogo é sujo e as pancadas são abaixo da linha de cintura.

1) Primeiro tempo: retirar nomes

Primeira opção foi cooptar vereadores que assinaram o pedido de CPI. A pressão sobre os vereadores foi imensa, afinal, o papo é coisa que envolve contratos bilionários que estão sob suspeição. Muitos vereadores resistiram, alguns foram seduzidos. Como Jesus no deserto da tentação, teve vereador que disse “Arreda-te de mim Satanás”. Outros cederam ao charme do capiroto que, diz lá no texto bíblico, é o bilionário dono do “reino deste mundo”. Fraquezas da natureza humana.

Quatro vereadores retiraram o apoio dado a instalação da CPI das Olimpíadas.

2) Quem são eles?

Dois são petistas. Elton Babu (tenho até medo de dizer o que dizem sobre ele) e o delegado Edson Zanata, dono de uma oratória singular e “neomachadiana”.

Outro é do DEM, o médico Célio Lupparelli, que integra o partido de César Maia (este não retirou seu apoio) e luta contra a “ideologia de gênero”. Afff.

Por último, o homem da Ilha do Governador, Jimmy Pereira, do nanico e anódino PRTB.

3) E por causa disso a CPI não foi aceita?

Não. Mesmo com as 30 moedas da traição, o pedido de CPI das Olimpíadas, ainda assim, foi considerado válido. A manobra política/cooptadora de retirar nomes não deu certo porque o regimento interno da Câmara proíbe que se retire nomes depois de protocolado o apoio.

4) Segundo tempo: melar o pedido de CPI

Daí surge o imaginoso presidente da Câmara, vereador Jorge Felippe do PMDB (acho que isso o leitor já sabia né? Óbvio demais). Sim, aquele que é sogro do Rodrigo Bethlem que era ex-candidato a prefeito do Eduardo Paes e que, depois da queda por causa dos esquemas na SMDS denunciados pela esposa, entrou Pedro Paulo que está na berlinda com as agressões contra a esposa. As esposas estão destruindo o PMDB carioca. Normal, “guerra de facção” como dizia a novela global.

Voltando ao assunto. Jorge Felippe retirou um coelho da cartola para enterrar a CPI. Disse para os quatro que retiraram os seus nomes do apoio à CPI: “perdeu, já era”. Mas, mesmo assim, não aceitou o pedido de instalação da CPI. Uai, por que? “Falta de fatos” disse o hômi. Pode rir, eu sei que você agora soltou uma gargalhada.

Pois é. Disse o presidente da Câmara que o pedido do Jefferson Moura (Rede) tinha muitos assuntos, muitos fatos, muitas tretas, muita confusão, melhor dizendo, faltava ao Jefferson dizer exatamente o fato, o escopo desta CPI, o crime, o bafão. Sendo assim, por falta de um fato determinado, não se poderia ter investigação. As empreiteiras sorriram aliviadas. Eduardo Paes pode tomar um chopp em paz, mas é tudo mentira.

5) A CPI tem sim fato determinado

Gente, a CPI foi pedida com fato determinado: as obras contratadas pela Prefeitura com a Odebrecht que a 26ª. Fase da Operação Lava Jato apontou irregularidades diversas, além de diversos materiais da própria imprensa apontando o rei da malandragem, Eduardo House of Cunha (PMDB-RJ), como homem das propinas.  Se fato determinado, como diz lá o regimento da Câmara, “é o acontecimento ou situação de relevante interesse para a vida publica”, alguém racionalmente duvida que este pedido de CPI das Olimpíadas tem?

Negada a CPI, Jefferson Moura fará um recurso ao plenário da Câmara que, provavelmente, votará o recurso. Ah, esqueceram da democracia, baluarte contra decisões monocráticas. Não, não é isso. A esmagadora maioria do plenário é vereador de bolso do prefeito. Na prática, a tendência “natural” é o recurso ser negado. Não por falta de fatos determinados, indícios, tretas, esquemas, irregularidades etc. Mas porque o prefeito tem maioria no plenário! Entendeu a jogada? A democracia de baixa intensidade, sob controle do grande capital, funciona somente nos limites que não prejudicam os “negócios” da banca. Em muitos casos, “decisão da maioria” é apenas um argumento para enterrar o direito do povo de saber o que o poder faz com seu dinheiro.

Sem pressão da sociedade civil, dos movimentos sociais, dos estudantes, dos sindicatos, das associações de moradores, da mídia independente etc. seremos degolados e perderemos a chance de descobrirmos a caixa preta dos contratos que envolvem essas obras olímpicas. Se estivesse mesmo tudo em ordem nesses contratos com as empreiteiras aqui no Rio, por que o prefeito Eduardo Paes (PMDB) mandou sua “tropa parlamentar” enterrar a CPI? Pare, pense, compartilhe.

O ataque da direita bossa-nova

Depois dos movimentos de protestos de 2013, três caminhos foram tomados. Uma parcela voltou para a casa (apatia), outra ingressou em diversos movimentos sociais de caráter mais horizontal e progressista. Uma galerinha jovem, com discurso antipartidário, aderiu ao discurso liberal de direita e foi se aproximando do PSDB, DEM e PSC (do Bolsonaro). É essa direita bossa-nova (perdoe-me a verdadeira e maravilhosa bossa-nova brasileira!) que anda atacando a REDE e Marina Silva, mas não é gratuito. Há muitos interesses em jogo, inclusive partidários. Por isso, cabe esclarecer alguns pontos para que esses mequetrefes não ocupem o falso lugar de guardiões da moral nacional.

  • Marina Silva nunca esteve “na toca”, basta acompanhar suas redes sociais e diversas entrevistas, além de sua atuação pessoal. Portanto, a afirmação de que ela teria “saído da toca” depois de pesquisas eleitorais é uma mentira com nítidos interesses políticos. Querem desconstruir o capital ético da atuação de Marina Silva.

  • Afirmar que Marina “sabe” que o processo do TSE “é lento” e por isso mesmo ela defende que a chapa Dilma-Temer deve ser cassada somente nessa instância é embaralhar os dados de realidade e desconhecer a proposta do “Julga TSE”, concorde-se ou não com ela. Além do mais, analisar uma ação política a partir das intenções íntimas dos seus autores é sim um exercício de magia ou, quem sabe, de premonição que nenhum analista sério deveria adentrar. Observamos fatos, causalidades, mecanismos, mas nada podemos afirmar sobre o que está dentro da psique de um ator político. Somente pessoas levianas, irresponsáveis ou que desconhecem o que é ciência política fariam isso. Posso fazer juízo de ações concretas, mas não posso dizer o que está dentro da cabeça de “A” ou “B”.

  • Repetir o mantra de que Marina Silva “despercebeu” o crime – não é um “desastre” natural – de Mariana-MG é patifaria quando vindo de pessoas que são bem informadas. Aos ignorantes que não dispõe de tempo para ler todo o noticiário é concedido o beneplácito, mas para quem se acha líder de alguma coisa e repete mentiras é má fé, simples assim.

  • Mencionar nomes que saíram do PSOL e do PT para entrar na REDE, por convicção ideológica e em torno de um novo projeto de partido e paradigma, sem mencionar que milhares de pessoas também saíram do PPS, PDT, PCdoB para adentrarem nesse mesmo partido é, mais uma vez, faltar com a verdade e tentar colar na Rede a pecha de partido “esconderijo de petistas”. Esse tipo de engodo deveria ser rechaçado por qualquer democrata e por quem faz analises sérias no campo político.  Não precisa ser da REDE e nem concordar com Marina Silva para discordar abertamente dessa jovem direita bossa-nova. Além disso, esse tipo de discurso anti-PT e anti-PSOL só contribui para ampliar o preconceito contra partidos específicos ao invés de combatermos as práticas ilícitas de determinados atores. O mesmo “rigor ético-programático” não vejo quando o partido é o PSDB ou o DEM.

  • A paranoia da extrema-direita é ver “petismo”, “Foro de São Paulo” e “comunismo” em tudo quanto é canto. Quando interessa, mencionam o apoio de Marina ao Aécio em 2014. Em outros momentos, falam apenas da amizade com Lula e de seu papel como ex-militante do PT. A crítica é sempre seletiva e interesseira, adaptando-se ao público-alvo de quem espalha a calúnia e a malícia.

  • Pela sua postura independente, crítica e progressista, tanto Marina quanto a Rede Sustentabilidade vem sofrendo ataques – alguns covardes e mentirosos! – como se fossem “jararacas verdes”, “petistas enrustidos” e “melancias” (os direitistas espalham isso) ou atribuindo a estes o papel de “linha auxiliar dos tucanos”, “fundamentalistas religiosos” e abrigo da “centro-direita” (os ultraesquerdistas preferem usar tais chavões).

  • O fato é que Marina Silva, a REDE e milhões de brasileiros estão fora dessa polarização e isso é de difícil digestão para quem ainda está com a cabeça no século passado, para quem não compreende a dialética do processo político-histórico brasileiro ou para quem age por mero desejo de intriga. A eles, a história dirá e o povo é que fará o julgamento através das urnas.

PT-PSDB: UNIDOS PARA CALUNIAR MARINA ESPALHANDO ÓDIOS E MENTIRAS

Uma nuvem de militantes de facebook ligados ao PT e ao PSDB invadem nossas redes sociais com calúnias, xingamentos e mentiras. Mais uma vez, como fizeram em 2014 ajudados pelo marqueteiro João Santana (que já está preso!), PT e PSDB tentam desconstruir a imagem de Marina Silva com injúrias e manipulações. Espalham mêmes que induzem conclusões falsas e, para fechar, páginas do PSDB chamam Marina de “jararaca verde” aliada do petismo.

Fazem de tudo para monopolizar o debate politico dentro de falsa polarização entre eles. Não são capazes de perceber o mal que fizeram e fazem, disseminando ódio, mesquinharia e cegueira no ambiente político onde deveria prevalecer diálogo, lucidez, sensatez e grandeza.

Não temos militância paga para ficar 24h nas páginas das redes sociais respondendo e esclarecendo a avalanche de intrigas, mas a maior resposta será dada pelo povo contra a farsa dessa polarização. Precisamos mobilizar o Brasil por uma nova eleição. É isso que o pragmatismo petista e os tucanos temem, e é por isso que os dois supostos “adversários” se unem nas redes sociais para nos atacar, da mesma forma que estão unidos na aprovação da fascista lei “antiterrorismo”, unidos nos ataque às conquistas sociais de nosso povo, nos retrocessos ambientais, no extermínio dos direitos indígenas, unidos na omissão diante dos crimes homofóbicos, no desmonte das empresas estatais etc.

Nem Dilma, nem Lula, nem Temer, nem Renan, nem Cunha, nem Aécio. Todos eles estão envolvidos na Lava-Jato. Que o poder de escolha e decisão seja devolvido ao povo brasileiro, o soberano na democracia. Novas eleições já!

 

Martiniano Cavalcanti e Marcio Sales Saraiva

NÃO EXISTE JUIZ NEUTRO

O Judiciário é um poder neutro, autônomo e independente?

Não, claro que não.

Neste momento de crise política, é importante termos clareza para não embarcarmos nesta ilusão.

O povo elege seus representantes que, em nome dele, escrevem a Carta Constitucional de 1988 que dá o desenho institucional do Poder Judiciário. Sendo assim, em última instância, o que temos como Poder Judiciário é uma derivação da política.

A autonomia que o Judiciário tem é relativa e relacional, posto que ela dialoga com o contexto social, com o espírito do tempo, com o Poder Legislativo e Executivo. A chamada “harmonia entre os poderes” não é isso?

Portanto, as decisões jurídicas nascem de uma determinada interpretação do texto jurídico-normativo. Não há decisão “pura”. Toda e qualquer decisão jurídica está “suja” pela subjetividade dos seus autores (seres humanos como você!), pela leitura de mundo, pela narrativa escolhida que servirá de base para a mesma.

Quero concluir dizendo que nossa Suprema Corte (STF) é também uma instância política, parte dos aparelhos de Estado. Suas decisões devem ser respeitadas numa democracia – ainda que oligárquica como a nossa – mas não se pode ter nenhuma ingenuidade. Os juízes são seres humanos, como eu e você, apenas se especializaram em dado ofício.

RIO: A urgente unidade do campo democrático-progressista

Vencer a máquina do PMDB na eleição de 2016 não será fácil, mesmo que o candidato seja o rixento Pedro Paulo. A unidade do campo democrático-progressista é fundamental. Precisamos poupar energia e evitarmos choques internos.

Recentemente, Jean Wyllys (deputado federal do PSOL-RJ) fez uma postagem infeliz que causou mal estar em todos os militantes da REDE Sustentabilidade e em todas as pessoas que defendem a verdade e o jogo limpo. Ele usou uma fotomontagem que associava Marina Silva ao conservador e preconceituoso pastor Ezequiel, dono da igreja “Projeto Vida Nova” e marido da ex-vereadora Marcia Teixeira. O conteúdo da postagem do deputado era ótimo, denunciando as tramoias de Ezequiel. Todos que militam pelos direitos humanos estavam de acordo, mas a imagem usada…

É claro que não foi Jean Wyllys, nem sua assessoria, que criou a fotomontagem, mas o parlamentar sabia que a mesma já havia sido repudiada pela campanha Marina Silva em 2014. Ele mesmo elogiou Marina e a campanha por esta atitude anti-homofóbica, mesmo assim, ele postou a tal fotomontagem grotesca. Poderia ter usado outra imagem, mesmo aproveitando o link, mas não fez. Deixou rolar.

Depois do mal-estar, houve uma chuva de protestos em sua página no facebook. Jean não reconheceu erro algum, nem pediu desculpas. Atacou ainda mais e com mais raiva. Passou a chamar os militantes da REDE de “igreja de Marina”, “fanáticos” e “seguidores de um novo Messias”. Não Jean Wyllys! Nós não somos idólatras, apenas respeitamos o bom senso e a verdade. Gostaríamos que tivesse sensibilidade para entender isso de forma pacífica e simples. Quer uma sugestão para recomeçarmos com o pé direito?

“Gente, perdoe-me por usar uma imagem já desmentida! Não fiz com a intenção de prejudicar Marina ou a Rede Sustentabilidade. Ainda que tenhamos nossas divergências de visão de mundo, não quero ser intelectualmente desonesto. A imagem estava no link e eu usei esse link na minha postagem de forma desatenta e sem calcular possíveis danos. Sigamos na luta e na paz”.

Aplausos! Se fizesse isso.

São situações conflitivas como esta que contribuem para a quebra do espírito de fraternidade dentro do campo democrático-progressista. No pós-ditadura, diziam que “a esquerda só se une na cadeia” (referência à repressão do regime civil-militar). É. Pode ser.

O fato é que ao atacar Marina Silva e a REDE, alguns militantes do PSOL agem aqui na cidade do Rio de Janeiro como laranjas dos interesses de Eduardo Paes e do PMDB. Exagerei? Pare e pense.

Qual é o nome que mais ameaça a hegemonia deles? Alessandro Molon!

Molon é de qual partido? REDE!

Se Molon sai candidato a prefeito do Rio terá muitos apoios, entre eles, o apoio de quem? Marina Silva!

Entenderam a jogada pré-eleitoral? Percebem o que significa danificar a imagem de Marina e da REDE?

O PSOL quer ajudar o PMDB? Quero crer que não. O equívoco de Jean Wyllys pode ser apenas um episódio isolado. PSOL e REDE poderão caminhar juntos em algum momento da eleição de 2016, como já acontece diariamente no Congresso Nacional.

O campo democrático-progressista poderá ter vários candidatos no Rio. Molon (REDE), Jandira (PCdoB) e Freixo (PSOL) são, até agora, os mais comentados. Se nós não tivermos sabedoria política, bom senso, unidade no essencial e muito diálogo interno, poderemos todos assistir a mais uma vitória da oligarquia do PMDB. Não necessariamente com o alquebrado Pedro Paulo, mas talvez com Osório (PSDB) ou Índio da Costa (PSD). Nossa fragmentação poderá ser nossa derrota.

A direita é pragmática e sempre unida. Ela sorri diante da nossa estúpida mania de demarcar diferenças o tempo inteiro ou de medir quem é mais esquerda do que o outro através de um “esquerdômetro” imaginário e neurótico. Não duvido que o PMDB terá apoio de 20 partidos e um latifúndio de tempo de TV e rádio. Ainda assim, esse campo democrático-progressista pode fazer a diferença e virar o jogo, derrotando a dinastia do PMDB. Temos que ter unidade no que é fundamental. O primeiro ponto é saber que é o nosso “campo adversário” e evitarmos brigar para dentro.

Vamos em frente. Precisamos construir a cidade que queremos e articularmos as forças políticas e sociais que desejam uma nova Prefeitura: democrática, sustentável, com gestão transparente nos recursos e conectada com os interesses da maioria de nossos povo, dos trabalhadores e da classe média, dos pequenos comerciantes e empresários, daqueles que realmente vivem e investem na nossa cidade. Romper com o capital especulativo, com as fraudes em licitações, com os grandes esquemas de obras caríssimas, com o cartel das empresas de ônibus, com a falta de participação popular nas decisões da gestão pública (nunca tivemos aqui um Orçamento Participativo, por exemplo). Precisamos romper com uma Câmara Municipal hegemonizada pelos interesses mesquinhos do varejo, do toma lá, dá cá. São muitas tarefas para uma frente democrática-progressista na gestão do município. Seria molecagem perdermos tempo com questões do ontem e do anteontem.

Abaixo, transcrição do Blog do Lauro Jardim – O Globo (19/02/2016):

“Pesquisas qualitativas do PMDB feitas para a disputa pela prefeitura do Rio apontaram que não é a agressão de Pedro Paulo à mulher o principal problema do partido na disputa — o que é natural seis meses antes do começo da campanha em TV.

A principal ameaça a Pedro Paulo chama-se Alessandro Molon”.

Veja aqui o texto publicado no jornal: http://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/o-calo-de-pedro-paulo.html

 

 

Do eurocomunismo à Rede: Utopia, escolhas eleitorais e pequena trajetória de uma militância suburbana

 

Introdução:

 

Por que escrever sobre uma parte das minhas memórias políticas e eleitorais? Não sou “famoso” e minha participação política nunca foi decisiva para coisa alguma. Sendo eu uma pulga, porque me aventurar a fazer alguns desabafos, a revelar votos que hoje, em alguns casos, eu preferia esquecer?

Este é mais um exercício terapêutico. Acredito que ao escrever sobre o que eu fiz e quem eu votei, estou também tecendo o fio de uma parte da minha existência. O texto é, portanto, mais para minha leitura do que para você leitor. Não estou desprezando sua leitura, mas aviso que as linhas abaixo tem relação de diálogo comigo mesmo, com meus porões mentais, com aquilo que me envolvi na política. Nem tudo está aqui. Há muitos outros atores e acontecimentos. Coloquei o que julguei essencial, a trajetória matriz. Fiz isso antes que outros continuem a dizer aquilo que não fiz. Irrita-me perceber que alguns poucos amigos distorcem minha história ou pensam que eu sou o que não sou.

Escrever então essa pequena memória é afirmar uma identidade política-ideológica, uma linha de concatenações, uma cadeia de escolhas-decepções-escolhas que ajuda a entender o que sou hoje e o que penso. Faço isso sem pretensões literárias, sem nenhum desejo de ser reconhecido por ninguém, sem interesses eleitorais. É apenas um conjunto de anotações de uma memória política de um cidadão comum que se encantou com os processos de mudança na década de 1980. E ponto.

Tem certeza que isso é interessante para você? Bem, se chegou até aqui, talvez tenha alguma serventia. Acompanhe-me então.

 

1) A década de 1980 e meu querido PCB:

MHP PCB anos 80

Nos anos 80, ainda moleque, eu me encantei com a política. Aderi ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e panfletei muito no Engenho de Dentro e no Méier para a chapa Marcelo Cerqueira/João Saldanha (PSB-PCB) para a Prefeitura do Rio de Janeiro. Obteve 7% dos votos e Saturnino Braga ─ do PDT de Brizola (com o apoio do PCdoB) ─ foi eleito com 38%. Naquela época não tinha segundo turno.

No PCB, logo me identifiquei com o eurocomunismo. Alguns consideravam que os eurocomunistas eram “a direita do partido”, os “revisionistas”, mas fiquei convencido de que somente pela chamada “via democrática”, o socialismo poderia ser implantado no Brasil e no mundo ocidental. De eleição em eleição, de movimento em movimento, “acumularíamos forças”. E em alianças com diversos setores (no campo parlamentar e extraparlamentar, na sociedade civil), nós iriamos ganhando hegemonia até chegarmos ao poder. E chegando ao poder, nós comunistas o exerceríamos com pluralismo partidário e eleições periódicas. As instituições da democracia representativa seriam todas mantidas, mas elas teriam um “conteúdo popular-proletário”. Carlos Nelson Coutinho, Armênio Guedes, Leandro Konder, Francisco Weffort e muitos outros eram referências nossas. Eu ainda acumulava um Frei Betto e Leonardo Boff, por conta dos meus vínculos religiosos.

Basicamente, entendia naquela época que o marxismo era “bom instrumento de análise e essencialmente democrático”, desde que expurgássemos de sua tradição os elementos “bonapartistas”, “estalinistas” e “leninistas”. Seríamos democratas radicais e marxistas. Assim eu me via, assim nós nos pensávamos. E tínhamos a certeza de que com o tempo, o trabalho ideológico de convencimento, a tomada de posições nas trincheiras de um novo tipo de guerra – Gramsci era relido aqui com outra lente – e a ampliação/maturação democrática, “naturalmente” chegaríamos ao poder de Estado e realizaríamos a etapa socialista de transição gradual ao comunismo. Tinha eu uma fé evolucionista no socialismo democrático, tal como formulou o último Poulantzas. Tudo isso aconteceria sem nenhuma revolução violenta, sem mortes. Tudo na paz e na “guerra de posição”, dentro das normas “civilizadas” da democracia universal.

 MHP Leonel-Brizola

Minha memória mais antiga é a eleição de Leonel Brizola (PDT) no Rio de Janeiro, em 1982, com cerca de 34% dos votos, batendo Moreira Franco (PDS), candidato do regime militar, por cerca de 200 mil votos. Além de Moreira, Brizola derrotou outros três candidatos: Miro Teixeira (PMDB), Sandra Cavalcanti (PTB) e Lysâneas Maciel (PT). Superou tentativa de fraude e o chamado “caso ProConsult” que tentaria desviar votos para o candidato do PDS. A alegria era imensa na casa de vovó Maria, no Engenho de Dentro. Meu pai e minha madrasta também se sentiram realizados.

Em 1985 eu já estava maior e tinha participado, no ombro de meu pai, da campanha das “Diretas Já”. Derrotado o projeto de eleições diretas ─ lembro-me do choro em frente a TV quando a Emenda Dante de Oliveira não passou ─ os democratas apostaram tudo em Tancredo Neves (PMDB). O candidato da oposição tinha o apoio de uma dissidência do regime militar liderada por José Sarney (chamava-se “Frente Liberal”, mais tarde virou PFL e agora é DEM). Tancredo e Sarney formaram uma frente chamada “Aliança Democrática”. O candidato do regime militar era Paulo Maluf (PDS), que perdeu a eleição, recebendo apenas 27,3% dos votos. Naquela época, Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes foram expulsos do PT só porque votaram em Tancredo e ajudaram a elegê-lo. O partido de Lula defendia voto nulo.

 

2) A esquerda do PDT:

 

Em 1986, tivemos eleições para governador do Rio de Janeiro e o PCB, em nome da sustentabilidade da Nova República pós-ditadura, apoiaria todos os candidatos do PMDB. Moreira Franco saíra do PDS e entrou para o PMDB. O PCdoB e o PCB o apoiaram, mas vários comunistas não seguiram essa orientação. Eu, e muitos outros, fizemos campanha para Darcy Ribeiro (PDT) contra o “gato angorá”, como Brizola o chamava. Moreira, infelizmente, ganhou a eleição com 49% dos votos e o grande educador e antropólogo Darcy Ribeiro ficou em segundo com 36%. Fernando Gabeira despontou como liderança inovadora. O candidato do PT e dos verdes obteve 9% e os conservadores o atacavam: “Quem fuma, bebe e cheira, vota no Gabeira”.

 MHP Darcy

Na capital fluminense, nova eleição em 1988. Saturnino (ex-PDT, já filiado ao PSB) lançou Jó Rezende como seu candidato (PSB/PCB/PV) que, por trapalhadas da política, abandonou o processo sob fortes acusações de desvio de dinheiro. A Prefeitura estava falida e os ataques a Jó eram inúmeros. A vitória ficou mesmo com o candidato do Brizola, Marcello Alencar (PDT), que obteve 32% dos votos. Saturnino, homem honesto, deixou a prefeitura falida e ficou com a imagem de “traidor do PDT”. Na época, essas coisas tinham peso. Hoje você pode trocar de partido mil vezes. Ninguém se importa.

 

A capital era um bastião contra o governo do PMDB. Jorge Bittar (PT) teve 17% dos votos e se destacou. Torci pelo Alencar. O PDT venceu de novo.

 

No ano seguinte teríamos a primeira eleição para presidente depois de 30 anos. Eu tirei o meu título de eleitor e votaria pela primeira vez. No primeiro turno votei em Brizola (PDT) que ficou em terceiro lugar, com 16,5% dos votos. Lula (PT/PSB/PCdoB) chegou em segundo, com 17% e Collor (PRN) ficou em primeiro com 30,5%. Naquela época, o secretário nacional de juventude do PDT era Anthony Garotinho que foi abertamente criticado por mim em encontro dentro da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que usei a tribuna. Ainda assim, participei da gravação do “lá lá lá lá lá Brizola”, o jingle chiclete que a campanha usou.

 

O PSDB estreou com Mario Covas defendendo um “choque de capitalismo” e conquistando 11% dos votos, seguido por Maluf (PDS) com 9%, Guilherme Afif Domingues (PL) com 5%, Ulysses Guimarães (PMDB) com humilhante 5% e o PCB (Roberto Freire e Sergio Arouca) com 1%. Imaginem o debate entre eles na TV Bandeirantes? Foi maravilhoso! Creio que nunca mais teremos debates assim no país de lideranças medíocres, salvo raras exceções.

 MHP Lula versus Collor

No segundo turno, Collor (53%), com a ajuda da TV Globo, derrotou Lula (47%). Todos nós havíamos sonhado com Lula, o “sapo barbudo” como chamou Brizola. Que merda!

 

 

3) Collor: fim do PCB, tentativa no PCdoB e o PT da UERJ

 

Collor na presidência, em 1990 teve eleição para governador. Brizola foi esmagador! O eleitorado do Rio de Janeiro disse para Collor: “Aqui no Rio você não é ninguém”! Brizola ganhou a eleição com 61% dos votos depois do fracasso do governo Moreira (PMDB). Eu votei em Jorge Bittar (PT) que teve 18%. Começava meu afastamento dos comunistas do PDT (prestistas, RPC, CGB, Resistência Popular…).

Com Collor em Brasília e Brizola no Palácio Laranjeiras, tivemos eleição para a Prefeitura em 1992. O prefeito Marcelo Allencar já tinha rompido com o PDT e entrara no PSDB de Mario Covas, FHC e Franco Montoro.  Lançou o jovem Sérgio Cabral Filho como seu candidato, mas o filho do grande Sergio Cabral só obteve 1,85% dos votos. Benedita (PT/PSB/PPS/PCB) foi a minha candidata e chegou a 33% no primeiro turno. Sim, agora tínhamos eleições em dois turnos. Em segundo lugar, com 22%, ficou o ex-brizolista César Maia (PMDB).

 MHP Benedita

Nesta época eu havia me aproximado do PCdoB, depois que o PCB abandonou o marxismo, o símbolo do martelo com a foice e se transformara em Partido Popular Socialista (PPS). Lembro-me de uma reunião na casa dos Feghalis no Grajaú. Estava lá Jandira Feghali, Edson Santos, Juliano Siqueira, José Carlos, Peninha, Lindbergh, Alexandre Almeida, Edmilson Valentim, Wagner Vícter e o divertido Francisco Milani que também queria permanecer comunista e não virar PPS.

No segundo turno, Maia virou o jogo e ganhou de Benedita, apertado. O resultado foi 52% para César Maia e 48% para Benedita. A senadora negra foi um dos nomes mais fortes da esquerda no Rio de Janeiro e, por muito pouco, não ganhou esta eleição. O eleitorado de esquerda na capital somou 45% em 1985, 49% em 1988 e agora se mantinha em 48%. Outros tempos.

Itamar já era o presidente do país quando Brizola, governador do Rio, lançou Anthony Garotinho como candidato do seu PDT, em 1994. O jovem ex-prefeito de Campos recolheu 30% de votos. O ex-prefeito Marcello Alencar (PSDB) teve 37% dos votos no primeiro turno. Newton Cruz, a cara da linha dura do regime militar, chegou a 14% dos votos e o PT repetiu Jorge Bittar que obteve 11%, um pouco menos do que a eleição anterior.

MHP Jorge Bittar

Votei em Bittar novamente e já tinha me filiado ao PT em 1993, logo depois de entrar para a UERJ, deixando a perspectiva oferecida pelo PCdoB. O “partido do João Amazonas” ainda tinha fortes tendências estalinistas e ligações com a China, depois de desmontado o “farol albanês”. Para minha cabeça eurocomunista, o PCdoB não descia.

No segundo turno dessa eleição de 1994 eu votei no brizolista Garotinho (PDT) para derrotar o PSDB de FHC e Marcello Alencar. Não deu. Alencar ganhou com 56% e Garotinho ficou com 44%. O eleitorado de esquerda estava entre 41%-44%, uma pequena queda pós-PSDB comparado com as eleições anteriores.

Depois da unificação de algumas eleições em 1994, votei em Lula pela segunda vez. A aliança PT-PPS-PSB-PCB-PSTU-PCdoB-PV-PMN ficou com 27% dos votos e FHC (PSDB/PFL/PTB) ganhou no primeiro turno com 54%, substituindo o presidente Itamar Franco. Brizola foi candidato e amargou 3% dos votos, tendo Darcy Ribeiro como vice. Era o começo do fim. O PMDB tentou mais uma vez a presidência, dessa vez com Quércia e obteve somente 4%. Era a segunda vergonha depois do Ulysses em 1989. O folclórico Enéas surpreendeu com 7%.

 

4) Nos tempos de FHC: A era PSDB

 

A vitória de FHC e do Plano Real foi um duro golpe na esquerda que apostava que a estabilidade econômica era impossível, um blefe da direita – tal como foi o fracassado Plano Cruzado do ministro Dilson Funaro que garantiu vitória acachapante para o PMDB em 1986 e depois virou água. O Brasil mudou com Fernando Henrique. O capitalismo se modernizou, se flexibilizou e mundializou-se de uma maneira que a esquerda brasileira não imaginara.

O prefeito César Maia (que saiu do PMDB e pulou para o PFL) lançou, em 1996, o seu “poste”, o arquiteto Luiz Paulo Conde (PFL/PPB/PTB). Conde chegou ao fim do primeiro turno com 40% dos votos. Em segundo, ficou o candidato do presidente FHC e do governador Marcello Alencar, o jovem Sergio Cabral Filho (PSDB/PMDB), mas agora ele ampliara para 25%.  Eu fiz campanha e votei no “riponga” e professor de História Chico Alencar (PT) que ameaçou o segundo lugar do PSDB, ficando com 22%.

A esquerda já perdia fatias do seu eleitorado para o PSDB e para a tecnocracia gerencial do grupo César Maia. Do patamar de 41%-48% ela caiu para 22% na capital. Conde (PFL) venceu no segundo turno com 62%, derrotando a aliança PSDB-PMDB de Sergio Cabral Filho com 38%. Eu votei em Sergio Cabral e não fui o único petista a fazer isso naquela época. Não queria a continuidade do governo do grupo Maia (PFL).

Novas eleições gerais em 1998. No Rio de Janeiro, o já abatido governador Marcello Alencar (PSDB) lança Luiz Paulo para substituí-lo no Palácio Laranjeiras. Ele teve apenas 15,5% dos votos. O PDT se une ao PT e lança Anthony Garotinho para o governo. Ele chega à frente de César Maia no primeiro turno (47% X 34%) e ganha do ex-prefeito no segundo turno com 58%. Maia (PFL) teve 42%. Era o começo da oligarquia dos “Garotinhos” no Rio, ainda que aquele Garotinho de 1998 sustentasse um discurso de esquerda que pouco tem com o atual Garotinho do direitista PR.

 Eleição Presidencial no Brasil, 1989:

Pela terceira vez, fiz campanha e votei em Lula, agora com Brizola de vice. A unidade tão sonhada pela esquerda brasileira aconteceu em 1998! A chapa do PT-PDT-PSB-PCB-PCdoB-PCO conseguiu 32%, mas FHC com Marco Maciel (PSDB-PFL-PPB-PTB) ganhou pela segunda vez e já no primeiro turno com 53%. Era a vitória da reeleição. Ciro Gomes e Roberto Freire, do PPS, conquistaram 11%. Um ótimo resultado pelo tamanho do partido e baixa infraestrutura.

Estava terminando o curso de Ciências Sociais na UERJ e o meu “eurocomunismo evolucionista” dos anos 80-90 começava a fazer água com o estudo da ciência política. A “matriz comunista”, a Ideia, de alguma forma permanecia em minha alma: justiça, equidade, liberdade e respeito aos direitos sociais, civis e políticos, com especial atenção para os trabalhadores e os socialmente mais vulneráveis.

A utopia comunista permanecera em mim muito mais como um conjunto de valores do que uma doutrina ortodoxa marxiana. Nesta época, para ser franco, o sociólogo alemão Max Weber e alguns autores liberais já me seduziam mais do que os velhos manuais do marxismo clássico. Minha reaproximação com o antigo PCB, agora como PPS, era o símbolo de um novo momento de minha vida política, das minhas reflexões socioeconômicas, já distantes do velho esquerdismo do PT (1993-2000) e do comunismo ortodoxo.

 

5) A chegada do lulopetismo no poder e o PPS como referência

 

Desfiliei-me do PT em 2000, portanto, bem antes dele virar isso que virou. Neste ano, na eleição municipal, acompanhei o Partido Popular Socialista (PPS, antigo PCB) e votei em César Maia (PTB-PPS) para prefeito. Ele que tinha o apoio de Ciro Gomes! (Como o mundo dá voltas…)

Maia obteve 23% no primeiro turno enfrentando sua “criatura”, o prefeito Luiz Paulo Conde (DEM-PMDB), que obteve 35%. Nesta eleição, Benedita (PT-PCdoB) teve 23% e Brizola (PDT) foi mais uma vez castigado pelo eleitorado com apenas 9%. A esquerda clássica recolheu 32% dos votos. No segundo turno, parcela significativa dessa esquerda votou em César Maia (PTB-PPS), que derrotou com dificuldades Conde (DEM-PMDB) com 51,1%.

Em 2002, nova eleição para presidente e governador. No primeiro turno eu votei em Ciro Gomes/Paulinho da Força (PPS-PDT-PTB) que teve 12%. Garotinho, pelo PSB, obteve surpreendentes 18%!

 MHP Ciro Gomes

O segundo turno seria decidido entre o candidato de FHC, José Serra (PSDB-PMDB-PFL) e Lula/Zé Alencar (PT-PL-PCB-PCdoB-PMN). Não fiz campanha, mas votei em Lula. Foi minha última esperança no PT, um rescaldo que ainda sobrou de minha juventude. Lula teve 61% e derrotou José Serra que obteve 39%. Eu ainda temia que Serra fosse bem melhor como presidente. O povo decidiu. Era o começo da “Era petista” que estamos mergulhados ainda hoje. Nunca mais eu votaria no PT para presidência da República.

No Rio, nesse mesmo ano, votei em Jorge Roberto Silveira (PDT-PPS-PTB) no primeiro turno. O “tumultuado” candidato obteve 14%. Ganhou Rosinha Garotinho (PSB-PPB) no primeiro turno com 51% dos votos. A família Garotinho estava no ápice de seu poder político-eleitoral e teria uma relação conflituosa com o presidente Lula no seu primeiro mandato. Malandro, Lula secou o dinheiro do Rio de Janeiro, evitando o crescimento avassalador de Garotinho que já era um nome forte para as eleições presidenciais de 2006 e já dentro de um grande partido, o PMDB (Garotinho foi “expulso” de forma sofisticada do PSB por Miguel Arraes, aliando o partido ao projeto de Lula). O jogo foi sujo e pesado! O PT ali “comprou” o PSB e o PMDB, sabotando a única chance real que o próprio PMDB teria de chegar à presidência da República depois do fracasso de Ulysses e Quércia. Sarney, Renan, Temer e companhia manobraram para barrar as aspirações de Garotinho. O PT ganhou. Ganhou mesmo?

Na capital, em 2004, César Maia abandona a aliança PTB-PPS e o programa de centro-esquerda que o elegeu em 2000 e se lança novamente como candidato a prefeito retornando ao PFL/DEM. Eu já sabia que votaria contra, mas seu governo teve sucesso com o povo. Era o “síndico”, o gestor, o tecnocrata das finanças e “tocador” de obras, um novo Carlos Lacerda. Ganhou no primeiro turno com 50,1% e com nova composição: PFL-PSDB-PV.   Eu votei, a contragosto, em Jorge Bittar (PT-PSB) que só teve 6%. Não queria PT, mas também não desejava o grupo do Maia, nem o clã Garotinho.

Nesta eleição, Crivella (PL) ficou em segundo (22%), Conde (PMDB-PP) apoiado pelos Garotinhos ficou em terceiro (11%) e Jandira (PCdoB-PCB) em quarto (7%). No total, foram 12 anos de César Maia, mais 4 anos de Conde quando era aliado dele. De certa forma, até hoje, a cidade do Rio está nas mãos dos “filhos” da administração César Maia que, por sua vez, nasceu do brizolismo dos anos 80.

 MHP PSDB

Dois anos depois, em 2006, nas eleições gerais, Lula foi reeleito presidente da República em segundo turno, com 61% dos votos, derrotando meu candidato Geraldo Alckmin (PSDB/PFL/PPS), o “picolé de chuchu”, que obteve 39% e o estranho apoio da família Garotinho no Rio de Janeiro.

Acompanhando o PPS, votei no PSDB. Era importante derrotar o projeto hegemonista do PT que já ameaçava criar uma base de apoio sólida com recursos públicos. Criado na mentalidade do velho PCB, eu sempre fui antipático ao PT e a CUT. Brizola e o PDT também desconfiavam de Lula e das intenções do PT. Na minha família, o PT sempre foi visto como “a esquerda que a direita adora”. Não poucos o consideravam “quinta coluna” do regime militar, o partido do Golbery, criador de divisão dentro da esquerda, anticomunista etc. Tinha muito de paranoia também, confesso. Mas minha militância no partido nos tempos de UERJ parece-me hoje um ponto fora da curva, estranho momento de embriagues.

Talvez o constrangimentos de “rebanho” explique esse meu petismo temporário, pois “todo mundo” era do PT naquela época, eu também, junto com Ricardo Vieralves, Nilcea Freire, Alexssander Barbosa, Paulo Simpson, Átila Drelich, Marco San, Samantha e André Fayão, Caio Marcio Rezende de Lima, Alexandre da Engenharia, Príscila, Jorgito, Ronald Garcia, Patrícia Simas etc. formávamos o chamado Núcleo de Debates do PT-UERJ. Mais tarde, eu, Fayão, Caio e Marco San fundaríamos o Programa de Estudos Políticos (PEP-UERJ) com a coordenação do prof. Geraldo Tadeu Moreira, pedetista e assessor do reitor Antonio Celso, eleito pela chapa PSDB-PT. Hoje, quem diria que uma aliança assim fosse possível?

 MHP Cirstovam Buarque

Nesta eleição de 2006, no primeiro turno, a chapa Heloísa Helena/César Benjamin (que trabalhava para a família Garotinho e eu mesmo testemunhei seu trabalho na Fundação do PMDB onde eu coordenava o curso de formação política) chegou a 7% dos votos. Ótimo resultado! Foi a única vez que a chapa do PSOL (com apoio de PCB-PSTU) chegou longe. No primeiro turno, eu votei em Cristovam Buarque (PDT), “o candidato da educação”, que teve apenas 2,6%.

Aqui no Rio, votei em Denise Frossard (PPS) para governadora (24%) contra Sérgio Cabral (PMDB) que ficou em primeiro com 41%. Isso depois do jornal “Extra” divulgar uma notinha insinuando, de forma bem humorada, uma suposta relação homoerótica entre eu e Cabral por conta de uma declaração desconjuntada que ele fez sobre nossa amizade no passado (lembro que Cabralzinho foi comunista!). Os outros candidatos ficaram assim: Marcelo Crivella (PRB) com 18,5%, Vladimir Palmeira (PT) com 7,6%, Eduardo Paes (PSDB) com apenas 5,3%, Carlos Lupi (PDT) com míseros 1,5% e o grupo que foi expulso do PT e formou o PSOL apresentou o nome de Milton Temer, que teve 1,4%. No segundo turno, Cabral derrotou o PPS com 68%. Lamentei muito! Torci demais pela juíza Denise, pois com ela, o Rio de Janeiro não estaria nas mãos da máfia do PMDB que o comanda até hoje.MHP Denise Frossard

Em 2008, nova eleição para prefeito. Lula estava no seu segundo mandato e Cabral (PMDB) governava o Rio de Janeiro em feliz aliança com o presidente, ao contrário de Garotinho (ex-PDT, ex-PSB, ex-PMDB, agora no PR).

A eleição ficou polarizada desde o primeiro turno entre Eduardo Paes (PMDB-PP-PTB) e Fernando Gabeira (PV-PSDB-PPS). Fui entusiasta da belíssima campanha de Gabeira, ao contrário dos meus preconceitos nos anos 80 com o doidão de tanga lilás.

Suas ideias empolgaram milhares de cariocas e ele alcançou mais de 800 mil votos no primeiro turno (25,6%). Paes obteve 32% e se sentiu ameaçado. Crivella (PRB-PR) fez 19%, Jandira (PCdoB-PSB) fez 10%, Molon (PT) angariou 5%, Chico Alencar (PSOL) e Paulo Ramos (PDT) ambos com 1,8% e a candidata do prefeito César Maia, Solange Amaral (DEM), sofreu para conseguir 4% de votos. Era o fim do “cesarismo direto” no Rio de Janeiro, ainda que Paes (PMDB) fosse uma cria desse modelo.

 MHP Gabeira

Foi no sufoco que Eduardo Paes (PMDB) abateu Fernando Gabeira (PV) no segundo turno com uma campanha suja e que contou com a ajuda do governador Cabral que decretou ponto facultativo e criou um feriadão antes do domingo da eleição. Ainda assim, Paes venceu com 50,8% dos votos e Gabeira ficou com 49,1%. Pela segunda vez, depois do fenômeno Benedita, em 1992, por pouco um candidato mais vinculado com a “esquerda” (eu considero ambos, Benedita e Gabeira, de centro-esquerda) não ganha a Prefeitura.

Na eleição seguinte, em 2010, o PMDB se transformara numa potência avassaladora. Sergio Cabral é reeleito em primeiro turno com 66% dos votos, embalado por obras, UPP e muito marketing. Gabeira (PV) recebeu meu apoio e meu voto, disputou com a máquina do PMDB, mas obteve 20,6% em todo o estado. Não teve “pernas” para fazer uma megacampanha e Cabral estava na “crista da onda” com as UPPs.

A família Garotinho tentou com Fernando Peregrino (PR) que amargou um terceiro lugar com 11%. O PSOL lançou o jovem sociólogo Jefferson Moura, companheiro meu dos tempos de UERJ, que obteve 1,6%. Ironias do destino, Jefferson, na década de 90, derrotou nosso grupo petista no Centro Acadêmico de Ciências Sociais (CACIS) com um discurso de ultraesquerda. Hoje, tenho a honra de trabalhar com ele depois do convite que me fez quando eu começava o mestrado em 2012. Voltas que o mundo dá.

No Brasil de 2010, o presidente Lula elegeu sua sucessora, a “gerentona do PAC” Dilma Roussef depois de dois mandatos dele na presidência. Mas não foi fácil. Depois do mensalão e de diversos problemas na economia, Dilma/Temer (PT-PMDB-PDT-PSB-PCdoB-PR-PSC-PTN-PTC-PRB) obteve 47% no primeiro turno. Eu votei em José Serra (PSDB-DEM-PPS-PTB), que conseguiu 32,6% enfrentando a máquina lulopetista. A surpresa foi Marina Silva do PV (ex-petista e ex-ministra de Lula I) com 20%. A diversão ficou por conta de Plínio de Arruda Sampaio, o simpático vovô radical do PSOL. Não alcançou 1%, mas foi o show nos debates de TV.

No segundo turno, Dilma ganharia com 56%. Votei novamente em Serra (PSDB) que obteve 44%. O PT iria para mais quatro anos.

 

 

 6) Movimento Nova Política, Jefferson Moura e a Rede:

 

Na capital, dois anos depois, em 2012, teve eleição para prefeito. O PMDB lança novamente Eduardo Paes que leva tudo já no primeiro turno com 65%. O candidato da resistência foi Marcelo Freixo (PSOL) e eu votei nele. Freixo reuniu votos de centro, de centro-esquerda e de esquerda que estavam insatisfeiMHP Jeffersontos com os sucessivos governos do PMDB. Sua soma foi de 914 mil votos (28%). Nesta eleição, a família Garotinho fez uma péssima aposta colocando Clarissa (PR) como vice de Rodrigo Maia (DEM). Ambos afundaram com 3% dos votos. O PSDB, sem opção, decidiu lançar o sorridente deputado Otávio Leite que teve 2%, um pouco melhor que Aspásia (PV, hoje está no PSB), minha ex-professora de Ciência Política (Maquiavel) na UERJ, que obteve pouco mais de 1%.

Na última eleição geral, em 2014, senti-me sufocado. Não encontrei um candidato que me entusiasmasse como Gabeira (PV), Denise Frossard (PPS) ou o velho Brizola (PDT) de 1989. Não queria votar na máfia do PMDB (agora com Luiz Pezão), nem no bispo da Igreja Universal, Marcelo Crivella (PRB).  Garotinho (PR) jamais. Lindbergh Farias (PT-PV-PSB) era o “menos pior”, ainda que estivesse nacionalmente vinculado aos governos petistas com os quais eu não tinha acordo algum. O PSOL lançou o simpático e divertido prof. Tarcísio ─ aquele que tinha rabo de cavalo, mas não tinha o rabo preso. Eu não votaria no PSOL, pois não tenho identidade ideológica com esse partido, ainda que respeite sua militância e seus ideias, e mesmo tendo votado em Freixo como um voto de protesto/resistência contra o hegemonismo do PMDB.

 MHP Jefferson na REDE

Foi nesse momento, em que Freixo representou a resistência, que eu já estava envolvido, com o Movimento Nova Política (MNP) e a proposta de se criar um “braço-institucional”. Nasceria a proposta de fundação da Rede Sustentabilidade. Eu já estava na campanha de Jefferson Moura para vereador. Uma campanha que uniu brizolistas, militantes da sustentabilidade, “marineiros”, gente do PSOL e até petistas. Jefferson tinha um discurso e um programa bem mais amplo que Freixo e uma imensa capacidade de construção de alianças que me lembrava o estilo agregador do PCB dos anos 80. Foi eleito, contra muitas lideranças do PSOL que buscou isolá-lo e sabotá-lo.  Hoje é vereador da Rede aqui no Rio de Janeiro, um mandato brilhante.

 MHP Marina Silva

2014 foi o ano em que Eduardo Campos, candidato a presidência, morreu em acidente de avião que colocou Marina, sua vice, como cabeça de chapa. A Rede Sustentabilidade não foi legalizada a tempo de lançar Marina, mas o destino nos apresenta seus caprichos. De vice, a acreana virou cabeça de chapa por conta de uma tragédia inesperada. Votei em Marina Silva (PSB-REDE-PPS-PPL) para presidente e em Lindbergh (PT) para governador. Marina obteve 21,3% e ficou de fora do segundo turno das eleições presidenciais e o petista ficou com 10% aqui no estado.

No segundo turno do Rio, votei por exclusão no Pezão (PMDB). Confesso que fechei o nariz antes, mas temia a eleição de um bispo neopentecostal para governar nosso estado. Pezão conquistou 56% e derrotou Crivella com 44%. No dia seguinte eu já era oposição ao novo governo. Conheço como eles operam. São muitos anos contra o PMDB-RJ.

Nacionalmente, Dilma/Temer (PT-PMDB) foi para o segundo turno (41,6%) com Aécio Neves (PSDB) que ficou com 33%. O jogo foi pesado! Já no primeiro turno, fizeram “o diabo” para barrarem Marina Silva. No segundo, o Brasil rachou ao meio, virou torcida organizada, o ódio se alastrou. Eu votei em Aécio (PSDB) seguindo o entendimento de Marina e de parcela da Rede. Talvez a maioria do partido preferisse o voto nulo. Para a Rede, o melhor teria sido o voto nulo em 2014? Pode ser, mas havia o trauma do voto nulo/neutralidade em 2010 que favoreceu a continuidade da dinastia lulopetista. Foi dramático esse momento! Pessoalmente eu não suportaria mais quatro anos de gestão petista, mesmo não vendo em Aécio Neves um líder do porte de Mario Covas, para citar alguém do próprio PSDB. Dilma ganhou pela segunda vez! É a escolha dos brasileiros, respeito. Ela foi reeleita com mais de 54 milhões de votos (51,6%), enquanto o candidato da oposição obteve 51 milhões de votos (48,3%). Chorei, mas fazer o quê? Democracia é isso.

 

 

7) Desejos de uma utopia concreta: tentativa de uma semi-conclusão

 

Agora estou pensando nas imensas possibilidades mudancistas que a candidatura de Marina Silva em 2018 oferece. Há uma chance de mudarmos esse país. Será que ela e a Rede estarão à altura? Vou acompanhando e torcendo. Engajado estou na Rede Sustentabilidade. Reflito sobre as dificuldades de enquadramento ideológico na velha díade direita e esquerda (ainda que eu utilize operacionalmente estes conceitos). Flerto com o pensamento pós-moderno mas, sem entusiasmo juvenil, sem as certezas do passado.

Quero conjugar uma visão de mundo onde Estado e mercado não se sobreponham. Onde haja democracia representativa com mecanismos de participação direita e deliberação. Onde a sustentabilidade planetária esteja acima das nossas diferenças e que o futuro seja uma sociedade mais feliz, com justiça, equidade, maior igualdade de renda, oportunidades para todos e espiritualidade libertária. Sim, a política precisa abrir-se para a fé e a espiritualidade, para o sentido último de nossa existência.

Como então me identificar? Sou de esquerda? Sim, sinto-me identificado com a tradição da esquerda, mas não sou marxista, ainda que sustente uma profunda admiração por Marx, Althusser, Gramsci e outros. Mas o marxismo analítico de Adam Przeworski, G. Cohen, E. O. Wright, Andrew Lavine, Jon Elster e Elliot Sober me parece muito mais sensato, razoável e empiricamente verificável.  Liberal de esquerda? Democrata de esquerda? Social-liberal? John Rawls, H. Arendt, Habermas, Raymond Aron, Giddens, Norbert Elias, Bauman. Tantas referências que considero boas! Pode ser liberal de esquerda ou, na verdade, tanto faz essas etiquetagens. O fato é que não sou um conservador, nem defendo “Estado mínimo”.

Penso que aprendi muito na tradição marxista. Os ideais do comunismo ainda hoje são legítimos. Quem não aprecia os ideias que fundaram a tradição marxista é insensível. Todo o anticomunista tem alguma coisa de desumano. Ainda que os resultados concretos das gestões públicas dos diversos partidos comunistas não tenham sido defensáveis em vários aspectos, como não reconhecer a nobreza de ideais que os forjaram?

O liberal Bruno Leoni reconhece a beleza e a ética do pensamento igualitário socialista, mas nos diz que o caminho para se chegar ao sonho não é a ditadura do proletariado, nem o gigantismo estatal. Realmente, os caminhos são outros. Leste Europeu, URSS e os diversos regimes socialistas que surgiram pós-1917 fracassaram e não se mostraram mais eficazes, mais democráticos e mais livres do que o capitalismo liberal e o Welfare State ─ com todos os problemas que estes também apresentaram/apresentam. Em outras palavras, a social-democracia e seu Welfare State esteve mais próxima do sonho igualitário de muitos comunistas do que o socialismo realmente existente (usando aqui essa expressão de José Paulo Netto).

Ditadura do proletariado? Não. Penso que não é pela “ditadura classista” no poder de Estado ─ que no socialismo real se transformou em ditadura burocrática da oligarquia do partido comunista ─ que chegaremos ao “reino da liberdade”, a uma sociedade dos iguais e de garantia do bem comum. Mais uma vez, considero que o Estado de Bem Estar Social esteve mais próximo dos sonhos de uma “riqueza socializada” com justiça e igualdade de oportunidades de vida para todos do que o socialismo estatista/coletivista do tipo marxista-leninista.

A “nova sociedade”, assim eu penso (ou deliro!) nascerá da conjugação criativa de cooperação, solidariedade, autonomismo, democracia e sustentabilidade associadas a um conjunto de políticas públicas governamentais que corrijam distorções graves do mercado e façam aquilo que os indivíduos não podem fazer (como segurança, escolas, creches, hospitais), garantindo justiça e um ponto de partida comum a todos. A economia não pode mais crescer desenfreadamente e de maneira predatória. É preciso pensar no futuro das espécies ─ incluindo os seres humanos como parte de um Todo ─ e até mesmo refletirmos sobre o decrescimento. Será que crescer, crescer e crescer a economia é a solução ótima? Desaceleração, conservação, vida simples. O menos pode ser mais.

Será esta, em minha utopia, uma “nova sociedade” pós-capitalista e pós-socialista. O nome que daremos a esta “outra sociedade” ─ que nasce dos escombros da velha e carrega algo dela ─ pouco importa, mas que seja livre e justa, solidária e fraterna, democrática e em rede.

O “sincericídio” de Marina: o anti-marketing de uma liderança política

Gosto de Marina Silva, como pessoa e como liderança política. Votei nela em 2014 no primeiro turno, ajudei na construção da Rede Sustentabilidade, sou filiado ao partido e considero que ela é o melhor nome/projeto para a presidência do Brasil em 2018.

Marina tem valores pessoais importantes: honestidade, caráter, compromisso com os trabalhadores e com a população socialmente vulnerável, inteligência e habilidade, promotora da paz, antipopulista, republicana, laica etc.

Sei bem que a “pretíndia” ─ como carinhosamente é chamada por Gil ─ não é propriamente de “esquerda” ou socialista (ainda que sua origem seja o Partido Revolucionário Comunista/PRC), mas sustenta posicionamentos progressistas e avançados em diversos pontos programáticos.

Na presidência, penso que ela pode ser um vetor importante para, em conjunto com o parlamento e movimentos sociais, colocar o Brasil em patamar mais avançado no interior da ordem global do capital. E na medida em que ela defende o paradigma da sustentabilidade, creio que o conflito da Rede/Marina com os interesses do mercado financeiro, do baronato de nossa atrasada burguesia industrial e dos poderosos latifundiários do agronegócio brasileiro será inevitável. Sua liderança poderá ajudar a unir o povo nessa empreitada socioeconômica e cultural, mas a linguagem não ajuda.

O problema, vendo a entrevista dela ontem — programa É NOTÍCIA da Rede TV — é que Marina Silva sofre de terrível “sincericídio” (suicídio político pelo uso de verdades que incomodam), contrariando o marketing populista de dizer coisas mais agradáveis e fáceis de compreender, preto ou branco. Marina fala uma linguagem que o povo não entende.

As massas querem A ou Z, mas Marina tenta explicar que no mundo existe um alfabeto de oportunidades, possibilidades e interpretações. Ela relativiza, problematiza, passa pela teologia, fala em psicanálise e projeção de Michel Temer, mergulha em conceitos como horizontalidade, democracia de alta intensidade, consenso progressivo, perdão e amor como motores da transformação sociopolítica etc. É bacana, nobre, bonito de se ouvir, mas quem entende isso, além de intelectuais, artistas e parte da classe média letrada? Tem a identificação por imagem. Ela é negra, cabocla, alfabetizou-se tardiamente, vem dos cafundós do Acre, sempre trabalhou muito. É a cara do povo brasileiro. Mas será que o povo gosta de se ver na tela da história? Joãozinho Trinta dizia que o povo gosta de luxo e não de pobreza ou simplicidade. Estaria o histriônico carnavelesco equivocado ou descobrira ele um dado social e psicanalítico importante de nossa brasilidade?

A quantidade de vezes que, na entrevista, ela assume “não sei” é algo que me toca. Admiro pessoas que dizem não saber. Esse humilde ceticismo evita arrogâncias exclusivistas, mas espanta a maioria das pessoas que necessitam de líderes messiânicos, cheios de certezas que possam servir de amparo para um ego danificado e frágil. A impressão que fica, para o senso comum, é de uma pessoa “indecisa” ou “utópica” demais, “fraca” e sem certezas. Os pragmáticos ficam tensos com suas falas, com sua escrita escorregadia e incerta, com suas metáforas e alegorias. Marina está mais para a Universidade e para o divã, como psicanalista, do que para a ação política de massas em país latino-americano. Ainda assim, tenho esperanças e assumo o risco. Quem sabe?

Apoio Marina e penso que seu “choque de capitalismo”, com base no paradigma da sustentabilidade, poderá mover, no médio-longo prazo, a locomotiva da história brasileira, abrindo brechas para múltiplas ações sociais onde, no limite, poderá emergir uma nova sociedade, outro mundo pós-capitalista.

É minha aposta, pois não acredito que sustentabilidade se conjugue pacificamente com o capitalismo de mercado e sua democracia oligárquica, tal como o conhecemos hoje. Vamos ver.

 

Clique aqui para ver a entrevista de 25 de janeiro de 2016 (REDE TV)

Eu estou com Jean

Na campanha de 2014 eu indiquei dois nomes para deputado federal. O combativo Wadih Damous, homem de esquerda, honesto e grande companheiro de lutas justas aqui no Rio de Janeiro. Outro nome foi o do meu querido Jean Wyllys, combativo defensor dos direitos humanos, assumidamente gay e socialista. O primeiro é [lamentavelmente, ainda] do PT (roxooo!) e o segundo é do PSOL. Nenhum dos dois pertencem ao meu partido, Rede Sustentabilidade. Minha indicação foi por conta da importância desses dois no Congresso Nacional, confio neles. Mesmo nas divergências – e não são poucas! – ambos são necessários para o avanço da “democracia” que temos.

 

Pois bem, recentemente começou uma nova campanha de difamação contra Jean Wyllys. Só mais uma, pois elas sempre surgem aqui e acolá. E constato, com tristeza, que continuarão. Só que dessa vez é “fogo amigo”. Surge de dentro da esquerda, por conta de uma visita do deputado à Israel e algumas postagens suas expondo algumas reflexões políticas, religiosas e pessoais.

israel e palestina 3

O alinhamento automático de parcela da esquerda com tudo que é anti-Israel logo o associou à direita israelense e suposto colaborador [indireto] do regime de Tel-Aviv. Outros tentam ainda intriga-lo com a justa luta do povo palestino contra o Estado de Israel governado pelos reacionários.  Nem um, nem outro para primar pelos fatos.

 

Jean Wyllys comete equívocos como qualquer ser humano (pode não parecer, mas ele não é deus!), mas nessa questão eu só vejo o exagero dos críticos.

 

Seria confortável para mim ficar calado e me omitir. “Que se danem! Eles que se atraquem”. Sei bem que não sou figura pública, não tenho fama e nem facebook com 50 mil pessoas. Minha opinião é importante para meia dúzia de gatos (e gatas!) pingados, se muito. Ainda assim, minha consciência me incomodou todos esses dias. Cheguei a comentar nas postagens de Milton Temer e fiz um comentário numa das postagens do Jean, mas me senti acovardado. Como ficar calado se Jean Wyllys é pessoa que admiro, que tenho carinho, que torço, que tenho como amigo (ainda que ele possa ter outra interpretação de mim) e ainda voto nele? Tá, ele andou vacilando com minha querida Marina Silva, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.israel e palestina

 

Jean Wyllys apoiou meu querido amigo [e atualmente vereador] dos tempos de UERJ, o sociólogo Jefferson Moura, em 2012. Minha amizade cresceu aí, pois já o admirava como militante da causa LGBT, da causa da liberdade humana.

israel e palestina 2

Então lá vai. Deixo claro que apoio Jean Wyllys. Estou com ele. Os ataques supostamente progressistas contra o deputado é, na verdade, uma reação de quem ignora a complexidade da questão palestina, em alguns casos, por certo fanatismo ideológico, passional (compreensível, até certo ponto). Mas há também os que fazem de má-fé, por ódio ao Jean ou por querer derrotá-lo politicamente. É possível que também tenha elementos de antissemitismo em alguns desses ataques. O ódio aos judeus tem longa história, infelizmente. Não são poucos os críticos de Jean Wyllys que, se preciso for, unem-se ao time de Bolsonaro para ampliar a tentativa suja de desconstruir um parlamentar fundamental para as causas justas desse país.

Por fim, deixo aqui o convite de Jean:

“(…) eu convido a esquerda brasileira que se solidariza com o povo palestino a abandonar a equivocada ideia do boicote a Israel – que prejudica um povo inteiro, detona as pontes e fortalece a direita e a extrema direita desse país – e começar a dialogar com a esquerda israelense. E quem puder visitar tanto Israel quanto a Palestina, como eu fiz, que o faça! A esquerda israelense luta pelas mesmas causas que nós e também é contra a ocupação dos territórios palestinos e defende a solução de dois estados. E há muitos ativistas palestinos e israelenses que trabalham juntos pela paz! Falar com eles ajuda a entender melhor e de fato um conflito sobre o qual muita gente no Brasil (e no Facebook) parece ter conclusões definitivas, mas pouca informação”. #EuEstoucomJean

 

P.S. Dr. James Green, da Universidade Hebraica de Jerusalém, questiona Paulo Sergio Pinheiro que atacou a visita de Jean Wyllys. Perceba como tem caroço nesse angu…

Clique aqui e veja o vídeo