Blog

Home/Blog/Beije minha lápide: uma bala na cabeça!

Beije minha lápide: uma bala na cabeça!

Quando aquela senhora se levantou, no meio do espetáculo, e saiu batendo forte os saltos altos, eu já sabia que o texto de Jô Bilac encenado por Marcos Nanini (Bala), Carolina Pismel (advogada de Bala que hesita com sua bissexualidade), Júlia Marini (filha do prisioneiro e lésbica) e Paulo Verlings (carcereiro e admirador) chocaria os mais conservadores. Por outro lado, o que alguém careta vai fazer numa peça cheia de referências ao dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854-1900)?

 Conheça aqui um pouco mais de Oscar Wilde

A platéia, que se transformou em cemitério e parte do próprio cenário sob a direção de Bel Garcia, oscilava entre o riso, a gargalhada e o espanto. Quando Bala, escritor gay e politicamente incorreto arria as calças para mostrar sua tatuagem íntima ao seu carcereiro (Paulo Verlings), eu tive a impressão que todos foram tomados de uma tensa expectativa: “ele não vai fazer isso”, mas fez! As gargalhadas irromperam o ambiente onde Bala parecia uma puta de Amsterdã.

beijeminhalapide 2

Nanini estava, em todos os sentidos, iluminado dentro da cadeia de vidro, depois de violar o túmulo de Oscar Wilde quebrando a barreira de proteção que evitava os constantes beijos com batom deixado pelos seus fãs ao longo do tempo. Aliás, sai-se da peça com imenso desejo de conhecer mais e melhor a obra e a vida de Oscar Wilde.

Não sou Barbara Heliodora — que partiu recentemente — e assumo que não tenho competência nenhuma para fazer crítica teatral, mas escrevo como expectador interessado. Nanini engoliu tudo. E todos. Seria proposital? Era esse o desejo do autor?

As falas provocavam-me profundas reflexões sobre a decrépita condição humana, sobre a hipocrisia social e a violência homofóbica, mas também sobre a arte de viver bem e não se transformar em parte do cemitério de vivos que é nossa sociedade de consumo e de jogos de aparência. O universo gay de Bala não é “doutrinação” barata, mas provocação sobre todos os amores humanos.

beijeminhalapide 3As referências à Wilde eram perceptíveis, mesmo para quem não é conhecedor do gênio rebelde. Por vezes, o clima parisiense da peça se confundia com a cena contemporânea brasileira, cheia de fundamentalismos religiosos e preconceitos disfarçados de bom mocismo higiênico. Bala alertava: “Há seres humanos que não valem um maço de cigarros!”. Quem discordaria?

 

 

Você precisa ir ao teatro para ver tudo isso, antes que ninguém beije sua lápide.

Veja aqui a entrevista de Marcos Nanini sobre o “Beije minha Lápide”: Nanini fala sobre a peça

Ficha técnica: Texto: Jô Bilac / Direção: Bel Garcia / Elenco: Marco Nanini, Carolina Pismel, Júlia Marini, Paulo Verlings e Pedro Henrique Moutinho (stand in) / Produção: Fernando Libonati / Cenografia: Daniela Thomas / Iluminação: Beto Bruel / Figurino: Antônio Guedes / Concepção e direção de vídeo: Julio Parente e Raquel André / Videogrbeijeminhalapide 4afismo: Júlio Parente / Trilha sonora: Rafael Rocha / Design gráfico: Felipe Braga / Assessoria de imprensa: Factoria Comunicação / Fotografia: Cabéra / Visagismo: Ricardo Moreno / Visagismo Marco Nanini: Graça Torres / Assistente de direção: Raquel André / Coordenação e gestão de projetos: Carolina Tavares / Direção de produção: Leila Maria Moreno / Produção executiva: Monna Carneiro / Assistente de produção: Gutemberg Rocha e Glauco Lopes / Realização: Pequena Central / 80 min / (RJ)

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
Gostou do artigo?
Assine a newsletter e receba as novidades em primeira mão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>