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Ando meio café sem açúcar

 

Se há uma coisa que me deixa triste e irritado é café sem açúcar. Sei que a onda saudável recomenda café puro ou com mascavo, adoçante e/ou orgânico, mas eu sou das antigas. Gosto mesmo é do café melado e suave. Alegra-me.

Ando melancólico como café sem açúcar. Alguns podem psiquiatrizar isso com a etiqueta de “depressão”, mas tenho cá minhas dúvidas. Numa cultura pós-moderna onde se valoriza tanto o sucesso, o desempenho, a beleza estética, o dinheiro, o ter-coisas, qualquer pessoa que problematize isso será encarada como “perdedora” ou “depressiva”. Não é verdade.

Foi-se o tempo em que tínhamos espaço para os vazios reflexivos, para a crítica social profunda, para a melancolia — dolorosa e criativa — e seus devaneios existenciais. Hoje, tudo isso parece chato e fora de lugar. Legal é livro de “auto-ajuda”, beber para sorrir, manter obsessivamente o “pensamento positivo”, sufocar Thanatos com um Eros enlouquecido.

A melancolia vê o cinza ou o escuro que nos negamos a ver no turbilhão de coisas por fazer, perdidos que estamos no lesco-lesco tumultuado do cotidiano. Claro que há seus exageros (e podem dar origem a depressões crônicas ou mesmo tendências suicidas), mas a velha melancolia pode proporcionar um olhar crítico que por vezes falta ao senso comum. Uma percepção mais profunda, para além do “sorria, você está sendo filmado”.

A vida é bela, sim, eu sei. Mas sua beleza está justamente na sua inteireza, o que não exclui seus momentos perigosamente baixios, as depressões do relevo da existência humana. S. Freud e C. G. Jung, respeitando as diferenças entre eles, perceberam a riqueza que há na melancolia.

Com tudo isso, quero aqui defender o direito de estar melancólico como parte constitutiva do humano. A sombra de nós mesmos é algo que nos pertence e que nos esclarece muito do que somos e do que desejamos. Precisamos ouvi-la. Ela tem muito a nos dizer, pois “não haveria a luz se não fosse a escuridão”, como canta Lulu Santos. Somos uma mistura de medo e desejo.

 

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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