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Amo ou odeio minha mãe: sobre o mito feliz do dia das mães

A base de nossa saúde mental começa lá atrás. Como bebês, tivemos uma mãe suficientemente boa? (Santos, 1999 ) Dependendo desta resposta, compreenderemos por que você ama ou odeia o “dia das mães”, para além dos problemas da perda. No meu caso, desde que minha mãe faleceu em 1997, vitimada pelo câncer, todos os dias das mães são difíceis pela saudade, mas agradáveis pelas boas lembranças de minha mãe.

Todos os bebês dependem de uma pessoa adulta que esteja genuinamente preocupada com ele — Lacan dizia que o nosso maior desejo é ser desejado pelo Outro. Uma pessoa que dispense todos os cuidados necessários, ajudando-o a se adaptar ao mundo da vida/externo, criando um ambiente favorável para que a extrema dependência do bebê se transforme gradualmente (transição) em independência. Esta é uma etapa extremamente delicada, pois dependendo de como as coisas irão se desenvolver teremos um adulto saudável ou psicótico (Santos, 1999 ) e, consequentemente, as manifestações de amor/ódio à mãe.

O psicanalista Winnicott (1947-1978) não pensa que uma “mãe suficientemente boa” seja uma reprodução do mito perfeito da Virgem Maria. Não há aqui nenhum moralismo ou construção de padrões utópicos. Apenas assinala os cuidados essenciais que uma mãe deveria ter para que seu bebê se desenvolva emocionalmente saudável: apoio, proteção e aceitação ou, nas palavras de Winniccot, “holding”, “handling” e “apresentação de objetos”.

O holding é a “sustentação” dada pela mãe a criança, tais como a firmeza, a amamentação, o carinho e diversas outras ações de satisfação. Handling é a cuidadosa manipulação do bebê pelas mãos da mamãe, gerando um prazeroso contato físico entre a dupla que dará as primeiras noções corporais ao bebê. Por último, na apresentação dos objetos, a mãe, com todas as suas qualidades, apresenta-se como substituível através de novas maneiras com que a criança irá se esforçar criativamente para agir dentro do ambiente, tal é o brincar (Lobo, 2008).

É por isso que podemos dizer que há mães de vida e mães de morte. Se Winnicott fala, em 1947, das vinte razões pelas quais uma mãe pode odiar o seu bebê, podemos também pensar nas diversas razões de um adulto odiar sua mãe (Santos, 1999 ).

A formação de um ego danificado e de um mundo interno cheio de medos, inseguranças e assombrações paranóicas (Winnicott, 1990), forjados pelas falhas de uma “mãe insuficientemente boa” que não deu o devido apoio, nem a proteção necessária ou as carícias que sua criança precisava e, para piorar o quadro, não o aceitou plenamente como seu filho, sua filha, seu bebê, são conseqüências de um desenvolvimento psíquico-emocional deficitário. O adulto sofre e, no dia das mães, estas questões retornam, para o bem ou para o mal.

Ainda que a mãe já tenha falecido, estas “marcas” ficam. Nesse sentido, as mães não morrem, são eternas, pois permanecem em nosso psiquismo.

Nesse dia das mães, precisamos ser compreensivos com aquelas e aqueles que não conseguem expressar amor pela mãe. Cada um sabe de suas dores, dissabores e feridas narcísicas. Também é um dia singular para começarmos a entender que as mães não são “anjos de Deus”, seres perfeitos, mas pessoas que acertam-erram como nós. “São crianças como você”, cantava Renato Russo.

Parabéns para todas as mamães!

 

Parabéns para todas as filhas e filhos que amadureceram com suas mães ou que conseguiram superar os danos causados.

 

Mães e filhas/filhos: não culpem, nem se culpem, apenas cresçam.

 

Bibliografia

Lobo, S. (2008). As condições de surgimento da “Mãe Suficientemente Boa” . Revista Brasileira de Psicanálise v.42 n.4 São Paulo .

Santos, M. A. (1999 ). A constituição do mundo psíquico na concepção winnicottiana: uma contribuição à clínica das psicoses. Psicol. Reflex. Crit. vol.12 n.3, Porto Alegre .

Winnicott, D. W. (1990). Natureza humana. Rio de Janeiro: Imago.

 

 

 

 

 

 

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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