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A Rede no interior da Matrix pós-industrial consumista: resistência e refúgio de almas inquietas

Nesse artigo abordo o encontro do Rio de Janeiro, a insustentabilidade do capitalismo financeiro e de consumo, a proposta da Rede Sustentabilidade de criar um antidiscurso (desconstrução da desmobilização) na maré de ódio aos políticos e partidos da ordem e termino com uma aposta no futuro de um Alien queer. A fratura entre as massas e o sistema de representação é nosso desafio. Sucumbiremos ou seremos um ponto de revolta no interior da Matrix. Se desejar, tome a pílula azul e siga-nos nesse texto e na vida, criando novos elos, novas conexões possíveis.

 

O encontro do Rio:

 

No sábado, 15 de agosto, tivemos uma importante plenária da Rede Sustentabilidade no estado do Rio de Janeiro. Esteve presente no histórico Teatro Teotônio Vilela (Universidade Cândido Mendes) diversos filiados da capital e de outras cidades: Baixada Fluminense, Niterói e interior.

 

A pauta do encontro estava marcada por uma bricolage entre temas da burocracia partidária (reforma do estatuto, finanças, planejamento de comunicação, formação de grupos de trabalho, legalização do partido etc.) e debates políticos, tais como a crise da representação nas atuais poliarquias ou ‘formas democráticas’ (Dr. Hylton Luz foi ao ponto), a necessidade de um novo ciclo pós-redemocratização e pós-PT que venha a refundar a República em novas bases (Jefferson Moura estava olhando as grandes linhas da história) e a maquinaria ideológica conservadora antipetista que fabrica diversos aspectos da chamada “crise econômica e política” do Governo Dilma (Miro Teixeira, decano do Parlamento brasileiro, tinha o olhar da malandragem dos jogos de interesse intra-elites).

rolezinho

O “impeachment já” de domingo e as “marchas contra o golpe” são simulacros de disputa, faces de uma mesma moeda. A agonia dos projetos societários do desenvolvimentismo insano. Crescimentismo anacrônico. Ambos querem ordem e progresso, mas o caos está triturando-os com os dentes. As massas se divertem nas esquinas, nos pacotes combo de TV/Internet e nos shoppings.

 

Pedro Ivo, representando a Executiva Nacional da Rede, ficou responsável pela (in)formação ideológica: sustentabilidade, esquerda, direita, ética partidária, eleitoralismo e programa, horizontalidade, crise civilizatória etc. Cearense, ex-dirigente do clandestino Partido Revolucionário Comunista (PRC, já extinto), sacudiu a galera com bom humor, simplicidade e frases bombásticas. “Quem é homofóbico não pode ser sustentabilista progressista, não pode ser Rede”. Os neoconservadores piram!

 

Agora é preparar o 2° Congresso da Rede Sustentabilidade/RJ, garantir que o “partido” — na verdade, é uma rede de múltiplas conexões sem centralismo — não seja invadido por oportunistas em busca de uma legenda somente para disputar as eleições municipais de 2016 e articular os pontos centrais das diretrizes gerais de um PROGRAMA DE GOVERNO SUSTENTÁVEL[i], respeitando as vocações/problemáticas regionais e o contexto econômico, social, cultural e político de nosso estado. Nesse sentido, o programa de governo construído pela Rede, PSB, PPS e o antigo MR-8 no ano passado poderá servir de ponto de partida.

 

A insustentabilidade crônica do capitalismo financeiro e de consumo:

 

Faço aqui uma leitura pessoal disso tudo. Quero meter minha colher para sugerir algumas linhas de reflexão para aquelas e aqueles que se interessam pelo futuro da Rede Sustentabilidade e, mais grave ainda, pelo futuro da sociedade brasileira, imersa na globalização e na fratura do social.

catastrofe ambiental

Não quero aqui martelar no discurso típico da catástrofe ambiental que se avizinha. Sei que muitos já fazem isso, enquanto a oligarquia política continua brincando de “esquerda” e “direita”. Christopher Lasch cita Richard Falk: “O grande risco de um raciocínio apocalíptico é que a mesma extensão que convence, também imobiliza”[ii]. Claro! Se todos nós estamos caminhando para a catástrofe, “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Salve-se quem puder. Um neoindividualismo de sobrevivência, mínimo eu, narcísico, sem esperança e focado no imediato. Consumir, ter, beber, drogar-se, curtir a vida – nem que seja roubando – antes que tudo se acabe com o Apocalipse que virá. Desmobilização do social e da política com apoio de fluoxetina.

 

As massas assistem, e quando assistem,  — na TV ou em pequenos vídeos no YouTube — o “show da política”. Preocupadas em sobreviver no mês seguinte, descolada dos partidos políticos e dos eleitos/representantes, com índices cada vez mais altos de abstenção (não-comparecimento, voto em branco e voto nulo), elas, no máximo, dão gargalhadas diante do espetáculo, transformando tudo em piada de botequim, cientes que estão dos muitos elementos de simulacro, cafajestagem e mentira. É o circo da atual democracia representativa.

 

Políticos e partidos tornam-se apenas marcas de sabonete, avatares, signos, todos intercambiáveis, “farinhas de um mesmo saco”. Tanto faz PSDB, PT, PMDB ou aquele candidato da Igreja Universal do Reino de Deus. Para as massas,

 

“o jogo eleitoral se identifica há muito tempo aos jogos televisados na consciência do povo. (…) O povo tornou-se público. É o jogo, o filme, [as novelas] ou os desenhos animados que servem de modelo para a percepção da esfera política. (…) As massas despolitizadas não estariam aquém da política, mas além da política”[iii].

 

Lançar a Rede na maré de ódio aos políticos e partidos:

 

Essa fratura social entre as massas – se preferir, use no lugar a ideia de multidões – e a representação política é algo de que a Rede Sustentabilidade, desde suas origens, vem gritando no deserto, como um Isaías pós-moderno. Israel não ouve! Já denunciava essa fratura ainda como Movimento de Nova Política (MNP), nascido após a campanha eleitoral de Marina Silva em 2010 – na época, dentro de um partido ficcional/cartorial, conhecido como “Partido Verde”. Continua denunciando, agora já como Rede, fundada no encontro de fevereiro de 2013 e vivendo ativamente na clandestinidade jurídica-formal.

odio aos politicos

A fala da Rede Sustentabilidade é um paradoxal “berro bem educado” que não chega até as massas, nem como eco, apenas como ícone: Marina Silva! A mulher negra, pobre, ex-empregada doméstica, analfabeta que tardiamente acessou a escola, sindicalista da floresta, evangélica e de aparência frágil, mas firme em convicções e com preocupações éticas consideradas pelas oligarquias políticas tradicionais uma perfumaria, “coisa de sonháticos”, babaquice de quem não deseja realmente o poder. Mais uma na Rede, a liderança de Marina é antiliderança. Negando-se a cumprir com as demandas das massas por um salvador, um sassá mutema autoritário que possa dizer qual é o futuro correto, ela flutua aqui e acolá com discursos que desconcertam a necessidade de encaixá-la na oposição ou no dilmismo compulsivo, remetendo-nos para a nossa responsabilidade autoral.

 

Esse discurso da Rede — e, por vezes, vocalizado pela Marina Silva — de desconstrução do velho modus operandis do populismo autoritário e oligárquico consegue criar interlocução, de forma mais orgânica, com setores das camadas médias da sociedade bem escolarizada, intelectuais, estudantes, libertários, “descolados”, ambientalistas e militantes progressistas da fé (de evangélicos de esquerda ao Santo Daime). Não é por acaso que Marina alcança grandes votações nesses territórios. É aí que cabe uma articulação dos fragmentos para que em rede a mensagem seja multiplicada. A pauta geral poderá surgir dessa operação que refaz os ligamentos sociais a partir dos diversos e dispersos “núcleos opressivos” (mulheres que sofrem com o machismo e a exploração econômica, negros que enfrentam dificuldades de mobilidade social por conta do racismo histórico, LGBTs que sofrem preconceitos e violência dentro de uma cultura heteronormativa, índios que são expulsos de suas terras, camponeses que precisam trabalhar na terra, desempregados urbanos, evangélicos que sofrem com o coronelismo de direita e o “voto de cajado”, pessoas com transtornos psíquicos que sofrem preconceitos e ausência de políticas públicas etc.).

queer

A Rede poderá ser uma alavanca ou fonte alimentadora de sentido desses novos movimentos de conexão dos fragmentos. Não andará ela na vanguarda, pois todas fracassaram na condução do “povo-gado”. Não há mais condução possível para quem se propõe libertação. Poderá sim, sem a arrogância de porta-voz da iluminação, juntar-se às lutas sociais e facilitar o ajuntamento de pessoas e organizações vivas da sociedade. Não será fácil, pois a fratura entre o social e o político é imensa. As massas desertaram da ação política – se é que um dia esteve. Por outro lado, “na luta pela emancipação não são as culturas em suas identidades que se dão as mãos, são antes as partes recalcadas, exploradas, condenadas ao sofrimento, as ‘partes de parte nenhuma’ de cada cultura que se juntam em uma luta partilhada”[iv].

 

A aposta de Zizek na unidade das franjas excluídas pelo sistema de opressão (ele chama de “luta partilhada”) se confunde aqui com a fé e com o axioma de credibilidade de Baudrillard[v]. Estamos supondo que as massas ainda são permeáveis a algum discurso e ação, ou seja, a fratura não se transformou em antagonismo irreconciliável. O jogo é possível, com todas as barreiras. Realmente, há que se ter fé, pois o quadro societário é desanimador. Sabemos, desde Karl Marx e F. Engels, que as massas são formadas por “indivíduos isolados que vivem no seio de relações que diariamente reproduzem o isolamento”[vi]. A pós-modernidade esquizocapitalista apenas aprofundou isso até produzir um excedente que se derrama como narcisismo doentio, paranóico e antissocial, cultura do sobrivencialismo, designificação dos sindicatos, partidos e movimentos sociais.

ecumenismo1

Daniel Bell, sociólogo norte-americano, apostou na religião como uma saída possível para refazermos laços sociais/comunitários danificados, um refúgio de sentido no esvaziamento do sentido causado pela hiperfragmentação pós-moderna[vii]. Talvez, mas não deixa de ser cômico que depois de tantas lutas contra a “ignorância das religiões”, empurranda que foi para fora da esfera pública com o laicismo, pensemos agora nelas como um dos caminhos possíveis da resistência.  Se assim for, a Teologia da Libertação teria alguma razão em sua busca de conexão entre fé e ação política. Rubem Alves e Leonardo Boff ainda mereceriam nossa leitura atenta. Por outro lado, os extremistas muçulmanos indicariam um caminho de repolitização da vida? Como ficariam as religiões de consumo que hoje proliferam cooptadas pelo mercado? O tema é complicado, mas deve ser enfrentado.

 

O Alien queer:

 

Diante do ódio aos políticos e do sentimento popular de que a política é algo criminoso e abjeto (e é isso que o público-eleitor assiste com “mensalão”, “petrolão” e outras hipérboles do banditismo de gravata), a Rede precisará afirmar, com Lasch, que “a ação política continua a ser a única defesa efetiva contra o desastre”[viii] da vida humana, dos projetos de emancipação e bem-estar social. Contra o crescimento esquizofrênico dos mercados capitalistas que multiplicam a pobreza, a opressão e os danos socioambientais, a Rede terá que manter-se como um ponto de contradição nas engrenagens do sistema, uma mosca que cairá na sopa da Kátia Abreu e do triunfalismo maníaco do agrobusiness.

alien

Ainda que “a força opositora do socialismo [tenha sido] neutralizada, um sistema capitalista deveria reinar inconteste? Acredito que não”[ix], portanto, em rede poderemos construir outros caminhos para além das velhas ideias — defendidas tanto na esquerda como na direita — de progresso ininterrupto, produtivismo, democracia representativa, desenvolvimentismo predatório, crescimentismo e inúmeras (e estúpidas) falácias do espantalho (“guerra às drogas”, “defesa da família papai-mamãe-filhinhos”, “lei contra o terrorismo”, “presidencialismo de coalização” etc.).

 

A Rede Sustentabilidade nasce com fé, entendida aqui à maneira do teólogo luterano Paul Tillich. Uma fé que é aposta frágil e não certeza absoluta do tipo tecnocientífica. Resta saber se o deserto do social irá devorá-la ou se o pragmatismo imoral de uma oligarquia política esclerosada irá transformá-la em mais uma organização do simulacro político, um pastiche de utopias libertárias do passado. Há quem diga que sim, que a Rede “sonhática” sucumbirá diante da “realpolitik”. Eu aposto que a Rede será um Cavalo de Tróia e, se for assassinada pela acomodação sistêmica à Matrix, poderá ressuscitar de outras maneiras, com outros nomes, em outras territorialidades. É um queer político e também um Alien. “Uma força estranha no ar”. Muitos não entendem, nem entenderão.

 

 

 

[i] É óbvio que isso é louco e paradoxal. Como poderemos gerir um governo de forma sustentável na insustentabilidade de uma sociedade pós-industrial de consumo doentio? O desafio será trabalhar nas fendas sistêmicas até sua ruína completa. O novo nascerá dos escombros dessa velha ordem. Cuidemos com zelo de sua cremação que carregará parte de nós mesmos. A ideia aqui não é de uma revolução — nos moldes modernos da guerra de movimento, como chamou Gramsci — mas de uma implosão contínua, lenta e angustiante. A metástase do político e do social está aí. Basta ver.

 

[ii] LASCH, Christopher. “O mínimo eu: sobrevivência em tempos difíceis”. 3ª edição – São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 11.

 

[iii] BAUDRILLARD, Jean. “À sombra das maiorias silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas”. 3ª edição – São Paulo : Brasiliense, 1993, p. 34-35.

 

[iv] ZIZEK, Slavoj. “Violência: seis reflexões laterais”. 1ª edição – São Paulo : Boitempo, 2014, p. 126.

 

[v] BAUDRILLARD, p. 34.

 

[vi] MARX, Karl e ENGELS, F. “A ideologia alemã”. São Paulo : Centauro, , 1984, p. 81.

 

[vii] SANTOS, Jair Ferreira dos. “O que é pós-moderno?”. São Paulo : Brasiliense, 2000, p. 85.

 

[viii] LASCH, p. 11.

 

[ix] GIDDENS, Anthony. “Para além da esquerda e da direita: o futuro da política radical”. São Paulo : Unesp, 1996, p. 20.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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Uma resposta para “A Rede no interior da Matrix pós-industrial consumista: resistência e refúgio de almas inquietas”

Hylton Sarcinelli Luz said On 18 agosto 2015 Responder

Parabéns Márcio pela interessante reflexão sobre o momento atual das múltiplas crises que envolvem a política e a sociedade. Por pontuar sobre as perspectivas da Rede Sustentabilidade em seu projeto de organização horizontal, participativa, sustentabilista, inclusiva e expressiva da diversas de ideias e olhares. Dos olhares que avistam possibilidades para um futuro distinto, que seja nutrido pela esperança, este elemento vital que hoje se esvai pelas mãos do, que muito bem nominou, de “esquizo capitalismo”. Deixou clara a necessidade de uma organização motivada pelo desejo de atravessar o samba e almejar um diálogo com luzes que emanam do amanhã. Muito bom.

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