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A paciência democrática de Przeworski e os 70% contra Dilma

Desde abril, os números da pesquisa CNI-Ibope não mudaram significativamente. O governo Dilma é considerado péssimo ou ruim para 70% dos brasileiros contra 10% que o avaliam como ótimo ou bom. Nada menos que 78% dizem não confiar pessoalmente em Dilma.

Este quadro de agonia política, paralisia legislativa e da própria gestão pública arrasta-se. O pedido de impeachment foi aceito por Eduardo Cunha, mas ainda não convenceu o povo. Há um clima de desesperança e apatia. Tirar Dilma para colocar quem? Quando sabem que é Michel Temer, do PMDB, alguns fazem o sinal da cruz. Creioemdeuspai! Dizem que o PMDB não é um partido, mas uma empresa que vende governabilidade para qualquer governo, de qualquer ideologia.

Se vivêssemos em algum tipo de parlamentarismo, o governo da aliança PT-PMDB já teria caído por falta de maioria. No presidencialismo de coalizão (ou cooptação?), o Congresso fica paralisado e tem poder para imobilizar o governo que, desmoralizado e sem maioria, patina sem rumo. O povo assiste a tudo bestializado. Que fazer?

A operação Lava-Jato avança. Cunha parece próximo da queda, mas resiste. Irá abrir o bico? Ninguém sabe, nem sobre Delcídio, enquanto o todo-poderoso Renan Calheiros sobrevive, calado, na beira do rio.

O processo contra a chapa Dilma-Temer segue no TSE, mas só depois do recesso. Será que haverá cassação? Pode ser, mas seria uma solução duríssima, traumática, talvez, necessária se as provas apontarem nesse sentido. No presidencialismo – e esse é um dos graves problemas desse modelo – somos quase obrigados a engolir um erro durante quatro anos, mesmo que todos se arrependam disso, mesmo que inúmeros fatos e as crises coloquem em dúvida a qualidade da gestão da coisa pública. Vamos debater o recall? Não, este não é um bom momento. Tudo vira “golpismo”.

É óbvio que não podemos impedir um presidente só porque pessoalmente não gostamos dele ou dela, ou porque as pesquisas dizem que o povo não o deseja mais no governo. O buraco é mais embaixo. Como diz Adam Przeworski, a democracia é um regime para pessoas pacientes. Norberto Bobbio, de forma semelhante, enfatizava a importância das normas e procedimentos que garantem a serenidade do processo histórico-democrático. O ritmo é lento, mas é melhor assim do que a pressa revolucionária que tudo atropela.

Pessoalmente estou cético. Quando vejo a maioria conservadora aninhada no movimento pró-impeachment, não me sinto em casa, nem convencido pelos argumentos que apresentam. Quando olho para o outro lado e vejo os defensores de Dilma, a CUT, a UNE, os “movimentos sociais”, especialmente os “esquerdistas de voto crítico”, fico entediado com o papo furado “contra o golpe da direita”, como se a direita não estivesse apoiando o governo petista desde 2003.

Sigo torcendo pelas investigações e pela democracia, equidistante do governismo e do “impeachmismo”, sonhando com outro Brasil.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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2 respostas para “A paciência democrática de Przeworski e os 70% contra Dilma”

Marcelo Monteiro said On 15 dezembro 2015 Responder

Vou te seguindo, caro Márcio – na falta de interlocutores aqui onde moro. Chamo atenção ainda para dois fatores: O dano de todo o período Lulista à esquerda brasileira, que por outro lado precisou deste choque para acordar. A Eliane Brum escreveu sobre isto no El País. Muita gente de esquerda ainda não acordou, ou se recusa a admitir. Teima como criança ou como quem acostumou-se a viver no conforto das justificativas ideológicas. Mas e se o Lula for preso? Se o PT for extinto? (são possibilidades reais). Outro ponto a lembrar é que em um país mais sério, um presidente não permaneceria nestas condições. É verdade que muitos presidentes ruins ficam até o final, mas não com denúncias e evidências de corrupção na campanha, escândalos financeiros e crise econômica ao mesmo tempo. Não, caro Márcio. Isso não acontece nos países presidencialistas – me arriscando de falar deste modo com alguém que entende mais que eu. Mas ou o presidente renuncia – daí a importância do primeiro ponto que eu levantei ou arruma-se algum modo de tirá-lo. O impeachment pode não ter argumentos tão fortes. Mas é o jeito. Al Capone foi preso por sonegar imposto. Mas todos sabiam o que ele era. Foi um caso paradigmático – em democracias é preciso seguir as leis. Mas nada te impede de usar as leis para um fim maior.

Marcelo Monteiro said On 15 dezembro 2015 Responder

Não sei se ficou claro: o PT deveria favorecer a renúncia para evitar o seu fim. Creio que já é tarde demais para isto. Vários articulistas já caracterizaram o PT como suicida.

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