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A navalha na carne

O papel da oposição é fundamental nas democracias ou poliarquias. Durante o governo do Partido da Social Democracia Brasileira (1994-2002), o Partido dos Trabalhadores (PT) fez uma oposição dura e inegociável, por vezes extremamente radical, mas o saldo foi positivo para os brasileiros. Naquele período, o PT fiscalizava o governo FHC, denunciava tudo àquilo que considerava suspeito e fornecia informações relevantes para os cidadãos fazerem juízo sobre a situação e o bloco político que estava no poder, com isso, os petistas cumpriam seu papel de oposição.

Hoje, o PT está completando 12 anos no comando do Executivo em Brasília e pela primeira vez enfrenta uma oposição forte, legitimada com milhões de votos nas últimas eleições. Qual é o papel do PSOL, PSDB, PSB, DEM e PPS? O mesmo papel que o PT tinha na “Era FHC”: fiscalizar, denunciar coisas suspeitas e fornecer informações para os cidadãos.

O problema que surge é que o PT não estava acostumado com oposição — convenhamos, o PSDB e o DEM foram frágeis durante os anos anteriores e o PSOL sempre foi pequeno. Já o partido de Lula era a oposição por excelência, desde 1980. Agora, como “vidraça”, reclama do tal “terceiro turno” das eleições. Até mesmo o Lula disse que “parece que as eleições ainda não terminaram”.

É claro que o processo eleitoral de 2014 se encerrou e com vitória apertada para Dilma Roussef (PT). Lula sabe disso e está preocupado com 2018. A questão central não é nenhum “terceiro turno”. O governo petista, fascinado pela busca de uma hegemonia que não tem, aparenta dificuldade com as regras do jogo democrático e considera “intolerável” o papel democrático das forças de oposição, sejam elas à esquerda do seu governo ou à direita. Quem critica é “pessimista”, “antipatriota”, “coxinha”, “reacionário” etc. É o Brasil do “ame-o ou deixe-o” de triste memória nos anos de chumbo, ideologizando com marcadores negativos aquelas e aqueles que criticam o governo.

As forças políticas de oposição — em especial o PSOL, PSDB, PPS, DEM, PSB — devem cumprir seu papel político que é típico em todas as democracias, como vem acontecendo. Os esquemas de corrupção que ligam grandes empreiteiras com a Petrobras, além de outros esquemas que podem estar implantados nos Correios, Eletrobras etc. devem ser apurados com o máximo rigor pelo accountability horizontal, como Ministério Público e Polícia Federal. Estes não pertencem ao governo Dilma, mas são setores do Estado com autonomia para investigar e punir, inclusive, os agentes públicos. Além disso, a pauta econômica precisa ser debatida com clareza, evitando manobras governistas que ocultam os problemas graves que atravessamos.

Se a presidente Dilma e a base aliada no Congresso tem real interesse na investigação desses casos de corrupção, “doa a quem doer”, basta não impedir os trabalhos da CPI, apoiar os processos de investigação em curso e parar de “chororô” contra a oposição. Os cidadãos querem e precisam saber a verdade sobre a corrupção de sua elite política e seus bilionários corruptores. E isso pode acelerar o processo de reforma política que está engavetado faz muitos anos.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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