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A minha fé é uma farofa divina? Pequena apologia de um cristianismo herege

Vez por outra alguém comenta comigo:

 — Marcio, eu te acho confuso. Qual é mesmo sua religião?

Eu sempre começo com um sorriso no canto da boca. Não é deboche. É porque eu já tive que responder isso inúmeras vezes. Hoje ainda, com mais de 40, não consegui ser compreendido. Uns poucos me entendem. A maioria me olha como estranho que gosta de andar com uma cruz pendurada no pescoço.

Pois bem, eu tentarei me explicar. Devo fazer isso? Talvez não, mas quero fazer isso. Quem sabe, a última vez. Começarei com o meu contexto familiar. Se não gosta de textos longos, convido você a abandonar esse aqui.

Eu fui criado com minha mãe Sueli e minha avó Maria. A maior parte da minha infância eu convivi com casa cheia. Pobre se amontoa como pode. Era assim na casinha do Engenho de Dentro.

A minha avó Maria veio do interior do Rio de Janeiro, de Campos. Era muito católica, devota de Nossa Senhora do Carmo, e desconfiada dos “bíblias” – os crentes naquela época eram chamados assim. Para vovó, os “bíblias” e os vendedores do Carnê do Baú da Felicidade mereciam distância defensiva.

Já minha mãe, sofreu essa mesma influência católica, mas chegou a conhecer a Igreja Batista quando esteve muito doente, antes de morrer. Logo retornou ao seio da Igreja de Roma. Morreu na Igreja, com os vicentinos. Desconfiava de “coisas espíritas”, ainda que não desacreditasse de todo. Tinha uma esperança de que essa vida espiritual fosse verdadeira.

Sabe como é católico popular brasileiro. A minha avó acendia todas as segundas, velas para os que já partiram. Aliás, ela quase obrigava todos os filhos e filhas a fazerem o mesmo, sempre debaixo do tanque, do lado de fora da casa. Eu via aquilo com muita seriedade e senso de sagrado. A vovó tinha certeza de que os mortos estavam vivos e precisavam das nossas rezas e orações. Ela fazia. Meus tios faziam.

Sempre às 18 horas, todos ouviam pelo rádio a Ave Maria e colocava-se um copo com água. É água de Deus. Todos bebiam depois da reza com reverência. Naquela época, as rádios colocavam a Ave Maria. Até nos mercados se ouviam. As pessoas faziam o sinal da cruz, no mínimo. Outros tempos.

Quando mais crescido, comecei a entender melhor as conversas religiosas da família. Todos eram católicos, mas como Nossa Senhora andava sobrecarregada de pedidos, por vezes, faziam uma visitinha ao preto-velho. Vovó Maria, vez por outra, ia resolver assuntos complexos na Tenda Umbandista lá para as bandas de Niterói e São Gonçalo. Depois, passou a resolver num terreiro do Engenho de Dentro, na Rua Dr. Bulhões. A minha mãe, meus tios e tias, tinham também seus cantinhos para resolver causos mais complicados. É que Nossa Senhora trabalha demais. Como poderá ouvir e resolver tantos pedidos sem a ajuda dos pretos-velhos?

Eu admirava esse mundo mágico onde as coisas podem se combinar, sem exclusões. Ninguém precisava abandonar a Igreja para socorrer-se nos espíritos dos ancestrais, afinal, eles apenas recomendavam rezas, benzeduras e velas. Creio que meu ecumenismo radical nasceu nesse ambiente familiar de respeito à diversidade do Sagrado.

Quando vovó Maria ficou doente demais, começou-se a apelar para os “bíblias”. Eles prometiam, no rádio, fazer milagres e curas impossíveis em nome de Jesus. Lembro-me de mamãe levando vovó na Casa da Benção, uma igreja pentecostal em Quintino, bairro próximo ao Engenho de Dentro. Achava estranho pagar para entrar, mas é o que a minha memória infantil registrou. Mamãe dava alguma “oferta” e entrava. Sentávamos todos juntos para o culto de cura e libertação. Eram muitos gritos. Não estava acostumado a isso. Religião me parecia silêncio. Tentou-se o milagre, mas vovó não alcançou a cura. Faltou fé, dirão os neopentecostais. Ela se resignou com Nossa Senhora do Carmo e os conselhos do além. Seus filhos e filhas também, pois nenhum deles virou crente.

Eu tinha me mudado para o bairro Abolição, bem pertinho do Engenho de Dentro. Lá descobri uma coleção de revistas no quarto da empregada – que foi embora, pois não tínhamos dinheiro para pagar nem mesmo nossas contas. Eram revistas das Testemunhas de Jeová e com elas eu aprendi a gostar da Bíblia. Comecei a ler. As revistas e a Bíblia. Eu estava terminando o primário no Colégio Maranhão, na Rua Adolfo Bergamini.

Com a vovó, ainda lembro o quanto eu rezava, sozinho, na Igreja de São José, em frente à estação de trem do Engenho de Dentro. Jogava bola no campo ao lado, mas rezava. Olhava maravilhado para as imagens e me sentia na presença d’Ele.

No começo da minha adolescência, uma amiga de minha mãe chamada Taninha, me apresentou textos espíritas. Psicografias de médiuns e textos de Allan Kardec. A minha mãe não gostou disso. Taninha era libertária demais. Na década de 1980 militava pelo Partido Verde, amava Gabeira, freqüentava Espiritismo e Umbanda, era separada e criava seus dois filhos. Não tinha preconceitos sexuais e conversava comigo de forma madura. Tornei-me seu companheiro e adorava ficar em sua casa conversando e tomando café. Dois assuntos. Religião e política.

O meu pai era esotérico. Frequentava a Sociedade Brasileira de Estudo do Eu – chamada Eubiose – e, vez por outra, levava eu e meu irmão Hugo para alguns eventos públicos. Lembro-me de Minas, São Lourenço, um grande culto esotérico. Saí de lá com um livro de Krisnamurti. Aos pés do Mestre. Voltei de ônibus com meu pai e meu irmão lendo esse livro. Lindo.

Depois disso, meu pai teve algumas decepções e reencontrou-se com Deus numa Igreja evangélica pentecostal e hoje participa da Ciência Cristã. Seguiu outros rumos. Sempre desejou que nós o seguíssemos em suas jornadas religiosas, mas sempre resistimos. Tínhamos convicções espirituais diferentes.

Ainda na adolescência, minha mãe contratou uma empregada chamada Sandra. Nós a conhecíamos como Midnight. Era negra, absolutamente negra e umbandista. Hoje, seria politicamente incorreto chamá-la de Midnight, mas na época, eu, o meu irmão e Sandra nos divertíamos demais, politicamente incorretos que éramos. Ela bebia em serviço, recebia entidades, dançava e dava consultas maravilhosas. Nós adorávamos essas transgressões que minha mãe nem poderia descobrir. Lembro-me do Exu e do Marinheiro.

Depois dos empréstimos de Taninha, sobre o olhar reprovador de minha mãe de meu padrasto Cândido, comecei a estudar mais a “doutrina” espírita. Conheci algumas casas religiosas e até uma mulher que incorporava Pomba-Gira com a Bíblia na mão. Dava conselhos evangélicos e sempre intercalava suas falas com “louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. A assistência respondia. “Para sempre seja louvado”. Ela não era diaba? Eu só observava como a diaba era mais evangélica que muitos cristãos.

Aos quinze anos, comprei diversos livros espíritas no centro do Rio com o dinheiro que ganhei de Natal. O Hugo, meu irmão, participou disso, lia também. Depois ele se embrenhou mais na Umbanda, mais tarde, na cultura indígena e no xamanismo, mas isso é outra história. Voltando. O meu padrasto Cândido sempre dizia:

— Sueli, esse garoto vai ficar perturbado com essas leituras de Espiritismo! Já vi muita gente enlouquecendo com isso.

Logo ele que mais tarde entraria para o AA e teria como livro de cabeceira “A loucura sob novo prisma” de Dr. Bezerra de Menezes. Cândido faleceu ouvindo a rádio espírita, todos os dias! Não enlouqueceu. Nem eu.

Aos quinze anos, eu já tinha algumas referências religiosas importantes. Com meu pai, aprendi que em todas as coisas há algo de profundo, simbólico e esotérico. Com minha avó aprendi a maravilhosa paz que vem da simplicidade dos rituais católicos e do auxílio do além. A minha mãe ensinou-me que uma vida reta e honesta é a melhor coisa que podemos aprender com a religião, ela mesma dava exemplo disso. Midnight e Aninha me ofereceram confirmações das coisas que eu lia em Allan Kardec e Chico Xavier: existe um mundo além desse nosso. No quartinho da empregada, apaixonei-me pela Bíblia e sua mensagem central de amor, perdão e misericórdia.

Somente no decorrer do curso de Ciências Sociais da UERJ e, depois, no curso básico de Teologia da PUC-Rio, que eu pude elaborar melhor a minha fé. Conceitualmente, aprendi sobre as religiões e seus significados com os antropólogos e teólogos. Estagiei no Programa de Estudos da Religião (PROEPER-UERJ) por três anos e madrugava em conversas com o antropólogo e babalorixá da nação ketu José Flávio Pessoa de Barros. Como aprendi.

Ouvia pessoalmente os ensinos ecumênicos do reverendo Nehemias Marien, um presbiteriano de mente aberta e que considerava o Espiritismo “um dos mais caudolosos afluentes do Rio do Cristianismo”. Dialogava com um colega de Filosofia que era pastor metodista, Marcos Gomes Torres. Era cristão e socialista, além de ser ecumênico. Que mente brilhante! Os livros de Kardec, Chico, Divaldo, J.-B. Roustaing, Ubaldi etc. As giras de Umbanda, os centros de meditação do Budismo. O querido padre anglicano Stephen Tylor na Paróquia do Méier. Meu confessor. Eduardo Costa, ainda ministro leigo, nas nossas rodas de vinho, cerveja e teologia. O “eixo do mal”, assim nos chamavam entre os anglicanos conservadores. O Sagrado me envolvia e eu aprendia com todos, incluindo os adventistas, como a tia Maria de Quintino e os amigos de Guadalupe.

— E aí, qual é sua religião?

Depois de perambular, viver diversas experiências e estudar diversos autores, digo que a minha religião é o amor, o perdão e a misericórdia. Jesus de Nazaré é meu exemplo máximo, mas não desprezo o que posso aprender com as lições de Buda e outros Iluminados. Perdi um pouco o tesão pelas igrejas-instituições, mas, vez ou outra, apareço na minha querida Paróquia Anglicana. A flexibilidade teológica do anglicanismo se tornou uma paixão. Lá eu posso ser o que sou, sem cobranças.

Ainda gosto de ouvir uma boa palestra espírita e receber um passe, mas considero a Umbanda mais aberta e pós-moderna, mais antenada com os diálogos contemporâneos do que o kardecismo ortodoxo, cientificista e positivista. Na Umbanda tem de tudo, se é tudo. É síntese. Gosto dessa farofa divina que é a Umbanda.

Se você deseja que eu dê uma etiqueta, posso lhe oferecer algumas opções. Poderá me chamar de cristão, se não for fundamentalista. Ou então, pode dizer que sou um espírita universalista ou universalista cristão. Acho as mensagens de Ramatís interessantes, pois tem um caráter antidogmático e muito próximo das minhas “heresias” pessoais. Talvez, um unitariano-universalista. Se desejar, pode resumir-me assim:

 “O Marcio é um homem ecumênico e pluralista. Sente o Sagrado e a Presença d’Ele de diversas maneiras. Tem na Bíblia uma referência central (sem ser fanático ou fundamentalista), mas está convencido de que o mundo espiritual é uma realidade e que este dialoga com o mundo físico, nesse sentido, ele tem muito de Umbanda e Espiritismo kardequiano. Sua fé é politicamente engajada, pois aprendeu muito com a Teologia da Libertação”.

Não sei se esta definição – isso é uma definição? – ajuda ou complica ainda mais. Suspeito que muitos ainda não entenderão, pois cultuam a “pureza” enquanto eu aprecio a diversidade e a heterodoxia. Outros terão certeza. “O Marcio é louco!”, mas como Jesus também era, ando em boa companhia.

A minha esperança é que encontre alguns que me digam “estamos juntos”, “eu te entendo”, “também sou assim”.

O Espírito sopra onde quer, quem tiver ouvidos para ouvir, ouça-o, pois somente Ele é a verdade.

 PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 06 DE JANEIRO DE 2014

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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5 respostas para “A minha fé é uma farofa divina? Pequena apologia de um cristianismo herege”

Adalberto said On 27 dezembro 2014 Responder

Excelente a narrativa , Márcio. A fé Unitário Universalista nos representa nessa jornada em busca do sagrado. Parabéns pelo texto.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Sinto-me muito unitariano-universalista nesse sentido Adalberto. Abraços!

Victor said On 27 dezembro 2014 Responder

Pra mim você nunca foi confuso nesse aspecto. Mas foi uma delícia ler como você chegou a ser um praticante da religião universal do Amor.

Marcio Sales Saraiva said On 28 fevereiro 2015 Responder

Você é amigo, sempre caridoso comigo. Abreijos!

Vaneide lustosa said On 27 dezembro 2014 Responder

Simplesmente belo texto !

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