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A incomunicação da estupidez e o caso Verônica

Tenho enorme apreço pelo diálogo e respeito profundamente as divergências como parte do processo democrático que vivemos. Afinal, o Outro não está de forma alguma obrigado a concordar comigo, ainda que isso possa ferir meu narcisismo. Na verdade, nem eu mesmo tenho convicção de que minha posição ou crença é a melhor. Paul Tillich, teólogo luterano, já dizia que a fé é aposta, quando se transforma em certeza é fundamentalismo irracional e fanático.

Numa democracia, o pluralismo das ideias e a liberdade de expressão devem ser assegurados (BOBBIO, 1986; CRICK, 1981), tanto para os chamados “progressistas” como para as opiniões ditas “conservadoras”. O espaço público para a esquerda, o centro e a direita devem permanecer em aberto (BOBBIO, 1995), ainda que eu tenha dúvidas sobre a validade dessas classificações políticas nos tempos atuais. Qualquer tentativa de perseguição/exclusão é abominável e uma ruptura com as regras do jogo e os procedimentos.

O problema central é a estupidez e o autoritarismo. Quando uma pessoa defende espancamentos, violação de direitos humanos, torturas etc. nós já saímos do campo democrático onde flui a divergência e entramos no tenebroso pântano da incivilidade e do gozo perverso diante da dor do Outro.

Admiro a construção do Estado de direito democrático como avanço dentro do liberalismo clássico (SCHUMPETER, 1984). Esse avanço contou com a participação das forças de esquerda/socialistas no decorrer de todo o século XX (COUTINHO, 1979; WEFFORT, 1984; PRZEWORSKY, 1995). O que temos hoje como “civilização ocidental” é fruto desse arranjo processual-histórico, conflituoso e riquíssimo, que entre avanços e recuos, consolidou uma cultura pluralista, potencialmente tolerante, laico e que repudiaria teocracias, ditaduras e fundamentalismos religiosos. Esse estado de direito é uma construção social das mais importantes, mesmo quando apresenta falhas e déficits (HABERMAS, 1997).

Os direitos humanos se tornaram socialmente aceitos e relevantes nas nações democráticas (BRASIL, 2007), mas é inegável o crescimento de uma onda fascista, irracionalista, xenófoba e radicalmente contrária aos valores democráticos do Ocidente. Na ânsia de “combater o capitalismo”, há também setores atrasados da esquerda que embarcam na defesa de bolivarianismos, Putin, Irã e assemelhados.

Não sei dos rumos do futuro de nossas instituições democráticas, não há mais um mapa de previsões e os problemas atuais são bem maiores do que aqueles listados por Bobbio (1986).

A pós-modernidade fragmentou discursos, ações e a própria tessitura do social (BAUMAN, 1998). As utopias, como o socialismo marxista clássico ou o neoliberalismo laissez-faire, faliram (WRIGHT, LEVINE, & SOBER, 1992). Há novos arranjos sociopolíticos e articulações em rede na defesa da justiça, do bem comum, da solidariedade humana e da democracia como valor universal a ser aperfeiçoado perpetuamente (SANTOS, 2013), mas o quê fazer com o crescimento ultraconservador e anticivilizatório? Como enfrentar a estupidez, a ignorância orgulhosa de si mesma e a barbárie (social, política e econômica)? Há muita coisa por ser feita, há muita luta pela frente. A realidade que vivemos precisa de uma reconstrução do social (BERGER & LUCKMANN, 1978).

Apostarei sempre na democracia, na liberdade, na emancipação e no debate público, na busca de uma razão pública comum/possível, no esclarecimento contra todas as formas de obscurantismo e alienação irracional (ADORNO & HORKHEIMER, 1985), mas as redes sociais libertaram demônios impensáveis. Atrás da tela de um computador, pessoas até então pacatas ou envergonhadas diante de ideias autoritárias e desumanas, agora parecem liberadas do superego social e explodem publicamente sua raiva irracional, sua calúnia cruel, seus desejos mais pérfidos.

O mal-estar da civilização, em Freud, se transformou agora em histeria idílica, “explosão thanatológica”, sem freios, sem mediações. O Outro, que discorda de mim ou que vive de uma maneira que não me agrada, se torna o problema que deve ser varrido, expurgado, eliminado, e assim, purificar o social de toda a “sujeira” (BAUMAN, 1998). É o retorno do recalcado (Lacan) pelos discursos da tolerância democrática, só que com uma violência que nos choca. Qualquer democrata e humanista — para além de uma filiação mais à “esquerda” ou mais à “direita” (GIDDENS, 1996) — estará hoje preocupado com o ódio, a intolerância e a defesa crescente de exclusões de todos os tipos.

Ao ler hoje que “o que aconteceu com o (sic!) travesti Verônica é pouco, merecia apanhar muito mais” eu me pergunto sobre a condição humana (ARENDT, 2007). A que ponto chegamos ou será que sempre fomos isso mesmo? Como manter a esperança (FROMM, 1984) diante do real que nos esmaga?

 

Bibliografia ou inspiração pessoal

ADORNO, T. W., & HORKHEIMER, M. (1985). Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

ARENDT, H. (2007). A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

BAUMAN, Z. (1998). O mal estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

BERGER, P., & LUCKMANN, T. (1978). A Construção Social da Realidade: tratado de sociologia do conhecimento. Rio de Janeiro: Vozes.

BOBBIO, N. (1995). Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. São Paulo: Unesp.

BOBBIO, N. (1986). O futuro da democracia; uma defesa das regras do jogo. Rio de Janeiro: Paz e Terra.

BRASIL. (2007). PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA. Princípios sobre a aplicação da legislação internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero. Brasilia: Secretaria Especial de Direitos Humanos.

COUTINHO, C. N. (1979). A Democracia como Valor Universal. Encontros com a Civilização Brasileira , 33-47.

CRICK, B. (1981). Em defesa da política. Brasília: UnB.

FROMM, E. (1984). A revolução da esperança. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

GIDDENS, A. (1996). Para além da esquerda e da direita: o futuro da política radical. Rio de Janeiro: Unesp.

HABERMAS, J. (1997). Direito e Democracia: entre facticidade e Validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

PRZEWORSKY, A. (1995). Estado e Economia no Capitalismo. Rio de Janeiro : Relume Dumará.

SANTOS, B. d. (2013). Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez.

SCHUMPETER, J. (1984). Capitalismo, Socialismo e Democracia. Rio de Janeiro: Zahar Editores.

WEFFORT, F. (1984). Por que democracia? São Paulo: Brasiliense.

WRIGHT, E. O., LEVINE, A., & SOBER, E. (1992). Reconstruindo o marxismo: ensaios sobre a explicação e teoria da história. Petrópolis: Vozes.

 

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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