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A esperança derrotou o medo e se transformou em pesadelo

Acordei e li na manchete do jornal “O Globo” a acusação de que o Partido dos Trabalhadores (PT) teria recebido em torno de 200 milhões de dólares como propina de obras na Petrobras, a estatal símbolo da luta da esquerda nacionalista contra os “entreguistas”. Pela primeira vez, inundou-me profunda compaixão e meus olhos marejaram.

Bem sei que cientistas políticos, em geral, não são seres sentimentais. Temos o olhar mais frio e racional dos números, dos fatos, das conexões causais, da busca de compreensão do fenômeno. A foto triste de Vaccari, o colete da Polícia Federal, tudo me parecia deprimente e cinza, sem os cinqüenta tons. Lembrei-me de Robert Michels e de sua realista e maldita lei férrea da oligarquização dos partidos.

Aquele partido que no passado liderou greves heroicas, que não assinou a Constituição “burguesa e reacionária” de 1988, que ajudou a derrubar o governo corrupto de Collor e que gritou “Fora FHC” é agora o partido que está envolvido no maior escândalo de corrupção do mundo. Da esquerda radical que misturava Teologia da Libertação com doses de marxismo, trotskismos e psicanálise, o PT passou por um transformismo histórico que o levaria para os porões da política mais abjeta, pragmática e desesperadamente governista. Como pode isso? E uma lágrima escorreu.

Eu fui do PT no período da faculdade, entre 1993 e 2000. O partido era outro. Na época, criticava os setores “xiitas”, lia o jornal “Em Tempo” da Democracia Socialista (DS) e apoiava a corrente reformista de José Genoíno, a mesma de Carlos Nelson Coutinho, Leandro Konder e Milton Temer. Éramos chamados na UERJ de “a direita do PT”, mas na verdade, mantínhamos as mesmas bandeiras do eurocomunismo dos anos 80. É que naquele tempo, defender ideias gramscianas era coisa de “bundão reformista”, pois o PT era bem mais radical que isso. Vejam só que ironia!

E por falar em anos 80, lembro-me de quando comecei minha militância política. Primeiro no Partidão (PCB) e depois entre os comunistas abrigados no PDT de Brizola. Tanto num caso como no outro, o sentimento anti-petista era enorme. A convicção, na época, era que o PT foi um partido criado por Lula em conluio com a CIA e o general Golbery para impedir o crescimento dos “verdadeiros comunistas” (PCB, PCdoB e PDT). Pura teoria da conspiração, mas muitos acreditavam nisso e diziam que, mais cedo ou mais tarde, Lula e o PT mostrariam sua verdadeira face de “traidores da esquerda” e moralistas babacas. Brizola os chamava de “UDN de tamancos”.

O tempo passou, os “xiitas” do PT foram expulsos — formou-se o Partido da Causa Operária (PCO), o PSTU e, depois deles, o PSOL — e o partido foi se endireitando, se acomodando aos status quo. A direção nacional tornou-se cada vez mais burocrática e entupida de pessoas com cargo comissionado e já distantes das massas trabalhadoras. Alguns “originais do samba” permaneceram e ainda hoje acreditam que é possível mudar o PT, “trazê-lo de volta para as origens”. Respeito demais essas pessoas. Entendo que eles têm amor de mãe, aquele que sempre acredita na mudança de conduta do seu filho, quando ninguém mais crê nisso.

Olho de novo a manchete do jornal. Penso no passado, nas ruas, no orgulho da galera com aquela bandeira vermelha e a estrelinha do partido que vendia como água em todas as universidades e locais de militância. A combativa Central Única dos Trabalhadores (CUT) que tratorava a pelegada alinhada com os “governos da burguesia”. Outros tempos. E mais uma lágrima escorreu, com medo de ver todas as utopias desmoralizadas e a vitória do realismo pragmático que tudo submete ao presente possível.

Choro mesmo — eu assumo! — pois o que acontece com o PT parece o caminho “inevitável” de todas as forças políticas mudancistas: oligarquizarem-se e, no limite, corromperem-se ou se tornarem “mais do mesmo”. Será que a Rede Sustentabilidade também trilhará este mesmo caminho? Será assim também com o PSOL? E o Partido Pirata? Podemos (na Espanha) e Syriza (na Grécia)?

Compreendam que é um choro com preocupações existenciais e ontológicas. Não é coisa de cientista político, eu sei, mas é humano, humano demais. E olha que faz muito tempo que não voto no PT para a presidência e quinze anos que deixei esse partido, mas creio que os verdadeiros petistas — e qualquer humanista, democrata, pregressista — têm vergonha de tudo isso que está acontecendo. Eu sei que eles estão chorando também, mesmo quando escrevem com raiva ou se escondem em “teorias golpistas” para ludibriar o superego.

O que acontece com o PT, o antigo “partido da esperança que derrota o medo”, questiona a possibilidade de um partido mudancista que sustente valores inegociáveis num prazo superior a vinte anos. A minha angústia é a seguinte: se não conseguimos derrotar na prática os processos históricos de degeneração — ou a lei férrea da oligarquização de Michels — nossa utopia cairá por terra e seremos obrigados a conviver ceticamente com essa minguada e velha democracia liberal representativa. E olhe lá.

Diante desse circo de horrores, de “mensalões” e “petrolões”, de uma ex-querda que ainda tenta sustentar um discurso paranóico de “perseguição do PIG” e outras esquizofrenias, como não se abater? Olhem para o Rui Falcão! Vejam a mediocridade do ministério de Dilma! Eduardo Cunha e Renam Calheiros dirigem o parlamento federal! Não foi a esperança que derrotou o medo, foi um pesadelo que se instalou no país.

É por isso que há um lado em mim que chora, que teme não poder pensar mudar o mundo, e outro que diz “bem feito”. Quem mandou não ler Robert Michels!? Que todos – dirigentes partidários, agentes públicos, eleitos e empresários – sejam julgados e punidos de acordo com a lei, para o bem da democracia.

 

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
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2 respostas para “A esperança derrotou o medo e se transformou em pesadelo”

Paulo Roberto Mallmann said On 17 março 2015 Responder

SÓ CONCORDO COM A PARTE FINAL ” Que todos – dirigentes partidários, agentes públicos, eleitos e empresários – sejam julgados e punidos de acordo com a lei, para o bem da democracia.”
O restante me parece discurso justamente do PCO, PSOL e outros. E não se trata de conformismo. Se trata de uma realidade internacional. Quem não percebe vai lamentar depois. Por que AGORA faltam pessoas esclarecidas nas trincheiras.Não desligados do poder, só por que ele não é mais de um partido socialista. Não existe mais espaço,no contexto internacional, para o “socialismo”como se conhecia. Radicalismo na Venezuela, vejam as dificuldades dos “heróis” Chaves e agora Maduros. Ou então vejam em Cuba. Quem não se adapta com ações voltadas ao social, ao comum, mas dentro de regras que norteiam a maioria das Nações, não vai a lugar nenhum. ‘Tiro no pé. Murro em ponta de faca. Claro que não dá pra ser um “social democrata”. Isso é a enganação do mal no meio dos bons. Isso é lobo em pele de cordeiro, joio no meio de trigo. Mas um tipo de socialismo que nem é socialismo. É sim, uma paixão de servir, de amar, de desenvolver ações voltadas para o social. a essencia de compromisso social. E na busca de atender com prioridade, os excluídos. Isso espalhado pelo mundo, já seria a diferença que a humanidade precisa.E quanto a nos prendermos pelo problema dos escândalos, isso é com a P.F., o Judiciario. Deixar cada um trabalhar na sua função. Nós povo vamos fazer nossa parte. Apoiar um Governo legítimo. Como o povo apoiou Chaves. E além do mais, nosso Judiciário fez um levantamento e concluiu que o PT, segundo maior partido do Brasil, está em 8o lugar no ranking dos ”
ficha sujas “. Já o PSDB, terceiro em tamanho, está no 1o lugar do ranking dos “fichas sujas “. Vamos usar mais sensatez. Penso

Marcio Sales Saraiva said On 17 março 2015 Responder

Eu não compreendi se você é apoiador da Dilma ou contra. Critica o socialismo e a social-democracia, mas defende ações sociais, de serviço e de compromisso social. Ao mesmo tempo, diz que o povo deve fazer “sua parte”, da mesma forma que apoiou Chavez. Incompreensível!

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