Blog

Home/Blog/A demissão de Cid Gomes e as lições de Weber: verdade e responsabilidade

A demissão de Cid Gomes e as lições de Weber: verdade e responsabilidade

O discurso do, agora, ex-ministro da educação Cid Gomes (PROS-CE) é um exemplo da clássica discussão do sociólogo Max Weber sobre a ética de convicção e ética de responsabilidade. Claro que a discussão weberiana é bem mais profunda, mas não deixa de tocar no que vimos ontem.

Ao assistir, na íntegra, todo o seu discurso e os desdobramentos dele, é fácil identificar-se com a profunda verdade que o espalhafatoso Gomes apenas verbalizou. “Cabe a oposição ser oposição e quem é da base do governo ser governo ou então larguem o osso e vá para oposição”. Disse mais.

“Eu prefiro ser acusado de mal educado do que achacador”, apontando o dedo para Eduardo Cunha (PMDB), o atual presidente da Câmara, que ouvia atentamente o discurso. Neste momento explode o tumulto e pede-se a retirada da claque do cearense que ocupavam as galerias para o aplaudir.

Leonardo Picciani (líder do PMDB), filho da oligarquia política dos Picciani no Rio de Janeiro, falou em seguida, em tom de falsa tranqüilidade. Falou dos “limites de civilidade democrática e republicana”. Acusou o ex-ministro de críticas “vazias e levianas”, posto que Cid Gomes acusava de “chantagistas e achacadores” em torno de 300-400 parlamentares federais, mas sem dizer os “nomes dos bois”. Em síntese, Picciani disse que Gomes “ultrapassou os limites de civilidade democrática e, por isso, não tem mais condições de ser ministro de Estado”. O PMDB cravava a faca no dia em que Dilma Roussef tentava retomar o protagonismo com o seu pacote anticorrupção.

Eduardo Cunha passa a palavra para o oposicionista Mendonça Filho (PE, líder do DEM) que se diz “pasmo com a capacidade deste governo produzir crise, embaraços e situações vexatórias que nunca pude imaginar em 28 anos de vida pública”. Jogava gasolina. “Cid Gomes não pediu desculpas” e “acusou o deputado Eduardo Cunha de achacador em episódio lamentável que irá entrar para a história do Parlamento do mundo. Ou o ministro pede demissão ou a base do governo assume que é formada por achacadores”. A fissura estava posta.

Mendonça Filho tem razão ao dizer que, agindo da forma como Cid Gomes agiu, nem precisa de oposição no Congresso Nacional, pois a própria base de apoio da Dilma Roussef produz conflitos e crises dentro da coalização que deveria dar sustentação ao seu governo. Além disso, lembrou a Cid Gomes que um ministro de Estado fala como ministro e não pode se “despir” do seu cargo para falar como cidadão comum. A ética de responsabilidade (para quem está em função pública e de gestão) não poderia ceder à ética de convicção pessoal, típica dos militantes apaixonados.

Artur Maia (líder do SSD) sobe a tribuna para dizer que a agressão de Gomes, neste momento, é desnecessária e que teria ele colocado Dilma numa “encruzilhada”: “ou ela preserva a base parlamentar ou o senhor no Governo”. Mais uma vez, lembra a agressão do dedo em riste contra Eduardo Cunha. Bruno Araújo (líder da minoria, PSDB-PE) seguiu na mesma linha, batendo em Gomes. O PT assistia a tudo em silêncio e deixava assim o ministro do seu governo ao abandono.

Domingos Neto (PROS-CE) daria um momento de alívio, fazendo a defesa de Cid Gomes. PT, PDT e PCdoB permaneciam em silêncio. Neto o colocava como “vítima” dos interesses da oposição e até de setores da base governista em criar um problema para deixar vago um ministério. Terminou denunciando “interesses políticos obscenos” que estariam por trás da fritura do ministro Gomes.

Andre Moura (PSC-SE) assumiu o papel mais agressivo. Disparou que Gomes “perdeu a condição de se manter ministro da Educação” ao ofender todos os parlamentares como achacadores e faz acusações do jatinho alugado para viagens pessoais do ex-governador. Acusando-o diretamente de ser ele achacador do povo do Ceará como na obra do aquário público de 300 milhões de reais e no show de Ivete Sangalo no valor “superfaturado” de 650 mil reais para inaugurar Hospital em Sobral (onde o ex-ministro foi prefeito por 8 anos). O Hospital teria desabado um mês depois quando em janeiro de 2013, depois dele inaugurar uma agencia do Banco do Brasil em Sobral, envolve-se com um asfaltamento de 2 milhões de reais para cobrir apenas 2 Km. “Mal educado e desqualificado, sem moral, sem decência, sem ética e achacador do povo do Ceará, tendo sorriso irônico e cínico, sem honradez e dignidade para continuar ministro”. O jogo ficava pesado!

Nilson Leitão (PSDB-MT) sobe com o dicionário na mão e explica o significado de achacar. “Somos 106 deputados de oposição”, portanto, nada teria com os supostos 400 achacadores. Acusa Cid Gomes de “traduzir o sentimento da presidente Dilma, a personificação pronta e acabada dela”. Pede para que Gomes descreva os nomes dos achacadores (“ladrões”) e usou as palavras do seu irmão, Ciro Gomes, que chamou Dilma de “péssima gestora e não sabe montar equipe” de governo. Diz que Gomes aceitou ser ministro de um governo mergulhado em corrupção, desde o “mensalão”, mas diz que “esta briga não é nossa, mas de um ministro com sua base”. “O maior pedido de desculpas é apresentar a lista dos achacadores”.

Chico Alencar (PSOL-RJ) reclama do vexatório “castigo escolar” que Cid Gomes estaria sofrendo, calado, sem direito a fala. O “ministro convalescente” parecia resignado e Eduardo Cunha explicava que assim era o rito da casa, depois ele teria direito a fala. De fato, era humilhante o que estavam fazendo com Cid Gomes. Criticou a fala de Gomes (“, mas criticou o “espírito de corpo” do Parlamento brasileiro, o exagero com que receberam as palavras de Gomes: “Não é o fim da República!”. O PSOL chegou a ser elogiado por Cid Gomes pela coerência que, na visão dele, faltaria a base governista. Pareceu óbvio que Eduardo Cunha tentava silenciar o mais rápido possível o deputado Chico Alencar que levantava questões importantes, inclusive, dizendo do seu mal estar, posto que a crise era do governo (e ele não é governo) com sua base aliada e questionava a quem interessava o prolongamento desta crise. Óbvio, interessava a oposição e aos setores que desejam mais espaço dentro do governo Dilma, leia-se, PSDB e PMDB.

Pompeo de Mattos (PDT-RS) criticou o erro no foco da discussão. “O povo deseja que nós discutamos aqui a educação no país e não essa sessão pastelão”. Criticou a depreciação do Parlamento na fala do ministro e que os deputados têm razão nisso, mas “todos iremos para o fundo do poço” com aquela troca de acusações. O PDT se sentia desculpado, aceitava o pedido de desculpas de Gomes, não tem nomes envolvidos em lista nenhuma de corrupção e não agem como achacadores do governo, mas criticou o número de 400 achacadores como exagero e generalização. A maioria do Parlamento é digna, séria e honrada.

Cabo Sabino (PR-CE), violento nas palavras, voltou a criticar Cid Gomes por “gostar de declarações em quatro paredes”, levantando o caso da Revista ISTO É que teria sido proibida pelo ex-governador. Defendeu os bombeiros e policiais que sofreriam “açoites” no estado do Ceará. Disse que Gomes não era digno nem de subir a tribuna como “empregadinho da mamãe” (Dilma?) que é. Vexame! Eu assistia e me perguntava: até quando esta sessão continuará?

E sobe Júlio Lopes (RJ) pela liderança do PP, partido envolvido até o pescoço com acusações de corrupção. Joga mais lenha na fogueira, critica a claque do ministro que ocupou as galerias e faz cena de indignado. Era um circo!

Depois da fala do procurador da Câmara (do DEM), o ex-ministro ocupou novamente a tribuna com 10 minutos e as coisas “esquentaram” ainda mais. Veja o vídeo quando Gomes retoma a palavra:

Cid Gomes abandonou o Congresso demitido, sabia disso, não dava mais, mesmo repetindo com “humildade e cautela” a frase que disse em local não-público. Explicou que muitos parlamentares “criam dificuldades para vender facilidades” e que este seria o sentido usado por ele para achacador e insinuou pressões do PMDB que, se deixar, “vai querer até a presidência da República”. Reafirmou fidelidade ao governo e disse que “Dilma é vítima” de setores políticos e sociais pouco republicanos que usam “proselitismos” e “sofismas”. Tentou, mais uma vez, separar visão pessoal de posição de ministro de Estado. Não convenceu o Parlamento, nem o governo e ainda foi chamado de “palhaço” pelo deputado Sérgio Szveiter (PSD-RJ). Caiu! Agora caberá a Dilma resolver quem ocupará o cargo de ministro da “Pátria Educadora” e acalmar mais uma revolta do PMDB.

Pessoalmente, compreendo o desabafo de Cid Gomes e não nego que simpatizo com suas palavras, mas não convém dizer em público o que eu falaria numa rodada de cerveja com amigos. Percebo também que não é de hoje que o ex-ministro, ao estilo do seu irmão Ciro Gomes, se mete a falar e fazer trapalhadas. Por que Dilma o nomeou assim mesmo? Para pagar a traição dos Gomes ao PSB de Eduardo Campos?

O episódio joga luz, mais uma vez, no tema da reforma política. A atual legislatura é, talvez, uma das piores e mais conservadoras das últimas décadas. O excesso de partidos, o fisiologismo, as incoerências, o falso moralismo, tudo somado, é repugnante.

Por certo, a situação da base governista é péssima, mas o ex-ministro conseguiu piorar. Errou ao confundir suas convicções pessoais — ainda que ele estivesse revelando uma verdade sobre a existência de muitos achacadores no Congresso e, sabemos, isso é bem possível! — com o cargo que exerce (a visão weberiana de ética de responsabilidade). Mais ainda, o momento é extremamente inoportuno para o governo petista (1) que agoniza com 62% de rejeição popular e (2) que tinha acabado de apresentar o seu pacote anticorrupção. Cid Gomes “melou” o dia.

MARCIO SALES SARAIVA é sociólogo/cientista político, apaixonado pelas reflexões teológicas, mestre em políticas públicas pelo PPGSS-UERJ e pai de Tatiana, Michel, Gabriela e Isabela. É um democrata de esquerda que defende os ideais de justiça, igualdade e direitos humanos. Milita na defesa de direitos da comunidade queer/LGBT e considera o amor/caridade como caminho sagrado para o encontro com o Divino.
Gostou do artigo?
Assine a newsletter e receba as novidades em primeira mão!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>